2.2 Loki’s Castle
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Medeiros Neto em sua obra “História do São Francisco”, escrita para o concurso da cadeira de história do Brasil do instituto de educação de Alagoas em 1941, aponta a existência de uma “convergência de todas as expressões humanas da terra, constitui-se o São Francisco o embasamento demográfico do Brasil.
Caldearam-se, aí, como numa mansão estrutural da etnologia brasileira: o negro, o selvicola e o branco” (MEDEIROS NETO, 1941, p. 4).
Estas características diversas entre as três etnias deram um ar de singularidade que caracterizam as gentes sanfranciscanas. Surgiu então um povo de “sangue misturado” que tornou-se, capaz de entender e conviver harmonicamente com o Rio São Francisco.
Como o tipo fundamental, senhôr da terra virgem, surge o pele vermelha com uma história biológica que se perde nos pródromos da formação cósmica, ou da expansão antropológica dos primitivos ramos genésicos. Como o tipo segundo, conquistador da terra inerme e desajustada na sua missão histórica, aparece no litóral o europeu, de pele branca e plático, no décimo sexto século da era cristã. Como o tipo terceiro, de braços rendidos ao labor diuturno da terra, surge o pele negra, tangido da terra berço, crestada do Equador, para as incertezas dos trópicos. Amalgamos, pelos laços duma construção genétíca, estes três tipos vitais oferecem o espécime racial: o filho do Brasil, mameluco, cafuso ou caboclo. (MEDEIROS NETO, 1941, p. 4, grifos nosso).
Segundo este autor, o comando, a obediência e o movimento eram as marcas principais destas três etnias. Sendo que “enquanto é comando, o momento é mameluco; quando movimento, o momento é índio; quando para, o momento é africano” (MEDEIROS NETO, 1941, p. 49). O branco e o mameluco exerciam a função de governar, o índio a de desbravador e o negro a de explorador das minas.
Para Chagas (2013, p. 23):
Essa cepa de gente, forjada a ferro e fogo, resultante principalmente da mestiçagem do branco aventureiro com o indígena rebelde e em menor grau com o africano sedicioso (a sedição do escravo africano ao longo do São Francisco é bem representada pelos inúmeros quilombos ali existentes), amalgamada com a terra que pisava, sofrida pelas secas periódicas e curtida pelo sol abrasante (...).
Foi a junção dessas diferentes culturas e etnias: brancos, negros e indígenas, que fez surgiras identidades com o rio, tendo na criação extensiva de gado e na produção agrícola as atividades principais de sua sobrevivência. Aos poucos o
caboclo filho do Brasil aprendeu a lidar com as incertezas de um rio ainda a ser descoberto, criando instrumentos próprios de trabalho e explorando as riquezas por ele oferecidas. Nasceu então uma população capaz de viver com os seus próprios meios. Construíam suas casas, utilizavam o couro para fabricar seus utensílios, pescavam e plantavam suas pequenas roças para garantir a alimentação diária.
Zanoni Neves, um filho do São Francisco nascido em Pirapora lembra em seu livro “Os Remeiros do Rio São Francisco” a dimensão dessas etnias as margens do rio, afirmando que:
Nessa época, já havia um grande número de caboclos e cafuzos, portanto, o índio não legou apenas sua cultura ao homem do São Francisco; transmitiu também o seu sangue. Os negros, muitos dos quais escravos, também habitavam a região. Do mesmo modo, não podemos esquecer seus descendentes mestiços. Havia brancos, sobretudo no grupo dos proprietários rurais, muitos dos quais herdeiros dos colonizadores portugueses. (NEVES, 2006, p. 26) Ricardo Ferreira Ribeiro outro persistente pesquisador engajado nas lutas sócio ambientais a favor do rio registra em seu livro “Florestas Anãs do Sertão e Cerrado na história de Minas Gerais” a predominância de “negros alforriados e aqueles que resistiram por meio de fugas e da formação de quilombos” transformando-se “em camponeses no sertão” (RIBEIRO, 2005, p. 35). Tal adaptação fez surgir uma cultura totalmente integrada às “regras do rio”, fazendo deste seu principal meio de sobrevivência.
Diferentemente de muitos outros autores, Thèry (1980, p. 1014) aponta um importante sujeito que passou a habitar as barrancas do Rio São Francisco:
Além dos criadores e de seus homens, a sociedade se resume aos “barranqueiros”, os habitantes das margens que viviam de pesca e de uma pobre agricultura de vazante, plantando nas margens e nas ilhas descobertas pela baixada das águas algumas culturas de subsistência.
Neste caso o autor traz a figura do barranqueiro, dissociada da do vaqueiro e do fazendeiro que dominavam todo o vale do São Francisco. Para Thèry (1980)
esse era um ser diferenciado que vivia exclusivamente dos recursos do rio, buscando nele apenas a alimentação diária da sua família. Este autor cita ainda as atividades de extrativismo praticadas “nas terras incultas do sertão: fibra de caroá, cera de carnaúba, borracha de mangabeira” (THÈRY, 1980, p. 1014) sendo, portanto, uma opção de aproveitamento dos recursos encontrada nas terras impróprias para a agricultura.
Diferentemente do vaqueiro e do agregado, o barranqueiro não sentia a necessidade de desbravar novas terras e almejar lucro com a sua atividade. A intenção era viver em uma terra produtiva, sendo as vazantes e as ilhas as principais opções para este fim. Chagas (2013, p. 29) aponta que “tanto a roça indígena como a dos colonos, tinha como base de assentamento quase sempre as áreas de vazantes situadas nas orlas mais baixas, incluindo as várzeas e as ilhas, onde o limo era reposto anualmente”.
O barranqueiro vivia nos limites do rio, praticando a agricultura, a pesca e o extrativismo. As matas fechadas para além das margens eram praticamente inexploradas principalmente em função das dificuldades técnicas de desmatar. Chagas (2013, p. 30) lembra ainda que “esse agricultor nunca chegou aos cerrados, pois a dicotomia, mata para a agricultura e campos para o pastoreio, era uma lei natural só recentemente transgredida”.
Já Geraldo Rocha (1940) cita o ribeirinho como sendo uma sub-raça, o fruto da adaptação desse homem a “entrosagem racial”:
O ribeirinho do São Francisco, como o habitante de todo o centro nordestino, consiste uma sub-raça, que em uma existência de mais de três séculos conservou caracteres ethnicos já muitos nítidos e estáveis. A nossa facilidade de adaptação a outros meios é grande, mas são muito reduzidas as possibilidades de assimilação. Producto da entrosagem do índio e do luso, com laivos de sangue negro, o sertanejo sãofranciscano ou nordestino é a perfeita encarnação do typo bandeirante rijo, que lutou com a Natureza, devassou os sertões ínvios, dominou o selvagem, repelliu o elemento estranho e fundou neste hemispherio a grande nação que abrange dois terços do continente sul-americano. (ROCHA, 1940, p. 19).
O encontro destas diferentes etnias e culturas fez surgir uma rica mistura de cantos e ritmos que, aos poucos, foi se propagando pelas suas margens. A população que passou a habitar a região sanfranciscana disseminou sua cultura por todo o vale, criando cantigas, danças, lendas e festas variadas, difundindo o que Costa (2006) e De Paula (2009) denomina de cultura sertaneja. Poetas, trovadores, músicos, foliões, rezadeiras e benzedeiras compreendiam o universo desta gente largada a própria sorte, longe de tudo, vivendo a “Deus dará”.
Essas gentes que passaram a habitar as beiras do Rio São Francisco carregavam consigo um grande valor histórico e cultural. Criaram, ao longo do tempo, estratégias próprias de sobrevivência no vale. Culturas, crenças e valores diferenciados que se juntavam formando uma civilização “sui generes, multicolorida, multifacetada, e mais importante de tudo, multirracial” (Ivo das Chagas em entrevista concedida em Fev. 2013).
O Rio São Francisco sempre foi a principal via de ligação e comunicação entre esta população cada vez mais crescente e pulsante que passou a viver nos territórios que o margeiam. Como já vimos, em grande medida foi graças ao isolamento do litoral que fez surgir uma cultura diversa e semi-independente, capaz de integrar o rio as suas gentes. Para Martins (2011, p. 74) “a política, a economia e as relações com a natureza não ganham um patamar a parte. É, ao contrário disso, uma conjunção de lógicas sociais que produz, ao mesmo tempo, um espaço de alteridade para sujeitos desiguais”.
Durante os séculos XIX e XX a região não passou por grandes transformações. Nesta época, não houve uma ligação durável com as outras regiões do país, e o vale passou a ser considerado atrasado frente aos avanços obtidos por outros estados. Ao contrário, “a estagnação prolongada que o vale sofreu fez dele, no século XX, uma região atrasada, enquanto que em meados do século XVIII era uma das mais prósperas do país”, (THÈRY, 1980, p. 1012).
Antes, quando suas margens eram desertas, sem os casarios de Penedo, sem os fortins da residência contra os holandeses, sem as torres das igrejas, sem as chaminés das fábricas de tecidos, sem o calor dos fornos que cozinham o barro, sem os sobrados de
Propriá, barcaças e vapores, sem os canos das adutoras, sem os arpejadores que molham a terra e fazem viçoso seu futuro, o rio era um comprido e desconhecido caminho, por onde o Brasil começou a ter vida. A civilização chegou até onde o rio São Francisco permitiu chegar. (BARRETO, 1992, p. 48).
Portanto, foramos fluxos do/no rio o principal caminho da colonização. Foi também pelo rio que emergiu, a partir do século XVIII,barqueiro, remeiros, canoeiros e vaporzeiros, outros importantes semeadores da cultura sanfranciscana.