O termo ontologia, inicialmente utilizado pela Filosofia, diz respeito ao estudo do ser. Nesta ótica, Aristóteles, filósofo grego, apresenta dez categorias denominadas de gêneros que classificam e diferenciam os seres uns dos outros; são elas: substância; quantidade; qualidade; relação; tempo; ação; paixão; lugar; posição; estado.
Nesta classificação, sublinhamos a importância das categorias substância e relação, muito importantes, hoje, nos trabalhos em ontologia: substância refere-se a todo o ser que integra a realidade; e relação estabelece o tipo de relação entre os seres, tendo em conta essa mesma realidade.
É a partir destas categorias que se concebe uma ontologia; é através das relações entre as substâncias, mais precisamente, entre os seres que constituem uma dada realidade, que se organiza, sistematiza e compreende essa realidade.
As restantes categorias podem caracterizar os seres e as relações entre os seus componentes ou ainda estabelecer relações entre seres, num dado espaço do tempo.
Aristóteles ao mesmo tempo que atribui as características gerais dos seres, considerando as dez categorias com o objetivo de produzir conhecimento e formação de juízo, tem em conta que essas mesmas categorias participam na formação do ser.
A ontologia pode ser vista como uma maneira de organização da natureza de uma dada realidade, independentemente da forma de nosso conhecimento sobre essa mesma realidade. O conceito de ontologia tem em conta o ser enquanto ser que estabelece relação com outros seres.
Nesse sentido, a Filosofia é a ciência, que estuda a interação entre o mundo, a realidade e o ser, fundamentadando-se em pressupostos críticos, analíticos e racionais que buscam a compreensão, a reflexão e o questionamento de valores partilhados por um senso comum.
O conceito de ontologia apresenta um redimensionamento e uma redefinição quando passa a incorporar outras disciplinas. Desse modo, ao integrar os estudos desenvolvidos em Terminologia, a ontologia é concebida com a finalidade de identificar, capturar, organizar, sistematizar, estruturar e formalizar o conhecimento especializado a partir das relações entre o conceito e o termo.
Aussenac-Gilles destaca a importância de redefinir o conceito de ontologia, uma vez que atualmente são vários os estudos que se utilizam essa componente em função de suas perspectivas singulares. Nas palavras da autora: “Il nous semble important de bien définir la notion d’ontologie, car elle est utilisée aujourd’hui dans une multitude de contextes, souvent en lieu et place du nom d’autres ressources terminologiques.” (Aussenac-Gilles, 2004:35).
Anteriormente, Aussenac-Gilles e Condamines (2001) mencionam que, além de comportar-se como uma especificação do conhecimento relativo a um dado domínio de especialidade, a ontologia pode ser considerada tanto um vocabulário que designa os conceitos e suas relações, quanto uma descrição conceitual formal desses elementos e de suas relações.
Tanto a ontologia quanto a Terminologia apresenta um senso comum uma vez que ambas as áreas têm em conta o estudo das relações entre o conceito e o termo e entre conceitos com o objetivo de estruturá-los e sistematizá-los.
Depecker e Roche (2007) sublinham a semelhança entre a ontologia e a terminologia, considerando três características: a descrição dos conceitos referentes a um domínio de especialidade; a conceitualização desses elementos e a representação linguística desses mesmos conceitos: “Les ontologies sont donc au moins comme la terminologie dans un triple rapport: rapport aux objets décrits; rapport à la conceptualisation qui en est faite, donc aux systèmes de concepts en cause; rapport à la representation linguistique ou sémiotique qui en est donnée.” (Depecker e Roche, 2007:111).
A Terminologia pode ser considerada como uma disciplina que estabelece relações entre os conceitos; todos os conceitos de um dado domínio de especialidade
estabelecem relações entre si, porém, tais relações são estabelecidas sob níveis distintos.
A contribuição dos estudos sobre a ontologia redimensionou a reflexão teórica da Terminologia em função da relação entre o conceito e o termo. Estas novas abordagens tiveram também um grande impacto nas pesquisas em extração da informação especializada.
Atualmente, de um modo geral, a ontologia é considerada como uma ferramenta automática que resulta da partilha do conhecimento entre os membros de uma comunidade científica.
Essa vertente automática ganhou impulso a partir dos anos 90, quando o conceito de ontologia começou a ser utilizado na Inteligência Artificial, em projetos destinados à organização de grandes bases de conhecimento. A partir desse momento, a ontologia passa a ser definida como “um modelo comum ou estrutura conceitual sistematizada e de consenso que permite não só armazenar, mas também buscar e recuperar a informação sobre um determinado domínio do conhecimento.” (Di Felippo et al., 2006:23).
Assim, a ontologia, como uma componente informática que tem por objetivo a sistematização de um domínio de especialidade, ainda apresenta como princípio, assim como em terminologia, a univocidade entre o conceito e o termo.
Para Rastier a ontologia é uma ferramenta que deve reduzir a variação no discurso especializado ; a ontologia é uma ferramenta que necessariamente tem por finalidade estabelecer a relação entre o conceito e o termo, reduzindo ao máximo a ocorrência de polissemia e de sinonímia: “Comme les terminologies dont elles dérivent, les ontologies doivent réduire deux facteurs complémentaires « d’imperfection linguistique », la polysémie et la synonymie: elles troublent toutes deux le rapport idéalement transparent qui, selon la conception instrumentale du langage, devrait exister entre le langage et la pensée. En outre, elles témoignent d’une multiplicité, alors que les ontologies sont des systèmes basés sur l’unicité : non seulement l’Être est unique, mais tous les nœuds d’une ontologie sont évidemment au singulier, comme les concepts l’ont toujours été.” (Rastier, 2004 :25).
Segundo Aussenac-Gilles, os conceitos resultam de um processo de normalização : “Concepts in an ontology are the result of a normalization process where only some relevant properties of selected world objects or ideas are represented.”(Aussenac-Gilles, 2005:2).
A ontologia é uma maneira de conceitualizar o domínio de especialidade através da visão do especialista desse mesmo domínio (cf. ponto 4.2). Assim, recorrer a um só especialista para a realização dessa tarefa poderia ser a maneira mais fácil para alcançar o objetivo de biunivocidade.
As ontologias podem ser consideradas como instrumentos de padronização que visam, a estruturação e a organização do conhecimento e a recuperação da informação, numa certa área de especialidade.
A concepção de ontologias, em diversos domínios de especialidade, ocorre de maneira acelerada em função de objetivos específicos dos especialistas que integram esses domínios; assim, diversas são as abordagens, as metodologias, as técnicas utilizadas para a execução dessa tarefa.
A construção de uma ontologia tem em conta a unificação de uma perspectiva dentro de uma dada comunidade de especialistas, veiculando os conhecimentos desse grupo de indivíduos. Contudo, é sabido que um dado conceito pode ser um elemento propício a significações distintas, mesmo no seio dessa mesma comunidade. Assim, esses mesmos especialistas podem apresentar diferentes “pontos de vistas” diante da relação conceito/termo. Desse modo, o especialista pode mudar a sua maneira de ver a relação entre esses elementos.
Diante desse quadro de concepção e de tratamento da ontologia, pensamos que os conceitos como “partilha” e “consenso” devem ser revisitados.
O termo “partilha” refere-se ao comum acordo que resulta de um “consenso”, mais precisamente, entre o conceito e o termo, num dado contexto profissional, cultural e situacional; este fato permite-nos por em causa o princípio de que uma ontologia pode ser um processo de representação de uma dada realidade na sua plenitude.
A característica consensual da concepção de uma ontologia pode ser uma questão dependente dos especialistas que integram uma dada comunidade científica.
Assim, para melhor fundamentar o que foi dito anteriormente, podemos fazer referência aos tipos de ontologias, nos quais, as suas concepções são realizadas de acordo com objetivos específicos. É a partir dessa observação que passaremos a abordar a ontologia como uma ferramenta caracterizada pela evolução e, consequentemente, pela mudança que ocorre na sua estrutura, tanto conceitual quanto informática.