A mudança e a evolução são características que permeiam a natureza da ontologia e que podem ser identificadas a partir do momento que esse conceito passa a integrar distintos domínios do conhecimento.
Desse modo, a teoria sobre a ontologia ganha uma dimensão interdisciplinar que de certo modo, permite identificar a evolução da relação conceito/termo. Essa mudança ocorre tanto na estrutura conceitual quanto social dos domínios de especialidade e também na estrutura da própria ontologia.
Prévot et al. observam que as ontologias são ferramentas que tem por objetivo a representação de um dado domínio de especialidade considerando “pontos de vistas” distintos. Nas palavras dos autores: “Modern ontology designers are not looking for a perfect ontology but consider many potential ontologies concerning different domains and capturing different views of the same reality.” (Prévot et al., 2010:17).
A perspectiva de Prévot et al. (2010) demonstra o interesse por parte dos especialistas que trabalham de forma direta ou indireta com a representação do conhecimento através das ontologias. Essa preocupação é inerente à necessidade de melhor descrever as áreas de especialidade, contemplando as distintas perspectivas que originam as diferentes maneira de descrever a realidade científica.
Nos últimos anos, a ontologia beneficiou-se muito das novas linguagens informáticas. Desse modo, podemos afirmar que atualmente, na literatura sobre a ontologia, encontramos várias definições que explicitam um “ponto de vista”, seja em relação ao uso, às características, aos tipos de ontologias, às relações estabelecidas entre os elementos que constituem essa ferramenta, etc.. Sublinhamos que, cada um desses “pontos de vista” são complementares e ainda contribuem para a evolução do conceito de ontologia.
A informática tem em conta a especificação formal para caracterizar um modelo de representação das relações entre os conceitos e/ou entre as propriedades e os atributos desses mesmos elementos.
A esse respeito, Gruber (1993) observa que a ontologia resulta de uma componente informática através da qual a especificação explícita pode ser considerada como uma maneira de concretizar a leitura do mundo realizada pelo especialista: “An ontology is an explicit specification of a conceptualization”. (Gruber, 1993:908).
Ao integrar a Inteligência Artificial, essa ferramenta passa a ser designada por ontologia formal (cf. Guarino,1995) que tem por objetivo a formalização das relações entre os conceitos para serem reconhecidas pela máquina. Desse modo, podemos fazer referência à definição apresentada por Cocchiarella (1991), referida por Guarino (1995), definição que tem em conta a representação dos elementos de uma dada realidade através da formalização e de regras axiomáticas. Diz-nos o autor que a ontologia comporta-se como: “the systematic, formal, axiomatic development of the logic of all forms and modes of being. [Cocchiarella 1991].” (apud. Guarino, 1995:5).
Cocchiarella (1991) leva-nos a refletir sobre o conceito de formalização, sublinhando a abrangência do desenvolvimento formal da lógica para representar um dado conceito. Questinamo-nos, por isso, se a formalização pode abranger a relação de um conceito com um termo.
A ontologia descreve as relações de hierarquias estabelecidas entre os conceitos; através de axiomas é possível expressar relações entre conceitos e ainda restringir as interpretações dessas unidades. Nas palavras de Guarino: “an ontology describes a hierarchy of concepts related by subsumption relationships; in more
sophisticated cases, suitable axioms are added in order to express other relationships between concepts and to constrain their intended interpretation.” (Guarino, 1998:4).
Bachimont (2000) salienta que a concepção de uma ontologia, como uma forma de representação do conhecimento de uma área de especialidade, é realizada tendo em conta um “ponto de vista”. Assim, para o autor, a ontologia objetiva a resolução de um problema, o estabelecimento de relações e a formalização dessas conexões a partir de uma linguagem informática que contemple as associações semânticas entre os conceitos. Conforme Bachimont: “Définir une ontologie pour la représentation des connaissances, c’est définir, pour un domaine et un problème donnés, la signature fonctionnelle et relationnelle d’un langage formel de représentation et la sémantique associée.” (Bachimont, 2000:3).
Mais tarde, Bachimont delimita o uso da ontologia na Engenharia do conhecimento. Para o autor, as ontologias são componentes computacionais introduzidas na Engenharia do conhecimento para modelizar os conceitos de um domínio e fornecer os elementos necessários a toda operacionalização lógica. A perspectiva do autor é explicitada através da seguinte citação : “Les ontologies sont des objets informatiques introduits en ingénierie des connaissances pour modéliser les concepts et notions d’un domaine et fournir les éléments nécessaires à toutes opérationnalisation logique et calculatoire.” (Bachimont, 2005:321).
Para Sowa, a ontologia é identificada a um catálogo de tipos de seres que integram um domínio de especialidade, sob a perspectiva de um indivíduo, que utiliza uma dada linguagem informática para representar esse domínio: “The product of such a study, called an ontology, is a catalog of the types of things that are assumed to exist in a domain of interest D from the perspective of a person who uses a language L for the purpose of talking about D.” (Sowa, 2001:2).
Mais tarde, Sowa refere-se à dinâmica que é inerente à ontologia, pelo fato de que as relações entre conceitos e unidades lexicais serem reutilizadas para expressar novas significações: “dynamic theory of ontology, which relates the variable meanings of a finite set of words to a potentially infinite set of concept and relation types, which are used and reused in a dynamically evolving lattice of theories.” (Sowa, 2006:4).
O pensamento de Sowa (2006) além de fundamentar a perspectiva de que a ontologia pode ser uma ferramenta concebida para representar a evolução de um dado domínio de especialidade, expressa a própria variação que toca as relações conceito/conceito e conceito/termo.
No âmbito desta síntese sobre ontologias que apresenta diversos conceitos amplos, elencamos ainda outras perspectivas que partilham um mesmo senso comum, no que diz respeito à modelização formal e computacional dos domínios de especialidade.
Hovy refere-se à ontologia como uma componente que estabelece relações semânticas hierárquicas. O autor acrescenta que a ontologia pode ser uma ferramenta concebida para modelizar um domínio em particular: “We view a set of semantic relations, organized into collections and perhaps related in a generalization hierarchy, as a special instance of an ontology. We view a Domain Model as an ontology that specializes on a particular domain of interest.” (Hovy, 2002:92).
Para Condamines (2006), a ontologia é uma representação formal do conhecimento sob a forma de nós conectados por arcos; para a autora, a ontologia é uma maneira de representação concebida e adaptada para a máquina.
Almeida caracteriza a ontologia como uma ferramenta que tem em conta uma série de formalismos que representam os conceitos, o estabelecimento de relações entre conceitos e a semântica de um determinado domínio de especialidade. Acrescenta ainda que, “A semântica, nesse contexto, é parte de um modelo formal em que declarações lógicas representam o conhecimento do domínio, a ser manipulado em um sistema computacional.” (Almeida, 2006:106).
Flouris define as ontologias como modelos formais elaborados a partir da percepção de um dado domínio de especialidade. Esse processo é realizado a partir da precisão da significação de um termo, do modo de estruturação dos dados, etc: “ontologies are formal models about how we perceive a domain of interest and provide a precise, logical account of the intended meaning of terms, data structures and other elements modeling the real world.” (Flouris, 2006:1).
Thellefsen sublinha a relação que a ontologia estabelece com a Linguística computacional, observando que essa ferramenta automática apresenta uma estrutura semântica bem definida que pode subsidiar e precisar a descrição dos conceitos, as suas propriedades e a relação entre os conceitos: “Ontologies are designed for the digital information environment. It is closely related to computational linguistics and the semantic web, and provides for a well-defined semantic structure and a precise description of concepts, concept properties and concept relations.” (Thellefsen, 2010:37).
O autor acrescenta que esse processo beneficia a delimitação da significação dos conceitos, que por sua vez, proporcionam relações mais precisas: “The advantage of domain specific ontologies is semantic interoperability. By specifying the meaning of concepts by stating generic and semantic relations, the meaning of concepts can be represented with greater precision.” (Thellefsen, 2010:37).
Diante desse contexto de partilha de “pontos de vista” em comum, chamamos a atenção para o fato de que, a partir do momento em que se delimita a concepção de uma ontologia para um determinado objetivo, é necessário ter em conta que essa ferramenta pode passar por uma evolução.
Dessa maneira, o ponto de vista expresso por Lorente (2005) reflete bem essa mudança; a autora destaca a contradição que caracteriza a ontologia, afirmando que, por um lado, fala-se na concepção de uma ontologia como uma ferramenta de representação estável e por outro, observa-se a dinamicidade que afeta os conceitos. A autora acrescenta que essa divergência é partilhada tanto pelos filósofos quanto pelos terminólogos: “The contradiction that exists between the elaboration of an ontology as a stable representation and the view that concepts and concept structurings are dynamics has been brought to the fore not only by philosophers but by linguists and terminologists too.” (Lorente, 2005:8).
Lorente observa que no tratamento automático de algumas áreas do conhecimento, como é o caso da medicina e da economia, é necessário levantar questões referentes às limitações que ocorrem a nível da representação da informação e da evolução dos conceitos: “Even in informatics medicine and some economics forums (Vromen, 2004:213) it has become apparent that there exists an open debate
between advocates of the use of ontologies for the representation of information, and their critics, who perceive limitations in ontologies for representing, for exemple, evolutionist economics concepts.” (Lorente, 2005:8).
Lorente refere que para lidar com a dinâmica do conceito de ontologia é necessário ter em conta, por exemplo, o tratamento da polissemia e de outras formas de variação. A autora atenta para o fato de que, esses fenômenos devem ser observados e analizados a partir de exemplos reais de suas ocorrências: “For the representation of dynamic concept ontologies, responses are still in the early stage of first attemps (hyperlinks, treatment of polysemy and ambiguity, diffuse objects, etc.) and we should still wait some time before analyzing specific suggestions with real examples.” (Lorente, 2005:8).
Para lidar com as mudanças que ocorrem nos domínios de especialidade, Lorente sublinha a necessidade de revisão dos conceitos existentes e de outros conceitos criados ao longo do tempo. A autora reconhece que essa tarefa é dificultada pelo alto custo associado à concepção das ontologias: “As for dealing with the changes brought about in the revision of concepts and the creation of new ones by the passage of time, applied linguistics only provides a continued defense of the need to update resources permanently. This solution however presents a difficulty which tends to be unsurmountable: that of associated costs.” (Lorente, 2005:8).
Por seu turno, Baneyx e Charlet (2006:5) ao referirem-se à evolução da ontologia, seja como uma forma de representação de conhecimento, seja como um software, notam que a sua forma não é rígida. Segundo os autores, é de extrema importância adotar critérios diferentes para subsidiar a análise e descrição dessa evolução.
No quadro da evolução das ontologias, é necessário ter em conta uma metodologia para organizar e sistematizar as informações, de modo a que o acesso a essas mesmas informações seja realizado de maneira rápida e objetiva.