Diversas pesquisas foram iniciadas com foco na reflexão sobre a dimensão e abrangência do coletivo, estudando de qual forma os indivíduos atuam em grupo, mesmo que eles apresentem características pessoais diferentes (como país de origem, formação, idade, sexo, etc.), e como eles podem agregar valor social para o coletivo do qual fazem parte.
As redes sociais na Internet permitem que pessoas pertencentes a distintas culturas e com diferentes perfis possam trocar experiência em um ambiente de comunicação mediada pelo computador, possibilitando que novas formas de inteligência possam ser estimuladas através do compartilhamento e colaboração de cada um dos indivíduos.
Levy (1999) define o termo inteligência coletiva como “uma inteligência distribuída por toda a parte, coordenada em tempo real, que resulta uma mobilização efetiva das competências”. Essa definição constata que na Inteligência Coletiva o conhecimento está espalhado por todos os lugares do mundo, onde cada pessoa pode apresentar um tipo de conhecimento diferente em relação a outros indivíduos, sejam estes inseridos na mesma ou em diferentes culturas.
indivíduos submetem seus conhecimentos e expertises individuais para objetivos comuns. Levy (1999) cita também que nenhuma pessoa sabe tudo e que todo o conhecimento reside na humanidade. De acordo com essa afirmação, exalta-se que, através das redes sociais, é possível que as tarefas que as pessoas não tinham conhecimento ou não podiam fazer sozinhas, agora tornam-se possíveis de serem realizadas coletivamente.
Na Wikipedia, embora haja alguns mecnismos de controle, todo o conhecimento foi gerado por indivíduos espalhados ao redor do mundo em um formato de voluntariado. Pessoas nascidas em diferentes países, com diferentes idades e formações podem trabalhar em conjunto, adicionando, editando e removendo informações para enriquecer um determinado artigo nessa enciclopédia colaborativa. As mesmas características, conforme já abordado anteriormente, também podem ser facilmente encontradas nos movimentos de desenvolvimento de software livre.
A Internet possibilitou que novas formas de ações coletivas fossem capazes de serem realizadas com sucesso. As pessoas conectam-se em um ambiente de comunicação e computação, onde podem executar suas tarefas com ajuda de algum outro indivíduo que reside em um país diferente, criando uma situação de cooperação que nunca tinha sido observada anteriormente.
Rheingold (2002) fortalece a idéia que as novas tecnologias, principalmente aquelas que potencializam a mobilidade, como as redes de telefonia móvel e as redes wireless, são de extrema importância para facilitar ações colaborativas através das redes sociais. O autor defende que o acesso às redes modifica a capacidade e a forma das pessoas executarem suas atividades, pois elas passam a ter acesso constante a repositórios de informações e também podem solicitar ajuda para pessoas que não estão presentes no seu espaço físico, mas que são acessíveis através da comunicação mediada por computador.
Com base nessas características, Rheingold (2002) definiu Smart Mob (Multidão Esperta), conceito que corresponde a um grupo que se comporta de maneira inteligente ou eficiente em uma rede onde suas conexões crescem exponencialmente, permitindo que as pessoas possam agir de forma conjunta. O autor ainda cita que as pessoas que formam a
Smart Mob cooperam através de uma nova forma devido ao fato de utilizarem aparelhos que
possuem tanto capacidade de comunicação quanto de computação.
Rheingold (2002) cita que uma Smart Mob emerge quando redes sociais utilizam principalmente tecnologias móveis, computação pervasiva e métodos peer-to-peer para
coordenar uma ação coletiva. O autor exemplifica essa afirmação citando o cenário da queda do presidente das Filipinas, onde os cidadãos filipinos organizados por meio de mensagens de texto via celular (sms3) promoveram manifestações pacíficas que conseguiram tirar do poder o
presidente Joseph Estrada.
É importante ressaltar que as tecnologias e as redes sociais têm papel fundamental para identificar e mobilizar as pessoas próximas, criando laços extremamente valiosos para que possam atuar em conjunto por um mesmo objetivo, muitas vezes sem importar sua cultura, formação, sexo ou idade. Levy (1999) afirmou que todos os indivíduos na humanidade têm um tipo de conhecimento e que, por esse motivo, nenhuma pessoa deveria ser desprezada. Rheingold (2002) escreveu que as interações entre as pessoas podem transformar uma simples multidão em uma multidão esperta.
Por sua vez, Surowiecki (2006), com uma proposta visionária, defende o que ele chama de sabedoria das multidões, um assunto extremamente polêmico, já que a grande maioria das pessoas associa a idéia de multidão com tumulto e desordem. Entretanto, o que o autor mostra é que as decisões tomadas por uma multidão eclética são mais inteligentes do que as opiniões geradas por um pequeno grupo de especialistas.
Para defender sua definição, Surowiecki (2006) cita diversos exemplos, podendo ser destacado o caso do desaparecimento do submarino americano Scorpion no Atlântico Norte. Nesta situação, os oficiais da marinha em terra possuíam somente informações do possível local do desaparecimento, o qual correspondia a uma área com raio de 20 milhas em águas que apresentavam variações de profundidade.
John Crave, um oficial da marinha naquela época, teve a idéia de levar as informações disponíveis para especialistas das mais diversificadas área do conhecimento, pedindo para que estimassem o possível local onde estaria o submarino Scorpion.
Após receber todas as coordenadas dos especialistas, Crave utilizou essas informações em uma fórmula matemática, obtendo um impressionante resultado – apontou a localização do submarino com um pequeno erro de 200 metros, o que seria uma tarefa bastante difícil, se fosse trabalhada apenas por especialistas de uma única área de atuação.
Entretanto, Surowiecki (2006) menciona que a sabedoria das multidões é fácil de ser observada em várias situações na sociedade, porém são muito difíceis de serem obtidas por terem que obedecer quatro principais características:
3 Short Message Service – Serviço de comunicação presente nas redes de telefonia móvel que permite o envio e recebimento de mensagens de texto.
• Diversidade – Os indivíduos que compõem a multidão devem ser discrepantes em
relação a sua cultura, formação, área de atuação e opinião. O consenso não é uma propriedade valiosa; pelo contrário, nesse modelo a diversidade é o fator que engloba diferentes visões sobre um mesmo assunto, permitindo aproveitar as opiniões de estudiosos, profissionais de áreas afins, para enriquecer a ótica sobre o assunto abordado. É notável que esse modelo gere conteúdos úteis (informações) e inúteis (ruídos), porém destaca-se que a própria multidão tende a anular os ruídos.
• Independência – Os indivíduos devem formular suas opiniões de maneira
individual, sem que haja a influência de outros integrantes da multidão, pois esse cenário favorece o surgimento de informações e também diminui os ruídos.
• Descentralização – As opiniões coletivas são mais valiosas e inteligentes quando
não há um fator de controle sobre isso, onde os indivíduos possam pensar e emitir suas opiniões de maneira livre e baseando-se apenas em sua cultura e formação.
• Agregação – As opiniões emitidas por todos os indivíduos que compõem a
multidão devem ser agregadas para formar uma opinião coletiva, assim como aconteceu na situação do submarino Scorpion.
Rheignold (2008), autor que havia publicado anteriormente um texto sobre multidões espertas, aponta que uma multidão esperta não necessariamente é uma multidão sábia, contrapondo alguns pontos de Surowieck (2006).
Rheignold (2008) cita que as tecnologias por si só não garantem democracia e qualidade das multidões, mas que possivelmente devem haver algumas regras a serem seguidas para que uma multidão se torne cada vez mais inteligente. O mesmo autor ainda sugere que as pessoas engajadas nesses movimentos tenham consciência que isso é apenas o início e que talvez elas devessem assumir uma posição de liderança para fazer as multidões mais inteligentes, extraindo o bem intelectual mais valioso de cada indivíduo.
É importante destacar que o conceito de multidões existe há muito tempo, antes do surgimento das tecnologias, mas são elas que, nos dias atuais, facilitam a comunicação entre
seus indivíduos. As formas de interações entre os indivíduos foram reformuladas após a concepção da comunicação mediada pelo computador, quando passaram a se comunicar em tempo real sem a necessidade de estarem no mesmo espaço físico e quando começaram a receber ajuda através de respostas e compartilhamento de informação de forma instantânea.
Mas não é somente a forma de comunicação síncrona, envio e recebimento de mensagem entre dois ou mais indivíduos em tempo real, que favorece um cenário de inteligência nas redes. A Web é um espaço onde existem muitas informações que foram publicadas por diversas fontes em um determinando tempo no passado que estão disponíveis para serem acessadas a qualquer momento.
No período anterior a Internet, as pessoas necessitavam locomover-se até uma biblioteca para ter acesso a uma determinada obra. Se ela quisesse obter alguma informação instantaneamente, a forma mais prática era perguntar para as pessoas ao seu redor, que poderiam não saber as respostas.
O advento da Internet reformulou totalmente esse cenário. Hoje em dia, a pessoa tem uma quantidade extremamente alta de informações disponível a partir de dispositivos conectados na Web em qualquer espaço de tempo. Na Web não existe horário de funcionamento. Pelo contrário, tornou-se um grande repositório de informações coletivas aberto 24 horas nos 7 dias da semana, seja através de sites de veículos de comunicação, portais corporativos, blogs pessoais e até mesmo ferramentas wikis
É justamente seguindo essa mesma linha de raciocínio que De Kerckhove (1997) define o que ele chama de inteligência conectiva. O autor cita que a Internet é uma espécie de cérebro global composto através da interligação de cérebros individuais. Ele ainda cita, mais profundamente, que a Web é uma extensão de nossas próprias mentes interligadas com recursos das mentes de milhões de indivíduos. As pessoas expandem suas mentes na Internet através de blogs, sites, sistemas wikis, participação em fórum e comunicação em tempo real (instant messaging)
De Kerckhove (1997) cita, para fortalecer a sua opinião, que as pessoas buscavam através de reuniões locais, antes da Internet, uma forma para conectarem suas mentes com o objetivo de alcançar certo consentimento mental. Porém, com a comunicação mediada por computador, as pessoas podem fazer isso mesmo estando em diferentes cidades, através do uso de aplicações de comunicação síncrona ou assíncronas.
grande acesso as informações pertencentes a diversas classes e que podem ter sido construídas em qualquer espaço de tempo. Na Web é fácil encontrar notícias extremamente recentes até conteúdos publicados há muitos anos que foram digitalizados e disponibilizados na rede.
É possível perceber uma grande sinergia entre inteligência conectiva e inteligência coletiva. Entretanto, De Kerckhove (2009) cita em uma entrevista a diferença entre ambos os conceitos. O autor inicia essa diferenciação da seguinte forma:
Pelo pensamento eu compreendo o mundo, pelo espaço o mundo me compreende. Pascal compreendeu bem a diferença entre o eu pensante e a pertinência do ponto no espaço. A nova possibilidade é: eu compreendo o mundo, o mundo me compreende, sem exclusão, juntos. E cada indivíduo que compreende o mundo comigo partilha da minha inteligência, da minha consciência conectiva. É diferente da emergência de uma inteligência coletiva, como a de que fala Pierre Levy (DE KERCKHOVE, 2009).
O autor ainda acrescenta que a inteligência conectiva tem aplicações reais e não é apenas uma teoria. Para fortalecer sua afirmação, ele exemplifica que a partir de um
notebook, sem importar sua localização, ele pode se conectar com pessoas com quem trabalha
e pode executar seu trabalho a distância da mesma maneira como seria se ele estivesse cara a cara com seus companheiros.
É interessante notar que os diversos conceitos de inteligência nas redes apresentados até o momento compartilham uma mesma característica: os indivíduos estão cada vez mais interligados com um número maior de conexões e que tendem a aumentar com o passar do tempo. No presente momento é possível encontrar diversas pessoas que recorrem a Web como fonte de informação, seja para uma pesquisa acadêmica, para resolver um problema no trabalho ou para esclarecer uma dúvida pessoal relacionada a assuntos de conhecimento geral.
Entretanto, destaca-se que o conceito de inteligência conectiva é o que melhor relaciona-se com o tema do trabalho. Conforme foi definido anteriormente, pode-se pensar a inteligência conectiva como a extensão da mente humana, a qual está interligada com a mente de inúmeras pessoas. Adicionalmente, pode-se exaltar que as tecnologias apresentam incrível capacidade de processamento e de armazenamento, tornando-se mais eficientes para determinadas tarefas em conjunto.
A tecnologia de Grid Computing compartilha, similarmente a Web, características com o modelo de inteligência conectiva. Os ambientes de Grid Computing são espaços com alta capacidade de processamento constituídos com recursos de diversas entidades e indivíduos,
permitindo assim que eles fiquem conectados para troca de informações, execução de aplicações em conjunto e compartilhamento de resultados.
Seguindo o modelo de inteligência conectiva, pode-se pensar um ambiente de Grid
Computing como um cérebro global (aglomerado de recursos computacionais, aplicações e
dados) composto por inúmeros recursos de indivíduos e instituições, os quais podem compartilhar informações, aplicações e resultados, além de recursos computacionais que elevam a capacidade de processamento do ambiente. A tecnologia de Grid Computing será abordada em detalhes nas próximas seções.