Foram estudadas duas populações de P. azureus encontradas em poças artificiais situadas em uma área de cerrado degradado na Fazenda Água Limpa (FAL) da Universidade de Brasília (47° 56' 46,30" O; 15° 58' 35,11" S) e em uma nascente situada na região do Córrego do Urubú, Brasília-DF (47° 51' 40" O; 15° 41' 52,47" S). A FAL possui aproximadamente 4.500 hectares de cerrado, está inserida na Área de Proteção Ambiental (APA) Gama Cabeça de Veado e a Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) Capetinga/Taquara, situada no Distrito Federal e distante apenas 28 quilômetros do centro de Brasília. A poça situada na FAL possui aproximadamente 600m2 e a vegetação predominante é de gramíneas (Bracchiaria sp. e Cyperaceae), seguida por pequenos arbustos pertencentes às Famílias Solanaceae, Melastomataceae, Malvaceae e Fabaceae. A área do Córrego do Urubu faz parte do Núcleo Rural Córrego do Urubu, pertencente à Região Administrativa do Lago Norte – RA XVIII, situada aproximadamente a 12 km do centro de Brasília, constituída principalmente por chácaras, e foi criada com o intuito de consolidar a modalidade de ocupação humana e preservação ambiental. A poça possui aproximadamente 300m2 e a vegetação marginal predominante é composta por arbustos da Família Melastomataceae, Malvaceae e Fabaceae, bambus e gramíneas, em sua maioria (Bracchiaria sp.).
Amostragem
As amostragens consistiram na busca ativa por indivíduos machos de P. azureus, com a utilização de lanternas de luz noturna (infravermelho), para evitar interferências nos padrões de atividade dos indivíduos (BUCHANAN, 1993). Todos os indivíduos
68 foram marcados com etiquetas fluorescentes (ALPHA Tags) e soltos nos seus respectivos locais de captura. As localidades das capturas e recapturas dos indivíduos foram registradas e sinalizadas no campo com fitas coloridas.
Indivíduos machos recapturados no mesmo território, aqui arbitrariamente estipulado como a área determinada por um raio de 1 metro da primeira captura durante um período de pelo menos uma semana, foram considerados territoriais, ou residentes. Já machos com apenas um único registro durante todo o período de amostragem foram considerados flutuantes, ou visitantes efêmeros (“floaters”). Além disso, foram criadas classes de territorialidade, sendo 0 para indivíduos efêmeros, 1 para os indivíduos que permaneceram por uma semana no local de captura (i.e. dentro da área de até 1 metro da primeira captura), 2 para aqueles que permaneceram por até um mês no território, 3 os indivíduos que permaneceram por até dois meses, 4 aqueles que foram vistos no mesmo local por toda uma estação reprodutiva, e 5 para aqueles que foram vistos no mesmo local por mais de uma estação reprodutiva.
As visitas aos sítios amostrais foram realizadas nos horários de atividade da espécie (20:00 h – 05:00 h), três dias por semana, intercalando as visitas entre as localidades FAL e Urubu. Na região central do Brasil, as chuvas ficam restritas tipicamente ao período entre outubro e março, quando ocorre a reprodução da espécie estudada. As amostragens realizadas coincidiram com meses no período reprodutivo da espécie, representando amostragens mais sistemáticas de dois períodos reprodutivos: novembro 2014 e fevereiro 2015 (1ª estação); dezembro 2015, janeiro-março 2016 (2ª estação). Além destes dois ciclos reprodutivos, amostragens focadas foram realizadas antes (fevereiro 2014) e após (dezembro 2016) os dois períodos reprodutivos.
Foram gravados os cantos reprodutivos dos machos territoriais de P. azureus com gravador digital portátil Marantz PMD 660, em razão de amostragem de 48 kHz e resolução de amplitude de 16 bits, e microfone direcional Senheisser ME-67. Ao final de cada gravação os animais foram capturados e imagens fotográficas da região lateral (flanco) direita e dorsal dos sapos foram registradas com uma câmera digital Cannon (modelo PowerShot ELPH 110 HS) contra uma régua, para servir de escala na análise dos padrões de manchas. Em seguida, os indivíduos foram pesados com uma balança de precisão do tipo Pesola e tomadas as medidas comprimento rostro-uróstilo (CRU) com paquímetro milimétrico.
69 As medidas de reflectância (RE) foram tomadas com um espectrofotômetro Ocean Optics USB4000 e uma fonte de luz de xenônio pulsante PX-2 (Ocean Optics, Dunedin, Florida), que fornece iluminação no espectro ultra-violeta, infra-vermelho e visível para humanos (300-900nm). Um suporte de fibra óptica, em alumínio anodizado e com ângulo de 45⁰ foi utilizado para (1) reduzir brilho e reflexão especular, (2) eliminar luz ambiental, e (3) padronizar a distância de 2 mm entre a sonda e a pele, e uma área de varredura em 2 mm de diâmetro (SZTATECSNY et al., 2010). Um branco puro WS-1 (Ocean Optics) foi utilizado para calibrar o espectrofotômetro entre cada medição. Selecionei uma área na região dorsal e a região com maior área vermelha no flanco direito para a amostragem, por serem regiões do corpo com coloração mais contrastante e mais visível para conspecíficos e, por fim, foram tomadas três medidas repetidas de cada uma dessas regiões escaneadas, sendo as médias destas utilizadas nas análises.
Análise de Dados
Os dados acústicos foram analisados com o programa RAVEN 1.4 (BIOACUSTIC RESEARCH PROGRAM, 2011) e os parâmetros para gerar os espectrogramas foram: janela tipo = “Hann”, pontos de resolução (FFT) = 256, filtro de comprimento de onda (3db) = 270 Hz e tamanho (DFT) = 256 amostras. Foram tomadas medidas das variáveis de duração do canto, número de pulsos por nota, frequência dominante, frequência máxima e frequência mínima, amplitude de frequência (freq. max. - freq. min.), frequências dominantes do primeiro pulso e do último pulso e a modulação na frequência, calculada pela diferença entre a frequência dominante do último pulso e a frequência dominante do primeiro pulso, conforme KÖHLER e colaboradores (2017).
As fotografias do padrão de manchas no flanco (PMF) foram analisadas com o programa ImageJ e foram extraídas medidas da razão da cor vermelha com relação à área total
razão da cor preta com relação à área total
e razão
do sinal
. As análises de RE foram realizadas com o pacote PAVO no
programa estatístico R e as seguintes variáveis cromáticas foram utilizadas: saturação do croma (S8), matiz (H3), saturação na faixa que compreende pigmentos carotenoides
70 (S9) (somente para região do flanco) e saturação do ultravioleta (UV) (somente do dorso), e variável acromática: Brilho (B2), conforme MAIA e colaboradores (2013).
Os procedimentos estatísticos e testes de hipóteses foram realizados separadamente para cada um dos conjuntos de dados que compreendem a modalidade visual do padrão de manchas no flanco (PMF), reflectância espectrofotométrica (RE) e acústica, devido ao número de amostras serem diferentes entre as modalidades.
Procedimentos Estatísticos
Todos os dados foram testados quanto à normalidade (teste de Shapiro-Wilk) e heterocedasticidade (teste de Bartlett) antes das análises estatísticas e, quando necessário, foram empregados modelos matemáticos para corrigir possíveis desvios de distribuição.
A possível utilização dos sinais visuais em contextos intrasexuais em P. azureus foi averiguada contrastando as diferenças entre machos territoriais e visitantes efêmeros nas variáveis das modalidades visuais (PMF e RE), acústicas, de tamanho do corpo (CRU) e índice de massa corporal. Primeiramente, foi realizada uma PCA (Análise de Componentes Principais), utilizando uma matriz de correlação, para reduzir o número de variáveis explicativas pertencentes às modalidades visual e acústica em eixos canônicos, ou componentes principais independentes, que maximiza a variação dos dados e elimina as correlações entre as variáveis independentes (QUINN e KEOUGH, 2002). Em seguida, foram elaborados Modelos Lineares Generalizados com distribuição binomial do erro, também chamada de Regressão Logística Binária, para avaliar a relação entre as variáveis explicativas (componentes principais das variáveis de PMF, RE e canto) e a variável resposta (territorial vs. visitantes), e as variáveis de localidade, tamanho corporal e índice de massa corporal (ver descrição abaixo) como co-variáveis do modelo. Por fim, para testar a diferença entre as classes de territorialidade foi utilizada uma regressão logística ordinal. A adequação dos modelos lineares foi verificada através do teste de Qui-quadrado (X2) de Wald. O valor crítico para determinar a significância estatística dos modelos foi definido por P < 0,05.
O índice de massa corporal foi calculado utilizando o método de PEIG e GREEN (2009), conhecido como “Scaled Mass Index” (SMI) e utilizado em estudos de
71 aptidão individual de répteis e anfíbios em áreas alteradas (SASAKI et al., 2016). Esse índice é computado com a seguinte formula:
Onde P e C são medidas de peso e comprimento do corpo do indivíduo i, respectivamente; C0 é o valor da média aritmética do comprimento dos indivíduos da
população estudada; bSMA é o exponente escalonar calculado pela regressão SMA (Eixo Maior Padronizado) de P em C, ou indiretamente dividindo a inclinação da reta da regressão de P e C, pelo coeficiente r da correlação de Pearson (PEIG e GREEN, 2009).
Todas as análises estatísticas foram conduzidas com o programa estatístico R versão 0.97.551 (R DEVELOPMENT CORE TEAM, 2011)
RESULTADOS
Durante o período amostrado, foram capturados 112 machos, de um total de 206 registros em 63 noites de amostragens, totalizando 378 horas de busca ativa. Observações em campo de indivíduos marcados mostram que machos de P. azureus defendem territórios através da emissão de cantos agressivos e embates físicos por mais de uma estação reprodutiva. Esses territórios, geralmente constituídos por arbustos e folhas pendentes ou não sobre a lâmina d’água, são utilizados como sítios de vocalização de machos e ovoposição de fêmeas. A maior parte dos machos capturados foram considerados como visitantes efêmeros (62%, N=70) e os machos residentes representaram 38% dos indivíduos capturados durante todo o estudo (N=42). A maior parte dos indivíduos residentes permaneceu por, pelo menos, uma semana defendendo territórios, e foram distribuídos em categorias de permanência no mesmo território: por uma semana, categoria 1 (40%, N=17); um mês, categoria 2 (14%, N=6); dois meses, categoria 3 (14%, N=6); uma estação reprodutiva, categoria 4 (14%, N=6); e indivíduos que permaneceram por mais de uma estação reprodutiva no mesmo local, categoria 5 (17%, N=7). Foi observado a reposição, ou “turn-over”, com a entrada de novos indivíduos machos, a partir do terço final da primeira estação reprodutiva e alguns destes indivíduos foram os primeiros a ocupar os territórios na próxima estação reprodutiva e correspondem às categorias de territorialidade 4 e 5 (N=9).
72 Durante todo o período de amostragem foram encontrados 18 machos em amplexo. A maioria destes machos (N=12) ou defendeu territórios por mais de dois meses ou por toda uma estação reprodutiva (Figura 1). De todos os machos territoriais, a maior parte foi vista copulando somente uma vez (38%, N=16) e poucos foram vistos copulando mais do que uma vez durante o estudo (N=2). Visitantes efêmeros foram vistos em amplexo em somente duas oportunidades (3%, N=70) durante todo o período do estudo.
Figura 1. Frequência de cópulas de acordo com as categorias de territorialidade em P. azureus. Largura das barras corresponde ao número de amostras em cada categoria.
Diferenças entre Machos Residentes e Efêmeros no Padrão de Manchas no Flanco
O primeiro componente principal explica 78% da variação e descreve a correlação entre a área do sinal e a razão do sinal vermelho do padrão de manchas no flanco (Tabela 1).
73 Tabela 1. Análise de componentes principais das variáveis de padrão de manchas no flanco e a variação explicada pelos dois primeiros componentes.
Auto-Vetores
Variáveis Componente 1 Componente 2
Área vermelho/preto -0.645 -
Razão de vermelho -0.519 0.766
Razão de preto 0.561 0.64
Variação 78% 20%
Não existem diferenças entre indivíduos residentes e machos efêmeros nas variáveis de tamanho do padrão de manchas no flanco (Componente 1: Wald X2 = 0,796, df = 1, N = 110, P = 0,37), nem entre localidades (Localidade: Wald X2 = 1,2864, df = 1, N = 110, P = 0,25), tamanho corporal (CRU: Wald X2 = 0,0181, df = 1, N = 110,
P = 0,89) e condição corporal (SMI: Wald X2 = 0,0424, df = 1, N = 110, P = 0,83).
O resultado da regressão logística ordinal também não mostrou diferenças entre as categorias de territorialidade utilizando o componente principal 1 (Componente 1: Wald X2 = 0,7482, df = 1, N = 110, P = 0,38), no tamanho (CRU: Wald X2 = 0,0424, df = 1, N = 110, P = 0,83) e condição corporal (SMI: Wald X2 = 0,0424, df = 1, N = 110, P = 0,83).
Diferenças entre Machos Residentes e Efêmeros na Reflectância Espectral
De acordo com o resultado da PCA, o componente principal 1 explica 30% da variação dos dados, mostra principalmente a correlação entre as variáveis de reflectância do croma do dorso (S8_dorso) e matiz do dorso (H1_dorso), com valores positivos, e a correlação das variáveis ultravioleta (UV) e brilho (B2_dorso), com valores negativos. O componente principal 2, com 19% da variação dos dados, mostra a correlação entre praticamente todas as variáveis de reflectância do dorso e flanco. Entretanto as variáveis com maiores valores foram brilho (B1_flanco), matiz do flanco (H1_flanco) e matiz do dorso (H1_dorso). O componente 3 é representado principalmente pela variável do croma no flanco e UV no dorso, e por fim, o componente 4 com a variável de saturação da faixa que compreende a reflexão do caroteno (S9_flanco) (Tabela 2).
74 Tabela 2. Análise de componentes principais das variáveis de reflectância espectral.
Auto-Vetores
Variáveis Componente 1 Componente 2 Componente 3 Componente 4
Brilho dorso -0.503 0,165 -0.156 0.289 UV dorso -0.429 -0.198 0.375 0.221 Croma dorso 0.563 -0.144 - -0.227 Matiz dorso 0.299 -0.48 0.329 0.381 Brilho flanco - -0.647 -0.201 0.159 Croma flanco - -0.256 -0.751 -0.189 Croma carotenoide -0.236 -0.121 0.347 -0.737 Matiz flanco -0.302 -0.429 - -0.26 Variação 30% 19% 15% 11%
O resultado do modelo linear generalizado não revelou diferenças entre indivíduos machos residentes e machos efêmeros nos componentes principais 1, 2, 3 e 4, que explicam a maior parte da variação dos dados (75%) de cor no dorso e flanco de
P. azureus (Componente 1: Wald X2= 0,268, df = 1, N = 36, P = 0,60; Componente 2:
Wald X2 = 0,009, df = 1, N = 36, P = 0,92; Componente 3: Wald X2 = 0,9386, df = 1, N = 36, P = 0,33; Componente 4: Wald X2= 1,270, df = 1, N = 36, P = 0,72), na localidade (Localidade: Wald X2 = 0,293, df = 1, N = 36, P = 0,50), nem tampouco em tamanho corporal ou índice de massa corporal (CRU: Wald X2 = 0,0034, df = 1, N = 36, P = 0,95; SMI: Wald X2 = 0,003, df = 1, N = 36, P = 0,95).
O resultado da regressão linear ordinal também não mostrou diferenças entre as categorias de territorialidade utilizando os componentes principais 1, 2, 3 e 4 das variáveis de cor (Componente 1: Wald X2 = 0,8399, df = 1, N = 36, P = 0,35; Componente 2: Wald X2 = 0,1273, df = 1, N = 36, P = 0,72; Componente 3: Wald X2 = 0,0291, df = 1, N = 36, P = 0,86; Componente 4: Wald X2 = 0,0025, df = 1, N = 36, P = 0,95), na localidade (Localidade: Wald X2 = 0,0040, df = 1, N = 36, P = 0,94) e nem no tamanho corporal ou índice de massa corporal (CRU: Wald X2 = 0,1034, df = 1, N = 36,
P = 0,74; SMI: Wald X2 = 0,0748, df = 1, N = 36, P = 0,78).
Diferenças entre Machos Residentes e Flutuantes no Canto de Anúncio
O resultado da PCA mostra que o componente principal 1, com 40% da variação, tem correlação com as variáveis espectrais de frequência máxima e frequência dominante do último pulso, apresentando os maiores valores negativos, e uma
75 correlação com variáveis temporais de tempo do canto e número de pulsos por canto, com valores positivos. Os componentes principais 2 e 3, explicam 24% e 16% da variação, respectivamente. O componente 2 é representado pela variável de frequência mínima (maior valor negativo) e amplitude de frequência (maior valor positivo), e o componente 3 mostra que a modulação de frequência (FM) apresenta a maior importância do componente, com maior autovalor (Tabela 3).
Tabela 3. Análise de componentes principais das variáveis acústicas do canto de anúncio.
Auto-Vetores
Variáveis Comp. 1 Comp. 2 Comp. 3 Comp. 4
Frequência máxima -0.432 0.249 -0.23 -0.169 Frequência dominante -0.389 -0.221 - -0.266 Frequência mínima -0.147 -0.594 0.24 - Amplitude de frequência -0.207 0.559 -0.316 -0.12 Duração do canto 0.38 - -0.255 -0.525 Pulso/canto 0.368 -0.16 -0.231 -0.536 Frequência no 1˚ pulso -0.377 -0.31 -0.372 -
Frequência no último pulso -0.42 - 0.261 -0.43
Modulação de frequência - 0.305 0.681 -0.369
Variação 40% 24% 16% 10%
De acordo com o modelo linear generalizado não existem diferenças entre indivíduos machos residentes e machos visitantes efêmeros nos componentes principais 1, 2, 3 e 4 das variáveis do canto de P. azureus (Componente 1: Wald X2= 0,1924, df = 1, N = 49, P = 0,66; Componente 2: Wald X2 = 0,0029, df = 1, N = 49, P = 0,95; Componente 3: Wald X2 = 0,0563, df = 1, N = 49, P = 0,81; Componente 4: Wald X2= 0,0504, df = 1, N = 49, P = 0,82), na localidade (Localidade: Wald X2 = 0,2846, df = 1, N = 49, P = 0,59) e nem no tamanho corporal (CRU: Wald X2 = 1,7759, df = 1, N = 49,
P = 0,18). O modelo linear generalizado indicou uma diferença marginalmente
significativa entre machos territoriais e efêmerosem condição corporal (SMI: Wald X2 = 3,5911, df = 1, N = 49, P = 0,05) (Tabela 4).
A regressão logística ordinal também não mostrou diferenças entre as categorias de territorialidade utilizando os componentes principais 1, 2, 3 e 4 com as variáveis de canto (Componente 1: Wald X2 = 0,4559, df = 1, N = 49, P = 0,49; Componente 2: Wald X2 = 0,1383, df = 1, N = 49, P = 0,71; Componente 3: Wald X2 = 0,0322, df = 1,
76 N = 49, P = 0,85; Componente 4: Wald X2 = 0,1414, df = 1, N = 49, P = 0,70). Entretanto, foram evidenciadas diferenças entre machos residentes e efêmeros no comprimento do corpo e no índice de massa corporal (CRU: Wald X2 = 4,6313, df = 1, N = 49, P = 0,03; SMI: Wald X2 = 10,4853, df = 1, N = 49, P = 0,001) (Tabela 4) (Figura 2). Portanto, temos machos territoriais que permanecem defendendo territórios por até dois meses (categoria 3) menores que os demais e machos que defendem territórios por até dois meses (categoria 3) e por mais de uma estação reprodutiva (categoria 5) com menores valores de tamanho e condição corporal.
Figura 2. Gráfico de barras mostrando as diferenças entre as categorias de
territorialidade nas variáveis CRU (tamanho corporal) e SMI (condição corporal). A A A A B A A B A A A B
77 Tabela 4. Estatística descritiva dos sinais acústicos e visuais em machos de P. azureus territoriais e visitantes e valores dos modelos lineares generalizados, dos PCAs, localidade, tamanho (CRU) e índice de massa corporal (SMI).
Variáveis Visuais Média ± DP (Amplitude) Regressão Logística Binária
Padrão de manchas no flanco Territoriais (N = 42) Visitantes (N = 70) Auto-vetores Wald X2 df P
Vermelho/Preto 1,82 ± 0,44 (0,99 - 2,5) 1,87 ± 0,57 (0,95 - 3,86) Comp. 1 0,7964 109 0,37 Razão de vermelho 0,44 ± 0,04 (0,33 - 0,56) 0,44 ± 0,06 (0,32 - 0,70) Localidade 1,286 109 0,25 Razão de Preto 0,25 ± 0,05 (0,17 - 0,40) 0,25 ± 0,05 (0,14 - 0,38) CRU 0,018 109 0,89 CRU 36,2 ± 1,18 (33,7 - 38,4) 36 ± 1,5 (32,7 - 39,1) SMI 0,0424 109 0,83 SMI 3,26 ± 0,21 (2,83 - 3,64) 3,25 ± 0,20 (2,73 - 3,68)
Reflectância espectrométrica Territoriais (N=18) Visitantes (N= 18)
Matiz dorso (H1) 576 ± 127 (362-806) 591 ± 96,9 (398 - 732) Comp. 1 0.2688 35 0.6 Brilho dorso (B2) 531 ± 85,4 (380 - 668) 525 ± 121 (349 - 756) Comp. 2 0.0094 35 0.92 Saturação dorso (S8) 1,8 ± 0,28 (1,3 - 2,6) 1,91 ± 0,46 (1,43 - 2,99) Comp. 3 0.9386 35 0.33 Saturação do UV (UV) 0,19 ± 0,03 (0,11 - 0,23) 0,19 ± 0,04 (0,10 - 0,24) Comp. 4 0.127 35 0.72 Saturação carotenóide (S9) 9,13 ± 17,4 (-0,82 - 56,6) 15,8 ± 59,35 (-0,73 - 253) Localidade 0.2937 35 0.58 Matiz flanco (H1) 669 ± 49,6 (568 - 743) 646 ± 77,4 (482 - 737) CRU 0.0034 35 0.95 Brilho flanco (B2) 760 ± 230 (428 - 1186) 814 ± 239 (516 - 1312) SMI 0.0035 35 0.95 Saturação flanco (S8) 2,26 ± 0,38 (1,72 - 3,08) 2,16 ± 0,22 (1,74 - 2,51)
Sinal Acústico Territoriais (N = 29) Visitantes (N = 20)
Freq. mínima (Hz) 1398 ± 113 (1126 - 1657) 1414 ±120 (1229 - 1632) Comp. 1 0.1924 48 0.66 Freq. dominante (Hz) 2128 ± 67 (1968 - 2250) 2144 ± 80 (2040 - 2250) Comp. 2 0.0029 48 0.95 Freq. máxima (Hz) 2658 ± 142 (2513 - 2761) 2656 ± 95 (2499 - 2848) Comp. 3 0.0563 48 0.81 Freq. delta 1260 ± 198 (959 - 1988) 1241 ± 146 (1016 - 1456) Comp. 4 0.0504 48 0.82 Tempo (mseg) 43,7 ± 11,1 (26,6 - 74,0) 44,8 ± 10,2 (30,2 - 64,7) Localidade 0.2846 48 0.59
Pulso 4,6 ± 1,2 (3 -9) 4,4 ± 0,5 (3 - 6) CRU 1.7759 48 0.18
Freq. 1⁰ Pulso 2199 ±108 (2113 - 2343) 2206 ± 123 (1875-2499) SMI 3.5911 48 0.05
Freq. 2⁰ Pulso 2013 ± 99 (1857 - 2193) 2035 ± 101 (1829-2250) FM -185 ± 90,7 (-344 - 0,5) -171 ± 114 (-412 - 161)
78
DISCUSSÃO
Conforme descrito na literatura e observado no presente estudo (capítulos 1 e 2),
P. azureus é uma espécie de reprodução prolongada, com a razão sexual operacional
enviesada para machos, onde machos e fêmeas chegam de forma assincrônica ao sítio reprodutivo. Machos apresentam comportamento territorial, onde podem permanecer no mesmo local defendendo seus territórios através de cantos agressivos e constantes patrulhas (DE CARVALHO et al., 2008; COSTA et al., 2010, DIAS et al., 2014). Alguns trabalhos sugerem que o gênero Pithecopus defende territórios por um curto período de tempo (WELL, 2007; DE CARVALHO et al., 2008; COSTA et al., 2010); entretanto, foi possível observar neste estudo, pela primeira vez, machos P. azureus exibindo forte fidelidade a sítios de vocalização, podendo defender territórios por mais de uma estação reprodutiva. Essa observação, no entanto, não é surpreendente, uma vez que algumas espécies do gênero podem permanecer no mesmo sítio reprodutivo por até três anos consecutivos (DE OLIVEIRA, 2011; DE OLIVEIRA, 2017) e novos estudos de longa duração com outras espécies do gênero podem confirmar tal padrão de fidelidade de sitio de vocalização.
Espécies de anuros que defendem os sítios reprodutivos e sítios de ovoposição por longo período, tendem a apresentar comportamentos agressivos muito mais elaborados que espécies de reprodução explosiva (sensu Wells, 1977) (WELLS, 2007). No presente estudo foi avaliado apenas o canto de anúncio, que tem como função principal a atração de fêmeas, e a falta de significância dos resultados pode estar relacionada ao tipo de canto analisado. Durante encontros agonísticos, machos de P.
azureus emitem cantos agressivos complexos, compostos por uma série de grupos de
notas longas, graves, pulsadas e modulação na amplitude (BRANDÃO et al., 2009; HAGA et al., 2017). Esse canto pode ser responsável pelo estabelecimento e manutenção de territórios em P. azureus, da mesma forma que ocorre em algumas espécies de anfíbios que produzem cantos mais agressivos, aumentando a complexidade dos cantos adicionando notas, aumentando a duração e número de pulsos (RYAN, 1985). Portanto, é sensato sugerir que o canto de anúncio em P. azureus não atua em contextos intrasexuais.
Pithecopus azureus defende territórios que consistem, principalmente, em
79 reprodutivo, como sítios de ovoposição, de vocalização e abrigo contra predadores (DIAS et al., 2014). Fêmeas de P. azureus são responsáveis por escolher o local da ovoposição, situada nos territórios dos machos, e alguns estudos indicam que o sucesso reprodutivo no desenvolvimento dos ovos está relacionado com o tipo de folha onde são depositados (DE FREITAS et al., 2008; DE OLIVEIRA, 2011; DIAS et al., 2014; DE OLIVEIRA, 2017). Portanto, com todas essas características, é possível que o sistema de acasalamento das populações estudadas de P. azureus seja baseado na defesa de recursos, ou algum tipo de agregação de territórios onde existe alguma defesa de recursos, mas não baseado no sistema de lek clássico, onde machos se agregam de forma sincrônica no coro e defendem sítios não dependentes de recursos, como sugerido por Wells (2007) para Pithecopus hypochondrialis e Dias e colaboradores (2017) para
Phyllomedusa iheringii. Entretanto, estudos complementares com outras espécies
aparentadas que compartilham a mesma história de vida, são necessários para testar essa hipótese. Ademais, é possível que exista uma plasticidade no sistema de acasalamento intraespecífico, capaz de mudar de agregação dependente de recursos para um sistema de acasalamento de animais de reprodução explosiva (“scramble competition”), descrito para duas espécies irmãs de P. azureus (P. ayeaye, P. megacephala), em situações onde há aumento significativo na densidade populacional (DE OLIVEIRADE et al., 2011; DE OLIVEIRA, 2017) e, até condições ambientais (BRIGGS, 2008; LLUSIA et al., 2013).
Não foram encontradas diferenças significativas na área do padrão de manchas, cor e o canto entre machos residentes e visitantes efêmeros e, portanto, esses sinais não parecem atuar no estabelecimento e manutenção de territórios em P. azureus. Portanto, não aparentam conferir habilidade de luta para machos territoriais. No entanto, é razoável sugerir que os padrões de manchas possam sinalizar a presença de machos territoriais, visto que os machos possuem comportamentos de expor as partes conspícuas do flanco e selecionar sítios de vocalização com base na exposição do poleiro (DIAS et al., 2014). Além disso, o padrão de manchas pode também ser utilizado para uma localização mais rápida e precisa de possíveis machos invasores, enquanto patrulham seus territórios (DIAS et al., 2014). A rápida localização de possíveis machos intrusos pode conferir uma maior habilidade na defesa de território e maior sucesso reprodutivo de machos residentes.
80 É possível que indivíduos machos que chegam primeiro e permanecem por mais tempo no coro, machos residentes, detenham maiores vantagens na defesa e manutenção dos territórios. Já foi constatado que alguns anfíbios anuros que iniciam as atividades de vocalização possuem altas taxas de testosterona, são mais agressivos, e possuem maior percepção do espaço do ambiente (WELLS, 2007; DIAS et al., 2014). A permanência no coro pode ser o aspecto mais importante não só na manutenção dos territórios como