A presença da cidade nos estudos geográficos é antiga. Ratzel (1891), por exemplo, con- feriu aos núcleos urbanos um papel importante na evolução da humanidade. Para ele, as cidades representavam um objeto de estudo importante da geografia e deveriam ser analisadas, sobretudo, a partir de sua posição em relação às vias de comunicação. Esse conceito é fundamental em toda a sua obra, especialmente na Politische Geographie, que dedica toda a sua quarta parte às questões dessa
natureza (Ratzel, 1987). Embora outros autores alemães do período também tenham dedicado aten- ção à posição das cidades (Schlütter, 1899; Hettner, 1902), o fato é que, a partir da morte de Ratzel, em 1904, o estudo dos núcleos urbanos rapidamente deslocou-se do eixo preferencialmente estra- tégico e econômico da posição, e caminhou em direção a novos elementos balizadores.
Nessa mudança, dois fatores tiveram importância. Em primeiro lugar, a crise do deter- minismo ambiental, corrente que agregava vários geógrafos alemães, levou ao abandono dos grandes esquemas explicativos que vinculavam a organização do espaço social às exigências do meio natural. Em segundo, o surgimento das correntes historicistas, que defendiam a compreensão das singula- ridades, valorizou os estudos de escala local/regional. Resultou daí que a primazia do meio foi rela- tivizada e a ênfase que se dava anteriormente ao geral, ao todo, foi substituída pelo privilégio que se passou a dar ao estudo da parte, do que era único.
Duas décadas depois, essas mudanças já eram observadas por Febvre (1922). Para ele, era a geografia francesa que comandava, agora, a produção de conhecimentos urbanos, e o fazia, não mais segundo a concepção político-estratégica que lhe impusera Ratzel, mas a partir de matrizes epis- temológicas novas. Para Febvre, Vidal de La Blache, em sua cruzada contra o determinismo ambi- ental, “havia colocado e resolvido, de um só golpe, o problema geográfico da cidade” quando escre- vera: “La nature prépare le site et 1’homme 1’organise pour lui permettre de répondre à ses désirs e à ses besoins”.2 Ou seja, a cidade seria mais um palco de exibição da superioridade da “vontade humana” sobre o jugo ambiental, e cabia ao geógrafo demonstrar essa verdade. Dados esses objetivos maiores, vinculados à escola de pensamento que acabou conhecida em geografia como possibilismo, não é de se estranhar que os trabalhos franceses que Febvre tanto elogiava (cf., por exemplo, Blan- chard, 1911 e 1916) tenham optado preferencialmente pelo estudo de cidades localizadas em sítios desfavoráveis. Esses estudos proclamavam, invariavelmente, as “grandes vitórias humanas” sobre o meio natura1.3
2 Cf. La Blache (1898) e Febvre (1922:414, tradução livre do autor).
3 Foi dessa maneira, aliás, que Pierre Deffontaines (1937) caracterizou, mais tarde, a luta entre homem e meio natural
Essa naturalização (ainda que não determinista) do estudo geográfico da cidade inscreve- se perfeitamente no contexto dos debates da época. Este não é o lugar de se comentar tudo o que se escondia por trás dessa opção, ou seja, o estatuto de ciência natural que Vidal de La Blache defen- dia para a geografia, as pressões externas vindas de outras disciplinas (que contestavam a validade da existência da geografia como ciência), o significado político-ideológico do debate franco-alemão etc.4 O que importa referir é que o projeto naturalista foi vitorioso, e, embora Vidal pouco tenha escrito sobre as cidades, sua orientação foi decisiva para o delineamento do tipo de estudo urbano que iria predominar na França e, mais tarde, nos países que receberiam a influência da “escola francesa”, entre eles o Brasil.
O viés naturalista imposto ao estudo geográfico das cidades já transparece claramente nos trabalhos realizados pelos geógrafos franceses do início do século. Jean Brunhes (1912:187-188), por exemplo, define a cidade como um dos “fatos da ocupação improdutiva do solo”, como “uma espécie de organismo vivo ao qual se aplicam os métodos comparativos das ciências da observação”. Blanchard (1911:5), por sua vez, no prefácio de seu livro pioneiro sobre Grenoble, afirma claramente que “a idéia essencial do estudo é que a origem e o desenvolvimento da cidade são explicados pelas condições físicas do seu sítio”. Assim, no coração dessa geografia urbana que se iniciava, conforme lembra Pinchemel (1983), reinava imponente o conceito de sítio, com a noção de posição ocupando um nível subsidiário.
Ao chegar ao Brasil em 1934, como membro da “missão francesa” que veio ajudar a fun- dar a Universidade de São Paulo, Pierre Deffontaines, discípulo de Brunhes, trouxe toda essa vin- culação do estudo geográfico com as características do meio natural. Não foi ele, entretanto, quem mais contribuiu para o desenvolvimento da geografia brasileira nessa fase inicial; esse papel caberia a Pierre Monbeig, que o substituiu na USP em 1935, e que permaneceu em São Paulo por mais 11 anos. A importância de Monbeig para o desenvolvimento da geografia no Brasil foi considerável (Abreu, 1994). Além de ter sido o grande mestre da primeira geração de geógrafos universitários pau- listas (papel que outro conterrâneo seu, o geomorfólogo Francis Ruellan, desempenhou na Univer-
sidade do Brasil, no Rio de Janeiro), Monbeig foi o verdadeiro organizador da Associação dos Geó- grafos Brasileiros (AGB), que Deffontaines criara em 1934, e um dos grandes incentivadores da pes- quisa sistemática em geografia, que ele definia como sendo, sobretudo, pesquisa de campo.5 No que toca aos estudos urbanos, seu artigo “O estudo geográfico das cidades” (Monbeig, 1941) é consi- derado hoje uma obra clássica, pois orientou, por longo tempo, a maior parte da produção geográfica urbana no Brasil.
O estudo das cidades que se desenvolveu no país nessa época não foi diferente daquele que se fazia alhures. Definida como ciência empírica pautada na observação, como a definira Kant ainda no século XVIII, cabia à geografia descrever e analisar as paisagens e fenômenos que estudava de forma integrada, isto é, produzindo “sínteses”. A síntese regional, o estudo integrado dos com- ponentes físicos e humanos de uma região, foi o estudo clássico dessa fase. Transladada para o estudo das cidades, essa orientação teórico-metodológica se materializava em “sínteses urbanas”, e foi jus- tamente este tipo de estudo — que ficou conhecido como monografia urbana — que o artigo de Monbeig objetivou difundir e orientar.
Foram muitas as monografias que surgiram no Brasil a partir da obra seminal do mestre (cf. Abreu, 1994). Embora variassem quanto ao objeto de estudo, todas as monografias se asseme- lhavam bastante, pois discutiam, obrigatoriamente, seis conteúdos analíticos: o sítio, a posição, a evo- lução histórica, a fisionomia e estrutura, as funções urbanas e o raio de ação da cidade. Ricos no que toca à descrição e à análise das formas materiais, esses estudos pecavam, entretanto, pela pouca vin- culação que estabeleciam entre os padrões urbanos que detectavam e os processos sociais que lhes haviam dado origem e/ou desenvolvimento. Disso resultava um trabalho rico em termos de descrição da paisagem, correto quanto ao tratamento cartográfico e estatístico, preciso no estabelecimento de relações entre os condicionantes naturais e o objeto material que era a cidade, mas deficiente no que toca à compreensão dos processos sociais que aí tinham lugar. Era como se o mundo do social não
5 Aliás, foi a partir dessas pesquisas no campo que ele produziu sua tese de doutoramento de estado sobre a marcha da
frente pioneira paulista, considerada hoje uma das obras mais importantes da geografia regional francesa (cf. Monbeig, 1952).
pertencesse à geografia, a não ser quando se concretizasse materialmente na paisagem. Monbeig che- gou mesmo a afirmar, em seu artigo metodológico, que o estudo da “população” só tinha interesse na monografia urbana como dado mensurável ou cartografável. Segundo ele, havia que se discutir a evolução demográfica, a composição por idade e sexo, a distribuição das densidades, a formação dos bairros. Poder-se-ia também “colocar em mapa a Geografia das profissões e das classes sociais: zona dos operários de fábricas, dos trabalhadores de estrada de ferro, dos burgueses abastados e da classe média”. Entretanto, esses eram “fatos sociais que o geógrafo não sabe e não precisa estudar” (Mon- beig 1941:17, grifo nosso).
A EMERGÊNCIA DAS ATIVIDADES DE PLANEJAMENTO E OS