• No results found

2. Teori

2.1 Rekneskapet

2.1.2. Definisjon på rekneskapskvalitet

A concepção de riso apresentada por Bakhtin figura entre uma das principais no que tange ao riso na Idade Média e no Renascimento, sendo, inclusive, citado em trabalhos de peso que se propõe a investigar o fenômeno sob um viés histórico, como é o caso de Minois (2003) que ao tratar do fenômeno confere crédito ao filósofo russo e explicita que

De início, devemos dar a César o que é de César e a Mikhail Bakhtine o que lhe pertence. Seu estudo, muitas vezes citado nos capítulos precedentes, é essencial para a época da Renascença. Ele nos servirá

como ponto de partida para colocar os problemas próprios ao século de Rabelais, e, se nossas conclusões diferem das dele, seu trabalho permanece indispensável para a compreensão do riso rabelaisiano. (p. 271)

Mesmo que as reflexões bakhtinianas não estejam totalmente em consonância com o pensamento do historiador francês, este reconhece a qualidade do trabalho bakhtiniano. O riso é trazido, segundo Minois (2003), com um valor de subversão social o qual é temporariamente liberado pelas autoridades, devido haver na Idade Média haver uma nítida separação entre o cômico e o sério e o oficial se pautar em uma visão de seriedade do mundo, ficando relegado ao cômico uma zona de “submundo” não reconhecida pelas instâncias legitimadoras. Igualmente, o riso é relegado a um submundo. Porém, as festas de cunho carnavalesco aparecem como refrigério a atmosfera pesada que havia sobre essa era, oportunizando que houvesse um tempo específico para que as pessoas pudessem relaxar um pouco a postura grave e, consequentemente, entrar em um clima mais leve que apresenta como bandeira o riso. Assim, o riso está associado a uma atmosfera que se opõe ao oficial e aparece como alternativo, fazendo com que o risível se apresente enquanto opositor da visão séria do mundo. Assim, o riso seria o ingrediente indispensável nas festividades carnavalescas e aquele que corroboraria com a criação de uma cosmovisão carnavalesca da vida, criando um mundo paralelo ao habitual. Assim, o fenômeno seria genuinamente festivo.

A questão do riso foi pensada por Bakhtin em vários momentos de sua obra e já começou a ser exposta neste trabalho no momento em que falamos sobre as forças centrípetas e centrífugas ao dizer que o riso é uma das manifestações de descentralização, isto é, um dos agentes utilizados pelas forças centrífugas, demonstrando o fenômeno como transformador e desestabilizador. As raízes do romance, gênero considerado pelo filósofo da linguagem como da modernidade e de renovação frente a gêneros clássicos como a epopeia e a tragédia que predominavam em sua germinação, estão no riso e no plurilinguismo devido a ambos serem historicamente fatores de descentralização e relativização da consciência humana. O argumento usado por Bakhtin (2010) é que a humanidade vai construindo historicamente, por meio do riso e da percepção do plurilinguismo, uma consciência descentrada e que se percebe uma entre tantas outras: a consciência galileana. Portanto, o riso auxilia na corrosão da

centralização, sendo instrumento utilizado pelas forças de descentralização e, por isso, fragiliza muitos discursos. Sobre isso, Faraco afirma que

O riso participa organicamente desse processo porque tudo dessacraliza e relativiza. Rir dos discursos deixa clara sua unilateralidade e seus limites, descentrando-os, portanto. A consciência socioideológica passa a percebê-los como apenas um entre muitos e em suas relações tensas e contraditórias. O riso destrói, assim, as grossas paredes que aprisionam a consciência no seu próprio discurso, na sua própria linguagem. (2009, p. 82)

O riso aparece, portanto, enquanto libertador de uma visão de mundo fortemente verticalizada, pesadamente unilateral e abre caminhos para que novos horizontes possam ser vislumbrados, de modo que, ao se perceber um caminho antes visto como único enquanto um em meio a tantos, a visão se alarga, dando um leque de possibilidades antes inexistentes. Assim, ao trincar discursos predominantes e que se colocam como únicos, o riso os dessacraliza, os rebaixa e os aproxima dos que habitam uma região underground, colocando-os todos em uma relativa equidade. Como o trecho supracitado diz, o riso consegue corroer as “grossas paredes” e levar os discursos a perceberem o plurilinguismo nos quais eles estão submersos e a perceberem também que coabitam com muitos outros. Daí o caráter desestabilizador e a natureza, nesse caso, direcionado para o embate ao oficial.

Segundo ensaio de Shepherd (2006), ao tratar da obra de Gogol, Bakhtin traça um plano de leitura para o escritor russo e traz como referência o riso como uma zona de contato familiar, um ponto de vista sobre o mundo todo e uma força para superar a seriedade do mundo e o medo (p. 211). Também em Problemas da Poética de Dostoiévski (2010) o filósofo russo toca na questão do riso quando aborda o sentido da ridicularização do supremo, prática da Grécia antiga anterior a era aristotélica que determinou os privilégios do riso tanto na Antiguidade quanto na Idade Média. Sob a marca do riso, resolvia-se muito daquilo que não seria possível em um âmbito sério. Assim, o riso se dirige ao supremo, para a mudança de paradigmas, de estruturas, poderes e verdades, preza por uma reestruturação, indicando, pois, para os dois polos da mudança e pertence ao próprio processo de mudança. Vejamos o que Bakhtin diz sobre o riso em seu estudo sobre Rabelais.

Já na introdução do trabalho, Bakhtin (2010) apresenta o riso como algo popular, uma herança do povo e afirma que esse fenômeno e suas formas constituem o campo

menos estudado da criação popular, sendo isso resultado de uma visão estreita do popular e do folclore oriunda do pré-romantismo e finalizada pelos românticos, os quais quase que totalmente excluíram aquilo que Bakhtin chama de cultura da praça pública, que seria toda a cultura popular e o seu humor. O filósofo afirma que quando se estudava o riso, este era totalmente deformado por se pretender estudá-lo sob uma estética burguesa. O fenômeno é visto por Bakhtin como se opondo à cultura oficial, ao tom sério, religioso e feudal da época, porém ele se fazia presente em todas as festividades de cunho carnavalesco, inclusive na Igreja por meio do riso pascal. Também nas cerimônias e rituais civis da vida cotidiana. E para melhor entendermos o riso, o autor nos explica “a natureza complexa do riso”, o qual, segundo ele, é carnavalesco, isto é, é como ingrediente essencial nas festividades de viés carnavalesco. Assim, Bakhtin (2010) nos explica que o riso

É, antes de mais nada, um riso festivo. Não é, portanto, uma reação individual diante de um ou de outro fato “cômico” isolado. O riso carnavalesco é em primeiro lugar patrimônio do povo (esse caráter popular, como dissemos, é inerente à própria natureza do carnaval); todos riem, o riso é “geral”; em segundo lugar, é universal, atinge todas as coisas e pessoas (inclusive as que participam no carnaval), o mundo inteiro parece cômico e é percebido e considerado no seu aspecto jocoso, no seu alegre relativismo; por último, esse riso é ambivalente: alegre e cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e sarcástico, nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente. (p. 10)

Dessa forma, o riso, segundo o fragmento acima, apresenta três características definidoras de sua natureza na Idade Média: popular, universal e ambivalente. Seria popular porque é um patrimônio do povo e por ele é usado contra a hegemonia, seria universal por ser geral e seria ambivalente em razão de ter um caráter regenerador e formar um ciclo de destruição e de regeneração, por unir os opostos sem se prender a um deles de maneira estanque. Sobre a ambivalência do riso, Minois (2003) afirma que

O riso tem um poder revolucionário. Melhor: é um verdadeiro demiurgo, uma potência criativa capaz de ressuscitar os mortos, cerzida na cultura popular da Idade Média, na qual a vida e a morte se misturam de forma inextricável, num processo indefinido e decomposição e renascimento. (p. 272)

Assim, o riso tem um poder de renovação nas mãos do povo, cujo objetivo é descentralizar o paradigma oficial durante uma limitação temporal, a limitação de tempo

própria das festas carnavalescas, visando uma mudança que ultrapassasse a temporalidade estabelecida. Para que ele surja, é necessário que uma característica da cosmovisão carnavalesca entre em cena: a alegre relatividade do mundo, tendo em vista que é ela que auxilia na gênese do riso ao passo que ela permite que se ria sem o receio de uma retaliação e faz com que o fenômeno tenha o caráter renovador e não destruidor. Assim, há uma relação de gênese do riso, devido à relatividade preparar o terreno para que ele surja, e de alimentação dessa relatividade, ao momento em que o riso ajuda a constituir a atmosfera da relatividade das coisas uma vez que ele auxilia na percepção de que as coisas não nasceram assim, mas se tornaram assim e apresenta uma esperança de mudança. Daí a força do riso. Outro elemento da cosmovisão carnavalesca que se faz presente para a constituição do riso carnavalesco é a zona de contato familiar por ela permitir que o riso seja geral, fazendo com que o escarnecedor seja alvo de zombaria, havendo, assim, uma permuta de papéis que visa a uma aproximação dos homens por meio da equidade que se almeja.

Bakhtin (2010) ressalta, ainda, a natureza utópica e o valor de concepção de mundo que o riso tem. Utópica em razão de, por meio do riso carnavalesco, se realizar algo impensável no mundo oficial: a equidade entre os homens, o fim da assimetria e das diferenças entre as pessoas, realizando um projeto que aparece na obra bakhtiniana e tem seu apogeu no conceito de polifonia que aparece na poética de Dostoiévski. Já a noção de concepção de mundo se liga à luta entre o oficial e o não oficial. Seria uma espécie de grito, de reação popular contra as injustiças e as disparidades cometidas por toda a superioridade, uma batalha em que de um lado ficaria o povo e, do outro, as instâncias que imperavam na Idade Média: a Igreja e a realeza. Concepção de mundo por ser uma forma peculiar de ver e julgar a vida e as circunstâncias, embasando-se em uma atmosfera cômica. Porém, a cultura popular do riso viveu e desenvolveu-se fora da esfera oficial e foi graças a essa existência extraoficial que ela conseguiu se distinguir por seu radicalismo e sua liberdade excepcionais, tendo a praça pública como palco. A verdade do riso englobava e arrastava a todos, de tal maneira que ninguém podia resistir-lhe. Assim, o riso da Idade Média foi homologado pela festa e perdurou até o Renascimento onde explodiu e, com o tempo, iniciou processo de degeneração.

O riso era tão importante na vida do homem medieval que ele sentia o fenômeno como uma vitória sobre o medo, não somente sobre o terror místico (terror divino) e o medo que inspiravam a força da natureza, no entanto, era uma vitória sobre o medo

moral que cercava o homem e obscurecia sua consciência, criando um medo de tudo o que é sagrado e interdito. Ao derrotar esse medo, o riso esclarecia a consciência do homem, revelando um novo mundo e criando uma sensação de liberdade no que tange a todas as correntes que o prendem através de sua mentalidade, muito embora essa libertação fosse apenas temporária e toda a superestrutura voltasse assim que a festa terminasse. Porém, sementes lançadas pelo riso eram lançadas na esfera do sério e servia de gérmen para que as transformações almejadas durante o cômico fosse também desejada na vida oficial, constituindo e alimentando a consciência do homem medieval. Sobre isso, Bakhtin nos explica que

O riso não é forma exterior, mas uma forma interior essencial a qual não pode ser substituída pelo sério, sob pena de destruir e desnaturalizar o próprio conteúdo da verdade revelada por meio do riso. Esse liberta não apenas da censura exterior, mas antes de mais nada do grande censor interior, do medo do sagrado, da interdição autoritária, do passado, do poder, medo ancorado no espírito humano há milhares de anos. [...] O riso revelou de maneira nova o mundo, no seu aspecto mais alegre e mais lúcido. (p. 81)

O riso, portanto, é usado como arma popular, como um modo de levar o homem medieval a outra consciência e lutar por ela. Assim, o riso está ao lado do homem popular medieval e jamais poderia ser instrumento de opressão e de embrutecimento do povo, devido a nunca se conseguir tê-lo tornado oficial, permanecendo, nessa perspectiva, uma arma de liberação nas mãos do povo. Sobre isso, em “Apontamentos de 1970-1971”, Bakhtin (2011) afirma que o riso junto com a ironia é uma superação da situação, como elevação sobre ela e apresenta as culturas dogmáticas e autoritárias enquanto unilateralmente sérias, enquanto amontoadoras de situações de impasse e o riso como aquele que se coloca sobre elas, que liberta delas. Assim, o riso não aprisionaria o homem, mas o libertaria. Por fim, vejamos o que o autor fala sobre a relação riso e libertação:

A índole social e coral do riso, sua aspiração ao popular e ao universal. As portas do riso estão abertas para todos e cada um. A indignação, a ira, a revolta são sempre unilaterais: excluem o fato de se indignarem com alguém, etc., provocam uma ira responsiva. Elas se dividem ao passo que o riso só unifica, não pode dividir. (Bakhtin, 2011, p. 370)

4 Referencial teórico: a contribuição bakhtiniana