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TEMA: Autentiske opplevelser i filmturisme

Construção do Parque, s/d, autoria desconhecida / Foto Folhapress

As fotografias acima reproduzidas revelam o espaço livre sendo trabalhado para que a implantação do Parque Ibirapuera pudesse acontecer. O fotógrafo, não creditado, parece ter se interessado não somente pelo grande vazio que seria ocupado, mas também pelos operários responsáveis pela transformação que ocorreria com a construção do Ibirapuera. Os homens aparecem trabalhando ainda com materiais simples, distantes da alta tecnologia construtiva a que o Parque finalizado pode aludir. O Parque em construção é ainda um terreno sendo remexido, uma paisagem rústica e disforme. A modernidade construída, conforme mostram as imagens, ainda está por vir.

Não tardam, porém, reportagens nos jornais a respeito de todo o trabalho sendo empenhado para que o Ibirapuera fosse finalizado e utilizado como palco das comemorações do aniversário de São Paulo. Manchetes como “3.000 operários trabalhando” e “A sinfonia das máquinas no tapete verde do Ibirapuera, não cessa o trabalho – a 25 de janeiro de 1954 deverá ser inaugurado o maior parque do Brasil”159 evidenciam a narrativa que estava sendo criada a

respeito da importância do Parque dentro da cidade e do país e sobre como não estavam sendo poupados esforços para que ele pudesse ser implementado. O uso da palavra “trabalho” é significativo, pois, como já se viu, remete ao esforço paulista no passado e no presente, dentro do âmbito do capitalismo que propicia a modernidade da cidade. O uso simbólico da expressão

159 Folha da Manhã em 5 de abril de 1953, p.1. Disponível em: <http://acervo.folha.uol.com.br/fdm/1953/04/05/1/>.

“sinfonia das máquinas” remete a um trabalho bem orquestrado que, com o uso de tecnologia, além do esforço humano, irá resultar em uma grande obra.

Folha da Manhã, 5 de abril de 1953, autoria de Gil Passarelli e Angelo Pirozelli160

As fotografias são de autoria de Gil Passarelli, que trabalhou na Folha de S. Paulo por mais de cinquenta anos, consagrando-se como um dos mais importantes fotojornalistas brasileiros, e de Angelo Pirozzelli, um fotógrafo com poucos registros biográficos. As imagens destacam os operários, relacionando, mais uma vez, a pujança de São Paulo ao trabalho que era incessante e que levava à construção de “uma casa de seis em seis minutos”, fazendo com que a cidade fosse conhecida como “fermento”161.

160 Disponível em: <http://acervo.folha.uol.com.br/fdm/1953/04/05/1/>. Acesso em:22/05/2014.

161 Slogans da época. Ver BREFE, Ana C. Fonseca. As cidades brasileiras no pós-guerra. São Paulo: Atual,

/

Folha da Manhã, 13 de setembro de 1953, p. 9, autoria de Gil Passarelli162

Igualmente, artigo publicado na Folha da Manhã, em setembro de 1953, com fotografias também de Gil Passarelli, traz a manchete “Em ritmo acelerado as gigantescas obras do Ibirapuera”163, em que o uso do adjetivo “gigantescas” é significativo e faz alusão à

dimensão que o Parque terá dentro do escopo geral da cidade.

Folha da Manhã, 29 de março de 1953, p.1, autoria não creditada164

Segundo o texto que acompanhou a imagem que revela o projeto do Ibirapuera, publicada na Folha da Manhã em março de 1953,

A gravura mostra, em pormenores, como se apresentará o Parque Ibirapuera no ano de 1954, depois de concluídas as obras de construção de edifícios, de pavimentação, ajardinamento e arborização que a Comissão do IV Centenário de São Paulo está realizando naquele logradouro, o qual será, assim, recuperado e definitivamente

162 Disponível em: <http://acervo.folha.uol.com.br/fdm/1953/09/13/1/>. Acesso em: 22/05/2014.

163 Folha da Manhã em 13 de setembro de 1953. Disponível em: <http://acervo.folha.uol.com.br/fdm/1953/09/13/1/> 164 Disponível em: <http://acervo.folha.uol.com.br/fdm/1953/03/29/1/>. Acesso em: 22/05/2014.

entregue com os requisitos do parque público ao uso da população paulistana e de nossos visitantes. Noite e dia, sem parar, centenas de operários executam as tarefas.165

Mais uma vez, percebe-se a alusão ao trabalho incessante que estava em curso para que a cidade de São Paulo pudesse ganhar este novo e “gigantesco” logradouro público.

No Ibirapuera, começaram a ser construídos os seguintes pavilhões: o Palácio das Indústrias, atualmente conhecido como Pavilhão Ciccillo Matarazzo, sede da Fundação Bienal, concebido originalmente para abrigar exposições da indústria paulista na Feira Internacional; o Palácio das Exposições, hoje denominado de Pavilhão Lucas Nogueira Garcez ou de ‘Oca’, destinado, em 1954, a abrigar uma exposição da história de São Paulo; o Palácio das Nações, hoje conhecido como Pavilhão Manoel da Nóbrega, sede do Museu Afro-Brasileiro, destinado, em 1954, a abrigar as exposições dos países participantes da Feira; o Palácio dos Estados, que originalmente abrigou as exposições dos estados brasileiros participantes da Feira, é atualmente conhecido como Pavilhão Engenheiro Armando Arruda Pereira, tendo sido sede do Prodam e que hoje constitui o Pavilhão das Culturas; o Palácio da Agricultura, antigo prédio do Detran- SP e que hoje abriga o MAC-USP, que, segundo projeto original, seria salão de exposições, restaurante e hospedaria. Começou a ser construída também a marquise, em que se empregou a maior quantidade de ferro já utilizada na América do Sul. Com sua forma irregular, abarcando mais de seiscentos metros de comprimento, a marquise interligava os pavilhões das Indústria, das Nações e dos Estados. Foi elaborado ainda, como parte integrante da área livre do Parque, um conjunto de lagos que ocupam uma área de cento e cinquenta e sete mil metros quadrados.

165 Folha da Manhã em 29 de março de 1953. Disponível em: <http://acervo.folha.uol.com.br/fdm/1953/03/29/1/>.

Lago do Parque Ibirapuera em construção, 1952, Sebastião Assis Ferreira / Acervo Fotográfico do Museu da Cidade de São Paulo, classificação DC/0000199/F

Para a formalização dos lagos sinuosos do Ibirapuera, os projetistas represaram o córrego do Sapateiro, que corria na região e ajudava a criar a várzea do Ibirapuera166.

Onde antes, principalmente no período das chuvas, se acumulava grande volume de água que não raro se tornava putrefata; onde os menores desocupados iam banhar-se e onde chegaram mesmo a desaparecer algumas vidas, há hoje lagos a embelezar aquele logradouro. Para recreação dos visitantes da Exposição do IV Centenário e I Feira Internacional de São Paulo, está se procedendo presentemente à instalação de um serviço de barcos a motor, que servirão igualmente para transportes individuais e coletivos, tendo cada embarcação destinada a este último fim, capacidade de abrigar confortavelmente de dez a vinte passageiros. Ao longo das margens dos lagos haverá quatro embarcadouros flutuantes, cada um dispondo, ao lado, de um bar, que atenderá aos que esperam a vez de embarcar para passeios ou para transportar-se aos pontos mais distantes do parque167.

Apesar de estar previsto em projetos, o Auditório, que deveria abrigar congressos e apresentações teatrais e musicais, não foi construído em 1954. O conjunto que seria formado pelo Palácio das Exposições e pelo Auditório era enfatizado, por Niemeyer, como elemento de grande importância arquitetônica e plástica para o Ibirapuera.

166 Cabe notar que, conforme apontou Yuri Tavares Rocha, o sítio natural do Ibirapuera “não foi valorizado, com

aproveitamento dos cursos d’água e sua integração ao projeto, a não ser para serem represados e formarem os lagos. Também não se utilizaram plantas adaptadas às várzeas e plantas aquáticas integradas ao projeto. Ou seja, a água e os ambientes associados, componentes principais da paisagem natural original, não foram incorporados devidamente ao projeto do Parque.” Ver ROCHA, Yuri Tavares. Teoria Geográfica da Paisagem na Análise de Fragmentos de Paisagens Urbanas de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. In: Revista Formação, n.15 volume 1, p.29.

167 As obras do Parque Ibirapuera no IV Centenário de São Paulo, Comissão do IV Centenário da cidade de São

Folha da Manhã, 30 de junho de 1953, p. 8, autoria não creditada 168

Este edifício, contudo, só foi erguido em 2005. Segundo Niemeyer:

Durante anos a entrada do Parque Ibirapuera não foi completada, e a cúpula destinada a grandes exposições, entregue à Aeronáutica para mostra de aviões. E esse equívoco, que lhe tirava a escala, levou-me a esquecê-la completamente169.

Como o projeto original do Parque não foi executado, com uma das supressões “mais clamorosas” tendo sido o Auditório, destinado a abrigar cerca de duas mil pessoas, o uso de imagens de maquetes, principalmente na revista Módulo, ganha particular relevância, pois permite ao observador compreender como o projeto foi idealizado e não somente como ele foi “deformado”, segundo artigo publicado na mesma revista.

A Módulo apresentava-se como uma revista de arquitetura e artes plásticas e era dirigida por Oscar Niemeyer, além de outros integrantes: o engenheiro Joaquim Cardoso, Rodrigo Melo Franco de Andrade, então diretor do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN), o escritor Rubem Braga e o arquiteto Zenon Lotufo. O fato da revista possuir alta qualidade gráfica e artigos resumidos em inglês, francês e alemão, nos primeiros números, para depois serem traduzidos na íntegra e reunidos em separata, demonstra

168 Disponível em: < http://acervo.folha.uol.com.br/fdm/1953/06/30/1/>. Acesso em: 22/05/2014. 169 NIEMEYER, Oscar. Minha Arquitetura. Rio de Janeiro: Revan, 2000, p.31.

sua ambição de ser internacional e de revelar, portanto, os projetos modernistas de Niemeyer não somente para o Brasil, mas também para o exterior170. A Módulo foi, assim, um veículo

relevante para a divulgação e consagração nacional e internacional do modernismo arquitetônico brasileiro, ainda que ela fosse voltada, prioritariamente, para as obras do Rio de Janeiro e, em seguida, para as de Brasília.

“Anteprojeto original” / Módulo no.1, março de 1955,

p.19171 respectivamente / Módulo no.1, março de 1955, “Projeto aprovado e projeto executado”,

p.19172

Nesse sentido, o uso de fotos de maquetes do Ibirapuera permitia a divulgação não só da obra em si, mas também do que não havia sido construído de acordo com o projeto, o que, para os arquitetos, o havia “mutilado”:

Suprimiram o Auditório – e o conjunto ficou inegavelmente capenga. Basta atentar para o seu traçado atual e se compreenderá o que foi dito. A arrojada “marquise” parece algo inacabado (e, realmente, o é) ou mal iniciado: sai de um ponto qualquer, desagarrada. É que foi suprimido o seu alongamento até o Auditório, também suprimido173.

Apesar da discrepância entre projeto e execução, as obras no Ibirapuera continuaram em andamento e fotógrafos continuaram a registrá-las, ainda que, como nos exemplos das fotografias

170 Ver ANGOTTI-SALGUEIRO, Heliana. Marcel Gautherot na revista Módulo – ensaios fotográficos, imagens

do Brasil: da cultura material e imaterial à arquitetura. Anais do Museu Paulista. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-47142014000100011&script=sci_arttext>. Acesso em: 17/09/2015.

171 A autoria (não especificada) é de um dos fotógrafos listados no índice da revista: Jean Manzon, José e

Humberto Franceschi, Kasmer, Marcel Gautherot ou Rafael Landau.

172 A autoria (não especificada) é de um dos fotógrafos listados no índice da revista: Jean Manzon, José e Humberto

Franceschi, Kasmer, Marcel Gautherot ou Rafael Landau.

de maquetes publicadas na Módulo, muitas vezes os fotógrafos nas revistas não fossem creditados especificamente. No caso desse primeiro número da revista, os fotógrafos cujas imagens foram utilizadas foram listados, mas somente no índice, em ordem alfabética: Jean Manzon, José e Humberto Franceschi, Kasmer, Marcel Gautherot e Rafael Landau. A menção à autoria junto a cada imagem específica não ocorreu nessa primeira edição. Cabe notar que o

anonimato do fotógrafo de arquitetura era a regra no cenário internacional, tema estudado na literatura estrangeira a respeito das revistas modernistas da vanguarda que circulam fartamente ilustradas desde os anos 1920. (...) A partir dos anos 1940, quando a arquitetura moderna brasileira começara a ocupar as páginas de livros e periódicos internacionais, a tendência de não citar o nome do fotógrafo em relação a cada clichê permaneceu, podendo seus nomes, todavia, constar em sumários ou nos textos de apresentação174.

Ainda que houvesse inconstância do crédito ao fotógrafo nas imagens impressas, um nome significativo na fotografia de arquitetura é o de Francisco Albuquerque, fotógrafo cearense que participou do Foto Cine Clube Bandeirante em São Paulo e que também trabalhou com retratos, publicidade e cinema. A produção de Chico Albuquerque, como era conhecido, era essencialmente moderna com relação a sua escolha de enquadramento do espaço e a sua linguagem. Por isso é importante entender sua obra dentro do contexto do circuito do Foto Cine Clube Bandeirante que, naquele período, estruturou a linguagem moderna na fotografia brasileira.

174 ANGOTTI-SALGUEIRO, Heliana. Marcel Gautherot na revista Módulo – ensaios fotográficos, imagens do

Brasil: da cultura material e imaterial à arquitetura. Anais do Museu Paulista, p. 16.

Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-47142014000100011&script=sci_arttext>. Acesso em: 17/09/2015.

Parque do Ibirapuera em construção, 1954, Chico Albuquerque/ Acervo IMS

A imagem de Chico Albuquerque revela experimentação formal ao explorar caminhos geométricos valorizados com o recorte do olhar. A vista oferecida pela fotografia em questão é pontual, pois isola o motivo de seu contexto maior, de modo que não se pode identificar qual a obra sendo construída. A principal intenção parece ser a articulação dos objetos e dos trabalhadores de maneira a fazer uma composição formal, de efeito valorativo. Nessa fotografia, os sujeitos humanos aparecem retratados como elementos importantes da composição, embora suas imagens estejam ensombradas, como silhueta. Os operários parecem estar flutuando entre as estruturas de ferro e o trabalho parece ser “esvaziado de conotações conflituosas.”175 Ainda

que não constitua o foco principal da imagem, pode-se perceber a condição precária de trabalho dos sujeitos, pois não lhes parece ter sido providenciado nenhum tipo de medida de segurança.

175 CARVALHO, Vânia Carneiro de e LIMA, Solange Ferraz de. Fotografia e cidade: da razão urbana à lógica

Pode-se, assim, interpretar essas imagens como modernas, tanto no sentido imagético quanto no sentido da lógica heterogênea do capital. A pouca atenção conferida aos operários, assim como a condição precária de trabalho deles, que pode ser percebida nas imagens, demonstram atitudes que podem ser interpretadas como excludentes, pois estariam promovendo uma modernização incompleta, sem alterar as bases historicamente marginalizadas da sociedade brasileira. A qualidade arquitetônica, contudo, apresenta-se como moderna ao inovar em suas formas, atitude possibilitada, para além da capacidade imaginativa dos projetistas, por uma tecnologia construtiva avançada. Igualmente, a qualidade plástica da imagem de Albuquerque revela uma modernidade estética, que reformulou preceitos pictorialistas até então vigentes e promoveu uma valorização das especificidades da linguagem fotográfica.

Outras imagens significativas do Ibirapuera dizem respeito à construção do Palácio de Exposições, mais conhecido atualmente como “Oca”. Essa construção, que consiste de uma seção de esfera, é um dos edifícios mais facilmente reconhecíveis do Ibirapuera por remeter a um espaço lunar, ou mesmo a uma espaçonave. Contudo, ao mesmo tempo em que a forma arquitetônica remete ao futuro, ela também refere-se ao passado. O próprio nome popular do pavilhão, “oca”, refere-se à semelhança que a estrutura hemisférica possui com a típica habitação indígena, em tupi-guarani. Essa construção parece simbolizar o intuito da arquitetura moderna brasileira de unir passado e presente para construir um novo futuro.

“O prédio da Oca em construção”, 1954, autoria incerta / Revista Abril – IV Centenário176

A Acrópole, revista de arquitetura voltada para a divulgação principalmente do modernismo paulista, mas que também publicava artigos sobre obras de outras partes do Brasil e mesmo de outros países, trouxe, em agosto de 1954, fotografias dos diferentes estágios de construção do Palácio das Exposições, de autoria de Zanella-Moscardi, dupla formada pelo imigrante italiano Hugo Zanella e José Moscardi, natural de Campinas, mas também de origem italiana. Moscardi era cunhado e sócio de Zanella e ambos começaram a trabalhar documentando arquitetura moderna paulista para a Acrópole ainda na década de 1940, prática que se estendeu até 1970, um ano antes do término da revista.

176 Apesar da Revista Abril não ter creditado a imagem, o mini catálogo “Parque Ibirapuera / (Editor) Instituto

Cultural Itaú – São Paulo: ICI, 1996, p.30” indica essa fotografia como sendo de autoria de Boer. Disponível em: <http://www.abril.com.br/especial 450/materias/ibirapuera/foto2.html>. Acesso em 19/05/2014.

“Palácio de Exposições em construção”, Zanella-Moscardi / Acrópole 191, agosto de 1954, p.497

Por meio das fotografias de Zanella-Moscardi, e de suas legendas, é possível perceber o interesse em documentar os diferentes estágios de construção do edifício: “1. Detalhe da armação dos pilares e anel do caso; 2. Detalhe de execução: vêem-se as sapatas da cúpula e a 1ª lage, note-se o poço de inspecção do dreno; 3. Detalhe de execução: vêem-se as sapatas da cúpula, o muro de arrimo, lage do 1º pavimento e moldes do 2º pavimento; 4. Cimbramento em execução, vendo-se uma cambota mestra de onde partem as cambotas secundárias; 5. Detalhe da armação, dos pilotis, e anel das cascas; 6. Detalhe da armação das rampas.” É possível pensar que esse interesse fosse devido à vontade de retratar o próprio avanço tecnológico (moderno) que permitiu a construção da obra, descrita no próprio artigo da revista como sendo “das mais grandiosas”, com setenta e seis metros de altura de cobertura, livres de pilares ou colunas. Em virtude de sua forma circular e do tipo de teto adotado, sem vigas aparentes, houve uma grande concentração de ferragens, conforme pode-se observar na última fotografia da página da revista, formando um padrão gráfico.

Como de costume nas imagens da época, a arquitetura é o principal objeto retratado; os operários aparecem em miniatura, sem características particulares, apenas conferindo escala à obra “gigantesca”. “A gestualidade dos corpos dos operários está voltada para a finalidade produtiva (...) os sentidos de disciplina e funcionalização são predominantes.”177

O layout dessa página da Acrópole é de um interesse que ultrapassa as imagens individuais que nela aparecem. Percebe-se, na página, uma relação próxima entre imagem e palavra. Nesse caso, ambas são mostradas de forma complementar. É necessário abordar, contudo, apesar da complementariedade, a preponderância da imagem em comparação com o texto. Essa é uma característica que começa, na década de 1950, a ser dominante nas publicações de arquitetura. Esse deslocamento entre as duas formas de comunicação responde a uma imersão icônica existente sobre os conteúdos relacionados a essa disciplina. Mais especificamente “a imagem não mais ilustra a palavra”; “é a palavra que se torna, estruturalmente, um parasita de imagem.”178 A predominância da imagem fica ainda mais

evidenciada pelo fato de fotografias estarem sendo consideradas, na época, como o recurso ideal para o transporte de informação visual179.

177 CARVALHO, Vânia Carneiro de e LIMA, Solange Ferraz de. Fotografia e cidade: da razão urbana à lógica

do consumo: álbuns da cidade de São Paulo, 1887-1954. Campinas-SP: Mercado de Letras, 1997, p.186.

178 BARTHES, Roland. The obvious and the obtuse. Barcelona: Paidos, 1986, p.21.

179 Contudo, também é preciso notar, conforme aponta Gonzalo Munõz Vera que, sem legendas, imagens fotográficas como

essas, apesar de possuírem destaque, perdem clareza. O texto, seja ele em forma de legenda ou não, pode, por vezes, desempenhar papel secundário em relação à fotografia, mas esse papel é importante para conferir equilíbrio entre racionalismo e subjetividade, características inerentes à própria fotografia. Ver MUÑOZ VERA, Gonzalo. Role of

Photography on the understanding and spreading of architecture. Disponível em: <http://cargocollective.com/gonzalomunozv/papers-Role-of-Photography-on-the-understanding-and-spreading-of>. Acesso em: 15/07/2014.

Página publicitária do Palácio das Exposições em construção, autoria não creditada / Módulo no.1, março de 1955

As imagens do Palácio de Exposições em obras, reproduzidas acima, foram publicadas na revista Módulo, sem autor identificado, para fins de publicidade da empresa responsável pela construção do edifício: Monteiro, Wigderowitz & Monteiro, Ltda. A primeira fotografia da página, maior em tamanho, enfoca uma parte do prédio ainda sem parcela de sua “casca branca” e com materiais de construção espalhados pelo chão. A dimensão do edifício pode ser