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referência ao ritmo natural das horas, à “verdade das horas”. Não podemos deixar de mencionar também a clericalização, que restringiu a celebração do Ofício ao clero e aos monges, tornando impossível a participação do povo. Após este período de sobrecarga e decadência, virão os quatro séculos (XVI-XX), que se caracterizaram por tentativas de reformas do Ofício Divino, no fim das quais se sobressai a do Concílio Vaticano II, mais profunda que todas as demais e, ao mesmo tempo, em consonância com a tradição.

2. 1. 1.1. A oração cristã no Novo Testamento e os seus antecedentes hebraicos

Ao iniciar o estudo da história do Ofício Divino ou da Liturgia das Horas, nos perguntamos sobre as raízes mais profundas da oração cristã. É no húmus histórico, espiritual e cultural de Israel, povo que sabia orar e foi mestre de oração, que vamos encontrar estas raízes. Por conseguinte, não podemos buscar as origens da oração cristã sem nos referirmos aos seus antecedentes hebraicos.

Indagar sobre a oração na bíblia é deparar-se com um povo – Israel - cuja história pode ser definida como a história de sua oração, um povo cuja oração tem como pressuposto a sua história: Israel reza fazendo anamnese, fazendo memória de sua história; por sua vez, a história de Israel torna-se memória em sua oração80. Em outras palavras: a oração do povo de

Israel reza a sua história, acompanha a sua história e a história de Israel está presente em sua oração.

Podemos constatar uma continuidade entre o ritmo da oração judaica e o culto cristão, apesar da ruptura mais ou menos rápida deste com relação à liturgia da sinagoga e às prescrições da antiga Lei. Com certeza, esta continuidade é devida ao fato de as primeiras comunidades serem judeu-cristãs e também porque a Sagrada Escritura não deixou de ser lida e meditada.

Inicialmente, a oração de Cristo e dos apóstolos tinha a oração judaica como pano de fundo. Muitos elementos formais e de conteúdo, da oração de Jesus e dos primeiros cristãos, se originaram do ambiente humano e religioso do povo judaico ao qual pertenciam, e que era um povo de profunda vivência de oração.

No tocante, porém, ao costume de rezar em determinados momentos do dia – especialmente à tarde e pela manhã – estamos diante de um fenômeno que transcende a história

da religião de Israel e do cristianismo: fatos semelhantes se verificam em outros usos cultuais do passado e do presente. Portanto, como fato externo, o rezar em determinados momentos do dia pode ser considerado uma observância de religião natural81.

A Igreja dos apóstolos continuava o costume dos judeus de rezar nas horas em que se realizavam os sacrifícios: pela manhã (às 6 horas) e ao cair da tarde (às 18 horas), e também ao meio-dia. O sacrifício da manhã podia ser adiado para as 9 horas, e o da tarde podia ser antecipado para as 15 horas 82.

A oração cristã é constituída, em grande parte, por uma herança da Antiga Aliança transmitida a nós. A oração de Israel, como a de inúmeros outros povos, obedecia basicamente a um duplo ritmo. Duas vezes por dia, à tarde e pela manhã, o israelita piedoso suspendia suas atividades e elevava a Deus uma prece de ação de graças pelos benefícios recebidos na história do povo. Este ritmo de oração se funda na prescrição do Deuteronômio (cf. Dt 6,4; 6,7), que consiste na recitação do Shemá vespertino e matutino.

O louvor da tarde era a ação de graças pelos benefícios de Deus em geral, e, de modo especial, pelas maravilhas operadas pelo Senhor na Páscoa da libertação do Egito e na travessia do Mar Vermelho.

O louvor matutino tinha como conteúdo os benefícios de Deus na história em geral, mas, sobretudo, os benefícios da Aliança do Sinai e de todas as alianças de Deus com o seu povo. Portanto, o louvor da manhã era, antes de tudo, uma celebração diária da vida, da experiência da vida, da experiência pascal, despertada pela experiência do novo dia que surge.

Porém, perguntar-nos pela oração cristã propriamente é, sem dúvida alguma, encontrar-nos com o mestre e modelo de oração do Novo Testamento, Jesus: Ele nasceu de um povo que sabia orar e que rezou no contexto dos lugares, conteúdos e horas, conforme os costumes de seu povo, emprestando-lhes, porém, um novo significado83, pois Jesus é judeu e o

é para sempre. Ele é plenamente um homem do seu tempo e do seu ambiente israelita palestinense do século I.

O culto e a oração de Jesus são realizados “em espírito e verdade” (cf Jo 4,23-24) 84 e aqui reside a novidade, o novo. Jesus anuncia, para o tempo messiânico, um culto que já não está ligado a um determinado lugar, mas que supera qualquer culto então existente. Os cultos

81 Cf. PINELL, Jordi. Liturgia delle Ore (Anàmnesis 5), p. 17.

82 Cf. TAFT, Robert. La Liturgia delle Ore in Oriente e in Occidente., p. 23. 83 Cf. CANALS, J. M. op. cit., p. 279.

84 Sobre Jesus como modelo de orante e mestre de oração e sobre a originalidade de sua oração, cf. CANALS, J. M. op. cit., p. 284-

judaicos ou não-judaicos não terão mais valor, estarão ultrapassados, pois será inaugurado um culto novo. Portanto, por um lado, Jesus continuou a observância dos costumes piedosos de sua época; ao mesmo tempo, porém, trouxe novidade e ruptura com relação a eles.

A oração de Jesus se caracteriza pela proximidade com o Pai (cf. Mc 14,36; Rm 6,15): é a familiaridade e a intimidade de Filho; pela distância dos critérios do mundo: “Eu te louvo, ó Pai... porque ocultaste essas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos” (Lc 10,21) que são os discípulos, aos quais são reveladas essas coisas. Enfim, a oração de Jesus se caracteriza pelo reinado de Deus. A paternidade de Deus dá fundamento e razão de ser ao reinado, e a concepção de reinado dá razão ao ser de Deus como Abbá. O resumo da oração que Jesus ensinou aos discípulos é: “Abbá, venha o teu reino”.

A oração de Jesus brota de seu ser e de sua missão, no contexto destas palavras: “Tu és meu Filho bem-amado” (Mc 1,11) e “meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou”(Jo 4,34). A oração de Jesus ocupa o centro de sua vida. É bem evidente a ligação entre a sua atividade cotidiana e a sua oração. Mais ainda: a oração de Jesus como que brotava desta sua atividade (cf. por exemplo, Lc 5,16; Mc 6,46; Lc 9, 28-29 e outros). E Jesus convida insistentemente os seus discípulos à oração, no momento da agonia, não apenas para que eles partilhem daquela sua dolorosa vigília e sejam preservados da tentação; na realidade, trata-se de um sinal escatológico, a espera do Mestre e do Esposo no coração da noite: “Vigiai e orai” (Lc 21,36; cf Mc 13,33). Jesus diz, enfim, que a oração deverá ser contínua, ininterrupta. E é nesta oração que Jesus insiste, é esta oração que Ele propõe aos seus discípulos (Lc 18,1) e este será também o ideal da primeira comunidade cristã 85.

A comunidade primitiva não possuía nenhuma estrutura própria de oração nem qualquer acervo de textos que fosse uma expressão da pregação e da doutrina de Jesus. Foi através do aprofundamento da doutrina e do exemplo de Jesus, no contexto da tradição judaica, na qual o próprio Senhor tinha vivido a sua relação com o Pai, na oração, que as primeiras gerações cristãs supriram esta lacuna.

Quando percorremos os evangelhos, percebemos o quanto estes estão conscientes do enxerto judaico da oração cristã. Ao buscarmos o fundo hebraico da oração cristã no Novo Testamento 86 podemos entrever os primeiros convertidos hebreu-cristãos recitando as mesmas orações e guardando os mesmos horários dos hebreus, seus contemporâneos, o que nos leva a

85 Cf. TAFT, Robert. op.cit. p. 19. 86 Ibid. p.20-21.

considerar que, tempos, modos e finalmente textos do Antigo Testamento constituíram a parte essencial da oração cristã desde o início.

O primeiro e mais explícito texto do Novo Testamento sobre o culto cristão é o capítulo 11 da primeira Carta aos Coríntios. Este capítulo trata da Ceia do Senhor, mas o capítulo 14, único texto do Novo Testamento que pode ser considerado um autêntico tratado sobre o culto cristão, descreve uma sinaxe com pessoas que falam em línguas, com revelações, profecias, ensinamentos, salmodias, bênçãos, ações de graças, fórmulas como maranatha, e

amém. Outras cartas contêm fórmulas que surgiram depois 87.

A oração dos judeus se realizava no templo, na sinagoga e em casa88. Mas, não se pode afirmar simplesmente que os primeiros cristãos de Jerusalém tenham continuado a praticar, sem dificuldade, o culto judaico. No livro dos Atos (cf 3,11-4,31; 5,12-42), encontramos os cristãos reunidos no pórtico de Salomão, como grupo separado, para rezar a Jesus reconhecido como Cristo, e, por este motivo mesmo, eram perseguidos pelos judeus.

Não se sabe com exatidão em que consistia a oração comunitária dos cristãos na sinagoga, nem em que dias a mesma se realizava. Parece que, ao menos no sábado, havia uma celebração pela manhã e uma à tarde. A celebração da manhã incluía a recitação do Shemá ou do Tefillah ou algumas bênçãos e ainda leituras da Lei e dos Profetas (cf Lc 4,16-30). É verdade que encontramos Paulo na sinagoga, pregando o Cristo, em suas viagens missionárias (cf. At 9, 20-23; 13,5-14,7; 16,13-24; 17,1-17; 18,4-19; 19,8-10), e sendo, por este motivo, perseguido. Portanto, não podemos nos apoiar nesta prática de Paulo para afirmar que o culto cristão se realizasse na sinagoga. Parece, pelo contrário, que, bem cedo, os primeiros cristãos tenham constituído uma “sinagoga” composta só de cristãos. A carta de São Tiago, dirigida a judeus convertidos ao cristianismo, faz referência à “vossa reunião” (literalmente: “sinagoga”) (Tg 2,2) e o evangelho de Mateus registra a advertência de Jesus aos seus seguidores de rezar de preferência em casa (cf Mt 6,5-6), o que revela a existência de uma certa tensão entre a Igreja e a Sinagoga, naquele período (cf Mt 10,7; 23,24).

Tem-se mais certeza da oração cristã doméstica, ou seja, da oração realizada em casas particulares (cf At 2,1. 46; 4,23-31; 12,5. 12). O Shemá, que é mais um credo que uma oração, e compreendia quatro passagens, que resumiam a Lei (o Decálogo e ainda Dt 6,4-9; 11,13-21; Nm 15,37-41), era recitado no início e no fim do dia. Estas perícopes eram precedidas

87 Rm 15,33; 16,16.20.27; 1Cor 1,3; 12,13; 16, 19-24; 2 Cor 1,2 ss; 13,12-14; Gl 1,3-5; 6,18; Ef 1,2; Cl 1,2; 4,18; Fil 1,2; 4,9.23; 1

Ts 1,1; 2,28; 2 Ts 1,2; 3,16.18; 1 Tm 1,2; 6,21; 2 Tm 1,2; 2,18.22; Tt 1,4; 3 ,15; Fm 3; Hb 13,21; 1 Pd 1,2; 5,14; 2 Jo 3; 3 Jo 15; Jd 2,25 etc.

de duas bênçãos de ação de graças pelo dom da criação e da revelação. A conclusão consistia numa bênção em agradecimento pela libertação do Egito, e, à tarde, numa oração pelo repouso.

Sabemos que os cristãos rezavam “todos os dias” (At 2, 46), ou melhor, “constantemente” (1 Ts 1,2). Rezavam a sós (At 10,9), juntos (2,46), quando estavam separados (20,36-38; 21,5). Rezavam em casa (At 2,46; 10,9; 12,5-12), no templo (2,46; 3,1; Lc 24,53) ou na sinagoga (13,14-15). Em suas orações, usavam salmos da bíblia, cânticos e bênçãos ou composições de um gênero literário do mesmo tipo 89. As orações dos cristãos incluíam louvores e bênçãos, ação de graças e confissões de fé 90; súplicas para superar tentações, para cumprir a vontade de Deus, para o perdão dos perseguidores, pela salvação de Israel, pela ajuda na pregação do evangelho, pela vinda do reino, pelo perdão dos pecados, pelos governantes e pela paz, pela sabedoria, pela santidade, para não pecar, pela força e a perseverança, pela fé, a esperança, o amor, a saúde, a revelação, a iluminação e o dom do Espírito91.

Com relação ao ensinamento explícito e ao preceito de orar, o Novo Testamento mostra que os cristãos devem rezar com insistência (Mt 7,7-12; Lc 11,5-13; 18,1-8), sem nunca cessar (Lc 18,1; 21,36; Ef 6,18; Cl 4,2; 1 Ts 5,16-18), com fé e confiança (Mc 11,24; Lc 18,1) e humildemente (Lc 18, 9-14), sem hipocrisia nem ostentação, nem com muitas palavras (Mt 6,5- 8). Enfim, os cristãos devem estar de sobreaviso (Lc 21,36; Cl 4,2), vigilantes e em oração para não cair em tentação (Mt 6,13; 26,41; Lc 11,4).

O modelo de oração oferecido é a oração do Senhor (Mt 6,9-13; Lc 11,2-4): os cristãos devem rezar a Deus como a um pai, apresentando-lhe, depois, as intenções. Além disso, lemos que os cristãos rezavam em nome de Jesus (Mt 18,19-20; Jo 14, 13-14; 15, 16; 16,23-26; 1 Cor 1,2; Cl 3,17). Este ensinamento do Novo Testamento sobre a oração contém um preceito, que é repetido com frequência, que a tradição posterior aplicará ao Ofício Divino: “rezar sem cessar” (1 Ts 5,16-18; Cl 4,2; Ef 6,18; Lc 18,1).

Concluindo esta breve reflexão sobre os antecedentes hebraicos da oração cristã no Novo Testamento e sobre o fundamento judaico e neotestamentário da Liturgia das Horas, podemos dizer apenas que tanto os cristãos como os judeus costumavam rezar em horas determinadas, e os momentos mais importantes da oração litúrgica pública foram, em ambas as

89 “Salmos, hinos e cânticos espirituais”: Cl 3,16-17; Ef 5,18-20; hinos especialmente cristãos: Fil 2,6-11; Cl 1,15-20; Ef 2,14-16;

5,14; 1 Tm 3,16; 1 Pd 3,18-22; Heb 1,3; Jo 1, 1-18; Lc 1, 46-55; 1,68-79; 2,29-32.

90 Rm 1,8; 15,6. 9-11. 30.32; 1 Cor 11,4; 2 Cor 1,3 ss; 1 Ts 2,13; 2 Ts 1,3; Ef 1, 3.9 ss; Cl 11,3 ss Fil 11,3 ss; 2 Tm 1,3; 1 Pd 1,3 ss;

Fm 4 ss.

tradições, os do início e do fim do dia. Estas são, porém, horas dedicadas à oração em toda tradição religiosa, e não uma originalidade de Israel ou do cristianismo.