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A Psicologia Sócio-Histórica é uma vertente teórica que surge baseada na Psicologia Histórico-Cultural de Vygotsky do século XX que, segundo Rosa (1999), teve como objetivo apresentar uma nova visão da Psicologia a partir do referencial marxista.

Ela se apresenta como uma possibilidade de superar as visões dicotômicas sobre fenômeno psicológico que eram pensadas até o século XIX. Essas visões compreendiam o homem de diferentes maneiras, mas sempre escolhiam um pólo para se basear, considerando que um fenômeno ou é natural ou social; ou interno ou externo; que o homem ou é autônomo ou determinado. A proposta da Psicologia Sócio-Histórica vem como uma visão crítica a essas posições, ao considerá-las reducionistas. De acordo com Rosa (1999), ela rompe com a dicotomia indivíduo/sociedade, mundo subjetivo/mundo objetivo e compreende que a subjetividade é singular, mas também é, ao mesmo tempo, social e histórica.

Essa nova visão incentiva a produção de uma psicologia dialética. Essa se fundamenta no marxismo e adota o materialismo histórico e dialético como filosofia, teoria e método. Essa concepção defende que “a base de toda a sociedade e de sua formação, de seus valores e idéias e até mesmo de suas transformações está nas condições materiais, na maneira como os homens se organizam nesta sociedade para garantir sua sobrevivência, nas relações concretas aí vividas.” (Rosa, 1999, p.31).

Ela considera o homem como um ser ativo, social e histórico e pensa “a sociedade, como produção histórica dos homens que, através do trabalho, produzem sua vida material. As idéias, como representações da realidade material. A realidade material, como fundada em contradições que se expressam nas idéias. E a história, como movimento contraditório constante do fazer humano, no qual, a partir da base material, deve ser compreendida toda produção de idéias, incluindo a ciência e a psicologia”, (Bock, 2001, p.17).

Para a Psicologia Sócio-Histórica o fenômeno psicológico se desenvolve ao longo do tempo, não pertence à natureza humana, ou seja, não é pré-existente ao homem e reflete a condição social, econômica e cultural em que vivem os homens. Ao falar desse fenômeno é obrigatório pensarmos a sociedade. Portanto, para compreendermos o interno é preciso compreender o externo. Cabe acrescentar que esses não são aspectos descolados, fazem parte de um mesmo movimento.

Deste modo, o fenômeno psicológico deve ser pensado como: “construção no nível individual do mundo simbólico que é social. O fenômeno deve ser visto como subjetividade, concebida como algo que se constitui na relação com o mundo material e social, mundo este que só existe pela atividade humana. Subjetividade e objetividade se constituem uma à outra sem se confundir”, (Bock, 2001, p.22).

A crítica da Psicologia Sócio-Histórica se baseia no entendimento de que a realidade social, econômica e cultural não são aspectos externos ao homem. A Psicologia então, para entender o mundo psicológico de um indivíduo, precisa considerar sua realidade social obrigatoriamente, mas isso não significa negar a singularidade e a subjetividade.

Além dessa, existe uma outra crítica importante feita pela Psicologia Sócio- Histórica, em oposição às outras linhas teóricas. Esse novo olhar não naturaliza o social. Essa naturalização que explica a realidade como dada, universal, que não pode ser diferente, acabava indo ao encontro dos interesses dos grupos dominantes. Nesse sentido, esta abordagem não naturaliza a normalidade, a desigualdade e as justificativas para as desigualdades.

Novamente citando Bock (2001, p.30): “a posição crítica da Psicologia Sócio- Histórica, que entende o desenvolvimento do homem e de seu mundo psicológico como uma conquista da sociedade humana, permite denunciar esse trabalho de ‘ocultamento’ das condições de vida nos discursos da Psicologia”.

Outra crítica da Psicologia Sócio-Histórica é em relação à suposta neutralidade do psicólogo. Ela afirma que o objetivo desse profissional é contribuir para a construção de projetos de vida, direcionados para finalidades que interessem ao sujeito e à comunidade. Ele é posicionado, já que tem como objetivo buscar o interesse do sujeito e do coletivo, visando melhores condições sociais, apresentando um compromisso político. O trabalho do psicólogo é, portanto, intencionado e direcionado, apoiado em uma postura ética.

Esta teoria supera também a visão positivista que contribuiu para construir uma Psicologia que entendeu o fenômeno psicológico como algo desligado das tramas sociais. A Psicologia Sócio-Histórica se opõe à visão liberal de homem, já que aquela não acredita que há um homem que se realize individualmente. O que existem, na

Para a Psicologia Sócio-Histórica existem categorias que se apresentam como aspectos do fenômeno psicológico. Consciência e atividade são duas categorias que nos permitem nomear a relação do homem com o mundo.

A consciência é considerada um sistema integrado, determinado pelas condições sociais e históricas, que, num processo de conversão, se transformam em produções simbólicas singulares. Ela não é somente uma atividade cognitiva e intelectual, mas possui uma dimensão emocional. A atividade do sujeito contém a possibilidade do novo, da criação.

Como já foi dito, o homem atua sobre a sociedade para realizar suas necessidades e utiliza-se de instrumentos para isso. Segundo Aguiar (2001), a linguagem é um instrumento muito importante para a Psicologia Sócio-Histórica, já que através dela, o homem significa a sua atividade e realiza seu contato com o mundo externo e seu contato com si próprio, com a sua consciência.

Ela é o instrumento utilizado nas relações entre os homens, transformando diretamente as subjetividades envolvidas. A linguagem é constituída social e historicamente e é fundamental no processo de constituição do sujeito. Além disso, apropriar-se dela permite ao homem ter acesso às produções realizadas ao longo da história. E é através dela que podemos compreender e apreender a consciência dos indivíduos, de acordo com Rosa (1999).

É pela palavra que o homem opera o pensamento e o sentimento. Eles estão ligados e não podem ser vistos separadamente, pois há uma mediação entre eles. De acordo com Vygotsky, apud Rosa (1999, p. 35) “A relação entre o pensamento e a palavra é um processo vivo; o pensamento nasce através das palavras. Uma palavra vazia de pensamento é uma coisa morta, e um pensamento despido de palavras permanece uma sombra”. A palavra possui uma dimensão afetiva, o pensamento e a linguagem são emocionados. Ela traz consigo afetos, motivos e necessidades históricas humanas. A palavra é, portanto, a arena onde se confrontam valores sociais contraditórios, conflitos, relações de dominação, etc.

Assim, podemos dizer que “as significações construídas pelo sujeito correspondem à maneira como este é capaz de expressar e codificar no momento as vivências emocionais e psicológicas que se processam em sua subjetividade. Há muitas vivências e experiências que não são significadas em sua totalidade pelo indivíduo, de tal modo que o acesso e a compreensão das mesmas somente é possível através de um esforço analítico, que busque os sentidos mais amplos e complexos contidos em suas

significações, ou seja, os desejos, necessidades e emoções envolvidas” (Rosa,1999, p.36).

Ainda de acordo com a mesma autora, o sentido subjetivo, portanto, se constitui na relação dialética entre interno e externo, isto é, nas relações vivenciadas pelo indivíduo e no modo como ele constitui seu plano subjetivo dessas experiências nesse processo, carregado de significado, emoção, pensamento, necessidades. Assim, ele transforma o que é social em psicológico, vivencia o mundo externo à sua maneira, construindo sua personalidade.