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Tekniske planer

6. GJENNOMFØRING AV ARBEIDENE

6.2 Tekniske planer

Conta-se uma história lá para os vales do cânion Josafáz e Faxinalzinho que um antigo fazendeiro estancieiro mandou seus escravos descerem os “peraus” dos Aparados a procura de terra boa, quando achassem era para eles derrubarem a mata e iniciarem uma roça de milho, cana e aipim. Preocupado com o não regresso desses escravos, tal fazendeiro foi até São Francisco de Paula de Cima da Serra, fazer um boletim de ocorrência na delegacia. Ele relatava que seus escravos andavam fugidos pelas bandas do Josafáz. A partir de então se soube que a roça da estância localizados no fundo das grotas e vales funcionavam como uma espécie de extensão territorial da estância. Seus escravos, agregados ou peões faziam o elo entre o patrão e a roça, uma vez que a estância necessitava dos produtos oriundos dessa empreitada agrícola

(TEIXEIRA, 2008). Quanto ao local dessa história, São Roque hoje é identificado como comunidade tradicional de remanescentes de quilombolas, visto que muitos escravos mandados para a roça “da” estância não voltaram ou quando voltavam e cumpriam suas obrigações adquiriam o “direito” de “morar” na roça, ao passo que quando datasse das colheitas levassem a produção para o seu patrão num complexo sistema escravista17. Essa história, narrada a partir de relatos orais de

moradores de Praia Grande, provém de acontecimentos surgidos ainda no século XIX, mas possibilita pensar como as pessoas chegaram e estabeleceram-se no Fundo do Rio do Boi.

Para tentar compreender os ciclos de ocupação e povoamento da região dos Aparados da Serra necessita-se dividir a ocupação dos vales em pelo menos duas rotas. A primeira condizente com a faixa litorânea que ocupa as porções que vem desde Laguna mais ao norte até os campos gerais de Viamão e Porto Alegre, chegando na Serra Geral pela região baixa dos Aparados da Serra. Tem-se por esse caminho a paisagem de serras, vales profundos e montanhas com platôs que alcançam uma proximidade de 1000 metros do nível do mar.

A outra rota é referente ao planalto brasileiro, local onde ao longo de séculos passados presenciou-se a história e a cultura de levas de tropeiros, e mais tarde pecuaristas, como já vistos nas cenas históricas dessa pesquisa, como as instalações das estâncias serranas que abrangeram a ocupação dos campos de cima da serra (de Vacarias a São José dos Pinhais, das bordas da Serra Geral as missões e campanhas riograndenses). Obviamente que estas características são muito abrangentes, mas o suficiente para compreender que as famílias que chegaram à região de Praia Grande e mais especificamente nas encostas da Serra Geral eram oriundas de localidades desde Laguna à proximidades de Porto Alegre ao qual “subiam” as margens do Rio Mampituba pelo Passo do Sertão e Timbopeba. Ou ainda, oriundas dos campos de cima as serra ligados historicamente a pecuária ou mais tarde as madeireiras. Até porque, como iniciou essa observação, era prática

17Essa história foi registrada a partir da coleta de narrativas de alguns moradores

de São Roque da Pedra Branca (Praia Grande) transcritas no trabalho de conclusão de curso de: LUMMERTZ, F. C. Cânions e História: comunidade tradicional, cultura popular e ecologia nos Aparados da Serra. Florianópolis, UDESC, 2009. Ver também em TEIXEIRA, Luana, 2008. E nos relatórios antropológicos do NUER/UFSC projeto “Quilombos do Sul”.

comum entre os fazendeiros manter uma roça nos vales da serra a fim de suprir as necessidades alimentares básicas da estância. E esse é o fato que se quer chamar atenção. São descritos na história que houve ciclos de povoamento durante vários períodos nessa região, mas em momento algum, se fez uma referência da importância das estâncias para o povoamento e fixação de famílias e agricultores nos vales da Serra Geral. Entende-se a partir de então que as estâncias contribuíram para gerar uma relação que permitiu as pessoas – entre elas escravos, peões, agregados, trabalhadores rurais pobres – a permanecerem nos vales com a finalidade de produzir alimentos agrícolas, por meio de uma agricultura de subsistência e familiar como que, quase uma classe subalterna nas franjas da sociedade.

Com razão, não devia ser de toda facilidade desbravar os costões, grotas e vales da serra. O Rio do Boi é uma continuidade da conformação geológica Serra Geral que despenca e desce em um vale vizinho ao Rio Faxinalzinho e Josafáz, local de onde aparecem as histórias orais que remetem ao tempo da escravidão. Seu leito de rio da origem ainda no alto da serra aos paredões rochosos do cânion Itaimbezinho. Quando as águas saem do estreito labirinto rochoso avistam-se os vales verdes do Rio do Boi, na parte catarinense, até desaguar como afluente do Rio Mampituba. Ao pensar na geografia, e mais especificamente, no “pé-da- serra”, ao descrever os vales verdes e seus rios, a questão mais intrigante nesse estudo é referente à localização que, hoje, encontra-se as ruínas da antiga comunidade do Fundo do Rio do Boi. Estão quase que isoladas, muito à dentro do vale. Por se encontrarem lá, elas são as marcas, os registros daquilo que pode-se chamar de um acontecimento histórico. Pois indicam, dão testemunho, aparecem como artefato e exibem partes da experiência obtida no povoamento e circulação de pessoas por essa região. Ainda, mesmo em ruínas, lembram coisas, ativam a memória fazendo do lugar um elemento estratégico de lembranças do passado.

Dificilmente se saberá quem foram os primeiros a habitar o vale do Rio do Boi. Mas foi dado indícios do porque as pessoas instalaram-se nessa localidade. Um relacionado ao comércio e as ondas de povoamento de 1917 apontado por Reitz e outro anterior a isso, quando da movimentação das pessoas para a instalação das estâncias e consequentemente das roças nos vales. Imagina-se que quando ocupadas essas terras que a economia girava entorno da agricultura, principalmente a de subsistência e quando possível cobriam o mercado interno. De acordo com os indícios aqui apontados, em síntese, para a “estreita” faixa de terra que se inicia a baixo de Laguna, no litoral Sul e vai até os vales da Serra

Geral, como nos demonstrou o professor César Sprícigo (2003, p. 19), a ocupação da Freguesia de Araranguá ainda no século XVIII e XIX “estivera ligada à expansão da população de Laguna para o Sul, população que passara a desenvolver uma agricultura voltada para a subsistência e exportação através da produção de farinha de mandioca”.

Por outro lado, no alto da serra é conhecido a existência das estâncias desde pelo menos o século XVIII. O comércio de gado estimulado pela mineração no Sudeste brasileiro, também atraiu e deslocou populações para as províncias Meridionais do Brasil. Portugueses, açorianos, vicentistas, que, de acordo com o discurso historiográfico tradicional foram os primeiros a chegar a essas terras, mas que, além destes e junto a estes, acompanharam negros, mestiços e indígenas. Gente de todos os lugares em busca de meios para sobreviver e de riquezas possíveis. Para Sprícigo (2003), há “sujeitos lembrados e sujeitos esquecidos” na história e neste caso os sujeitos esquecidos, na sua grande parte, foram os negros escravos, mas também havia a presença de trabalhadores livres pobres, muitos deles despossuídos de terras que se ocupavam em trabalhar na lida diária da roça ou em ocupações subalternas. Em relação a isso, lembrou-nos o antropólogo Darcy Ribeiro (1995, p. 424) que a maior parte dessa população esquecida, de “gaúchos- a-pé se faz lavradora de terrenos alheios, ainda não engolidos pelo pastoreio, através do regime de parceria. São os autônomos rurais do Sul, contrapostos a peonagem das estâncias”. Longe do poderio dos grandes proprietários de terras que ocupavam as “melhores terras”, quem sabe os vales da serra por serem lugares com maior dificuldade de acesso e com terras de relevo inclinado, favoreceu a instalação desses sujeitos esquecidos? Desses sujeitos que faziam do espaço entre a estância e a roça, o seu campo de experiências.

Outro marco importante nessa pesquisa foi que principalmente após 1850, quando da Lei de Terras, que efetivamente estipulava o acesso à terra mediante a compra, essas terras de “difícil acesso” ou praticamente “sem acesso” eram alvos de posseiros, famílias humildes que viam nesses lugares a possibilidade de ocuparem e iniciarem um trabalho produtivo. As encostas da serra com seus vales, rios, grotas e peraus, pareciam aos olhos dessas pessoas um bom lugar para se tornarem “proprietários”. Mas também, pode ter sido a partir desse momento, como demonstrou Teófilo Torronteguy (1994, p. 60) em sua obra, As Origens da Pobreza no Rio

Grande do Sul, para “os estancieiros se apossarem de novas terras”. De certa forma, como foi observado anteriormente, desde os primeiros movimentos de povoamento dessa região existia um comércio

insipiente entre as pessoas que lidavam com negócios na parte baixa da planície (no pé da serra) com os estancieiros serranos (na beira do perau) e vice-versa. Diante disso, o ponto substancial desse capítulo e que responde algumas dúvidas, pode ser que, estar com a roça próxima à subida da serra poderia ser uma vantagem, visto que, diminuiria o tempo e o custo de transporte até as estâncias serranas. Por esse motivo, famílias inteiras deslocaram-se, como agricultores, para os sopés da serra. Não se sabe, se primeiro alguns estancieiros de cima da serra apossaram-se dessas terras de encosta (TEIXEIRA, 2008), anexando partes estratégicas dos vales à suas propriedades, como foi o caso da comunidade de São Roque (SC) e da comunidade de Roça da Estância (RS). Ou se foram outros ciclos ocupacionais surgidos em fins do século XIX e início do século XX (REITZ, 1948; DAL ALBA, 1997; RONSANI, 1999) que favoreceu as famílias a apossarem-se também de lugares estratégicos dos vales. No entanto, é certo supor que essa proximidade com o destino consumidor, a troca de diferentes mercadorias que a serra proporcionava, a produção de alimentos agrícolas, junto com o desejo de tornarem-se “proprietários” foram, talvez, as motivações por edificar uma comunidade no Fundo do Rio do Boi.

Portanto, é a partir desses comentários que remetem a outro tempo e também conforme os relatos orais de antigos moradores da extinta comunidade do Fundo do Rio do Boi (que serão vistos no terceiro capítulo), passa-se a perceber que muito dos interesses dessas gentes ao chegarem nessa localidade estava voltado estreitamente a agricultura, na criação de roças e sua consequente produção que tornaria possível o intercâmbio com os produtos do alto da serra.

Diante dessa constatação chega-se a uma questão. De onde eram provenientes essas pessoas que instalaram-se no Fundo do Rio do Boi? De várias partes seria a melhor resposta. Pois como indicam alguns dados passados pelos entrevistados, muitas das pessoas nasceram e criaram-se no alto da serra e depois desceram junto aos familiares para o vale. Provavelmente seus antepassados já mantinham relações com os donos das fazendas, como foi o caso do Sr. Alziro que será apresentado no próximo capítulo. Entretanto, também houve relatos, e neste caso, relatos orais sobre a vinda de familiares que deslocaram-se subindo o Rio Mampituba pelo lado riograndense até a altura do Poço Negro chegando ao vale e ao Fundo do Rio do Boi pelo Alto da Esperança.

Nesse sentido, essa pesquisa não objetiva diagnosticar a origem dessas famílias, mas entender que elas passaram por um processo migratório, cujo destino, foi o Fundo do Rio do Boi. E entender que para

a compreensão dessa história tem-se que dividir, estruturadamente que, antes da modernização do campo em meados do século XX outras expectativas estavam postas no interior dessas famílias, o que se observará no próximo capítulo.

Figura 02 - Vale do Fundo do Rio do Boi. Atualmente Parque Nacional de

Aparados da Serra. A antiga comunidade estendeu-se por toda a margem do rio.

3 COTIDIANO RURAL: ENTRE A LIDA NO CAMPO E O