Neste trabalho, a concepção teórica tem como base os estudos de Koch (2008) para a Linguística Textual (ou Teoria do Texto), que como ciência surgiu de uma forma independente e simultânea em várias partes da Europa, tendo por objeto de estudo e investigação os textos escritos e falados.
Tal escolha apóia-se, principalmente, no texto, pois se a princípio era uma disciplina originariamente gramatical, hoje assume uma preocupação centrada nas questões relacionadas com o processamento sociocognitivo interacional dos textos, fundamental para a compreensão do processo da leitura e da escrita.
Além disso, como aponta Koch (2008), as perspectivas para os estudos da Linguistica Textual, ao definir uma concepção de texto interativa, com base
sociocognitiva, é, ao mesmo tempo, “um entroncamento, para o qual convergem muitos caminhos” (p.174), assumindo-se como parte integrante não só da Ciência da Linguagem, mas de todas as demais ciências que colocam o homem como sujeito central dos estudos.
Numa perspectiva histórica, no período que vai da segunda metade da década de 60 até meados da década de 70 do século XX, os estudos tinham como fundamento orientações basicamente heterogêneas, de cunho estruturalista, gerativista ou funcionalista. O texto era concebido como uma frase complexa ou uma sequência coerente de enunciados, o que garantiria que duas ou mais sequências de frases tivessem o estatuto de texto. Como resultado, a coerência era vista como uma propriedade ou mesmo característica do próprio texto.
Dentro dessa perspectiva, Koch (2008) destaca que os meados do século XX não foram apenas promissores para novos estudos, uma vez que os linguistas perceberam que era necessário ampliar para além de uma abordagem sintático- semântica, daí a perspectiva pragmática. Com a virada pragmática, a Linguistica Textual ganhou uma nova dimensão, pois não se tratava de pesquisar a língua como um sistema autônomo, mas o seu funcionamento nos processos comunicativos da sociedade. Como influência dessa dimensão, os textos passaram a ser considerados elementos constitutivos de uma atividade complexa, como instrumentos de realização das intenções, tanto comunicativas como sociais dos próprios falantes. Em síntese, os textos passam a ser concebidos como formas de ação verbal.
Como consequência, Koch (2004) aponta que os textos não podem mais ser vistos como produtos acabados, mas sim como elementos que se constituem numa atividade complexa, capaz de ser um instrumento para as intenções comunicativas e sociais do sujeito. Caberia então, à Linguística Textual comprovar que todos os seus pressupostos teóricos e metodológicos eram possíveis de aplicação ao estudo dos textos.
A partir da década de 80, os estudos do texto reconhecem que “todo fazer (ação) é necessariamente acompanhado de processos de ordem cognitiva”
(KOCH, 2004, p.21), pois quem age necessita de modelos mentais e utiliza determinados tipos de operações. Por isso o texto passa a ser visto como o resultado de processos mentais, considerando que os parceiros da situação de comunicação possuem, nas diferentes situações de atividade social, saberes acumulados e conhecimentos armazenados na memória, que são ativados na situação de comunicação.
Koch (2004) também destaca a importância, nesse momento, dos conceitos desenvolvidos por Van Dijk, a partir dos anos 80, que estudou as relações entre enunciados, denominados pragmáticos ou discursivo- argumentativos. O autor foi um dos pioneiros ao introduzir as questões de ordem cognitiva no estudo da produção, da compreensão e do funcionamento dos textos.
Em síntese, para o autor, a compreensão de um texto deve obedecer a regras de interpretação pragmática, uma vez que a coerência não pode ser estabelecida sem levar em conta a interação, as crenças, os desejos, as normas e os valores dos interlocutores. Por esta razão, o estudo da coerência incorporou, além dos fatores sintáticos e semânticos, também os de ordem pragmática e contextual.
Ainda na década de 80, Koch (2004) ressalta que os estudos linguísticos apontaram para uma tomada de consciência de que todo fazer (ação) é acompanhado de processos de ordem cognitiva, ou seja, quem age precisa ter a sua disposição modelos mentais de operações e tipos de operações.
Com este olhar, Koch (2004, p.21) destaca que o texto passa a ser “considerado resultado de processos mentais: os parceiros da situação de comunicação possuem saberes acumulados armazenados quanto aos diversos tipos de atividades exercidas na vida social”. Por outro lado, os conhecimentos representados na memória precisam ser ativados no momento da situação de comunicação, para que sua atividade de interação seja concretizada com sucesso.
Os conhecimentos, conforme definem Heinemann & Viehwegger (apud KOCH, 2004, p. 22) envolvidos no processamento textual podem ser classificados em quatro grandes sistemas: o linguístico, que envolve os conhecimentos gramaticais e lexicais, responsáveis pelo som e sentido; o enciclopédico ou de mundo, que já está internalizado na memória do indivíduo; o interacional, que envolve os conhecimentos ilocucional, comunicacional, meta comunicativo e superestrutural, utilizados na interação pela linguagem e, finalmente, o referente a modelos textuais globais que confere ao sujeito a possibilidade de reconhecer os textos como modelos de determinados gêneros.
Por esta razão, é importante ressaltar, segundo Koch (2004), que o processamento textual é estratégico, pois mobiliza on-line diversos sistemas de conhecimento. Ou seja, Koch (2004, p.26) destaca que os usuários de uma língua realizam etapas interpretativas simultâneas em vários níveis, de maneira orientada, eficiente, flexível e de forma rápida, processando a informação on-line.
Dessa forma, a autora aponta que o processamento depende não apenas das características textuais, mas, e principalmente, das competências do usuário da língua, pois envolve seus objetivos, suas convicções e seus conhecimentos mobilizados na memória, já que as estratégias cognitivas são estratégias de uso do conhecimento (KOCH, 2004, p.26).
Atualmente, a perspectiva sociocognitivo-interacionista é discutida por Koch (2004, p. 31) considerando a cognição como um fenômeno situado, uma vez que, “não é simples traçar o ponto exato em que a cognição está dentro ou fora das mentes, pois o que existe aí é uma inter-relação complexa”.
É fundamental perceber que na base de toda atividade de uso da língua está a interação entre “sujeitos que compartilham diferentes conhecimentos. Por essa razão, os eventos linguísticos não são a reunião de vários atos individuais, mas, principalmente, uma atividade que se faz com os outros” (KOCH, 2004, p.31).
Assim, é preciso entender que todas as ações verbais são conjuntas, pois usar a linguagem é colocá-la em uso, sendo ela mesma o próprio lugar onde a
ação acontece, de forma compartilhada e construída com a interação dos outros. Ela ocorre em contextos sociais, com finalidades e papeis sociais previamente estabelecidos.
Koch (2004, p.33) então conceitua que
o texto passa a ser considerado o próprio lugar da interação e os interlocutores, sujeitos ativos que – dialogicamente – nele se constroem e por ele são construídos. A produção de linguagem constitui atividade interativa altamente complexa de produção de sentidos, que se realiza, evidentemente, com base nos elementos linguísticos presentes na superfície textual e na sua forma de organização, mas que requer não apenas a mobilização de um vasto conjunto de saberes (enciclopédico), mas a sua reconstrução – e a dos próprios sujeitos – no momento da interação verbal.