Apresentadas as características da base de dados a ser empregada, assim como suas virtudes e limitações, passa-se a discutir pontos diretamente relacionados à análise empírica proposta por este trabalho. Destaca-se, a princípio, que o foco do estudo se dá sobre os indivíduos que se declararam como trabalhador por conta-própria em sua ocupação principal. O objetivo desta restrição na amostra é se aproximar ao contexto relatado em Banerjee & Duflo (2007), que tem a vida econômica das pessoas mais carentes como objeto de investigação.
Para a POF 2002/2003, o conta-própria é considerado como uma pessoa que explora uma atividade individualmente ou com auxiliares não remunerados (IBGE, 2004). Logo, diferente daqueles indivíduos considerados como empregadores, que já possuem trabalhadores assalariados sob sua gestão, o empresário por conta-própria atua, em tese, em firmas de menor escala. Estudos, como Assunção & Alves (2007) e Neri (1999), destacam que os trabalhadores por conta-própria estão geralmente associados a empresário nanicos e pobres.
Contudo, este grupo de indivíduos compreende profissionais liberais, como médicos e advogados. Tendo em vista a realidade tratada por Banerjee & Duflo (2007), este grupo de profissionais liberais foi retirado do estudo, pois eles representam pessoas cuja
condição de vida destoa daquela que se tem como objeto de estudo. Este grupo de profissionais liberais compreendeu 426 empregados por conta-própria das 13.619 pessoas de referência da POF 2002/2003 que declaram possuir ocupação principal como empregado por conta-própria. A lista de ocupações excluídas da análise segue no Anexo II. Portanto, a fim de investigar o empreendedorismo sob o foco de pessoas carentes, optou-se pela análise do grupo de trabalhadores por conta-própria.
Vale destacar, finalmente, que este artigo utiliza como unidade de observação apenas os indivíduos considerados como pessoas de referência para a unidade de consumo ou família e suas respectivas informações.
Definido o conjunto de indivíduos que será objeto de estudo por este artigo, apresenta- se o modelo empírico a ser estimado e que se constitui como uma aproximação linear da equação (14):
e = βx + γa + ε (17)
Onde:
e: variável associada à escolha sobre o tempo gasto no empreendimento;
x: variáveis que definem características observáveis dos indivíduos, além de outros controles;
w : variável de riqueza pessoal;
ε : termo de erro que contém características que determinam a escolha sobre o tempo
gasto no empreendimento, mas que não são observáveis pelo pesquisador.
Para detalhar melhor a equação (17), alguns comentários devem ser feitos. De início, vale destacar a construção da variável dependente. Como já apontado, a POF 2002/2003 não apresenta informações sobre a forma como os indivíduos pesquisados utilizam o seu tempo. Contudo, a segregação das ocupações reportadas entre principal e secundária traz informações indiretas sobre o rateio do tempo de trabalho das pessoas presentes na pesquisa. Se, por exemplo, um indivíduo possui uma ocupação principal como conta- própria e uma atividade secundária como empregado remunerado, então se pode concluir que esta pessoa despende parte do seu tempo em um empreendimento e o resto em uma tarefa assalariada. Logo, é através da identificação das ocupações principais e secundárias que este artigo pautará a construção da variável dependente do modelo (17).
Em específico, a variável dependente será uma dummy, onde o valor 1 apontará que o indivíduo possui uma ocupação principal como conta-própria e pelo menos uma ocupação secundária como empregado remunerado31. Já o valor 0 representará que a pessoa possui apenas uma ocupação principal como conta-própria. Portanto, o valor de sucesso da variável dependente indica um empresário como múltiplas ocupações. Vale apontar, também, que uma pessoa pode deter mais de uma ocupação secundária.
Ainda, trabalhadores por conta-própria que possuem alguma ocupação secundária que não seja como empregado remunerado são excluídos da amostra a ser investigada. Dessa forma, somente os pequenos empresários com dedicação exclusiva ou que possuem uma segunda ocupação assalariada são considerados. Este recorte visa a adequar a estrutura proposta pelo modelo de Petrova (2012), onde o agente pode apenas diluir seu tempo na atividade empreendedora ou em um trabalho assalariado.
Em suma, pode-se destacar a variável dependente da seguinte forma:
e = 0, se o indivíduo possuir apenas uma ocupação principal como conta-própria;
e = 1, se o indivíduo possuir uma ocupação principal como conta-própria e pelo menos uma ocupação secundária como empregado remunerado.
Com a variável dependente construída desta forma, espera-se que o parâmetro relacionado a riqueza seja negativo, pois, como colocado no modelo de Petrova (2012), quanto mais rico for o empresário, menor será a chance ou probabilidade dele buscar uma segunda ocupação assalariada.
Sobre o modelo populacional (17), é relevante apontar alguns detalhes sobre a variável de riqueza. Dentre as diversas variáveis presentes na POF 2002/2003, nenhuma possui uma informação direta sobre o nível de riqueza das famílias pesquisadas. Posto este empecilho, uma medida indireta da riqueza latente das pessoas deve ser construída. Uma das técnicas usualmente empregadas para mensuração da riqueza em pesquisas que avaliam a presença de racionamento de crédito é a aplicação do método de componentes principal (ASSUNÇÃO & CHEIN, 2007; ASSUNÇÃO & ALVES, 2007; JEONG & TOWNSEND, 2003). Através de dados presentes na POF 2002/2003 sobre a posse de bens duráveis e condições de habitação, como acesso a energia elétrica e
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É considerado como empregado remunerado aquele indivíduo que reportar os seguintes status ocupacionais: emprego privado, emprego público, empregado doméstico e emprego temporário na área rural.
serviços de saneamento básico, este trabalho emprega a análise de componentes principais para gerar índices que sintetizam informações a respeito da riqueza dos indivíduos.