O sistema capitalista de produção, com base na propriedade privada dos meios de produção e na divisão social do trabalho, adquiriu uma expressão específica do trabalho: o assalariado. A sociedade mercantilista, tendo em seu coração a mercadoria, revoluciona as relações sociais. A mercadoria, diferente do produto do trabalho, traz consigo um distanciamento entre seus valores de uso (substância do valor) e seu valor de troca (magnitude do valor) (Marx, 2008). O valor de uso diz respeito à qualidade do objeto produzido, seus múltiplos modos de uso desenvolvidos ao longo da história. O valor de uso só se realiza no consumo e constitui o conteúdo material da riqueza. Por outro lado, o valor de troca diz respeito à quantidade valorada no processo de troca de produtos de diferentes espécies. O que reside por trás dessa valoração é o trabalho social necessário22 para a produção desse bem de consumo.
O capitalismo radica ainda mais essa separação entre trabalho individual e trabalho coletivo, catalisando o processo de coisificação dos seres humanos. O sistema capitalista emerge do sistema mercantil, juntamente com condições que possibilitaram sua formação. Marx (1987) nomeia essas condições como acumulação primitiva. Diversos fatores, como o desenvolvimento de manufaturas, usurpação de terras de camponeses, aumento exponencial do entesouramento, necessidade de consumidores e retirada das garantias que as instituições feudais proviam aos servos, levaram à dissolução da vassalagem feudal.
Assim, de um lado, estavam os capitalistas, donos dos meios de produção e subsistência e, do outro, uma massa de trabalhadores autônomos lançada ao mercado, expropriada de quaisquer condições de garantir sua subsistência, excetuando-se uma.
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Trabalho Socialmente Necessário é o tempo de trabalho social médio utilizado no processo de produção de determinado produto. Para o marxismo, a mercadoria é vendida com base no trabalho cristalizado nela. Porém, essa base de valor de trabalho é tida pela média dos diferentes produtores. Aqui as habilidades e tecnologias reduzem o tempo de trabalho e aumentam a produtividade, reduzindo o tempo de trabalho socialmente necessário.
Aqui reside a diferença do trabalho em sociedades capitalistas: a lógica hegemônica do mercado, que transforma os homens e as mulheres em mercadorias, em coisas passivas de serem trocadas. A única forma de garantir a sobrevivência das famílias de trabalhadores e trabalhadoras é a venda de sua força de trabalho em troca de um salário que lhes permita acesso aos bens de consumo necessários, porém jamais aos meios de produção, relação desigual e exploratória, base do trabalho assalariado (KLEIN, KLEIN, 2008).
Essa lógica de reprodução do capital, a lógica hegemônica do mercado, se espalha em todos os espaços da vida social. O mercado iguala todos como força de trabalho ofuscando a individualidade das trabalhadoras e dos trabalhadores reais. O que resta é um conjunto de mercadorias, inclusos os trabalhadores e trabalhadoras, cuja única relação social é sua destinação à troca. Essa é a lei da mercadoria: vende o que é seu para comprar. Esse mecanismo de mercado se generaliza para toda a comunidade, sejam produtores, vendedores ou consumidores.
As relações sociais reduzidas à relação de troca entre mercadorias exprimem um afastamento entre homem e mundo. Os mecanismos sociais de compartilhamento do mundo tornam-se alheios aos homens. No campo do poder político, há uma inviabilização desse espaço regulatório, pois não há relações entre seres que agem no mundo, uma vez que o homem vira um instrumento a ser trocado no mercado. E no campo do trabalho, sua dimensão compartilhada, o trabalho social, se torna alheia aos trabalhadores e trabalhadoras, que agora tornam-se autônomos. Conforme Gianoti:
O trabalhador autônomo não se vincula diretamente com o trabalho social, não opera como membro de uma comunidade, nem faz parte de sua ação particular o complemento de outra ação, de modo que ambas pudessem constituir, no imediato, um todo coletivo. Isolado de outro, trata de agir empregando seus próprios recursos, privadamente, embora destine sua produção para a troca, faça dela uma forma de agir sobre um terceiro (GIANOTTI, 1983, p.233)
O trabalhador coisificado não se reconhece em sua comunidade e, assim, não compartilha a preocupação e responsabilidade com a continuidade da produção destinada ao consumo comunitário conforme especificidade da necessidade social. Na substituição desse senso coletivo pela lógica da valoração na troca, o valor de troca aparece como algo totalmente independente dos seus valores de uso, por trás da necessidade social. Essa substituição origina a fetichização da mercadoria, ou seja, a valoração da mercadoria parece ser inerente e intrínseca ao objeto e não fruto do trabalho coletivo.
O trabalho torna-se privado justamente porque está desvinculado de qualquer senso comum. O trabalho é radicado no espaço privado numa vivência particular individual alheia a qualquer senso coletivo e, alheio a esse senso, o trabalho assalariado acaba por demonstrar a absoluta impessoalidade das relações (GIANOTTI, 1983). Dessa forma, a sociabilidade do indivíduo passa a se centrar nas relações entre coisas, não mais a relação entres pessoas.
O tráfico de drogas demonstra a radicalidade desse afastamento. Conforme vimos anteriormente, o processo contínuo de desenraizamento comunitário substitui os cuidados comuns e a convivência por sentimentos puramente econômicos. Partindo de relações que são monocentradas no mercado, a cultura produzida nesse espaço cada vez menos se dirige para o desenvolvimento libertário. No seu lugar, cada vez mais se produz uma cultura de consumidores que desenvolve os sujeitos unilateralmente visando apenas o ter.
Nesse cenário, conforme já afirmado, o mercado flexível do crack forma-se como mais uma barreira para o desenvolvimento do sujeito. Estando isolado dentro desse mercado, o trabalhador não somente não consegue desenvolver referências com sua comunidade, como passa a ter uma compreensão limitada e não sistêmica da organização do seu trabalho. Assim, dentro da organização desse espaço e das formas de sociabilidade, o tráfico demonstra uma intensificação do fenômeno da alienação.