*Adaptação de Sanders et al (2009)
A Base Comunicativa é o centro dêitico da comunicação, pois nela estão representados F, O e as respectivas condições contextuais nas quais a interação verbal se dá.
Essa rede está dividida horizontalmente e verticalmente. Na divisão vertical, ao lado direito estão os espaços de ato de fala e o epistêmico, com o sujeito de consciência implícito; ao lado esquerdo está o espaço de conteúdo, com o sujeito de consciência explícito. Na divisão horizontal, o nível linguístico está diferenciado do nível conceptual. Neste nível está a base de conhecimento, na qual se encontram o conhecimento
enciclopédico, o pragmático, bem como o léxico disponível e os processos de razoar. A base de conhecimento diferencia-se da noção de “conhecimento de mundo”, pois, na BCSN, estão abrigados também o conhecimento compartilhado específico a F e a O32. No nível linguístico, está a representação que licencia as interpretações para as construções adverbiais aqui analisadas.
Na maneira como foi configurada, essa Base Comunicativa permite relacionar o sujeito de conceptualização ao evento conceptualizado, e dessa forma é possível atribuir a um determinado SoC a responsabilidade pela construção da relação entre os eventos. Nessa medida, com base no esquema apresentado na BCSN, é possível analisar também o nível de subjetividade dos enunciados causais e concessivos. Uma expressão linguística é tomada como mais subjetiva quando se faz referência implícita ao ground.
A proposta seminal de Sanders et al (2009, 2012) apresenta uma análise dos conectivos causais em holandês, por meio da qual os autores explicam a funcionalidade e o uso desses conectivos, destacando suas diferenças e particularidades. Na análise de Ferrari e Sweetser (2012), as autoras valem-se da dinâmica da Base Comunicativa para explicar a subjetivização33 de determinadas construções linguísticas em inglês, como as construções modais com o verbo must.
O processo interativo entre F e O implica o gerenciamento intersubjetivo das construções linguísticas (VERHAGEN, 2005), ou seja, os estados mentais de F entram em coordenação com os estados mentais de O34. Muitos fatos linguísticos, portanto, só são explicados considerando-se que F e O são SoCs que se engajam cognitivamente na conceptualização do mesmo evento, e cujos estados mentais se coordenam no processo de conceptualização.
32
Por exemplo, se F e O interagem sobre o último romance de Milton Hatoum que foi lançado, outro participante que se engajar no meio da interação entre F e O não terá os mesmos conhecimentos compartilhados naquela situação interativa.
33
As autoras seguem as noções de Langacker (1990) para falar de subjetivização, mas valem-se principalmente dos estudos de Traugott (1982, 1989, 1995), os quais relacionam gramaticalização com o aumento de subjetividade das expressões linguísticas. É por esse caminho que Ferrari e Sweetser (2012) explicam o sentido epistêmico do verbo modal inglês must, que antes assumia apenas o significado modal deôntico.
34
Essa coordenação é bem explicada se comparada ao modelo de interação verbal de Dik (1997), no qual F antecipa a informação pragmática (os estados mentais) de O, que, por sua vez, reconstrói a informação pragmática (os estados mentais) de F.
Assume-se, aqui, que as construções causais podem muito bem ser explicadas em termos da relação subjetiva entre o SoC e o evento conceptualizado. Por outro lado, para as construções concessivas, que são dialógicas, assume-se que elas devem ser explicadas levando-se em consideração a coordenação de mentes dos SoCs envolvidos na interação.
1.4.3 Da relação entre domínios cognitivos e níveis estruturais linguísticos
Em algumas propostas que relacionam descrição gramatical com aspectos cognitivos, fica assentado que os espaços de conteúdo, epistêmico e de atos de fala corresponderiam aos níveis estruturais que formal e semanticamente organizam qualquer construção linguística. Esses níveis estruturais foram propostos por Dik (1997) em sua Gramática Funcional.
As construções adverbiais, de modo geral, assumem variadas funções no discurso. Elas podem expressar circunstâncias entre estados de coisas, entre proposições, que são fatos possíveis, ou ainda entre atos de fala, em que o segmento adverbial se refere especificamente à ‘motivação’ (ou ainda, à intencionalidade) da frase enunciada. Em Dik (1997) fica assentado que esses diferentes níveis possíveis de expressão são camadas de organização semântica e formal da estrutura da frase.
Dik (1997a) correlaciona as unidades estruturais que compõem a frase e o tipo de entidade que elas representam. No nível estrutural mais baixo, está o predicado (nível 1), que se aplica a um conjunto de termos específicos. O predicado designa as propriedades e as relações, enquanto os termos se referem a entidades. Da aplicação desse predicado a um conjunto apropriado de termos, tem-se a predicação (nível 2), que pode ser interpretada como um conjunto de estados de coisas. Na predicação, há elementos que são requeridos pela semântica do predicado (os argumentos35) e há elementos que provêm informações adicionais (os satélites). Revestida de força ilocucionária, a predicação passa, então, a ser uma proposição (nível 3), que se refere à entidade dos fatos possíveis. E também a predicação pode ser emoldurada em outra força ilocucionária, constituindo, assim, a frase (nível 4), que corresponde ao ato de fala36.
35
Nessa proposta, as tradicionais ‘orações substantivas’ funcionam como argumentos do predicado, visto que são obrigatórias e que são caracterizadas por um conjunto de funções semânticas.
36
Nessa proposta de Dik (1997b, p. 82), a hipotaxe adverbial encaixa-se na categoria dos satélites circunstanciais, que assumem as posições periféricas na organização da oração, visto que incidem sobre a predicação já configurada. Desse modo, em uma ocorrência como (10), a oração temporal (satélite temporal) enquanto eu estiver bem incide sobre a predicação central eu continuo, enquanto a oração causal (satélite causal)
porque eu gosto incide sobre toda a predicação, inclusive sobre o satélite temporal.
(10) Quanto ao basquete, não dá para fazer previsões. As pessoas me perguntam se eu vou parar esse ano, no ano que vem, mas eu não sei. Enquanto estiver bem,
eu continuo, porque eu gosto, me dá muito prazer.
(CDP:19Or:Intrv:Cid)
A interpretação desses satélites pode variar (por exemplo, temporal, causal, condicional, concessiva, etc.). Mas fica assumido que essa variação não é uma questão de distintos significados semânticos, mas de diferentes interpretações pragmáticas, co- dependentes de pistas contextuais e situacionais, visto que a função semântica geral desses satélites é a de circunstanciar (DIK, 1997b, p. 82). Apesar de diferenças terminológicas, Givón (2001b, p.330ff), no mesmo espírito de Dik, fala de variados elos semânticos entre a oração (hipotática) adverbial e sua oração principal. Esses elos semânticos são estabelecidos, como diz ele, ‘localmente’, pois a relação se dá entre dois segmentos adjacentes, independentemente de sua organização ‘global’ no contexto discursivo.
Nesta pesquisa são levados em consideração os elos causais como em (05) e os concessivos como em (06) entre a oração hipotática e sua principal.
(05) Já que não há dinheiro no bolso, as financeiras optaram pelo prazo mais estendido.
(CDP:19Or:Br:Intrv:Com)
Unidade estrutural Tipo de entidade Nível
Frase ato de fala 4
Proposição fato possível 3
Predicação estado de coisas 2
Termo entidade 1
(05) Ainda que corresse, não haveria tempo de faltar.
(CDP:19:Fic:Br:Louzeiro:Pixote)
Neves (2002a, 2002b) sugeriu uma relação entre os domínios conceptuais e os níveis estruturais de Dik aplicada à análise das construções adverbiais causais e concessivas. Trata-se de uma relação possível, mas deve ficar claro que os domínios conceptuais e os níveis estruturais diferem quanto à sua natureza: estes são de natureza estrutural e hierárquica, próprios para a descrição gramatical da constituição da oração, e aqueles são de natureza cognitiva, não-hierárquicos, porém ordenados de modo a constituir a Base Comunicativa disponível em qualquer situação de interação.
Crevels (2000) realizou um estudo tipológico das construções concessivas com base na proposta de Dik (1997), apresentada no início desta seção, conferindo a elas um tratamento de quatro níveis semânticos: nível do conteúdo, nível epistêmico, nível ilocucionário e nível textual. A autora, tal como Neves (2002a, 2002b), assume uma possível relação dos níveis semânticos com os domínios de Sweetser (1990), com exceção do nível textual, que não configura um domínio.
Crevels (2000) defende a existência de uma correspondência entre o nível de ocorrência e a expressão formal da construção concessiva, considerando os critérios de presença/ausência de conectivo, ordem das orações e tipo de conjunção concessiva marcadora da relação. Os resultados apresentados mostram que, enquanto as construções dos níveis de conteúdo e epistêmico são, quase sempre, sindéticas e com a prótase precedendo (anteposta a) a apódose, as construções do nível textual são, quase sempre, assindéticas e com a prótase seguindo (posposta a) a apódose. Para a autora, quanto maior o nível semântico de uma construção, menor o grau de dependência entre os segmentos.
1.5 Os rumos da pesquisa
Partindo de tais pressupostos básicos e gerais, esta pesquisa objetiva mostrar que os padrões de uso linguístico (ou “construcionais”) das construções adverbiais causais e concessivas – suas características sintáticas, semânticas e pragmáticas – são um reflexo da interação entre a organização conceptual da experiência e as condições comunicativas
em que essas construções se inserem, e também que essas relações “lógico-semânticas”, em sua natureza, estão conceptualmente interligadas.
No que diz respeito ao embasamento de teoria linguística para esta pesquisa, o funcionalismo apresenta uma sólida teoria descritiva para a articulação de orações, na qual se estuda a forma em sua relação com o significado e o efeito pragmático definidos no discurso. Pode-se parear essa perspectiva àquela proposta pelo cognitivismo, na qual as construções servem para evocar representações mentais, ou espaços mentais, estruturas que viabilizam a interpretação e a construção da coerência local nas situações comunicativas.
As relações causal e concessiva, objetos de estudo desta pesquisa, são relações de natureza conceptual, mas linguisticamente instanciadas, geralmente pelo processo da combinação de orações, em que o segmento adverbial circunstancia o segmento nuclear em termos de causalidade ou de concessividade. Na tradição dos estudos do discurso, a manifestação linguística dessas relações é o meio pelo qual se estuda a construção da coerência discursiva. Encontradas no discurso geralmente na forma de construções adverbiais, e geralmente marcadas por um item juntivo, essas relações conceptuais estão abrigadas em uma zona cognitiva altamente fluida, formando um continuum categorial: a “zona da causalidades” (NEVES, 2010, 2012).
As construções causais e as construções concessivas apresentam padrões construcionais específicos, nos quais se observam formas gramaticais que se especificaram na construção dos significados causal e concessivo, entretanto uma análise dessas construções mostra que há áreas em que causalidade e concessividade se sobrepõem funcional e semanticamente, refletindo o fato de que essas duas relações se encontram abrigadas em uma zona semântica mais abrangente, a zona de causalidades37. São considerados padrões construcionais tanto aspectos construturais internos à estrutura dessas construções quanto aspectos organizacionais discursivos.
37
Os capítulos 03 e 04 deste relatório de qualificação, apresentam uma discussão sobre a zona de causalidade.
Capítulo 02
A seleção dos dados e os procedimentos de
análise
2.1 Preliminares
De acordo com Butler (2003, p. XVIII), qualquer estudo que siga princípios funcionalistas para explicar os fenômenos gramaticais da língua deve, necessariamente, valer-se de um “material textual autêntico”, que, como caracterizam Halliday & Matthiessen (2013, p.3), nada mais é senão linguagem contextualizada em função. Esse direcionamento metodológico encontra abrigo no comprometimento teórico geral do funcionalismo, como postulam Givón (1995) e Schiffrin (1987), para quem a língua e, portanto, sua estrutura não podem ser explicadas ou descritas sem que seja considerado o contexto no qual estão inseridas.
O córpus de análise nesta pesquisa é o Corpus do Português (CDP, doravante) (DAVIES; FERREIRA, 2006)1, um córpus formado de 45 milhões de palavras, constituído de textos de diferentes registros, como oral, ficção, jornalístico e acadêmico. O CDP2 apresenta as variedades da língua portuguesa de Portugal e do Brasil, que abrangem os séculos XIII a XX.
Para a seleção de ocorrências no CDP, foram considerados três grupos de fatores: a) tipo de texto (conversação oral, escrito de ficção, etc.); b) variedade idiomática (português de Portugal ou português do Brasil); c) período histórico (séculos XIII a XX).
Foram estabelecidos os seguintes critérios para a seleção das ocorrências que compõem o conjunto de dados a ser analisado no desenvolvimento desta pesquisa:
A) Tipo de texto
Quanto ao tipo de texto, fez-se a escolha pelos textos orais, ficcionais e jornalísticos. Preferiu-se não incluir, no conjunto dos dados, as ocorrências de textos acadêmicos, formados de teses, dissertações e artigos científicos, a fim de evitar a grande carga de metalinguagem, que é utilizada nesses tipos de texto.
1
Disponível eletronicamente em www.corpusdoportugues.org .
2
O site do CDP fornece uma lista com o nome e a fonte de todos os textos que constituem o córpus.
O conjunto de textos orais é formado de entrevistas e diálogo entre informantes. Na categoria de textos ficcionais, estão os romances e obras literárias escritas em prosa. Aos textos jornalísticos pertencem a notícia e o artigo de opinião.
B) Variedade do idioma
No que diz respeito às variedades do português, optou-se apenas pela variedade do português brasileiro.
C) Período dos textos
Quanto ao período histórico dos textos, limitou-se a amostra às ocorrências de textos do século XX, já que o interesse maior desta pesquisa é uma análise sincrônica dos fatos linguísticos.
A partir dessa seleção, a Tabela 2.1 apresenta o número de palavras referente apenas aos conjunto de textos do século XX da variedade brasileira e dos tipos textuais de notícia, ficção e oral. No total, são 6,924,034 palavras.
Tipo
textual Século Variedade
Número de palavras
Notícia XX Brasil 2,816,802
Ficção XX Brasil 3,028,646
Oral XX Brasil 1,078,586
Tabela 2.1. Número de palavras no CDP por tipo de texto
A localização dos exemplos foi feita imediatamente após cada citação e consta do século, seguido da abreviatura ou sigla do tipo de texto do córpus. Nas ocorrências de textos orais, faz-se indicação da natureza do texto oral (ou entrevista, ou diálogo). Nas ocorrências de textos ficcionais, faz-se indicação da obra a que o trecho pertence, bem como do autor da obra.
2.2 A delimitação do universo de investigação: os itens linguísticos articuladores de relações de causalidade e concessividade
Buscaram-se, em gramática de referência da língua portuguesa do Brasil, a
Gramática de usos do português (Neves, 2000), os itens juntivos documentados que
explicitam as relações de causalidade e concessividade. Sistematizados no quadro a seguir estão aqueles destacados pela autora em sua gramática.
Causais porque, como, pois, porquanto, que (porque), já que, uma vez que, dado que, desde que, visto que, visto como, pois que, tanto mais que, por causa que, por isso que
Concessivos embora, conquanto, mesmo que, ainda que, posto que, apesar (de) que, se bem que, por mais que, por muito que, por menos que
Quadro 2.1. Conectivos causais e concessivos no português brasileiro
*Adaptado de Neves (2000, p. 802-3, 862-3).
Nesta pesquisa, optou-se pelos “conectivos complexos” ou “conjunções complexas”, segundo denominação de Neves (2006, p.260) e de Halliday (1994, p.215), por dois motivos: a) a fim de comparar elementos de mesma natureza gramatical, optou- se pelos “conectivos complexos” ou “conjunções complexas”; b) esses itens estão menos gramaticalizados do que estão as conjunções porque e embora, e são, portanto, menos opacos. Esses itens, aqui chamados de “itens juntivos”3, conforme justificado na explicação teórica fornecida no capítulo 01, geralmente são formados, na base, de um item lexical e da partícula subordinativa que. Genericamente, esses juntivos complexos respeitam a formulação BASE-LEXICAL + QUE.
A partir da lista de itens juntivos apresentada em Neves (2000) foram selecionados, para esta pesquisa, três itens de cada relação: entre os causais se analisam já que, uma vez
que e visto que; entre os concessivos, se analisam ainda que, mesmo que e se bem que.
A partir da proposta de Neves (2006, p. 261), os itens juntivos foram categorizados de acordo com o item lexical componente da base desses itens. Obtém-se o seguinte quadro.
Base verbal Base adverbial Base mista
Causais visto que já que
uma vez que
-
Concessivas - ainda que
mesmo que
se bem que
Quadro 2.2. Os itens juntivos causais e concessivos conforme a base lexical.
3
Como o objetivo principal desta pesquisa (conforme anunciado na Introdução) é verificar as relações gramaticais na zona da causalidade e da concessividade, é necessário verificar, também, a relação semântica entre a causalidade e a concessividade. A fim de chegar a esse objetivo maior, é necessário analisar os mecanismos gramaticais pelos quais são instanciadas essas relações conceptuais de causa e de concessão. Nesse sentido, o exame dos itens juntivos selecionados permite a formulação de generalizações no que diz respeito ao funcionamento das estruturas gramaticais nas zonas causal e concessiva. A divisão apresentada no Quadro 2.2 possibilita cotejarem-se as estruturas linguísticas utilizadas na constituição dos itens juntivos em análise4.
Feita essa divisão, percebe-se o caminho pelo qual se deve fazer incursões a fim de chegar à análise da ligação conceptual entre as zonas da causalidade e da concessividade. Quanto à formação dos itens juntivos selecionados, a base adverbial é a mais recorrente. Quanto à natureza semântica dos elementos adverbiais utilizados, uma vez tem natureza frequentativa, mesmo tem natureza escalar, e ainda e já têm natureza temporal. Lembra- se aqui que essas relações são de natureza conceptual, contudo é a partir do exame da materialidade linguística desses juntivos que se torna possível levantar generalizações sobre seus princípios de funcionamento.
O exame previsto dos itens juntivos refere-se àqueles que constam no Quadro 2.2 apresentado anteriormente. Contudo, quando necessário, serão considerados, para comparação, outros itens juntivos causais e concessivos (como tanto mais que, por mais e
menos que e nem que, causal e concessivos, respectivamente) bem como as conjunções
que exprimem essas relações, porque e embora, respectivamente.
2.3 A delimitação do universo de investigação: os itens juntivos relacionados para análise
Na Tabela 2.3, a seguir, está apresentado, quantitativamente, o universo de ocorrências que constituem objeto de análise nesta pesquisa. É importante destacar que são analisadas todas as ocorrências dos itens juntivos causais e concessivos delimitados para esta pesquisa; portanto, analisa-se o conjunto de dados total presente no CDP de cada um desses elementos.
4
Tabela 2.3. O universo das ocorrências causais e das concessivas
2.4 A relevância de uma análise quantitativa5
A investigação linguística a que se procede neste trabalho implica buscar a relação entre os traços semânticos e pragmáticos das construções causais e das construções concessivas bem como a composicionalidade formal dessas construções, atentando-se, primariamente, para os itens juntivos complexos que encabeçam as construções adverbiais de causa e de concessão. Portanto, contemplam-se, nesta pesquisa, a construção do significado e a obtenção de efeitos pragmáticos instanciados pela estrutura linguística. Por si só, esse seria um procedimento que não contemplaria o levantamento quantitativo dos dados analisados, visto que tanto estruturas semânticas quanto efeitos pragmáticos são inter-subjetivamente construídos na interação e, portanto, são muito variáveis.
Entretanto, como apontam Sanders, Stukker e Verhagen (2009, p.125), os modelos de análise linguística preocupados com o uso (como o são o cognitivismo e o funcionalismo) assumem tanto que a variação é inerente ao sistema linguístico e ao uso da linguagem quanto que há uma estabilidade nesse sistema, e que, portanto, deve-se explicar os padrões recorrentes de variação e de estabilidade à luz do uso e de mecanismos cognitivos.
É exatamente esse o objetivo desta pesquisa, ao conferir um tratamento quantitativo aos dados levantados a partir de um exame das ocorrências e às variáveis levadas em consideração.
5
Com base em pesquisas empíricas, Glynn (2010) apresenta uma discussão teórica, sobre o papel da quantificação no tratamento de dados linguísticos de córpus. O autor levanta tanto os pontos fortes quanto os pontos fracos do tratamento quantitativo dos dados.
Item juntivo N. de ocorrências no CDP Frequência relativa no CDP Ca u sa l já que 790 0,0001141
uma vez que 182 0,00002629
visto que 61 0,0000081 Co n ce s ainda que 260 0,00003755 mesmo que 280 0,00004044 se bem que 100 0,00001444
2.5 A quantificação dos dados segundo os parâmetros definidos para análise
Ficaram estabelecidos quatro parâmetros para a análise das construções causais e concessivas introduzidas por itens juntivos complexos: (i) os domínios conceptuais nos quais essas construções ocorrem; (ii) a correspondência modo-temporal entre os verbos dos segmentos adverbial e nuclear; (iii) a ordem na qual aparecem os segmentos na construção; e (iv) os graus de (inter)subjetividade das construções. Desses quatro parâmetros, os três primeiros serão vistos tanto quantitativa quanto qualitativamente, ao passo que o último parâmetro será considerado apenas qualitativamente.
O capítulo 07 desta dissertação dedica-se à análise quantitativa e qualitativa dos