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CHAPTER 3: DISCOURSE COMPETENCE IN TEACHING THEORIES

3.3 Teaching discourse

3.3.2 Teaching of written discourse

Com uma história que remonta desde o início das descobertas do século XV que ampliam os limites das civilizações ocidentais, o racismo vem sendo discutido em diversos âmbitos da ciência.

Costuma-se dizer que o início da classificação humana em “raças” se dá no século XVIII, denominado século das Luzes, onde o homem começava a buscar outras razões para explicar os fenômenos que o cercavam sem se basear nas explicações da Igreja. Assim, para saber quem eram os outros recém-descobertos, os estudiosos usaram os conceitos de raça existentes nas ciências naturais e nomearam esses “outros”, que se integraram à antiga humanidade como raças diferentes. (Brandão, 2004)

A partir daí, a cor da pele se torna o divisor da espécie humana em três “raças” que ainda se mantêm no imaginário coletivo: a raça branca, a negra e a amarela.

A partir dessa classificação e do desenvolvimento da medicina, passou-se a não somente classificar os indivíduos dentro dos critérios de raça, mas iniciou-se o processo de valorá-las dentro de uma escala, relacionando assim o biológico com qualidades morais, psicológicas, culturais e intelectuais. Dessa forma, a classificação passou a denominar que os indivíduos de “raça branca” eram superiores aos de outras raças em função das suas características físicas, o que, consequentemente, o tornava mais apto a dominar as outras, principalmente a negra, que foi considerada a mais emocional, a menos honesta e a menos inteligente. (Brandão, 2004)

forma, mesmo após a abolição da escravidão, o negro é visto como inferior e perigoso, dando espaço para que ele seja julgado por suas características físicas e tenha menos direitos perante a lei.

Esse fato é bem explicitado por Souza Campos (2008)2 no texto que segue:

“Como destacado, o início do século XX evoca o surgimento de um sistema político fundado na cidadania. A posse de negros havia acabado legalmente, mas as representações da escravidão ainda projetavam imagens que depreciavam os negros. Ao mesmo tempo, o período inaugura a formação profissional da enfermagem brasileira com a adoção do modelo oficial de ensino da enfermagem Brasil, como uma das realizações da Reforma Carlos Chagas, que reorganiza a estrutura sanitária federal nos anos 1920. O período permite entender as origens da institucionalização do controle social em duas grandes cidades, Rio de Janeiro e São Paulo. Especificamente, permite problematizar representações impostas às pessoas pobres e negras, cujos significados evocavam imagens sociais desprestigiadas, que os apresentavam como degenerados, pertencentes a um tipo humano inferior, primitivo, ainda que imageticamente. As representações sugeridas, presentes em discursos inaugurais da República, geraram um universo estereotipado, polissêmico e acentuado por uma legitimidade totalizadora, que pretendia controlar a população de negros, assim como suas interferências na vida social mais ampla. Produzidos e disseminados por intelectuais que assumiam diferentes postos na administração pública, dirigindo instituições de controle social, tais discursos vinculavam comportamentos à “compleição física”, classificando tipos humanos considerados, nessa medida, como inferiores, débeis, comprometidos geneticamente, cujas “taras primitivas” os conduziam inevitavelmente à criminalidade e à devassidão.” (p. 16)

Essa “compilação física” a que se refere Souza Campos surge antes do Estado Novo (1930-1945), onde se identificavam os criminosos por traços característicos, antropometria, o que permitia reconhecer um criminoso antes mesmo que ele pudesse cometer qualquer ato do qual merecesse ser julgado.

2 Souza Campos, PF. A Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo e a Formação da

Identidade Profissional Brasileira. Relatório Parcial FAPESP. São Paulo: Departamento de Orientação Profissional da Escola de Enfermagem da USP; 2008.

FIGURA 4 - Representação da Medicina Antropométrica

Fonte: Acervo da Biblioteca do Instituto Oscar Freire, de Medicina Legal e Criminología, da

Dessa forma, fica claro que o fenótipo é um importante fator para a instauração e a manutenção do racismo, pois os pares se reconhecem e passam a discriminar e julgar aqueles que apresentam características físicas distintas.

Para Albert Memmi (1993), “o racismo não é uma teoria científica, mas um conjunto de opiniões, ainda por cima pouco coerentes (...). É a valorização, generalizada e definitiva, de diferenças biológicas, reais ou imaginárias, em proveito do acusador e em detrimento da sua vítima, a fim de justificar uma agressão” (p. 109).

Assim, pode-se dizer que o racista não identifica os seres somente pelos traços físicos, mas também por traços culturais, sociais e linguísticos que ele considera naturalmente inferiores aos do grupo ao qual ele pertence. Dessa maneira, ele considera as características morais de um grupo como conseqüência direta de suas características biológicas. (Brandão, 2004)

Entretanto, a idéia de raça começa a ser desmistificada a partir dos anos 70, quando as ciências biológicas começam a modificar os então conhecidos conceitos de raça. É nesse período, porém, que o uso do termo “racismo” passa a uma dimensão mais ampla, usando-o para definir formas variadas de preconceito, como o contra mulheres, homossexuais, pobres e etc. Nesses casos, o uso do termo qualifica como “racismo” qualquer atitude de rejeição ou injustiça social. (Brandão, 2004)

Dessa forma, acredita-se que o racismo hoje é construído com base em diferenças identitárias, que vão muito além das diferenças físicas dos indivíduos, que gera um paradoxo, fazendo com que o discriminador e o discriminado, possam usar as mesmas definições e argumentos para se defender e atacar o outro. O racismo se torna, assim, algo sutil, pouco palpável e implícito, dificultando a sua identificação.

No Brasil essa faceta do racismo se encontra muito presente. Criou-se, ao longo do século XX, uma imagem de que esse seria um país isento de preconceito racial. Isso se deu por causa da mestiçagem encontrada no povo brasileiro, que remonta de sua colonização pelos Portugueses e do histórico de escravidão do negro africano trazido para trabalhar nas lavouras. Do mesmo modo o preconceito de cor, ainda que pudesse ocorrer em alguns casos, seria atenuado por uma série de fatores de corte subjetivo e afetivo, ampliando as possibilidades de convívio entre as diferentes cores/etnias fazendo com que, em nosso país, tenha sido gerada uma democracia racial (Paixão, 2003).

Dessa forma, passa-se a acreditar que no Brasil o racismo não se mantém porque há uma dificuldade em se separar as “raças”, já que a mestiçagem é uma das características definidoras do povo brasileiro. Entretanto, Munanga (2004) aponta que a mestiçagem no Brasil se deu a partir do “ideal do branqueamento”, que buscava embranquecer a sociedade, desvalorizando assim a raça negra. Essa ideologia reforça o esforço para homogeneizar a sociedade e estimular que o negro assimile a cultura do branco, considerada a cultura superior. Ele afirma ainda que:

“(...) A mistura das raças é a condição ‘sine qua non’ do progresso, do estado selvagem ao estado da cultura. Para entrar na história como criadora de um grande Estado, uma raça deve ter não apenas energia e inspiração, mas também capacidade para vencer essa forte repulsão universal a misturar seu sangue com o sangue de uma outra raça” (p. 44)

Assim, pode se concluir que a mestiçagem de um povo e a aproximação de suas características físicas, não elimina o racismo das raízes da sociedade. A condição para a existência do racismo ultrapassa, aí, a diferença da cor entre os indivíduos, tornando assim uma ideologia e não somente um preconceito.

Dessa forma, resgatamos uma colocação de Memmi (1993) que diz que: “a acusação racista tanto se apóia sobre uma diferença biológica como sobre uma diferença cultural. (...) para generalizar em seguida ao conjunto da personalidade, da

vida e do grupo acusado.” (p. 120).

Cabe salientar aqui que apontar as diferenças entre os grupos, ou indivíduos, não caracteriza uma atitude racista. Esse ato é uma mera comparação, uma necessidade para que se estude e se caracterize as diferenças. Contudo, essa diferença ganha uma significação particular num contexto racista, a partir dessa diferença, o racista procura argumentar ou criar uma exclusão do indivíduo diferente do meio social. Assim, Memmi (1993) afirma que “a utilização da diferença é necessária no procedimento racista: mas não é a diferença que suscita sempre o racismo, é o racismo que utiliza a diferença”. (p. 121).

Neste ponto, cabe reiterar que a faceta de “igualdade racial” criada no Brasil gera um racismo mascarado. Para Santos (2004) a dinâmica de discriminação, se sustenta pelo fato de que, na sociedade brasileira, o racismo opera gerando seres que não podem reconhecer. O discriminador não reconhece que discrimina e o discriminado não percebe a discriminação. Dessa maneira, ele não reconhece como auxilia na manutenção das estruturas e dos discursos de discriminação.

Desse modo, no Brasil, o racismo gera seres defensivos que insistem (ou não podem) admitir o racismo onde ele ocorre e da forma como ocorre. Assim, o discriminado não é capaz de se defender e o discriminador continua a propagar o racismo, muitas vezes, sem perceber sua presença em seus discursos.

A essa cordialidade brasileira, acerca do racismo, Santos (2004) diz que brancos e negros ao utilizarem as máscaras do racismo, estão fascinados por esse estranho poder e, nesse sentido, se tornam indiferenciados. Assim, a maior força do racismo é a de fazer com que todos sejam submissos à forma de ser e de pensar racista, em que todos desejam ser branco. A brancura aqui entendida não somente como “cor” de pele, mas como símbolo hegemônico da cultura.

Como a cultura representa um conjunto de valores que são assumidos e expressos dentro de um determinado país como signos de sua nacionalidade, ela vai ser semelhante à ideia da existência de valores hegemônicos (ou nacionais) que se sobrepõem a outros que não representariam, de acordo com a lógica dominante, a cultura da nação. Dessa forma, por mais que existam diferentes culturas dentro de um mesmo país, como é o caso do Brasil, utiliza-se apenas uma para representar a nação como um todo.

Sendo assim, por maiores que sejam as diferenças nos contextos dos indivíduos, a convivência social e os grupos ao qual pertencemos influenciam nossas ações, refletindo, assim o quão propensos estamos a aceitar novos valores a fim de nós mantermos e nos identificarmos com o nosso grupo social. Santos (2004) defende que o negro, ao usar a máscara do racismo, não pode ver nem a si nem ao outro. Vive em um mundo de mascarados e são somente as máscaras que ele pode enxergar. E como os valores racistas em relação aos negros são os da negação, da criação de estereótipos, da violência física e psíquica, o negro mascarado perpetua a negação, a violência, a estereotipia contra si e contra os outros.

É assim que se perpetua a idéia do “ideal do branqueamento”, pois ao utilizar a máscara do racismo, como proposto por Santos (2004), o negro se torna “branco” não fisicamente, mas a partir da partilha dos valores e da cultura do branco e de todas as formas de identificação.

Nessa ótica, não é incomum encontramos pessoas de etnia negra que não se identificam como tal, como foi o caso de dois dos contatos feitos para coleta de entrevistas do presente estudo. Os indivíduos, inicialmente identificados por nós em suas fichas de admissão (o primeiro identificado pela foto e o segundo identificado pela certidão de nascimento) se negaram a participar do estudo por não se declararem negos.