QUENTE
Para iniciarmos essa discussão é necessário fazer uma diferença elementar entre os dois circuitos da economia urbana:
Quadro 1 : características entre os dois setores da economia
CIRCUITO SUPERIOR CIRCUITO INFERIOR
Alta tecnologia Baixa tecnologia
Muitos empregados Poucos empregados
Organização profissional Organização amadora Grande espaço físico Pouco espaço físico
Relação impessoal Relação pessoal
Fonte: SANTOS, 2008a p. 87 (ADAPTADO).
Um ponto favorável para o crescimento de ambos os circuitos no que tange a alimentação rápida, são os dados da seguinte pesquisa TORA (THE
85
OXFORD RESEARCH AGENCY. 2010): Dois quintos dos brasileiros afirmam ter
aumentado seus gastos com comida e bebida nos últimos seis meses.
Segundo o levantamento, realizado pela empresa de pesquisas o aumento do consumo desses produtos no Brasil só seria menor do que na China, onde 48% das pessoas disseram estar gastando mais com comidas e bebidas do que há seis meses.
Em três outros países pesquisados, o número de pessoas que reduziu o consumo supera o das que aumentaram o consumo supera o das que aumentaram o consumo, o Estados Unidos (48% disseram ter reduzido o consumo), Grã- Bretanha (45%) e França (29%). Na Alemanha, 21% disseram ter reduzido o consumo, enquanto 25% afirmaram ter aumentado.
A pesquisa TORA, que ouviu 1.534 pessoas nos seis países, também
verificou que 25% dos brasileiros afirmam consumir comidas de fast food, com
freqüência, porcentagem semelhante à verificada entre os norte-americanos (28%). Os franceses aparecem como os consumidores mais frequentes de fast food (36%)
(Jornal, Amazônia, 06/07/10, p. 14).
Apesar dos dois circuitos da economia urbana teoricamente serem
antagônicos, na prática são complementares na medida em que existem atividades de uso misto entre si, e, em alguns casos são até interdependentes.
Vejamos que alguns supermercados com o aporte tecnológico que lhe credencia a denominação de circuito superior da economia, vendem produtos no atacado para o abastecimento, por exemplo de condimentos e molhos para os carros de lanche de rua vender em forma de varejo.
Encontramos ainda a presença de um circuito marginal, que compreende por sua vez, certa porção do circuito superior: embora apresente características de ambos os circuitos, a exemplo de uma lanchonete numa propriedade fixa com linhas e sistemas de crédito, porém com práticas e forças produtivas ainda tradicionais. É importante perceber que em uma sociedade tão segmentada socialmente, ambos, os circuitos convivem como par dialético, dividindo mercados consumidores, apesar de manterem em muitos casos, uma micro-divisão física do espaço, podendo atender a diferentes grupos sociais.
A micro-divisão física do espaço pode ser exemplificada (de acordo com o trabalho de campo) com o caso emblemático no bairro de Nazaré, exposto na figura 1, em que as cadeiras do carro de lanche são literalmente encostadas no
86
muro da Mc Donald’s, porém, ambos têm o seu público e coexistem sem conflitos econômico-territoriais.
Podemos considerar que os dois circuitos econômicos urbanos ao passo que são concorrentes indiretos não implicam uma necessidade absoluta de incorporação completa de um sobre o outro, numa espécie de domínio setorial. Ambos direcionam suas vendas para mercados consumidores socialmente distintos. A informalidade e formalidade e seus elementos tributários intrínsecos são a maior diferença burocrática entre os dois circuitos, tendo como escopo semelhante a conquista do lucro e as estratégias de subsisti no espaço e no mercado, com as suas devidas proporções, e as diversas formas de concorrência. Em se tratando de alimentação rápida, nos bairros centrais de Nazaré e Umarizal, percebe-se, mesmo ainda de modo empírico, através de pesquisas de campo, que tanto as fast food quanto os carros de cachorro-quente estão se
expandindo territorialmente, nos dois bairros e fora deles, em busca da conhecida estratégia de ampliar mercados consumidores.
A expansão de lojas e quiosques da McDonald’s, Bob’s, Habib’s, Pizza Hut, China In Box e Subway, nos dois bairros, sem contar com o restante da cidade, seria um sintoma da constituição da metrópole paraense, e conseqüentemente da dinâmica frenética da cidade e incorporada pelos moradores, incluindo a alimentação rápida em decorrência do “tempo” metropolitano?
Houve um aumento da população e da pobreza da metrópole, a localização dos bairros de Nazaré e Umarizal, por estar no centro, e na passagem para outros bairros centrais, em que há um intenso fluxo populacional de outros bairros que se utilizam dos bairros centrais para fins de trabalho e/ou estudo, tornando-se então, estratégicos para os investimentos varejistas de alimentação, pois, estas pessoas em “passagem” por estes espaços também necessitam de alimentos rápidos, mas, por seu baixo poder aquisitivo são direcionados para os carros de lanche, que praticam preços menores em relação aos fast foods ?
Outra contradição patente em sociedades capitalistas, é que grosso modo, a globalização enquanto ordem, criada e aperfeiçoada pelo homem, necessariamente dependente das forças produtivas (mão-de-obra, capital, maquinário etc.), criou-se um paradigma pautado na técnica, como condição humana, para justificar os resultados econômicos. O Paradigma tecnológico em crescente renovação, originário do homem capitalista, trouxe extraordinários
87
resultados, entre os quais, a possibilidade de sua própria dissolução, a exemplo do antagonismo entre, o crescente aumento nos últimos anos das filiais/franquias da McDonald's no Brasil , concomitante ao agravamento da fome no país e no mundo. De acordo com algumas observações no decorrer do trabalho, tornou-se salutar mencionarmos o mínimo possível da contradição latente, e pouco questionada por parte dos arautos, tanto da esfera econômica, quanto da política, sobre a expansão das empresas de alimentos em geral, talvez na mesma proporção que aumenta o número de pessoas necessitando deste bem essencial para a sobrevivência humana.
Para percebermos o aumento de consumo de alimentos por conveniência, nos basearemos nos seguintes dados: no Brasil, a McDonald's instalou-se primeiramente em 1979, no Rio de Janeiro, e dois anos depois em São Paulo. Em 2005, as vendas de sanduíche BigMac ultrapassaram 53 milhões de unidades. A rede tem 1.146 pontos de venda no País e está presente em 21 Estados, além do Distrito Federal. São 544 restaurantes e 602 quiosques, por onde passam cerca de 1,5 milhões de clientes por dia (www.mcdonald's.com.br).
No outro extremo no que concerne à alimentação rápida ou de conveniência, a saber: o “Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2004”, relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), divulgado no dia 8 de dezembro, concluiu que morrem de fome, anualmente, pelo menos 5 milhões de crianças no mundo, o que dá uma média de um óbito a cada 5 segundos. Ou seja, desde que você começou a ler este parágrafo já morreram duas crianças de fome, pelo menos. Mais de vinte milhões de crianças nascem com o peso abaixo dos padrões mínimos, correndo maior risco de morte durante a infância.
Quadro : A fome no Brasil
Fonte: FAO (FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION), 2002.
Neste capítulo percebemos como se interconectam o global e o local pela via dialética dos dois circuitos da economia urbana, no setor de alimentação rápida.
Período Número de pessoas famintas • 1990- 1992 18,5 milhões
• 1995-1997 16,5 milhões • 2000-2002 15,6 milhões
88
Compreendemos que os dois níveis escalares global e local, se espacializam em Belém, pela ótica dos dois circuitos analisados, e que ambos se encontram em franca expansão na cidade, no entendimento de que o tempo metropolitano impõe mudanças no ritmo de vida e assimilação parcial de novos valores.
O imbricamento não se restringe ao local e global, incluindo o nacional que influência e intermédia as manifestações capitalistas, revestidas em eventos mercantis arquitetados.
89
3. PAISAGEM E LUGAR TRANSFORMADOS PELAS EMPRESAS DE FAST FOOD NOS BAIRROS DE NAZARÉ E UMARIZAL
Neste capítulo, o empírico e científico se entrelaçaram, quando se confrontou o trabalho de campo, com as teorias consagradas para a sustentabilidade das categorias paisagem e lugar, e verificar até que medida as metamorfoses concretas e abstratamente empreendidas pelas fast food, puseram
em xeque as duas categorias em tela, tendo como ponto de apoio a opinião de moradores e trabalhadores do circuito inferior dos dois bairros.
3.1 PRODUÇÃO E CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-ESPACIAL DOS BAIRROS DE