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No que se refere ao teste (c), pares de palavras em LI, confrontando-se os resultados do desempenho do grupo dos surdos com o dos ouvintes, chega-se a conclusões interessantes. Os alunos ouvintes funcionaram como grupo de controle, pois desejava-se comparar o comportamento desses participantes com o dos surdos no mesmo instrumento.

Confrontando-se os resultados encontrados no grupo dos participantes ouvintes com o dos surdos, quanto ao RT dos acertos (Tabelas 4 e 6), nota-se que a diferença entre as categorias de palavras (relacionadas e não relacionadas semanticamente) foi mais evidente para os ouvintes do que para o grupo dos surdos. Enquanto no grupo dos ouvintes foi encontrado um valor de significância para as RT, indicando diferença significativa menor que 1%, os informantes surdos apresentaram outro desempenho. Para os últimos, a diferença entre as duas categorias resultou em um valor de p= 0,09, indicando diferença marginalmente

significativa ao nível de 10%. Com esse nível de significância apenas se sugere que existe diferença no RT de pares de palavras semanticamente relacionados e não relacionados no grupo dos surdos.

Se compararmos o desempenho do grupo dos surdos com o dos ouvintes nas categorias citadas, considerando-se os acertos, o Teste t de Student indicou diferença significativa entre as RT. Para o grupo dos ouvintes, foi obtido um valor de RT 2222 ms e para os surdos 7031 ms. Com o valor de significância de p˂ 0,001, pode-se inferir que os surdos demoraram mais tempo para responder corretamente do que seus pares ouvintes.

Outra diferença visível entre o grupo de surdos e ouvintes refere-se ao número de outliers presentes em cada grupo. Na amostra dos ouvintes (nos acertos) foram encontradas 11 observações atípicas cometidas por participantes variados, correspondendo a 5 do total dos 9 informantes ouvintes. Já no grupo dos surdos, os

outliers corresponderam a 16 ocorrências encontradas em apenas 2 participantes,

sendo que um deles foi responsável por 11 dos 16 casos.

A diferença no desempenho dos surdos e ouvintes pode ser visualizada no Gráfico 10 adiante em que fica evidente a rapidez nas respostas dos ouvintes tanto para acertos como para erros, ocasionando valores menores nos RTs, e os maiores valores no RT no grupo dos surdos. Esses resultados talvez possam ser explicados com base no MHR de Kroll e Stewart (1994), segundo o qual a relação entre L1-L2 é mais forte do que a relação L1-L3, e que neste trabalho foi adaptado, para explicar o processamento de vocabulário em contexto multilíngue e línguas de modalidades diferentes.

Gráfico 10 - Instrumento (c) - pares de palavras em LI: RT (em milissegundos) para os erros e acertos, incluindo os 9 participantes surdos e os 9 ouvintes

Fonte: A autora (2013).

Ao assumir que as palavras na L3 (LI) estejam relacionadas aos conceitos e léxico e pela tradução na L1 (LIBRAS), e que esse seja o terceiro sistema linguístico do aprendiz surdo, é esperado que o surdo necessite mais tempo de processamento na LI, ao menos nos estágios iniciais de sua aquisição. A L3 (LI) é a língua mais recentemente aprendida pelos informantes surdos desta pesquisa; como consequência, é provável que, das três línguas, seja a que estabelece relação mais fraca com o sistema conceitual, fazendo com que o aluno recorra à tradução na L1 (LIBRAS), língua em que a relação palavra-conceito é mais consolidada. Soma-se a isso o fato de que o surdo possui uma L1 sem representação escrita alfabética que possa auxiliar e, portanto, acelerar a leitura de palavras na L3 (LI).

Por outro lado, os informantes ouvintes enfrentam uma realidade totalmente diferente. A LI consiste no segundo sistema linguístico desses aprendizes, e ainda que sua proficiência nessa língua seja básica, ela está mais próxima de sua L1 (LP).

Talvez a conexão palavra-conceito do MHR de Kroll e Stewart (1994) que relaciona a L2 à L1 seja mais forte e consistente do que a conexão no sentido L3-L1, caso dos informantes surdos desta pesquisa. Os sujeitos foram alfabetizados em sua L1 (LP), o que talvez seja um facilitador no processamento de palavras em uma L2 (LI) com escrita alfabética.

Pelo exposto, acredita-se que uma tarefa de leitura da L3 (LI) seja mais difícil para o surdo em estágio inicial de aquisição nessa língua do que para o ouvinte aprendiz de LI como L2, pois o elo entre o sistema conceitual e a representação lexical da L3 ainda é tênue e o surdo tem necessidade de recorrer à L1 (LIBRAS) para acessar o significado na L3 (LI). Tais considerações podem explicar o desempenho dos surdos e ouvintes em tarefas de compreensão no Gráfico 10 acima.

Quanto à distribuição de erros e acertos nas categorias de palavras semanticamente relacionadas e não relacionadas (Tabelas 5 e 7), observa-se que os dois grupos (surdos e ouvintes) se comportaram de forma bastante semelhante. A proporção entre erros e acertos, nas referidas tabelas, demonstrou que os dois grupos apresentaram respostas similares. No entanto, esse resultado não descarta a possibilidade de que a relação semântica e quirêmica das LSs influa de forma diferente nas respostas de surdos e ouvintes.

6.6 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS RELATIVOS AO INSTRUMENTO (D): PRODUÇÃO ESCRITA DE PALAVRAS EM LI

O quarto e último teste, instrumento (d), é um instrumento de produção de escrita livre que avalia a competência escrita em LI. Foram apresentados 14 sinais por meio de desenhos, sendo que os alunos, após observá-los, deveriam escrever a palavra em LI que correspondesse ao sinal apresentado. Este teste faz a análise das possíveis trocas ortográficas, semânticas, quirêmicas e examina os erros de transferência cometidos pelos alunos, que podem ocorrer da LIBRAS (L1) para a LI (L3) ou da LP (L2) para a LI (L3). Vale salientar que a análise dos dados encontrados neste instrumento é decorrente da interpretação que se fez sobre os processos mentais dos alunos surdos ao produzirem as palavras em LI.

Neste instrumento, figuram 126 realizações, resultado que é obtido pelo número de participantes (9) multiplicado pelos itens que compõem este teste, ou

seja, 14. As incorreções dos alunos foram agrupadas em cinco categorias, a saber: ortográfica, semântica, quirêmica, de transferência da LP (L2) para a LI (L3) e “indeterminada” ou SR (sem resposta).

Analisando-se a produção escrita em LI dos informantes surdos, percebem-se as diferentes formas de apropriação desse sistema, que apresenta estratégias peculiares e que são típicas de aprendizes surdos, bi/multilíngues e usuários de uma língua espacial. Nota-se pelo Gráfico 11 adiante que a maior incidência de erros foi de ordem ortográfica, correspondendo a 51,1% ou 46 erros de um total de 90. Figuram nesse grupo produções como “churck”, “churcm”, “chirck”, “coruh” para o sinal IGREJA da LIBRAS a ser traduzido como church. Igualmente foram agrupadas na categoria de erros ortográficos palavras que, além de problemas ortográficos, também apresentavam outro(s) tipo(s) de erro(s). Para ilustrar, a produção “irgre” (igreja) apresenta transferências da LP (L2) para a LI (L3) e também evidencia trocas de letras na LP. Desse modo, todas as incorreções puderam ser classificadas com mais de um tipo de erro, a fim de que se tivesse uma descrição mais detalhada das produções dos informantes.

Seguindo os erros ortográficos, a segunda maior incidência de incorreções procede de transferências da LP para a LI. Observa-se, pelo Gráfico 11 a seguir, que erros oriundos de transferência corresponderam a 34,4% ou 31 erros de um total de 90. Neste grupo de erros, para exemplificar, foram encontradas produções como “avião” para o sinal AVIÃO da LIBRAS, mas que deveria ter sido traduzido

plane. Este item lexical foi escrito corretamente em LP, porém em outros a palavra

foi escrita de forma incorreta, como “cdaeira” para CADEIRA que deveria ter sido traduzida como chair. Portanto, essa produção foi classificada como incorreta por apresentar erro de transferência da LP para a LI e, da mesma forma, por demonstrar erro ortográfico.

A terceira maior fonte de incorreções é oriunda de erros de natureza semântica. Esses erros foram responsáveis por 8,8% ou 8 em valores absolutos do conjunto de incorreções. Figuram nesse grupo produções como “frog” para o sinal PEIXE a ser escrito como fish.

A quarta incidência de incorreções foi a categoria “indeterminada”, assim denominada devido ao fato de que não havia certeza da origem do erro. Essa categoria abarcou 3,3% ou 3 erros do total das 90 incorreções. Fizeram parte desse grupo produções como “terduer” para o sinal IGREJA (church) e “ch” para

MORCEGO (bat). Essas produções escritas são, aparentemente, aleatórias, sendo completamente divergentes da grafia de uma escrita correta.

Por fim, a última categoria de erros foi a de ordem quirêmica, sendo responsável por apenas 1,1% ou 1 erro do conjunto das incorreções. Encontra-se nesse grupo a produção “trian” (train) como equivalente ao sinal CADEIRA, e que deveria ter sido escrito chair.

Nota-se pelo Gráfico 11 abaixo que houve a ocorrência de apenas um item que não foi respondido. Esse item corresponde ao sinal BOSS, equivalendo a 1,1% ou 1 erro em valor absoluto do total das 90 incorreções encontradas.

Tabela 8 - Instrumento (d) - produção escrita de palavras em LI: Tabela de prevalência do tipo de erro e intervalo de confiança

Tipo de erro Frequência Prevalência (%) Intervalo de Confiança 95% para prevalência Limite Inferior Limite Superior

Ortográfico 46 51,1% 40,8% 61,4% Transferência LP-LI 31 34,4% 24,6% 44,3% Semântico 8 8,9% 3,0% 14,8% Quirêmico 1 1,1% 0,0% 3,3% Indeterminado / SR 4 4,4% 0,2% 8,7% Total 90 100% Fonte: A autora (2013).

Observa-se pela Tabela 8 acima que os dois tipos de erro mais prevalentes, ou seja, os erros ortográficos e de transferência, não diferem estatisticamente entre si. O mesmo ocorre com os erros de natureza semântica e quirêmica. Evidencia-se que os erros ortográficos e de transferência são significativamente mais prevalentes que os demais.

Gráfico 11 - Instrumento (d) - produção escrita de palavras em LI: distribuição dos erros por categoria (porcentagem e valor absoluto em parênteses), incluindo os 9

participantes surdos

Fonte: A autora (2013).

Vale referir que os dados do instrumento (d) não comprovaram a hipótese inicial que se tinha de que os alunos surdos poderiam traduzir para a LI especificidades lexicais da LIBRAS. Tinha-se hipotetizado que os mesmos pudessem traduzir um sinal composto como IGREJA em LIBRAS para a LI com duas palavras, refletindo, assim, a influência da sua L1, porém esse resultado não foi verificado nesta pesquisa. Do mesmo modo, supôs-se que os informantes relacionariam a CM do sinal apresentado com a letra inicial da palavra em LI, resultado que também não foi encontrado. Considerou-se também que os alunos tentariam transformar em letras do alfabeto manual as CMs que não fazem parte das 26 letras do alfabeto manual da LIBRAS como o sinal POLÍCIA, hipótese que também não foi confirmada neste trabalho. A seguir, os dados da pesquisa serão discutidos à luz das cinco hipóteses.

6.7 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS RELATIVOS À PRIMEIRA HIPÓTESE

Levando-se em consideração a primeira hipótese formulada neste trabalho, que previa a transferência de natureza léxico-semântica entre línguas de