• No results found

12. Results

12.3.  Evaluation 2: Functional features

12.3.3. Task solving

Enquanto A volta do marido pródigo põe em relevo aspectos práticos do exercício da política partidária brasileira, Minha gente suscita reflexões acerca de questões como civilização e estado de natureza e, sobre o pano de fundo da prática da política no Brasil, fornece um panorama sobre o processo civilizador. Esses temas são desenvolvidos no âmbito do público e do privado e têm como linha mestra os acontecimentos que envolvem um narrador–personagem em suas relações nos dois campos. Como conseqüência, o conto retoma questões referentes a estado de natureza e civilização, ordem e desordem, já tratadas nos outros contos até aqui analisados, porém trazidas à baila de forma mais conceitual.

Algumas inter–relações simples na narrativa dos dois contos, que funcionam como pistas, sugerem a possibilidade de estabelecer um parentesco entre eles; ambos têm personagens homônimos: Ramiro, que termina por se casar com Maria Irma em

Minha gente, e o espanhol que compra a mulher de Lalino em A volta do marido pródigo; Eulálio, o Lalino, e dona Eulália, a já falecida mãe de Maria Irma; “Maria” é o

primeiro nome da filha de tio Emílio e também da mulher de Lalino. Afora esses casos, as epígrafes dos dois contos falam de certa Maria – e este é o único nome próprio que é repetido nas epígrafes de Sagarana – como realizadora de façanhas muito dificultosas, para cuja realização são necessários atributos fabulosos:

“Tira a barca da barreira, deixa Maria passar: Maria é feiticeira. ela passa sem molhar.”

(CANTIGA DE TREINAR PAPAGAIOS.) (p. 173).

O interesse por mulheres estrangeiras (idealizadas como fisicamente perfeitas), que levou Lalino à capital, também se manifesta na imaginação e nos devaneios do narrador de Minha gente, como na passagem em que, por despeito, ele tenta desmerecer os olhos da prima: “Olhos de Maria Irma... Bobagem, eu vou gostar mais de olhos castanhos, de olhos verdes... Suecas, húngaras, dinamarquesas... polonesas de olhos pardos...” (p. 195); ou ainda:

Meu espírito fumaceou, por ares de minha só posse – e fui, por inglas de Inglaterras, e marcas de Dinamarcas, e landas de Holanda e Irlanda. Subi à visão de deusas, lentas apsaras de sabor de pétalas, lindas todas: Dária, da Circássia; Ragna e Aase; e Gúdrun, a de olhos cor dos fiordes; e Vívian, violeta; e Érika, sílfide loira; e Varvára, a de

belos feros olhos verdes; e a princesa Vladislava, císnea e junoniana; e a princesinha Berengária, que vinha, sutil, ao meu encontro, no alternar esvoaçante dos tornozelos preciosos... (p. 201–2)

Numa primeira visada, também podem ser observadas algumas diferenças entre as personagens dos dois contos; o caráter de tio Emílio é diverso daquele do Major Anacleto, tanto como mandante como chefe familiar; são também diversos o esperto Lalino e o pouco arguto Primo narrador; a relação amorosa do Primo com Maria Irma e com Armanda é diversa da de Lalino com as prostitutas e Maria Rita. É em decorrência dessas diversidades que os dois contos se tornam complementares.

Em A volta do marido pródigo, a maior parte da narrativa é ocupada pela política; em Minha gente, é o amor que toma a maior parcela do texto. Mas é o social que fundamenta Minha gente. Vários acontecimentos nas esferas pública e privada, sempre subordinados ao fato social, dão suporte a essa afirmação e, dentre essas manifestações, ocupam posições de destaque na narrativa: o processo político, ponto culminante da atividade humana na esfera pública, e as relações familiares e afetivas, com proeminência para o amor, o sentimento mentor das ações humanas na vida privada.

A caracterização da vida pública no conto é feita principalmente por quatro personagens: o narrador (aqui chamado de “o Primo”), Santana José Malvino e tio Emílio.

Santana é inspetor escolar; é, portanto, um homem que atua no projeto de modernização do Brasil por meio da educação, que teve início na década de 1920. Antonio Candido, em A educação pela noite, afirma que a reforma do ensino no nível federal a partir de 1930 por Francisco Campos é a continuidade dessas reformas estaduais na década anterior, e que “a escola pública leiga pretendia formar mais o ‘cidadão’ do que o ‘fiel’, com base num aprendizado pela experiência e a observação que descartava o dogmatismo”. Segundo Candido, essa noção “pareceu à maioria dos católicos o próprio mal, porque segundo eles favorecia perigosamente o individualismo racionalista ou uma concepção materialista–iconoclasta.” (CANDIDO, 1987, p. 182–3). Santana incorpora o ideal nacional moderno de educação, como descrito por Candido, e, portanto, se ocupa de importantes temas sociais, seculares e não eclesiásticos: “E Santana fala: partidas fechadas... xadrez e memória... psicologia infantil... cidade e roça... escola ativa... devoção e nutrição... a mentalidade do capiau...” (p. 177). Parece– nos que ele se empenha com dedicação para cumprir satisfatoriamente as muitas

atividades exigidas por seu cargo, pois à pergunta do Primo, se apareceria na fazenda nos próximos dias, responde: “– Impossível. Tenho uma enfiada de escolas por visitar, e devo tomar o trem muito longe daqui. Até outra vez!...” (p. 185). Quanto ao temperamento, Santana é todo cerebral, contido na demonstração de emoções, “Não tem grandes expansões nem abraços” (p. 173), seu mundo é interno, intelectual, características que justificam seu enorme interesse e sua habilidade no estratégico jogo de xadrez; raciocina sempre, pois, como diz o Primo, está sempre com a mente ocupada com problemas, isolado do mundo (p. 179). Sua descrição física pelo narrador é de um indivíduo de bom caráter, rigoroso, dono de cérebro tão volumoso a ponto de não caber na caixa craniana: “Tem apenas duas bossas frontais poderosas, olhos bons, queixo forte, e riso bom em boca má. E, no mais, para ele a vida é viva, e com ele amasiada.” (p. 173–4).

Santana e o Primo se harmonizam e jogam o mesmo jogo; completam–se como o preto e o branco no tabuleiro, mas o Primo é emotivo, pouco afeito a questões sociais e tem consciência limitadíssima do que o cerca no âmbito público; aprecia a natureza no que ela tem de belo e prodigioso e, conforme é mostrado em muitas passagens do conto, deixa–se levar por afetos, cores, sons: “Na serra, verde–malaquita, arquipélagos de reses, muito alvas, pastando, entre outras ilhas, vermelhas, do capim barba–de–bode. E, nos pontos mais ínvios da encosta, tufos do catinga–de–bode florido, em largas manchas azuis.” (p. 176). Embora os dois homens sejam cultos – mencionam a Odisséia com desenvoltura e se entretêm jogando xadrez –, diferem muito na maioria dos aspectos; essa diversidade de caráter pode ser notada já a partir do momento em que se encontram na estação ferroviária:

– “Vamos! Partamos! Já Circe, a venerável, me advertiu!...” Mas Santana, que é criatura do Caraça, retrucou:

– “Vinde, amigos, perguntai ao estrangeiro se sabe ou se aprendeu, algum dia, qualquer jogo...” (p. 174).

O Primo menciona as palavras do nostálgico Ulisses nos versos 549 do canto X, pronunciadas pelo herói no momento em que desperta seus companheiros de viagem; Santana retruca com as palavras mordazes de Laodamante a respeito de Ulisses – estrangeiro na ilha dos feácios como o Primo no sertão – contidas nos versos 133 e 134 do Canto VIII, e cujo sentido o leitor entenderá mais tarde, quando se dará conta da inexperiência do Primo nos jogos do amor e da política.

Enquanto Lalino se move com desenvoltura no meio em que atua, o Primo – que desabafa: “Pororoca! Será que ninguém aqui pensa como eu?!...” (p. 200) – tropeça na maioria das frentes em que opera: na política, seu desempenho é medíocre e pouco ou nada ajuda o tio na conquista de votos; no campo afetivo, comporta–se ingenuamente e termina por se tornar o servidor involuntário da prima no obstinado projeto desta última de surrupiar o namorado de sua amiga Armanda. São fracassadas suas tentativas de mostrar sagacidade e esperteza no seu contato com José Malvino e com o moleque Nicanor. E talvez até venha a perder para Santana uma partida de xadrez que já dava por ganha. A forma desajeitada de o Primo se relacionar com várias personagens da obra faz de Minha gente o conto que trata mais apropriadamente da dificuldade dos narradores da primeira pessoa em Sagarana: homens da cidade, custa–lhes adaptar–se à mentalidade do sertanejo e ao ambiente rural. Por exemplo, escapa à sua compreensão a lógica da regra local contida no desfecho do caso de dois vaqueiros que ajudam a encontrar o boi desgarrado de um terceiro e desconhecido vaqueiro que, pouco antes, lhes atiçara marimbondos (p. 183). Já no primeiro parágrafo do conto ele enumera poucos e esparsos conhecimentos sobre a vida do sertão, quase todos referentes a cuidados para evitar dissabores, tanto no convívio com o meio como na relação afetiva com as primas – e, particularmente, com Maria Irma:

Quando vim, nessa viagem, ficar uns tempos na fazenda do meu tio Emílio, não era a primeira vez. Já sabia que das moitas de beira de estrada trafegam para a roupa da gente umas bolas de centenas de carrapatinhos, de dispersão rápida, picadas milmalditas e difícil catação; que a fruta mal madura da cagaiteira, comida com sol quente, tonteia como cachaça; que não valia a pena pedir e nem querer tomar beijos às primas; que uma cilha bem apertada poupa dissabor na caminhada; que parar à sombra da aroeirinha é ficar com o corpo empipocado de coceira vermelha; que, quando um cavalo começa a parecer mais comprido, é que o arreio está saindo para trás, com o respectivo cavaleiro; e, assim, longe outras coisas. Mas muitas mais outras eu ainda tinha que aprender. (p. 173)

No final do conto, ele abruptamente se apaixona por Armanda – filha de fazendeiro, mas também da cidade, como ele – e é por esta de imediato correspondido. Encontra aí a parceira que provém do mesmo meio que ele e troca com ela o beijo que lhe fora sempre negado por Maria Irma.

A diferença de modo de ver o mundo entre Santana e o Primo pode ser observada na passagem abaixo; o de Santana é vasto – provável explicação de sua maior aptidão no jogo de xadrez – e fala do Brasil, enquanto o do Primo é mais localizado e passa do céu – portanto, do universal – diretamente para o chão de Minas Gerais:

Cavalgamos. Subimos. Subir mais. Agora, um lançante contínuo, serra avante em lombo longo, escalando o espigão. E, pronto, o mundo ficou ainda mais claro: a subida tinha terminado, e estávamos em notáveis altitudes. (...)

Ali, até uma criança, só de olhar ficava sabendo que a Terra é redonda. E eu, que gosto de entusiasmar–me, proclamei:

– Minas Gerais... Minas principia de dentro para fora e do céu para o chão. . . Santana ouviu, e corrigiu:

– Por que você não diz: o Brasil? E era mesmo. Concordei. (p. 178–80)

Em oposição intelectual a Santana e ao Primo, temos José Malvino que, embora analfabeto, sabe as leis do mundo e tem experiência de vida. Santana reconhece essa virtude no capiau: “–Veja este que vai aqui à nossa frente: é um camarada analfabeto, mas, no seu campo e para o seu gasto, pensa esperto.” (p. 177). Ele demonstra um conhecimento não acessível ao Primo, e sua capacidade dedutiva, dentro de seu campo de atividade, faz dele um Sherlock sertanejo.

De repente, o José Malvino, estacando o animal, curvou–se para examinar qualquer coisa no chão.

– Que é que você está olhando, José?

– É o rastro, seu doutor... Estou vendo o sinal de passagem de um boi arribado. A estrada–mestra corta aqui perto, aí mais adiante. Deve de ter passado uma boiada. O boi fujão espirrou, e os vaqueiros decerto não deram fé... Vigia: aqui êle entrou no cerrado... Veio de carreira... Olha só: ali ele trotou mais devagar...

– Mas, como é que você pode saber isso tudo, José? indagou Santana, surpreso. – Olha ali: o senhor não está vendo o lugarzinho da pata do bicho? Pois é rastro de boi de arribada. Falta a marca da ponta. Boi viajado gasta a quina do casco... Eles vêm de muito longe, vêm pisando pedra, pau, chão duro e tudo... Ficam com a frente da unha roída... É diferente do pisado das reses descansadas que tem por aqui...

Não consigo dissociar alguma coisa nas pegadas. (ps. 181– 2).

Os conhecimentos das três personagens, Santana, o Primo e José Malvino, se completam com a capacidade de “ver tudo de longe” – como Santana e, em âmbito mais restrito, o Primo –, mas também de perceber os pormenores, “pelo rastro do chão”, como literalmente faz José Malvino. Ver de longe e de perto para conhecer o mundo é o que faz o Major Saulo, de O burrinho pedrês.

A outra personagem com papel significativo na esfera pública em Minha gente é tio Emílio. O Primo afirma que, antes de chegar à fazenda, guardava dele péssima memória, a de um homem desajeitado, apático, lento, sem pressa. Agora já não é apático como dantes, mas continua calmo e fechado, mostrando cautela nas palavras e

reserva em expor sentimentos publicamente, virtudes essenciais para o exercício da política. Seu salto da inanição para a dinâmica do progresso, no entanto, não será completo e isento de antagonismos. Ao mesmo tempo em que adquire uma máquina de escrever moderna (p. 208), em suas relações na esfera pública prevalecerão sempre marcas do arcaísmo persistente nas relações políticas no Brasil. Ele enfrenta a oposição de um jovem médico que representa uma vaga de modernidade, e esse médico é a causa provável da mudança de tio Emílio, porque ameaça o prestígio político do mandante. O narrador, seja por afeto ao tio, seja por sua propensão à acomodação, não mostra simpatia por esse adversário político e fala da indecisão do povo do arraial, que “obedece ao médico, um doutor moço e solteiro, pessoa portanto sem nenhuma urgência, que tarda a se definir.” (p. 188 – 9).

A política praticada por tio Emílio – e de modo geral pelos mandantes locais em outros contos de Sagarana – é regida por relações pessoais e partidárias confusas e instáveis porque conduzidas mediante complicados arranjos que com freqüência geram atritos e desacertos. Ao discorrer sobre essas relações, o Primo se refere à área de influência do tio como um “feudo”:

Política sutilíssima, pois ele faz oposição à Presidência da Câmara no seu Município (n.º 1), ao mesmo tempo que apóia, devotamente, o Presidente do Estado. Além disso, está aliado ao Presidente da Câmara do Município vizinho a leste (n.º 2), cuja oposição trabalha coligada com a chefia oficial do município n° 1. Portanto, se é que bem o entendi, temos aqui duas enredadas correntes cívicas, que também disputam a amizade do situacionismo do grande município ao norte (n.º 3). Dessa trapizonga, em estabilíssimo equilíbrio, resultarão vários deputados estaduais e outros federais, e, como as eleições estão próximas, tudo vai muito intenso e muito alegre, a maravilhas mil. (p. 188).

Mas, aqui neste nosso feudo, grande é o prestígio do meu grande tio Emílio. Seu agrupamento domina a zona das fazendas de gado, e manda na metade da vila. (p. 188)

A força política dos detentores locais do poder é aproveitada pelo presidente do Estado para fortalecimento de sua base eleitoral. Por outro lado, a prerrogativa do presidente de designar o comando da justiça dos municípios é aproveitada por tio Emílio para atender a seus interesses eleitorais. Quando tal prerrogativa apresenta resultados políticos desfavoráveis, ele reage indignado e fala em compressão e suborno:

Tio Emílio pediu–me que redigisse um telegrama ao Secretário do Interior, solicitando a substituição do comandante do destacamento policial da vila, que, por sinal, já foi cambiado duas vezes, nestes seis meses derradeiros. Porque, lá na Capital, sabem montar à cossaca; em dois ginetes, e as duas facções são atendidas rotativa e relativamente. Enquanto isso, o tempo passa, o pau vai e vem, e folgam os filhos da sabedoria. Mas, às

vezes, meu tio bate com o rebenque na bota, e fala em “compressão e suborno”; depois, suspira e comenta a degenerescência dos usos e a sua necessária regeneração. (p. 190).

O Primo associa a atividade política do tio às habilidades da caça e da pesca, atividades que se distinguem pelo benefício imediato que trazem, ao contrário do que ocorre na agricultura e na pecuária; a prática da política é, portanto, associada a uma atividade em que se buscam resultados instantâneos: “O político pensa apenas em minutos” (COUTINHO, 1991, p. 78), dirá Rosa a Gunther Lorenz. Além disso, ao identificar caça e a pesca com a política, o narrador ressalta a astúcia e a paciência exigidas na perseguição ao voto. Ele assim se refere à aptidão do tio para a política:

Santana costuma dizer: – Raspe–se um pouco qualquer mineiro: por baixo, encontrar–se–á o político...

Para mim, não é bem isso. Tanto mais que ninguém raspou tio Emílio. Mas, acontece que ele sempre gostou de caçar e de pescar. E, de tanto ver a paca apontar da espumarada do poço, bigoduda e ensaboada como um chinês em cadeira de barbeiro... E de se emocionar com a ascensão esplêndida da perdiz, levantada pelo perdigueiro, indo ar acima, quase numa reta, estridulante e volumosa, para se encastelar... E de descair o anzol iscado, e ficar caladinho, esperando o arranco irado da traíra ou os puxões pesados do bagre... Bem, afinal, pode ser que seja Santana quem tenha razão. (p. 189).

Para manter e consolidar o poder político, Tio Emílio emprega na campanha grande parte dos recursos financeiros de que dispõe: “– O pior foi que eu tive um prejuízo grande. Gastei para mais de uns oitenta contos... Um estrago!... Estou pensando em fazer um acordo na política, em desde que eu fique sendo o chefe...” (p. 221). Obviamente, tal acordo político, pelo fato de ser realizado com o fito explícito de recuperar o dinheiro gasto em campanha, só pode vir atrelado a “compressão e suborno”, como ele mesmo diz. Curiosamente este é em Sagarana um caso único de declarada corrupção, essa prática inabalável na política brasileira; parece–nos que Guimarães Rosa teria a possibilidade de mostrar a corrupção política nos dois contos em que a figura do político é explorada em profundidade, mas escolheu justamente a personagem de tio Emílio, em quem ela parecia menos provável.

Como ativista da cordialidade, os interesses privados de Tio Emílio se sobrepõem aos interesses coletivos e, quando ele atende à necessidade da comunidade ou ao interesse particular de seus eleitores, mira exclusivamente a obtenção de votos; é o que acontece, por exemplo, com sua decisão no caso do assassínio de Porfírio por Alexandre, o Xandrão Cabaça:

Chamou o Norberto, o capataz, e mandou, que fosse ver o corpo. E que corresse alguém ao arraial, para chamar o subdelegado.

O capataz saiu, convocando os camaradas. Meu tio se chegou para o parapeito, e tirou o fumo mais o canivete.

Não me contive:

– Mas, tio Emílio, o senhor que é tão justiceiro e correto, e que gostava tanto do Bento Porfírio, vai deixar isto assim? Não vai mandar depressa, gente atrás do Alexandre, para ver se o prendem?

Tio Emílio, alisando a sua palha, e com o sorriso que um sábio teria para uma criança, olhou–me, e disse:

– Para os mortos... sepultura! Para os vivos... escapula!..

Humilhei meus pendões. Calei– me. Meu tio esfregava nas palmas das mãos o fumo picado. Enrolou o cigarro. De súbito, bateu na testa, e pulou:

– Não é que eu não sei onde é que eu estava mesmo com a cabeça?! Ô Gervásio, corre aqui!... Já perdi um voto, e, se o desgraçado fugir para longe, são dois que eu perco... (p. 199).

Lança mão de seu poder econômico na compra de votos: “Tio Emílio não cessa de receber gente. Expede portadores, e, até fora d’horas na noite, costumam chegar emissários. O número de camaradas e agregados aumentou: na fazenda, atualmente, não se recusa trabalho, nem dinheiro, nem nada, a ninguém.” (p. 189). Utiliza também seu poder político para influenciar a decisão judicial em favor do assassino Alexandre, seu eleitor: “– Agora a gente tem é de ver os jurados, para o júri do leso do Xandrão Cabaça...” (p. 200). Aproveita o funeral de Bento Porfírio para mostrar generosidade com a viúva e com a mulher que motivou a tragédia: “Chovia, na verdade, porém, a chuva não impediu Maria Irma de sair, para visitar e confortar a viúva e a outra. Meu tio também se mostrou assaz generoso para com as duas. Minha gente é boa.” (p. 201) – passagem que não deixa claro se a visita da prima às duas mulheres tem fundo humanitário ou alguma razão política, ou tudo isso ao mesmo tempo, mas mostra a