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Glossário
(N. do A.: As nomenclaturas utilizadas na África Oriental portuguesa no período em estudo têm uma variação assinalável em função da fonte e do seu autor. Neste sentido, para a construção do presente glossário presidiu o critério da homogeneidade tendo-se optado, sempre que possível por tornar similar a grafia de cada termo ao longo de todo o estudo. A lista que se segue elenca as expressões próprias do objeto de estudo e cujo entendimento é essencial para uma compreensão plena do mesmo).
Achikunda – (sing. Chikunda ou Muchikunda) – cativo que se dedica ao manejo das armas ao serviço do prazeiro em atividades como a caça, a guerra e a escolta de bensi;
Aringa – povoação fortificada ocupada por cativos foragidosii;
Bantus - Grupo étnico de grande abrangência na África subsariana;
Bútua – reino a sul do vale do Zambeze, limítrofe do Monomotapa. A expansão
deste reino para territórios do Monomotapa, liderada pelo Changamire Dombo levaria a grandes alterações geopolíticas no vale do Zambeze;
Cafre – designação de origem muçulmana para africano;
Changamire – título dado ao soberano do império Rozvi formado a sudoeste do
Monomotapa; no contexto do objecto de estudo refere-se especificamente ao soberano Changamire Dombo protagonista da invasão das terras do Monomotapa, e de importantes posições comerciais portuguesas no final do séc. XVIIiii;
Chona – grupo étnico que prevalece no atual zimbabué, usado neste contexto
como sinónimo de Monomotapa ou Karanga;
Colono – africano livre que vive dentro do prazo nas povoações africanas; Cuama – designação dada ao rio Zambeze no séc. XVI;
Enfiteuse – figura do direito romano que prevê a cedência do domínio útil de uma terra, mantendo o proprietário, que cede o seu usufruto a troco de um foro.
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Enfiteuta – individuo que tem o usufruto da enfiteuse; no contexto em estudo, o mesmo que prazeiro
Karangas – sub-grupo dentro da étnia Chona; neste contexto, habitante do
Monomotapaiv.
Lançado – indivíduo deixado em terra, por vontade própria ou no cumprimento
de pena, que no contexto dos descobrimentos procurava entrosar-se com as populações locais e recolher informações sobre determinada região;
Machiras – nome genérico dado aos panos de algodão que serviam de moeda de
troca no sertão;
Mambo – (pl. Amambo) – soberano de várias povoações africanas, sobrepondo-
se hierarquicamente ao fumo;
Maraves – conjunto de povos que se estabeleceram na margem Norte do Zambeze alterando a sua geopolítica a partir do séc. XVIII, altura em que alguns prazos e terras de fatiota se posicionaram no seu território. Entre os seus constituintes assinalamos o povo Yao pela sua importância a nível comercial na região;
Mf’umo – (pl. Af’umo) – soberano da povoação africana;
Mocaranga – região a sul do Zambeze na qual se concentrava o domínio político do Monomotapa; deve a designação à língua falada pelos seus habitantesv;
Muzungos – pioneiros do sertão africano; portugueses, senhores dos prazos, branco. No dialecto local significa literalmente “homem branco”; com o passar das gerações o nome generalizou-se a indivíduos afro-portugueses, mesmo que fisionomicamente africanos ou afro-portugueses; Capela interpreta de forma diferente, sendo no sentido literal “passear ou deambular”vi; Genericamente, refere-se aos
senhores dos prazos, independentemente da sua fisionomia.
Patrício – habitante dos prazos filho de pai português, indo-português ou afro- português e de uma africanavii;
Prazeiro – indivíduo a quem é concedido o prazo;
Prazo – contrato resultante da enfiteuse; a sua nomenclatura resulta da expressão latina plazum, significando contrato. Erroneamente, vários autores atribuem a raiz da palavra ao prazo de três vidas das enfiteuses;
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Presúria – forma de repartição territorial que remonta ao período da reconquista
cristã, tendo a sua origem o direito «natural» de conquista;
Rios de Sena – Designação do conjunto hidrográfico do Zambeze;
Sesmaria – forma de repartição territorial com o intuito agrícola; a sesmaria,
contrariamente à enfiteuse, não obrigava ao pagamento de um foro.
Terras da Coroa – conjunto de territórios reconhecidos legalmente na África Oriental e aforados pelas instituições portuguesas;
Tongas – subgrupo étnico da família Bantu que habitava entre Inhambane e
Sofalaviii;
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i C.f. A. ISAACMAN et D. PETERSON, "Making the Chikunda: Military Slavery and Ethnicity in Southern Africa, 1750-1900", The International Journal of African Historical Studies, vol. 36, n° 2, 2003, pp. 257‑281.
ii C.f. J. CAPELA, "Como as Aringas de Moçambique se Transformaram em Quilombos",
Revista Digital Tempo, 2005, pp. 70‑97.; M. NEWITT, História de Moçambique, Mem Martins, Europa- América, 1997., p.278
iii E. RODRIGUES, Portugueses e africanos nos Rios de Sena. Os prazos da Coroa em
Mozambique nos séculos XVII e XVIII, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2013., pp.239-254 iv C.f. M. NEWITT, História de Moçambique, op. cit., pp.48-50
v C.f. F.J. dos SANTOS, Etiópia Oriental (I), Lisboa, Publicações Alfa, 1989., p.274
viC.f. J. CAPELA, Moçambique Pela Sua História, e-book, Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, 2010.
vii A.P. WAGNER, Populações no Império Português: Recenseamentos na África Oriental
Portuguesa na Segunda Metade do Século XVIII, Curitiba, Universidade Federal do Paraná, 2009., pp.109-110