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O contexto de produção de bens e serviços equivale ao ambiente sociotécnico

no qual se realiza a atividade de trabalho. O conceito, descrito por Ferreira e Mendes (2003), busca englobar aspectos já descritos na literatura como organização do trabalho, processos, relações sociais e condições de trabalho, que toma uma forma específica no modo capitalista de produção.

CPBS é o espaço material, organizacional e social onde se realiza a atividade do trabalho e onde são utilizadas as estratégias individual e coletiva de mediação pelos trabalhadores na interação com a realidade de trabalho. Essas estratégias de mediação são os modos de pensar, sentir e agir diante da diversidade de contradições do mundo do trabalho (FERREIRA; MENDES, 2003). É, este contexto, composto por três dimensões:

• As condições de trabalho (CT): caracterizam a infra-estrutura, o apoio institucional e as práticas administrativas. Os elementos que a integram são o ambiente físico, os instrumentos, os equipamentos, a matéria-prima, as informações, os suprimentos e as políticas de recursos humanos.

• As relações socioprofissionais (RS)21: caracterizadas pelas relações

hierárquicas, interações coletivas com membros da equipe e de outros grupos de trabalho e relações externas com consumidores, fornecedores e outros representantes institucionais.

• A organização do trabalho (OT): constitui-se pelos elementos prescritos que

expressam as concepções e as práticas de gestão de pessoas e do trabalho, por exemplo, natureza das tarefas, regras formais e informais, ritmo e produtividade esperados.

O Quadro 2, apresentado a seguir, permite compreender ainda mais os elementos constituintes de cada dimensão do contexto produtivo.

21 A definição adotada na referida obra é relações sociais de trabalho, mas em função desta confundir-se,

muitas vezes, com conceitos já utilizados por teóricos ligados a outras disciplinas (sociologia, por exemplo), a terminologia foi repensada e atualizada para relações socioprofissionais, sendo esta, a utilizada nesta tese.

Quadro 2 – O Contexto de Produção de Bens e Serviços – CPBS

Dimensões do

CPBS Elementos constituintes Descrição

Instrumentos Ferramentas, máquinas, documentação.

Ambiente físico Sinalização, espaço, temperatura, ar, luz e som. Matéria-prima Objetos materiais, simbólicos e informacionais. Equipamentos Materiais, arquitetônicos, aparelhagem, mobiliário Suporte

organizacional Informações, suprimentos e tecnologias. Condições de

Trabalho Elementos estruturais

Políticas de gestão

de pessoal Remuneração, desenvolvimento, benefícios. Relações coletivas Colegas da equipe de trabalho e

de outras equipes. Relações

hierárquicas Chefias imediatas e chefias superiores. Relações

socioprofissionais interacionais Elementos

Relações externas Usuários, consumidores e representantes institucionais (fiscais, fornecedores). Produtividade

esperada Metas, qualidade, quantidade. Divisão do trabalho Hierárquica, técnica e social. Regras formais Missão, normas, legislação e procedimentos. Regras informais Ofícios, hábitos e práticas.

Ritmos Prazos e pressões.

Tempo Jornadas, pausas e turnos.

Organização de Trabalho Elementos prescritos (formal ou informalmente)

Controles Supervisão, fiscalização e disciplina.

Fonte: Adaptado de Ferreira e Mendes (2003)

Conforme afirmam Ferreira e Mendes (2003) o conceito de contexto de

produção de bens e serviços sugere um enfoque tridimensional (sujeito-atividade-

mundo) e serve de cenário para a compreensão do mundo do trabalho. Segundo Ferreira (2003), o CPBS disponibiliza recursos materiais, instrumentais, tecnológicos e organizacionais aos trabalhadores que os utilizam para o exercício das suas atividades. A análise deste contexto em Ergonomia da Atividade visa conhecer o funcionamento da instituição na qual se realiza a intervenção. Incluem-se ainda na análise do contexto, aspectos mais amplos que, segundo Ferreira (2003), possibilitam a compreensão da situação a ser investigada (entre estes: os aspectos sociais, econômicos, políticos, geográficos, técnicos e jurídicos).

Para Ferreira (2003), o contexto de produção influencia seus usuários estabelecendo propriedades e lógicas de funcionamento específico, tende a ‘moldar’ o comportamento, explicitando limites e possibilidades de ação dos diferentes indivíduos nas situações de trabalho. O sujeito transforma o contexto para satisfazer suas necessidades materiais, sociais e espirituais e este, por sua vez, é transformado por ele de forma dinâmica e interdependente.

Para a melhor compreensão desta relação existente entre sujeito-contexto e da atividade, torna-se importante a identificação dos chamados eventos críticos. São situações/eventos que rompem com o fluxo normal de atividade de trabalho. Conforme ressaltam Ferreira e Mendes (2003, p. 46), estes eventos, que podem ser fatores técnicos, erros, falhas tecnológicas, panes, entre outros, colocam ‘em xeque’ as competências dos trabalhadores, obrigando-os a “reestruturar suas estratégias de mediação operatória para responder adequadamente as novas exigências”. Obviamente, não somente as características dos trabalhadores (personalidade, habilidades e competências) permitirão ao trabalhador responder de forma eficaz aos

eventos críticos, mas também as características deste contexto.

Assim como os eventos críticos, elementos de complexidade também atuam no sentido de mobilizar as estratégias de mediação dos trabalhadores. Esses elementos podem relacionar-se ao dinamismo dos processos de trabalho, às restrições temporais, à variabilidade, às incertezas, ao número de elementos e interações que envolvem a atividade de trabalho (FERREIRA, 2001).

No conjunto, as três dimensões citadas, estruturam o ‘modo de ser’ organizacional, exprimem uma concepção de ser humano, de organização e de trabalho. Refletem, segundo Ferreira e Mendes (2003), a cultura organizacional prevalecente. Talvez seja possível afirmar que, mais do que refletir, elas reforçam constantemente a cultura existente. É – o contexto de produção de bens e serviços –

um espaço contraditório, imprevisível, complexo e conflitante no qual se realiza a atividade de trabalho.

Estudiosos respaldados pela psicanálise (ENRIQUEZ, 1995; PAGÈS, et al., 1987; SCHIRATO, 2005) consideram que a contradição – característica mor das organizações capitalistas – vai além da dimensão real, mas atinge o espaço atemporal e transcendente das dimensões simbólica e imaginária. Neste sentido, ela interfere nos vínculos estabelecidos entre sujeito-organização, afeta a identidade, a consciência de si e do outro. Estas contradições aparecem nos discursos dos que estão nela inseridos, servem como ‘pano de fundo’ para as práticas e políticas de gestão de pessoal e, de uma maneira geral, encontram-se presentes no imaginário social.

O Quadro 3 apresentado, a seguir, tenta retratar alguns aspectos contraditórios das organizações enquanto um sistema imaginário.

Quadro 3 – Contradições das organizações enquanto um sistema imaginário

Mas promove desenlaces em nome da renovação Pratica o culto da entrega e permanência

Mas valoriza os que nela se adequam Exige criatividade constante

Mas aparece como ‘poderosa’, prometendo abrigo aos que a ela se submetem É frágil e depende dos que a sustentam

Mas é feita por e para pessoas físicas É jurídica

Mas é feita por e para pessoas efêmeras Ambiciona a perpetuidade

Mas é feita por pessoas concretas, É abstrata, transcendente e absoluta

Tal aspecto se torna relevante no sentido de que, ao analisar situações reais de trabalho, o pesquisador deve também estar atento a estes aspectos (cultural, simbólico e imaginário) que perpassam o contexto produtivo e as relações de trabalho.