A construção da identidade de um determinado grupo social se dá na relação com o imaginário social, tendo a compreensão da impossibilidade de não receberem influências das ideologias que imperam em seu meio social. A preocupação com tudo o que é conhecido socialmente, ou seja, o conhecimento do senso comum e não somente de idéias científicas, constitui um objeto de preocupação com a possibilidade de reprodução de ideologias tendenciosas.
O Brasil é conhecido por ser um país multirracial e multicultural, porém, buscou-se praticar aqui a promoção da idéia de que somos um país “único”, onde questões diversas da “unicidade” deveriam ser postas à parte, visto que somos um país mestiço. Às diferentes matrizes étnicas presentes neste país, resta a aceitação do caldeamento que resulta em uma nação única. Verifiquemos o que Kabengele Munanga pensa sobre isso: “No nosso entender o modelo sincrético, não democrático foi assimilacionista. Ele tentou assimilar as diversas identidades existentes na identidade nacional em construção, hegemonicamente pensada numa visão eurocêntrica” (MUNANGA, 1999, p. 101).
A aceitação do Brasil mestiço desarticula a busca do movimento negro pelo reconhecimento da identidade negra na sociedade brasileira. Sociológica e educacionalmente falando a crença na mestiçagem como símbolo do povo brasileiro e elemento central de sua constituição identitária, acaba por levar a discussão para a noção de “unidade” nacional, motivo de debates ao longo da história brasileira.
Kabengele Munanga compreende que houve resistência cultural36 tanto por parte dos indígenas, como pelos africanos que para o Brasil vieram trazidos a ferros e escravizados. Desde a colonização, suas identidades foram subalternizadas e proibidas de serem manifestadas, sob a acusação de paganismo e infâmia. Temos como exemplos claros deste silenciamento e o tratamento dispensado historicamente à prática da capoeira37, assim como das religiões afro-brasileiras38, que possuem forte apelo cultural, religioso e funcionam como mantenedores da identidade de matriz africana (MUNANGA, 1999).
36O antropólogo Clifford Geertz no capítulo 5 de sua obra “A interpretação das culturas” (1989) trabalha o tema
‘Ethos’, visão de mundo e a análise de símbolos sagrados. Neste capítulo Geertz deslinda que na discussão antropológica recente, os aspectos morais (e estéticos) de uma dada cultura, os elementos signados pelo termo ´visão de mundo`. O ethos de um povo é o tom, o caráter e a qualidade de sua vida, seu estilo moral e estético, e sua disposição é a atitude subjacente em relação a ele mesmo e ao seu mundo que a vida reflete.
37 O historiador paraense Vicente Salles dedica um capítulo de seu livro “O negro na formação da sociedade
paraense” (2004), para tratar de aspectos peculiares que envolveram e envolvem a prática da capoeira no Brasil e especificamente no estado do Pará.
38 Referenciamos sobre as religiões de matriz africana os escritos de Roger Bastide na obra “Candomblé da
Para ilustrar os efeitos da discriminação sofrida pelos praticantes da Capoeira, o historiador Vicente Salles trata do regime republicano no Brasil e o tratamento dispensado à sua prática.
O novo regime republicano surgiu com propósitos moralizadores, o que sempre justifica uma revolução. Na capital do país houve debates acirrados em torno da providência adotada pelo governo Deodoro em face dos capoeiras que infestavam o Rio de janeiro, resultando na deportação dos ´vagabundos`, como nos tempos do império, para as províncias distantes. Providência executada pelo então chefe de polícia Dr. Sampaio Ferraz. Diz-se que essa autoridade recebera ´carta branca` do marechal presidente para desincubir-se da missão de exterminar os capoeiras e, ao executá-la, geraram-se efeitos políticos, entre os quais a demissão do ministro Quintino Bocaiúva (SALLES, 2004, p. 121).
Ao tratarmos de aspectos relacionados à imposição arbitrária do silenciamento de manifestações que reiterem uma matriz cultural diversa da propalada pela classe dominante, observemos o processo de marginalização imputado à cultura de origem africana. Verifiquemos, todavia, que esse processo não se limita à discriminação somente nos âmbitos cultural, ou religioso, mas também à exclusão de participação política e da distribuição equitativa do produto social (MUNANGA, 1999, p. 101).
Ora, pensar um Brasil mestiço leva à aceitação da ideologia da democracia racial, e do branqueamento, ou seja, assumi-las como legítimas, negando as práticas discriminatórias que silenciam identidades culturais, visto que em sociedades mestiças a identidade da classe hegemônica prevalece sobre as demais.
A construção dessa unidade, dessa identidade dos excluídos supõe, na perspectiva dos movimentos negros contemporâneos, o resgate de sua cultura, do seu passado histórico negado e falsificado, da consciência de sua participação positiva na construção do Brasil, da cor de sua pele inferiorizada etc. Ou seja, a recuperação de sua negritude, na sua complexidade biológica, cultural e ontológica (MUNANGA, 1999, p. 101-102).
Com esta afirmação Munanga se coloca em oposição à proposta de Darcy Ribeiro em sua obra: “O povo brasileiro” (1995), visto que nesta obra o autor referencia sua crença numa sociedade pautada pela miscigenação cultural e racial, celebrando um país eminentemente mestiço. Atentemos para as argumentações de Ribeiro na defesa de sua tese:
O enorme contingente negro e mulato é talvez, o mais brasileiro dos componentes de nosso povo. O é porque, desafricanizado no nó da escravidão, não sendo índio nativo nem branco reinol, só podia encontrar sua identidade como brasileiro. Vale dizer, como um povo novo, feito de gentes vindas de toda parte, em pleno e alegre processo de fusão. Assim é que os negros não se aglutinam não como uma massa disputante de autonomia étnica, mas como gente intrinsecamente integrada no mesmo povo, o brasileiro (RIBEIRO, 1995, p. 223).
Aceitar esse quadro exposto por Darcy Ribeiro seria legitimar para as próximas gerações, que por sermos mestiços devemos continuar aceitando a história de europeus, africanos e indígenas que se encontraram em terras brasileiras, exatamente como nos foi imposta, de maneira limitada, parcial e estereotipada. Assumir tal discurso exigiria renegar a visão científica e politicamente comprometida com a mudança em relação a injustiças. Ora, a mudança de posicionamento perante as desigualdades só pode ser operada mediante a negação da visão tendenciosa de que somos uma “única nação”, sem distinções raciais, visto que somos todos “mestiços”.
Darcy Ribeiro reitera sua crença na não existência no Brasil de um sistema que discrimine pela cor, mas impreterivelmente pela classe social, levando novamente as discussões para a ambiguidade classe/raça: “apesar da associação da pobreza com a negritude, as diferenças profundas que separam e opõem os brasileiros em extratos flagrantemente contrastantes são de natureza social” (RIBEIRO, 1995, p. 235).
Os problemas enfrentados pela história social brasileira em relação às relações raciais, não nos permite mais comportamentos ingênuos, visto que o trato com esta questão precisa ser pensado de forma circunstanciada, para que não incorramos em antigos equívocos que cobram do segmento negro da sociedade brasileira um alto preço a ser pago. Em relação à noção que o problema brasileiro é de ordem social e não racial como afirma Darcy Ribeiro, Munanga esclarece:
Por isso, muita gente no Brasil, entre os mais esclarecidos, estudiosos das áreas das humanidades, políticos de esquerda, jornalistas etc. não se cansam de repetir a frase ‘a discriminação mais importante no Brasil é social’. Por mais que essas pessoas tentem conscientemente se libertar do mito da democracia racial, essa ronda sempre em suas cabeças por causa da ambiguidade cor/classe (MUNANGA, 1999, p. 103). De acordo com Kabengele Munanga, alguns pensadores brasileiros entre eles Darcy Ribeiro, tendem a considerar o modelo de relações raciais brasileiro superior aos sistemas norte-americano e sul-africano, pautados respectivamente pelos sistemas Jim Crow39 e Apartheid, visto que o modelo brasileiro não adotava a discriminação, ou a prática da violência explícita como acontecia com esses sistemas, além de possibilitar a existência de
39 Du Bois (1868-1963), considerado um dos mais influentes líderes políticos negros norte-americanos na
primeira metade do século XX, trata detalhadamente das leis de segregação racial chamadas de “Jim Crow” em sua obra “As almas da gente negra” (1999). As referidas leis vigoraram intocadas em sua maioria, até a década de 1960. Du Bois é conhecido como um intelectual requintado e estudioso da realidade social norte-americana, apaixonado pela história do povo negro do qual fazia parte, tendo sido pioneiro enquanto intelectual orgânico naquele país.
uma linha tênue e fluida entre as “raças” favorecendo ao mulato a possibilidade do passing40 (MUNANGA, 1999).
Neste aspecto concordamos com Jacques D`Adesky (2006), quando afirma que o racismo é portador de violências. Deste modo, nesta perspectiva interpretativa, não restaria a possibilidade de considerar bom ou mal, ruim, ou melhor, determinado sistema de discriminação e divisão racial em relação a outros, visto que qualquer modelo de segregação e discriminação racial é violento e ultrajante para a natureza humana.
Os seus efeitos são múltiplos e causam danos materiais, físicos e psicológicos. Importa clarear essa proposição para não embaralhar as formas de violência numa enumeração sem fim, esquecendo de observar que resultam diretamente de determinados tipos de racismo (D’ADESKY, 2006, p. 36).
A reflexão sobre estes aspectos da realidade brasileira reitera que a construção da identidade configura-se em prática política, sendo parte de um complexo sistema de relações sociais, visto que transcende aspectos da vida privada e familiar, passando a atuar em ambientes de socialização, que tendem a positivizar ou negativizar uma dada identidade, quanto a relevância política da construção da identidade, vejamos o que afirma Kabengele Munanga (1999, p. 108): “a identidade é um processo sempre negociado e renegociado, de acordo com os critérios ideológico-políticos e as relações de poder”.
Partindo da premissa de que a identidade é sempre um processo de construção social, verificamos que assim como a identidade negra recebeu uma carga de interpretação social negativa, reificando o lugar de subalternidade deste grupo social, esta identidade precisa ser trabalhada de forma positiva, visto que a cristalização da imagem pejorativa e marginalizada, levou muitos afro-descendentes à autonegação. Parte, portanto, daí a necessidade brasileira de conhecer e respeitar sua diversidade cultural, para que não seja subsumido este aspecto essencial para a constituição psicológica e social do sujeito, que é a valorização da matriz racial da qual descende.
Neste contexto, vale refletir como os sujeitos negros inserem-se, ou estão sendo inseridos, desde suas infâncias, no processo de tomada de consciência de suas individualidades e como se deflagra a capacidade de compreenderem-se por quais nexos eles têm se constituído enquanto sujeitos coletivos. Como em suas vivências, estão sendo educados para a materialização de suas perspectivas de vida? Quais dimensões de Poder
40 Passagem. Racial, possibilidade de mudança de categoria ou classificação racial por aspectos cromáticos ou
Simbólico41, relativo a outros saberes e a outras perspectivas culturalmente dominantes, estão interferindo na formação, legitimação ou negação de si mesmos como sujeitos sociais?
Kabengele Munanga (1999, p.117) pensa que uma solução para a resolução da questão da identidade negra no Brasil seria: “uma aproximação final entre a classificação racial nos Estados Unidos e na África do Sul, no regime do apartheid, ajudaria bastante a captar as conseqüências da classificação racial brasileira na indefinição da identidade negra/mestiça numa única identidade mobilizadora”.
Para discorrermos acerca das estruturas estruturantes da autonegação do negro, faz-se necessário contextualizar historicamente a forma como os negros foram estereotipados por um processo de escravização no período colonial42 e posteriormente relegados à marginalização social e econômica no período republicano; a fim de que deixemos mais claramente postos os sistemas simbólicos e materiais que se constituem em torno de se assumir uma identidade racial como negro nos dias de hoje.
O brasileiro foge de sua realidade étnica, de sua identidade, procurando, mediante simbolismo de fuga, situar-se o mais próximo possível do modelo tido como superior, isto é, branco. A identidade étnica do brasileiro é substituída por mitos reificados, usados pelos próprios não brancos e negros especialmente, que procuram esquecer e/ou substituir a concreta realidade por uma enganadora magia cromática na qual o dominado se refugia para aproximar-se simbolicamente, o mais possível, dos símbolos criados pelo dominador (MUNANGA, 1999, p. 120-121). A assimilação da população brasileira ao ideal de democracia racial ratifica as afirmações de Kabengele Munanga, visto que nos censos populacionais demonstram que o brasileiro identifica-se pelos mais variados tons de pele e pelas mais variadas classificações cromáticas, somando-se 136 cores43, porém, sempre se afastando da auto-identificação enquanto afro-descendente e procurando aproximar-se do segmento social branco.