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Figura 35 - Marta Maria de Barros Marques. Fonte: Acervo Fotográfico do Projeto Roda da Memória.

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om, como eu e o Professor Paulo nos encontramos? Foi na família, porque somos primos. As experiências de vida de Paulo sempre me chamaram muita atenção pela simplicidade, pela docilidade, meiguice e ternura. Estava no Serviço Social e, na época, oferecia-se apenas cursos profissionalizantes e atividades esporádicas na área de Educação Física e, embora tivesse um trabalho junto aos Centros Sociais, não havia uma real atuação de campo. Então, encontrei Paulinho - vou chamá-lo assim porque é o tratamento de família. Conversando, fiquei sabendo do trabalho que ele estava realizando, e achei que era hora do Serviço Social se integrar para desenvolver um trabalho realmente social.

Comecei a participar na equipe do projeto no município de Afogados da Ingazeira, entre 1986 e 1988. Aos poucos, percebi que, se a pessoa não possui as qualidades inatas para esse tipo de trabalho, é preciso que se prepare, pois essa disponibilidade para o outro é uma coisa muito especial e nós, do Serviço Social, sentíamos dificuldade porque não éramos preparadas para essa “doação ao outro”. Naquela época, o Serviço Social atendia aos objetivos políticos dos dirigentes dos Centros Sociais, como a distribuição de remédios no interior, por exemplo.

113 A 5ª Roda Coletiva contou com a participação da Assistente Social Marta Maria de Barros Marques, aposen- tada, e do Professor Geraldo Pereira de Arruda, aposentado do Departamento de Biologia da UFRPE, realizada em 30 de setembro de 2015, na Videoteca da Biblioteca Central da UFRPE.

Na equipe, fui, então, designada para ir ao interior. Ao tomar conheci- mento disso, para ser sincera, na hora, fiquei receosa porque sou urbana, nunca tinha ido para o interior, não sabia nada da realidade do interior, enfim, apenas ouvia falar das experiências que estavam sendo realizadas pela equipe, mas se tratavam de assuntos totalmente fora da minha área. Mesmo assim, sem saber muito bem o que iria encontrar, fui, e a primeira coisa que me chamou a atenção, e isso faz alguns anos, mas vejo como se estivesse acontecendo, foi quando, ao entrar numa pequena sala onde iria acontecer uma reunião, logo depois entrou um grupo de camponeses num silêncio profundo, quase religioso e místico. Eles todos, bem arrumadinhos, entraram um após o outro e os professores universitários ao lado, como se fossem amigos e colegas, não tinha absolutamente nada de academicismo, fato que chamou minha atenção, porque eu vinha de uma área onde o pro- fessor ainda trabalhava no tablado e os alunos, lá embaixo.

Então, aqueles camponeses começaram a expor seus problemas com uma segurança realmente fora do comum, enquanto os professores da equipe ouviam com a maior seriedade, dando a maior importância e anotando todas aquelas coisas que estavam dizendo. Achei aquilo extraordinário. Hoje, posso fazer uma analogia com a linha do Papa Francisco, porque eles vivem ali, logo, sabem muito mais do que a gente. Fora essa experiência, lembro quando o Professor Geraldo Arruda foi colocar a cochonilha em um recipiente, e fez aquilo com uma humildade que parecia que estava trabalhando para eles, e fiquei tão admirada com a simplicidade e a doação daqueles professores para com aquela gente. Foi ali que me dei conta que realmente aquele momento tinha sido muito bom, tanto para a minha vida profissional, como para minha vida pessoal, mas, especialmente, sobre como é importante saber escutar, saber ouvir, porque é ouvindo que se vai tirar a essência do seu trabalho.

Foram essas duas cenas fortes que tive a oportunidade de presenciar que mais me marcaram ao participar da equipe de Extensão, coordenada por Paulinho, embora, na minha opinião, não tenha dado muito em troca. Para mim, foi uma lição de vida que me marcou imensamente, e ambas aconteceram no sertão do Pajeú, município de Afogados da Ingazeira. Lembro que minha participação no projeto tinha como pretensão ajudar Brás, Assistente Social e diretor do Centro Social de Afogados da Ingazeira, que tinha ligação com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Ele levava o Serviço Social para identi- ficar os problemas e as necessidades para depois fazer a ponte com a equipe do projeto de Extensão, que levaria a solução. alí, Aquelas crianças recebiam educação formal nas escolas e se pretendia criar pequenos núcleos de tra- balho, onde pudessem realmente desenvolver alguma atividade sustentável.

Como integrante da equipe, visitei a Universidade, onde observei as pessoas de Afogados da Ingazeira no Laboratório do Prof. Geraldo Arruda, conhecendo a pesquisa sobre cochonilha, realizada aqui pelos estudantes com a orientação do Prof. Geraldo Arruda, que, depois, era levada ao campo para acabar com a praga na cultura dos agricultores. Esse trabalho aconte- ceu na década de 80 e nós, do Serviço Social, queríamos uma parceria com a Universidade. Um fato que no início atrapalhou o trabalho do projeto era que, muitas vezes, a escola da comunidade ficava fechada, mas se conseguiu que passasse a ser usada como espaço para oferecer cursos diversos, inclu- sive para as mulheres, como confeitaria, doces, etc. Um acolhimento e uma sensibilidade extraordinária! Infelizmente, esse trabalho foi interrompido no Serviço Social devido à mudança de gestão. São lembranças, e a emoção surge como uma coisa espontânea. Não tem nenhuma artificialidade.

Outra lembrança marcante para minha realidade urbana foi participar com toda a equipe de uma visita a um projeto de cultivo de bananas, e lembro que fiquei encantada com aquele encontro da Academia com o agricultor. Ali, plantavam-se hortaliças nos espaços entre as linhas das bananeiras, algo que não imaginava que acontecia e, então, pude enxergar a essência da agricultura – a união de culturas. Achei aquilo de uma riqueza e de uma beleza sem igual.

Durante o período da minha participação no projeto, uma coisa que observei e achei muito interessante foi que a equipe se preparava para fazer um trabalho local com um determinado objetivo, mas, ao chegar no interior e encontrar o povo carente, a meta inicial muitas vezes se expandia para atender outros problemas também. Lembro, ainda, que, ao se conversar e ouvir, o povo era tão receptivo que, ao encontrar a equipe da Universidade, se sentia prestigiado e honrado. Depois, quando se sentia beneficiado, ficava imensamente agradecido a nós da equipe, quando, na realidade, a gente não estava fazendo quase nada, porque era gratificante para a gente também.

No entanto, o que mais me chamou a atenção foi o processo da comuni- cação, Paulinho, muito sensível, exercia o papel do Professor, do Agrônomo, mas, também, do Psicólogo, e orientava a equipe a ser humilde, esclarecendo que a linguagem dos agricultores era completamente diferente e, para eles, era difícil compreender nossa linguagem acadêmica.

Essas vivências com a equipe me possibilitaram aprender muito, pois os trabalhos realizados nos Centros Sociais eram totalmente diferentes, já estavam em desuso e não tinham mais receptividade.