De acordo com o fio condutor teórico da argumentação até aqui, começamos pela conceitualização do imaginário social e tecnológico e analisamos a condição atual da civilização, com foco na pós-modernidade e na reconfiguração do espaço e do tempo, bem como na visibilidade mediática como vetor do desenvolvimento da civilização atual. Discutimos também a infância e a construção das identidades nas redes sociais, para a partir de agora examinar com esse arcabouço levantado as plataformas sociais de relacionamento elencadas no corpus desta Tese. Os conceitos abordados concorrem para compreendermos algumas características da sociedade e do público observado.
Ao longo desta pesquisa, observamos o comportamento de algumas crianças nas plataformas sociais de relacionamento Club Penguin, Dragon City e City Ville, de modo participativo, mas não invasivo. Interagimos nesses ambientes como um participante qualquer.
Assim, para entrar em qualquer um desses ambientes, o usuário deve criar um avatar, um perfil, uma identidade e uma senha, e todo seu comportamento ali dentro será associado a essa identidade inicial imagética. Estabelecidas desde a entrada, essas imagens serão sempre sua personificação no ambiente; além do corpus da imagem, cada personagem tem um nome e características escolhidas pelo usuário. Seja como um pinguim no Club Penguin, como um dragão no Dragon City ou como uma pessoa
77
qualquer para se tornar prefeito no City Ville, é essa a identidade que caracteriza o usuário durante todo o jogo.
Nessas plataformas, há um poder a ser estabelecido e conquistado pelo usuário por meio da simulação de ganho de capital dentro do ambiente – em moedas ou outra forma de dinheiro, por commodities ou por matéria-prima para ampliação do território. A simulação envolve sempre um crescimento, um combate, uma expansão, “ser o centro”, mais poder, a prerrogativa de ditar as normas ou seguir um grupo. E o modus
operandi de todos esses ambientes é invariavelmente conquistar, ter poder ou se expandir:
no Club Penguin, por meio de acessórios e adereços; no Dragon City, pela conquista territorial e de força; e, no City Ville, pela ampliação do espaço geográfico, dos recursos e da riqueza monetária. A questão é: qual é o papel do usuário nesses ambientes?
Inicialmente, veremos o comportamento esperado em cada ambiente; depois, discutiremos as variáveis comuns.
No Club Penguin
No ambiente do Club Penguin, há duas formas de entrar. Após criar seu avatar pinguim, escolhendo seu nome e sua cor, o usuário deve criar uma senha de acesso e cadastrar o e-mail de um responsável, a partir do qual se ativará o acesso.
78 Figura 3 – Acesso e criação de avatar no Club Penguin.
Feita a ativação, já se depara um problema de inclusão, em função do capital do usuário. Como se vê na Figura 4, o acesso só é ilimitado para assinantes; em caso contrário, não. Mas é rápido e fácil fazer uma assinatura: com um cartão de crédito, o usuário passa a ter amplo acesso pelo número de meses que quiser – e se dispuser a pagar.
Figura 4 – Limitação do acesso para não assinantes.
Em todos os espaços coletivos do ambiente, o usuário (um pinguim) tem acesso constante a outros pinguins, muitos deles com diversos adereços de roupas e
79
acessórios, bem como com puffles (animais de estimação), vários aparelhos e itens para a casa, que ali se chama iglu. Para adquirir todos os produtos disponíveis, é preciso ter capital, ali chamado moeda. Para adquirir moeda, ou se é assinante e, com acesso a todos os espaços, tem mais chances de obtê-la, ou se vai lentamente, dia a dia, conquistando-a aos poucos. Ainda, o ambiente tende a bonificar os pinguins que têm mais amigos (ou seguidores), que, de modo geral, são conquistados mais facilmente por aqueles que têm muita moeda. A qualquer momento, pode-se “bater papo” com os outros pinguins, convidá-los ou localizá-los em espaços como, por exemplo, praça, campo de futebol, estação de esqui, restaurante ou doceria, entre outros.
Aí aparece o tipo de comportamento desejável nesse ambiente: ou se têm as coisas necessárias para ser o centro das atenções, ou se passa a ser um pinguim ligado ao que o é.
No Dragon City
O acesso ao Dragon City é feito por meio de uma conta no Facebook, o que significa que, de plano, a própria plataforma indica e convida todos os seus “amigos” a participarem também. No ambiente, os amigos são convidados a se ajudar e a compartilhar espaços, para se fortalecerem uns aos outros e expandirem seu império de dragões.
Todo o desenvolvimento do império é feito por meio de cinco elementos capitais – ouro, comida, joias, energia e número de dragões –, que podem ser conquistados junto com os amigos ou comprados. A forma de tê-los rapidamente e em grande volume, sem precisar esperar o tempo passar lentamente, é comprá-los com um
80
cartão de crédito. Torna-se mais portentoso o usuário que tem o maior império, o que implica também maiores quantidades dos cinco elementos e mais seguidores.
No City Ville
O acesso ao City Ville também é feito por meio de uma conta no Facebook, e, como no Dragon City, isso significa que a plataforma indica e convida todos os seus “amigos” a pertencer ao ambiente. Já na tela de acesso, aparece a frase: “Esta terra tem potencial, torne-se prefeito”. Para conseguir uma metrópole, é preciso ter grande quantidade de quatro elementos: moedas, notas de dinheiro, energia/força e produção de produtos. Na construção e no gerenciamento da cidade, deve haver prefeitura, hospital, supermercado, indústrias, comércios, fazendas, vias, parques e aeroporto, entre outros itens comuns em ambientes urbanos e rurais.
Para acumular elementos, o usuário pode esperar o tempo passar, conquistando alguns a cada dia (24 horas), de acordo com seu progresso no jogo. Quanto mais desenvolvida é a cidade, mais se ganha no decorrer do tempo. Outra forma é receber elementos dos amigos, mas, se não quiser esperar o tempo passar, o usuário pode potencializar sua cidade comprando, com um cartão de crédito, itens úteis à expansão da cidade.
81 Figura 5 – Entradas do Dragon City e do City Ville no Facebook.