1. Introduction
1.4 Target organisms
Povoação esta situada em 14 graus e meio ao Sul e a cidade de Santa Cruz de Lacerda (sic) em 17 graus. Estes índios de natureza são mui curiosos, tocam muitos harpa, órgão, rabecas e cantam missa, são músicos de coro, e vários sabem ler, e são pintores e com boas ações e melhor sombra, o óleo com que pintam é leite de vacas, são bordadores eminentíssimos, que nos suspendem admirados ver três casulas, um capa de asperge, dalmáticas, estolas e manipulas, bolsas, palas, véu, frontais, panos de púlpito, tudo bordado com as mais galhardas flores e ramos, tudo em sua ordem e tão bem matizado que não é possível encarecer. (...) O governo deste povo é na forma seguinte: tem dois regedores e estes dois capitães e os capitães têm dois alcaides, e quando quer um daqueles índios colher as suas sementeiras ou plantar as suas roças vai à casa do regedor dizer-lhes que tem este ou aquêle trabalho que fazer, este manda ao capitão lhe dê gente e o alcaide os vai avisar aquela que é necessário para fazer aquelê trabalho e lhe ensinam dia certo, no qual não faltam à porta do lavrador, e acabado o trabalho se paga a todos os que ajudaram e assim observam geralmente, por isso todos têm e são ricos: os padres que ali assistem são como vigários deste povo, e lhes pagam os moradores, fora as primeiras das novidades, e eles não fazem mais que administrar-lhes os sacramentos. Em tudo o que é necessário para a igreja concorre o povo, uns com dinheiro, outros com tapetes, gados, cera branca, arroz, milho, fio, panos e tudo remetem por carregação à cidade de Santa Cruz de Lacerda, onde tudo se lhes vende e lhes vem necessário. Esta povoação tem quatros sinos grandes e dois
pequenos, fora garridas e rodas de campainhas, e são estes Índios tributários a seu rei. Sendo as 11 do mês de agosto nos despedimos, porque o nosso Cabo disse aos Padres que lhe não permitia mais o seu regimento que três dias de hóspede, bem contra a vontade dos religiosos, que seus desejos mostravam que estivéssemos mais alguns dias com eles (...) (Abreu, 1963: 350 e 351).
A narração de Francisco de Mello Palheta, feita em 1723, oferece-nos detalhes do que era produzido e das atividades desenvolvidas nas oficinas artesanais. O viajante descreve que os indígenas sabiam ler e escrever, além de participarem do coro da Igreja. Em seu relato, podemos observar uma menção à organização administrativa da missão, provavelmente uma referência ao trabalho comunal (Abambaé e Tupambaé) desenvolvido nas missões pelos indígenas. Porém, ao contrário do que relata Palheta, não havia rendimentos monetários, conforme demonstram as pesquisas desenvolvidas nas missões Guarani77. O viajante faz ainda uma menção à hospedaria78, através do regimento de permanência de três dias para hóspedes que visitavam as missões.
Assim, a partir da documentação apresentada, notamos que, para as missões de Mojo, existiam três formas de construção do conjunto missional, com o intuito de evitar inundações, a saber: os diques ou muros, as vivendas dos padres, com dois pisos, e as casas dos índios, sobre estacas ou palafitas (barbacoa).
Desse modo, como salienta o historiador David Block, ainda que o desaparecimento dos templos de Mojo impeça uma análise mais precisa de seu desenho e função, a documentação conservada (incluindo as aquarelas, de meados do século XIX, das igrejas de Concepción, San Ramón e Magdalena) oferece ao leitor uma idéia de seu aspecto cuando
todavia se encontraban em su plenitud de conservación (1997:102). Da mesma maneira, o
arquiteto Mario J. Buschiazzo salienta que a falta de um conhecimento direto sobre a arquitetura de Mojo o impede de perfazer um juízo crítico, sobretudo porque algumas missões encontram-se abandonadas ou demolidas. Nesse sentido, como expressa David Block, ante la
ausencia total de arqueologia, lo único que queda de los amplios complejos son las descripciones que dejaron trás si los jesuitas y los ocasionales visitantes europeos (Block,
1997:96).
77 De acordo com Artur Barcelos, nas missões Guarani, o Abambaé era uma parcela de campo correspondente à
propriedade de cada índio, onde o cultivo dava-se em função das famílias. A determinação do lote era feita pelos jesuítas de acordo com o número de membros de uma família. A propriedade comunitária era o Tupambaé, o campo cultivado por turnos e cujos produtos destinavam-se para a comunidade local
(Barcelos,2000:316).
78 Arno Kern relata que nos povoados missioneiros Guarani havia igualmente uma hospedaria, ou seja, um
“tambo”, um local para acolher os viajantes ou os hóspedes que chegavam eventualmente. Normalmente era uma casa, simples como as demais, junto à praça (Kern, 2006:195).
Portanto, foi nesta nova realidade histórica colonial [que] se mesclaram
características sociais oriundas das tradições ameríndias e européias, numa síntese nova, em contínua transformação (Kern, 2003:34). Assim, novas espacialidades seriam criadas,
(re)significadas e (re)elaboradas com o apoio, muitas vezes, dos indígenas. Estes, por sua vez, seriam elementos- chaves para o povoamento, posse e garantia da expansão do novo espaço (ainda pouco conhecido pelos europeus). Desse modo, o avanço lusitano na raia oeste da Capitania de Mato Grosso seria barrado pelas povoações das missões jesuíticas espanholas de Mojo. Tais ações iriam produzir um espaço de relações tensas na fronteira representada pelas margens do rio Guaporé. A fundação da missão jesuítica espanhola Santa Rosa de Mojo, a partir da primeira metade do século XVIII, foco de nossa pesquisa, será apresentada no próximo capítulo.