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Pushover Analysis

5.5 Target displacement

Como a identidade é composta de formas simbólicas, apresentamos a seguir o seu conceito e a sua realização dentro do campo político.

2.3.1 Conceito de formas simbólicas

Em sua obra Ideologia e cultura moderna, Thompson conceitua formas simbólicas como uma ampla variedade de fenômenos significativos, desde ações, gestos e rituais até manifestações verbais, textos, programas de televisão e obras de arte. Então, a análise cultural é o estudo das formas simbólicas em seus contextos e de processos historicamente específicos e socialmente estruturados, dentro dos quais e por meio dos quais as formas simbólicas são produzidas, transmitidas e recebidas (Thompson, 1995, p. 181). Elas

também são objetos de complexos processos de valorização, de avaliação e de conflito, pelos e por meio dos quais se atribuem determinados tipos de valor e envolvem diferentes modalidades de transmissão cultural. Daí, o perigo e o problema de não se controlarem a interpretação e a transmissão cultural tornam vulnerável o político, pois o receber e o interpretar formas simbólicas são processos contínuos de constituição e de reconstituição de significado, os quais podem servir para manter, para estabelecer, para reproduzir as relações sociais assimétricas de poder.

Como o nosso trabalho aborda a forma como as formas simbólicas influenciam as relações de poder, apresentamos um quadro de como elas podem ser valorizadas.

Quadro nº 4: Formas de valorização de formas simbólicas.

1 - Valorização

simbólica

2 - Valorização econômica 3 - Valorização cruzada. A - Atribuição de um determinado “valor simbólico” pelos indivíduos que as produzem e que as recebem A - Atribuição de um determinado “valor econômico”

A - Combinação das duas valorizações B - Aprovação, condenação, apreciação, desprezo B - Formas simbólicas mercantilizadas: bens simbólicos.

B - Uso do valor simbólico como meio de aumentar ou de diminuir o valor econômico e vice-versa.

C - Aquisição de valor simbólico: graus de legitimação.

O Quadro nº 4: Formas de valorização de formas simbólicas apresenta três tipos de valorização de formas simbólicas, pelos quais elas podem adquirir valor simbólico, valor econômico ou os dois valores. Veremos na análise a importância das formas de valorização no processo seletivo de notícias sobre escândalos políticos.

Como se vê, as formas simbólicas recebem um determinado valor nas relações sociais. Em virtude de o nosso tema abordar as formas simbólicas realizadas no campo político, faremos uma breve discussão a respeito.

2.3.2 Formas simbólicas no poder simbólico

Segundo Martino (2003), toda relação social que ocorre em um determinado espaço social tem um elemento comum: a desigualdade entre pessoas ou instituições – os “agentes sociais” – e a disputa constante entre eles para ser o melhor entre os outros. Esses espaços sociais formam o que Bourdieu (1996), apud Martino (2003, p. 32), Gomes (2004, p. 53), Thompson (1995) denomina de “campo”, que é o espaço estruturado de posições, ocupadas por agentes em competição, cuja lógica de funcionamento independe desses agentes. Para esse mesmo autor (1980), apud Martino (2003), três leis gerais se aplicam a qualquer campo. A primeira é o reconhecimento de um objeto de luta comum; no campo político, esse objetivo comum é a conquista do poder político. A segunda é a existência de pessoas para jogar o jogo, ou seja, atores que denotem conhecimento das regras do jogo, em que o estado da relação de forças entre os jogadores define a cada instante a estrutura de um campo determinado, com dominantes e dominados adotando estratégias de conservação ou de subversão em função de sua situação relacional num momento específico. A terceira lei do campo é a unidade manifestada por seus agentes contra todo ataque que tente denunciar os interesses reais em jogo, em uma disputa em permanente redefinição contra os que pretendem penetrar o espaço ou desrespeitem as mesmas regras, impondo novos objetos de luta ou buscando deslegitimar comportamentos definidos pelos contendores como legítimos.

Portanto, em qualquer campo, há a circulação de um capital simbólico reconhecido por todos os concorrentes, cuja acumulação pode levar um determinado agente a conquistar a hegemonia dentro de um campo. Para que haja a autonomia relativa de um campo, devem existir um corpo reconhecido de agentes consagrados, os procedimentos estimulados ou proibidos e a vinculação dos indivíduos a um tipo específico de atividade.

Bourdieu (2003, p. 134; Chouliaraki e Fairclough, 1999, p. 101; Thompson, 1995) ainda reforça que, na construção do espaço social, estão presentes as propriedades atuantes, que são as diferentes espécies de poder ou de capital que ocorrem nos diferentes campos. Portanto, a posição de um determinado agente no espaço social define-se pela posição ocupada por ele nos diferentes campos, pela distribuição dos poderes advindas do capital econômico – nas suas diferentes espécies -, do capital cultural e do capital social e também

do capital simbólico, geralmente chamado prestígio, reputação, fama, associados à pessoa ou à posição por ela ocupada, forma percebida e reconhecida como legítima das diferentes espécies de capital. É esse capital simbólico no qual as disputas eleitorais passaram a reconhecer como um ponto essencial, pois as pessoas passaram a votar segundo critérios baseados em formas simbólicas e não mais por razões partidárias.

Para complementar, temos o conceito de poder de Thompson (1995, p. 199) como a capacidade de agir na busca de seus próprios objetivos e interesses, de poder intervir em uma seqüência de eventos e de alterar seu curso. Para tanto, utiliza-se dos seus recursos disponíveis. Temos abaixo o quadro de classificação apresentado em sua obra Mídia e Modernidade:

Quadro nº 5: Formas de poder.

1 - Poder econômico 2 - Poder político 3 - Poder coercitivo 4 - Poder cultural ou simbólico A - Origem: atividade humana produtiva. A - Origem: atividade de coordenação dos indivíduos e da regulamentação dos padrões de sua interação. A - Uso ou ameaça de força física A - Origem: atividade de produção, de transmissão e de recepção das formas simbólicas - meios de informação e de comunicação. B - Uso e criação de recursos materiais e financeiros. B - Garantia do poder político. B - Garantia da autoridade do Estado C - Acumulado indivíduos e organizações. C - Todas as organizações têm um grau. C - Instituições mais representativas: militares D - Expansão e aumento

O Quadro nº 5 : Formas de poder apresenta os quatro tipos de poder presentes em um campo social, que, segundo Bourdieu, é um espaço multidimensional de posições, em que qualquer posição atual se define

em função de um sistema multidimensional de coordenadas cujos valores correspondem aos valores das diferentes variáveis pertinentes: os agentes distribuem-se assim nele, na primeira dimensão, segundo o volume global do

capital que possuem e, na segunda dimensão, segundo a composição do seu capital – quer dizer, segundo o peso relativo das diferentes espécies no conjunto das suas posses (Bourdieu, 2003, p. 135).

Assim, os agentes, na luta simbólica pela produção do senso comum ou pelo monopólio da nomeação legítima como imposição oficial, investem o capital simbólico adquirido em lutas anteriores e, sobretudo, todo o poder que detêm sobre as taxionomias instituídas, como os títulos. Conforme Bourdieu (2003), o título – nobiliário, escolar, profissional, capital simbólico, social e até mesmo juridicamente garantido - é o que melhor expressa a lógica da nomeação oficial. É um capital simbólico institucionalizado, legal (e não apenas legítimo), com um determinado valor, e que confere todas as espécies de ganhos simbólicos (e dos bens que não são possíveis de se adquirir diretamente com a moeda). No nosso caso, temos o título “Secretário Nacional de Segurança”.

Como se vê, a estrutura do campo social é definida a cada momento pela estrutura de distribuição do capital e de ganhos característicos dos diferentes campos particulares, mesmo que o poder propriamente simbólico da nomeação seja uma força relativamente autônoma perante as outras formas de força social. A probabilidade de a mudar está ligada ao conhecimento realista daquilo que o sujeito social é e daquilo que ele é capaz de fazer em função da posição nele ocupada.

Daí, a importância do capital pessoal de “notoriedade” e de “popularidade” – o ser conhecido e reconhecido na sua pessoa (de ter um “nome”, uma “reputação etc) e o possuir um certo número de qualificações específicas que são a condição de aquisição e de conservação de uma “boa reputação” – é freqüentemente produto da reconversão de um capital de notoriedade acumulada em outros domínios e, em particular, em profissões (Bourdieu, 2003, p. 191).

Temos, então, que o capital político é uma forma de capital simbólico, crédito firmado na crença e no reconhecimento, amealhado por situações anteriores pelas quais os agentes conferem a uma pessoa – ou a um objeto – os próprios poderes que eles lhes reconhecem. É a ambigüidade da fides de Benveniste (1969), apud Bourdieu (2003, p. 188):

força objectiva que pode ser objectivada nas coisas (e, em particular, em tudo o que faz a simbolica do poder, tronos, ceptros e coroas), produto de actos subjectivos de reconhecimento e que, enquanto crédito e credibilidade, só existe na representação e pela representação, na confiança e pela confiança, na crença e pela crença, na obediência e pela obediência.

Após a discussão da conexão ideologia-poder-linguagem, apresentamos os nossos pressupostos teóricos relativos aos temas escândalos e meios de comunicação de massa.