Letramento é um termo que vem sendo discutido tanto nas ciências linguísticas quanto nas linhas de pesquisas voltadas para a pedagogia da educação. A origem do termo conforme Soares (2004) é da língua inglesa literacy palavra essa que se refere à capacidade de ler e escrever em diversas situações sociais. Neste sentido, fica inferido que ler e escrever traz ao indivíduo consequências sociais,
culturais, políticas, econômicas, cognitivas e linguísticas. E dessa forma, foi preciso rever o conceito de letramento.
Segundo Rojo:
“No início da segunda metade do século passado ler era visto de uma maneira simplista- apenas como um processo perceptual e associativo de decodificação de grafemas (escrita) em fonemas (fala) para se acessar o significado da linguagem do texto”. (ROJO, 2004, p.3).
Em alguns casos se o indivíduo soubesse “ler” e “escrever” seu próprio nome era considerado alfabetizado, caso contrário seria classificaria como analfabeto.
No desenvolvimento das pesquisas e estudos sobre o ato de ler e escrever, muitos conceitos foram se redefinindo naquilo que tange ao ato da leitura e da escrita.
Queiroz (2009, p. 19) comenta que a partir dos anos 80 passa a haver uma grande preocupação com o processo de alfabetização e que surge então o conceito de letramento que passou a ser usado nos meios acadêmicos numa tentativa de separar os estudos sobre o impacto da escrita, dos estudos sobre alfabetização.
Britto (2003) citado por Queiroz (2009) afirma que a formulação e a aplicação desse novo conceito resultaram de necessidades teóricas e práticas várias, em função dos avanços no modo de compreender as relações inter-humano, dos processos de participação social e do acesso à construção do conhecimento.
Dessa forma, o conceito de letramento a partir dos anos 80 precisou ser renomeado, isto é, o letramento deveria dar conta de uma nova ideia e nova maneira de compreender a presença da escrita no mundo social. O conceito de “alfabetização” de acordo com Rojo (2004) também teve que ser ampliado com o aparecimento das teorias de letramento, pois o letramento não é mais apenas a apropriação do alfabeto, mas um processo de apropriação de práticas sociais de leitura e escrita.
Soares (2004, p. 45-46) aponta que conforme o analfabetismo vai sendo superado que um número cada vez maior de pessoas aprende a ler e a escrever, e à medida que concomitantemente, a sociedade vai se tornando cada vez mais centrada na escrita (cada vez mais grafocêntrica) um novo fenômeno se evidencia: não basta aprender a ler e escrever, as pessoas se alfabetizam aprendem a ler e a escrever, mas não necessariamente adquirem a competência para usar a leitura e a
escrita para envolver-se em práticas sociais de escrita. Daí pode-se falar em diferentes tipos e níveis de letramento da população em geral.
A argumentação de Soares revela que as práticas pedagógicas de escrita e leitura na escola sustentam-se num modelo de letramento ultrapassado, chamado por Street (1984) de modelo autônomo que pressupõe uma maneira única e universal de desenvolvimento do letramento.
Kleiman ao argumentar sobre o modelo autônomo de letramento afirma:
“[...] o processo de interpretação estaria determinado pelo funcionamento lógico interno ao texto escrito, não dependendo das (nem refletindo, portanto) reformulações estratégicas que caracterizam a oralidade, pois, nela, em função do interlocutor, mudam-se rumos, improvisa-se, enfim, utilizam-se outros princípios que os regidos pela lógica, a racionalidade, ou consistência interna, acabam influenciando a forma da mensagem”. (KLEIMAN ,1998, p.22).
Entende-se a partir dessas ideias que as práticas didáticas de leitura na escola se concentram em revozear as falas do professor e do livro didático na localização de informação de textos por meio de questionários.
Por fim, a escola automatiza as atividades de leitura e escrita em relação as suas circunstâncias e usos sociais, criando seus próprios e peculiares eventos e suas próprias e peculiares práticas de letramento (Soares, 2004, p.107), ou seja, a escola produz práticas escolares que geram situações artificiais de aprendizagem que se encontram totalmente desvinculadas de situações reais de leitura. Assim, o letramento envolve mais do que ler e escrever exige do leitor um conjunto de habilidades de leitura e escrita que busquem atender às exigências sociais. Esse tipo de modelo cuja dimensão é social é chamado de modelo ideológico e Street (1984) também é um dos representantes dessa interpretação alternativa da dimensão social do letramento.
De acordo com Street citado por Soares (2004, p. 75), letramento é um termo síntese para resumir as práticas sociais e concepções de leitura e escrita, tem um significado político e ideológico de que não pode ser separado e não pode ser tratado como se fosse um fenômeno autônomo.
Para o presente trabalho, interessa o modelo ideológico, pois faço parte de uma linha de pesquisa que acredita que a leitura seja uma prática social e ao fazer uso do pensar em conjunto, estou, de certa forma, inserindo me em uma perspectiva
de leitura e de letramento que não acredita em um modelo neutro e universal de letramento. Nesse aspecto, o desenvolvimento de práticas sociais torna o indivíduo capaz de pensar e refletir sobre o mundo que o rodeia, ou seja, o modelo ideológico ultrapassa as fronteiras do letramento funcional. Como afirma Paulo Freire (1967- 1976), o letramento crítico faz com que o homem através da leitura e da escrita tome consciência da realidade e a transforme.
Durante o Simpósio Internacional para o letramento realizado em Persépolis, em 1975, com o apoio da Unesco, um novo conceito mais amplo de letramento foi sugerido e de acordo com a Declaração de Persépolis o letramento foi considerado como sendo:
“[...] não apenas o processo de aprendizagem de habilidades de leitura, escrita e cálculo, mas uma contribuição para a liberação do homem e para seu pleno desenvolvimento. Assim concebido, o letramento cria condições para a aquisição de uma consciência crítica das contradições da sociedade em que os homens vivem e dos seus objetivos; ele também estimula a iniciativa e a participação do homem na criação de projetos capazes de atuar sobre o mundo, de transformá-lo e de definir os objetivos de um autêntico desenvolvimento humano.” (BHOLA, 1979, p.38).
Em síntese, o letramento crítico é uma forma de ação e ferramenta de transformação simbólica por meio da linguagem, oferece recursos pedagógicos ao professor, para que então desenvolva uma temática que traga a tona a diversidade e a reflexão do aluno e, capacita o aluno a refletir sobre o mundo que o rodeia, tomando consciência de sua realidade e transformando seus saberes em práticas sociais de cidadania.
Após discutir os construtos teóricos dessa pesquisa, a próxima seção apresenta a metodologia de pesquisa.