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Pe. Felipe me recebeu na casa paroquial onde trabalha e me concedeu uma entrevista de, aproximadamente, uma hora e meia. Ele mostrou-se muito calmo e espontâneo no decorrer de nossa conversa.

Diante da minha primeira pergunta, em que solicitei que explicasse como se dava o atendimento, em aconselhamento espiritual, para ele, Pe. Felipe sorriu, respirou fundo e começou afirmando que o aconselhamento pastoral é uma experiência de fé.

De acordo com ele, o aconselhamento espiritual é o momento em que o padre- conselheiro percebe o tamanho e os limites da sua própria fé. As pessoas que buscam ajuda espiritual, depositam no padre uma esperança muito grande e este, na maioria das vezes, não é capaz de corresponder ao desejo do aconselhando porque não tem todas as respostas para as dificuldades humanas. Daí a necessidade de recorrer a Deus.

Pe. Felipe ressaltou a importância da presença de Deus no aconselhamento porque, sem Ele, é muito difícil ter uma palavra de alento para as pessoas. Revelou que, no aconselhamento espiritual, enquanto o aconselhando fala sobre seus problemas, ele vai ouvindo, de um lado, e conversando com Deus, de outro.

Mencionou também que o aconselhando vê o padre como um enviado de Deus e este deve assumir essa posição; caso contrário, o aconselhamento pode tornar-se algo puramente humano.

Perguntei qual era o objetivo do aconselhamento espiritual e o que poderia ser feito para ajudar a pessoa que procura este tipo de atendimento. Ele respondeu que o principal objetivo é proporcionar à pessoa uma relação mais próxima de Deus. Antes de qualquer coisa e, independente das dificuldades trazidas pela pessoa, cabe ao padre-conselheiro ajudá-la a confiar em Deus, incentivá-la na fé, na perseverança e na confiança absoluta Nele. Num segundo plano, o padre deve ajudar o aconselhando a partir do que ele fala. Este plano possui, na opinião de Pe. Felipe, um valor menor, mas é também necessário. É o primeiro plano apontado por ele, ou seja, a busca de uma relação mais íntima com Deus é que caracteriza o aconselhamento espiritual e o difere de outras relações de ajuda.

Ao ouvir o aconselhando, o conselheiro espiritual o orienta a dar alguns passos. Estes passos não são no sentido de ajudar a resolver o seu problema, porque isso cabe à própria pessoa, mas no sentido de se aproximar mais de Deus, de si mesma e das pessoas ao seu redor.

Para Pe. Felipe, o aconselhamento espiritual possui quatro pontos importantes. O primeiro é o movimento do aconselhando em direção a Deus. Como Ele não pode ser visto, de maneira concreta, palpável, espera-se que o aconselhando o busque em si mesmo, nas pessoas a sua volta e na estrutura que está ao seu redor, isto é, no seu trabalho, na natureza, nos acontecimentos do dia-a-dia.

O objetivo de colocar a pessoa num relacionamento mais íntimo com Deus passa por uma nova visão acerca de seu próprio mundo: “Ela precisa ter um contato novo consigo mesma, com as outras pessoas e com o mundo para que ela consiga caminhar em direção a este relacionamento fecundo e necessário com Deus”.

Pe. Felipe acrescentou, ainda, que seu objetivo, enquanto conselheiro espiritual, é ajudar a pessoa a ampliar sua visão acerca da situação pela qual está passando. Ele exemplificou sua fala com o caso de mães que têm mais de um filho e que estão muito preocupadas com um, em especial. Aquelas mulheres vão se fechando cada vez mais em um dos filhos, deixando, pouco a pouco, de ver os outros que estão bem. É esperado, do conselheiro espiritual ,que ajude a mãe a ser solidária com aquele filho que apresenta dificuldade, sem se esquecer dos outros que também precisam de sua atenção e de carinho.

O entrevistado enfatizou que, as pessoas que estão em momento de crise, tendem a ver os aspectos negativos da vida e acabam desprezando tudo de bom e belo que está a sua volta. Segundo Pe. Felipe, o papel do padre, no aconselhamento pastoral, é ajudar o aconselhando a ampliar o seu foco de visão para que ele enxergue a realidade como um todo.

Pe. Felipe apresentou mais um exemplo interessante: o das pessoas que acreditam estar sendo castigadas ou provadas por Deus. Ao acreditar nisso, a pessoa perde a sua força interior para agir porque se é Deus quem quer assim, ela como um ser limitado, jamais conseguirá vencê-Lo. No caso, é necessário que o padre amplie a concepção de provação da pessoa. Deus prova o ser humano no sofrimento, mas também o prova na alegria, no prazer, disse Pe. Felipe. Frente ao sentimento do aconselhando de que Deus se esqueceu dele, é preciso ampliar a sua visão, questionando: “será que tudo vai mal mesmo na sua vida?” O fato de buscar

ajuda, pode ser usado como argumento, nesse momento. Afinal, existem pessoas que estão ainda pior por não conseguirem solicitar ajuda, pelos mais variados motivos.

Ele comentou que há momentos em que o padre abre o leque de visão da pessoa e ela volta a fechá-lo; ele abre novamente e ela fecha mais uma vez. Trata- se de um movimento semelhante ao de um sanfoneiro, ao abrir e fechar seu instrumento musical. Mas, não tem outro jeito, esta é uma das tarefas do conselheiro e ele deverá fazê-la quantas vezes for necessário para que a pessoa se transforme.

Após ter seu campo perceptivo ampliado, a pessoa deverá escolher o melhor caminho a seguir, no intuito de resolver seu conflito. Se o padre tentar resolver o problema para o aconselhando, estará impedindo que ele se responsabilize por sua vida. Além disso, caso o aconselhando tome o que o conselheiro disse como uma orientação ou um conselho e não for bem sucedido em sua ação, o grande responsável será o padre e não a pessoa que o procurou. Frente ao pedido do aconselhando, por orientações e sugestões de conduta, o máximo que o sacerdote pode fazer é enumerar várias possibilidades para que a pessoa escolha uma delas. Dessa forma, estará resguardando a liberdade e a responsabilidade da pessoa em questão.

Para Pe. Felipe, tudo o que acontece com o homem tem a ver com o bom ou mal uso da sua liberdade, senão de maneira completa, pelo menos em parte, tem a ver com as suas opções de vida. “Quem não sabe lidar com essa liberdade, traz problemas para si e para muita gente ao seu redor”, acrescentou ele, ao dizer que a liberdade é o maior dom que Deus concedeu ao ser humano.

Independente do tempo de duração do atendimento ou do número de encontros, espera-se do padre-conselheiro que mantenha o foco do diálogo em Deus. Assim, ele não correrá o risco de fazer do aconselhamento espiritual uma receita de bolo, comentou Pe. Felipe, rindo.

Ele revelou, ainda, a importância de citar relatos bíblicos ou exemplos comuns do dia-a-dia, considerando sempre o nível de escolaridade da pessoa e sua capacidade de abstração. O uso deste material ajuda a centrar o foco em Deus. O foco não deve ser alterado nunca, nem mesmo com os ateus. Quando pessoas, que não acreditam em Deus, procuram o padre para um aconselhamento espiritual, é preciso esclarecer que sem o desejo de relacionar-se melhor com Deus, qualquer tentativa será vã, em se tratando de questões de fé. Pe. Felipe afirmou que a

procura de aconselhamento pastoral por pessoas que não acreditam em Deus está aumentando cada vez mais.

Ao final da entrevista, ele sintetizou tudo o que disse, afirmando que o aconselhamento espiritual, de acordo com a sua experiência nesta área, tem o objetivo de manter a pessoa o mais próxima de Deus possível, visando religá-la a Deus, de alguma forma. Tendo isso como foco principal, o aconselhamento espiritual segue com a intenção de ampliar a visão da pessoa, de modo que ela consiga olhar para outros pontos de sua vida que são ‘sadios’, bons, agradáveis, para perceber a realidade como um todo e, a partir daí, escolher o caminho a seguir. O movimento de ampliar a visão do aconselhando passa necessariamente por quatro pontos: o seu relacionamento com Deus, consigo mesmo, com as pessoas e com o mundo. Ele faz isso através de alguns mecanismos, dentre eles, citando referências bíblicas, contando histórias da vida cotidiana para estabelecer um diálogo próximo da realidade de quem o procurou.

Pe. Felipe disse que o pano de fundo do aconselhamento espiritual, pode ser visto na carta de São João: “Se você não consegue amar ao irmão que você vê, muito menos a Deus, que você não vê”. Se a pessoa não tem um bom relacionamento com as obras criadas por Deus, que estão ao seu redor, a começar por si mesma, dificilmente conseguirá se relacionar bem com o Criador. Como numa obra de arte: “Se nós não conhecemos uma obra de arte, não temos muito o que falar do artista”.

Pedi, então, que descrevesse um caso de aconselhamento espiritual, realizado por ele. Pe. Felipe contou que, logo no início de sua vida consagrada, foi procurado por uma senhora, de aproximadamente 35 anos, vítima de um medo muito grande, que ele não conseguia compreender. O padre revelou que foi algo que teve que enfrentar, sobretudo, pela fé. A jovem senhora contou que não dormia, há uma semana, porque todas as noites, ao deitar, via uma sombra que queria sufocá-la. Todos conseguiam dormir, exceto ela que permanecia acordada, tomada por um pavor enorme. Ela tinha ouvido muitos comentários a respeito da casa onde morava, que era um lugar mal assombrado e que nenhum morador parava lá. Diante do seu relato, Pe. Felipe se viu sem argumentos para dialogar com ela. Mas ele percebeu que os argumentos iam aparecendo à medida que se aproximava da dimensão da fé. A princípio, o padre tentou ajudá-la a confiar em Deus. Ele rezou com ela e deu- lhe uma bênção especial. Ela se confessou e comungou. O padre disse, para aquela

mulher, aquilo que, segundo ele, não poderia dar um resultado negativo. Orientou que continuasse rezando e que, à noite, quando a sombra aparecesse, ela enfrentasse a sombra, na certeza de que esta não poderia lhe fazer mal. E acrescentou, rindo, que do jeito que estava, sem dormir, há vários dias, iria morrer mesmo. Depois disso, ela foi para casa e ele continuou rezando por ela porque o caso era de chorar, de dar pena, disse Pe. Felipe. Passados alguns dias, aquela jovem senhora voltou, sorridente e falando que a sombra não tinha desaparecido, mas que, toda noite, quando aparecia, ela ia ao encontro da sombra, esta sumia e ela conseguia adormecer em paz. Ele conversou com ela, trabalhando o seu relacionamento consigo mesma, com o marido, buscando um jeito novo de ver o mundo. Dias depois, ela retornou a Igreja, falando que não existia mais sombra.

Este caso chamou muito a atenção de Pe. Felipe porque a pessoa venceu suas dificuldades pela fé. Caso esta dimensão não tivesse sido trabalhada, aquela senhora certamente teria ido parar num consultório psiquiátrico, afirmou ele. Às vezes, Pe. Felipe encontra com ela que sempre lhe dá boas notícias sobre sua vida. Ela aprendeu a lidar com a força que ela mesma não sabia que tinha: a força da fé.

Pe. Felipe recordou mais um caso. Um dia, após a celebração de uma missa, ele foi procurado por um rapaz de, mais ou menos, 20 anos. Pe. Felipe estava sem tempo, pois deveria celebrar outra missa, logo em seguida, numa comunidade distante. O jovem entrou na sacristia, chorando, gritando e dizendo que estava tendo algumas visões, que o demônio estava perseguindo-o e que dali não sairia enquanto o padre não fizesse alguma coisa. Esse jovem era usuário de drogas e o padre suspeitou que, naquele dia, ele tinha usado uma dose muito alta. Ele falava e chorava muito. Pe. Felipe o ouviu e pensou em chamar a família, mas o rapaz não conseguia dar informações coerentes acerca de seu endereço ou telefone. Naquele instante, já não havia mais ninguém na sacristia. Preocupado com a outra missa, o padre ouviu o garoto que dizia, repetidamente, que não sairia dali enquanto o padre não desse um jeito no diabo que o perseguia. Então Pe. Felipe olhou para ele e disse: “Você veio ao lugar certo, eu tô até enxergando o demônio em você. De fato, está aí mesmo. Concordo com você, está aí mesmo. Só que eu tenho um buraco de jogar esse demônio das pessoas”. Foi em direção ao rapaz, simulou que estava pegando o demônio, abriu a porta de um dos armários da sacristia e jogou o suposto demônio lá dentro. O rapaz aliviado, tomou água, agradeceu e saiu da Igreja sorridente, conversando com o padre. Este último foi até o carro e o garoto foi-se

embora. Pe. Felipe não soube dizer se aquela fora a melhor atitude a ser tomada. Ele nunca mais teve notícias do rapaz, o que o deixou muito apreensivo. Mas assegurou que, enquanto ouvia o jovem, também pedia que Deus lhe mostrasse uma saída porque ele não poderia trancar o rapaz dentro da Igreja e ir celebrar a outra missa. Pode não ter sido a melhor medida, entretanto, ela foi eficaz naquele momento.