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6.2 Risk Factors

6.2.1 Tanker Accidents and Collision

O medo transformou-se em poderosa arma política, usado antes do golpe por aqueles que apoiavam uma intervenção militar, como um elemento mobilizador, levando grande parcela da população a voltar-se contra a ameaça comunista, simbolizada pelo governo de João Goulart e de seus aliados. Após o golpe, o uso desta arma visava a paralisar aqueles que se opunham ao modelo político que havia sido imposto.

438

Depoimento de Maria Luiza Martini, em entrevista realizada em 10/09/2009 por Vanessa Volcão Oliveira.

439

ANSART, Pierre. As humilhações políticas. In: MARSON, Izabel; NAXARA, Márcia (Orgs.). Sobre a humilhação. Uberlândia: EDUFU, 2005, p. 15.

Como bem afirmou Delumeau, o medo é um tema pouco explorado pela historiografia. O autor, que se dedicou a este assunto, procurou diferenciar o “medo individual” e o “medo coletivo” – importante para compreensão desta pesquisa. Delumeau caracterizou, da seguinte forma, o primeiro:

No sentido estrito e estreito do termo, o medo (individual) é uma emoção- choque, frequentemente precedida de surpresa, provocada pela tomada de consciência de um perigo presente e em estado de alerta, o hipotálamo reage mediante mobilização global do organismo, que desencadeia diversos tipos de comportamentos somáticos e provoca, sobretudo, modificações endócrinas440.

Ao tratar do medo em sua forma coletiva, o autor especificou que este adjetivo pode significar tanto uma multidão como uma amostra anônima de um grupo. É, contudo, essencial ter em mente que a multidão caracteriza-se, entre outros pontos, por ser influenciável, pela rapidez dos contágios que a atravessam, pelo enfraquecimento ou a perda do espírito crítico, assim como por sua capacidade de passar subitamente do horror ao entusiasmo e das aclamações às ameaças de morte. Delumeau salientou ainda que:

O termo “medo” ganha, então, um significado menos rigoroso e mais amplo do que nas experiências individuais, e esse singular coletivo recobre uma gama de emoções que vai do temor e da apreensão aos mais vivos terrores. O medo é aqui o hábito que se tem, em um grupo humano, de temer tal ou tal ameaça (real ou imaginária)441.

Embora tenha restado, no meio cultural, algum espaço para crítica e oposição, esta não passava impune, a repressão à imprensa e aos artistas fazia-se presente, o que gerou protestos por parte da intelectualidade, o governo militar não proibia a atividade intelectual, mas a forma pela qual determinadas pessoas (professores, escritores, atores, entre outros.) promoviam a “subversão”, através de suas atividades especificamente442. A repressão às atividades intelectual e artística foi chamada de “terrorismo cultural” e divulgada na imprensa, como demonstra o artigo, publicado no Correio da Manhã, escrito por Carlos Heitor Cony:

440

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 30.

441

Ibid., p. 32.

442

CZAJKA, Rodrigo. Páginas de Resistência: intelectuais e cultura na Revista Civilização Brasileira. Dissertação (Mestrado em Sociologia da Cultura), Universidade Estadual de Campinas, 2005, p. 90.

Acredito que é chegada a hora de os intelectuais tomarem posição em face do regime opressor que se instalou no Brasil. Digo isso como um alerta e um estímulo aos que têm sobre os ombros a responsabilidade de ser a consciência da sociedade. E se, diante de tantos crimes contra a pessoa humana e contra a cultura, os intelectuais brasileiros não moverem um dedo, estarão simplesmente abdicando de sua responsabilidade, estarão traindo o seu papel social e estarão dando uma demonstração internacional de mediocridade moral. [...]. Estão sendo presos ou perseguidos sacerdotes, professores, estudantes, jornalistas, artistas, economistas – todos os escalões da vida nacional. Os cárceres continuam cheios, e, sem falar nas abomináveis cassações de mandatos, novas prisões são feitas todos os dias. No campo estritamente cultural, implantou-se o Terror. Reitores são substituídos por ordem de militares. Professores são destituídos de suas cátedras e presos. O pânico se generalizou por todas as classes e por todas as cidades. A qualquer hora pode bater um policial à sua porta e levá-lo – sabem Deus e a Polícia para onde.

Os intelectuais brasileiros precisam, urgente e inadiavelmente, mostrar um pouco mais de coragem e vergonha. Se os intelectuais não se dispuserem a lutar agora – talvez, muito em breve, não tenham mais o que defender443.

A crescente repressão e perseguição a artistas e intelectuais levou estes a terem um permanente medo, ou melhor, angústia. A angústia não tem um objeto específico, como o medo o tem. Delumeau444, ao defini-la, escreve que esta é vivida como uma espera dolorosa diante de um perigo tanto mais temível quanto menos claramente identificado: é um sentimento global de insegurança. Desse modo, ela é mais difícil de suportar que o medo. Sempre estimulada pela imaginação, utiliza as lembranças e as experiências anteriores como estopim. Essa descrição assemelha- se a elaborada por Bauman:

O medo é mais assustador quando difuso, disperso, indistinto, desvinculado, desancorado, flutuante, sem endereço nem motivos claros; quando nos assombra sem que haja uma explicação visível, quando a ameaça que devemos temer pode ser vislumbrada em toda parte, mas em lugar algum se pode vê-la. “Medo” é o nome que damos a nossa incerteza: nossa ignorância da ameaça e do que deve ser feito – do que pode e do que não pode – para fazê-la parar ou enfrentá-la, se cessá-la estiver além do nosso alcance445.

Essa definição mostra, de maneira contundente, um dos sentimentos mais vivenciados durante o regime militar, o medo. O Estado impôs à sociedade um temor permanente, difundindo a lógica da suspeição – ninguém sabia quem eram os

443

CONY, Carlos Heitor. A hora dos intelectuais. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, Segundo Caderno, 23 maio 1964. p. 01.

444

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 33.

445

informantes do governo nem onde exatamente eles se encontravam. Maria Luiza Martini comentou que se vivia sempre em um clima de medo:

“Tanto na Universidade quanto no teatro, tinha que estar sempre cuidando o que ia dizer. O que mais me marcava era a incerteza. Era o que dizer, o que pensar, se eram ou se não eram [informantes]. Porque, dependendo disso, a gente falava ou não. Então se adotou o seguinte critério: Falar. É pior essa incerteza”446.

A opção da depoente foi bastante clara, preferiu expressar-se, independente de quem estivesse por perto. Entretanto, frente à situação vivida na época, a consequência de tal postura poderia ter sido a prisão. Outro depoente, José Baldissera447, professor universitário e integrante do movimento teatral, lembrou que, devido a seus comentários em sala de aula, foi chamado para um interrogatório onde foi avisado para cuidar de sua “língua ferina”. Vê-se que eram poucos os lugares onde se poderia falar livremente. Um ingênuo comentário poderia alertar a repressão, principalmente se feito em um espaço público. Cárdia esclarece que, durante o regime militar, as pessoas passaram a ter cautela em relação a diversos aspectos do seu cotidiano. De tão incorporadas já não se tinha consciência dessas ações que acabaram tornando-se automáticas. O autor cita como exemplos dessas práticas:

[...] nunca discutir um assunto que pudesse ter conotação política em lugares públicos ou expressar opiniões sobre os acontecimentos públicos e que pudessem sinalizar suas posições, inclusive em salas de aula da universidade. De alguma forma, aprendeu-se a ser discreto e cuidadoso e a se escolher as palavras, mesmo com os conhecidos que não fossem íntimos, pois não se sabia como as palavras seriam interpretadas ou quem poderia estar escutando e, acima de tudo, quais os critérios poderiam ser usados para se tornar uma pessoa suspeita. Tinha-se também que ter cuidado com o tipo de literatura guardada em casa, pois, caso uma residência entrasse para a lista de “suspeita”, não se poderia ter segurança de como seriam classificados os livros que normalmente se consideraria como inofensivos. Assim, a incerteza do que pudesse se constituir ou não em uma literatura ofensiva, também, fazia parte do controle social Esse medo generalizado era, em parte, o resultado das ações arbitrárias da ditadura, em parte de medidas que sugeriam que existia uma poderosa rede de informantes. O medo era um poderoso instrumento de controle social. A censura e a falta de informação, plenamente confiável, alimentavam esse medo448.

446

Depoimento de Maria Luiza Martini, em entrevista realizada em 10/09/2009, por Vanessa Volcão Oliveira.

447

Depoimento de José Baldissera, em entrevista realizada em 1º/10/2009, por Vanessa Volcão Oliveira.

448

CARDIA, Nancy. O medo da polícia e as graves violações dos direitos humanos. Tempo Social; Rev. Sociol., USP, S. Paulo, v. 9, n. 1, p. 249-265, maio 1997. p. 250. Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/sociologia/temposocial/site/images/stories/edicoes/v091/o_medo.pdf>. Acesso em: 15 jun. 2010.

O medo, difundido pela repressão, gerou duas consequências: alguns optaram por defender suas opiniões e manter-se na oposição pública ao regime, enfrentando os seus medos; outros escolheram adaptar-se às condições e, assim, evitar complicações – estes foram paralisados pelo medo da repressão.

Embora feitas as opções, era difícil escapar da autocensura. Esta interferia, mesmo que inconscientemente, no trabalho dos artistas. Sobre isso é significativo o comentário de Maria Luiza Martini que apresentou como um sentimento de “deformação”, aquele gerado pela repressão, porque:

“Quando tu estás criando um espetáculo, se começas a dialogar com um censor dentro da tua cabeça, imaginando o que ele vai dizer, o que ele vai pensar, ele está dentro da tua identidade. Ele mergulhou dentro da tua identidade. Para mim, este foi o pior malefício da ditadura militar. Nos deixou neuróticos; ambíguos; sem saber o que é e o que não é; escolhendo as formas de execução e expressão de acordo com aquele olhar que tu atribuías àquele personagem”449.

O terrorismo de Estado difundiu o medo na sociedade. As informações não oficiais sobre as torturas, sequestros e assassinatos espalhavam-se, gerando medos e silenciamentos. Os cidadãos eram impotentes no que tange ao poder do Estado. Disseminava-se o conformismo e, com isto, buscava-se a paralisação do corpo social, conforme expõe Padrós e Fernandes:

O terror passou a ser a mediação entre Estado e sociedade em nome da pretensa "segurança nacional". Esse terror, instalado nas ditaduras visava, através da "pedagogia do medo", a fomentar e a disseminar na sociedade a "cultura do medo", gerando o amedrontamento, o autossilenciamento, o autoisolamento, a aniquilação da vontade de resistência ou de transformação. Através da "cultura do medo", o Estado pôde se impor com poderes quase ilimitados. Além disso, um dos seus elementos mais perversos foi o de querer chamar a população para dentro do aparato repressivo, ou seja, transformar os cidadãos em agentes do próprio Estado. Desse modo, práticas, como a suspeição e a delação, tornaram-se comuns450 (sic.).

449

Depoimento de Maria Luiza Martini, em entrevista realizada em 10/09/2009, por Vanessa Volcão Oliveira.

450

FERNANDES, Ananda Simões; PADRÓS, Enrique Serra. Faz escuro, mas eu canto: os mecanismos repressivos e as lutas de resistência durante os “anos de chumbo” no Rio Grande do Sul. In: BARBOSA, Vânia M.; FERNANDES, Ananda Simões; LOPEZ, Vanessa Albertinence; PADRÓS, Enrique Serra. Ditadura de Segurança Nacional no Rio Grande do Sul (1964-1985): história e memória. Porto Alegre: Corag, 2009, v. 2, p. 41.

Nesse contexto, a autocensura451 era praticada mesmo que inconscientemente, consequência do medo e da angústia vivenciados. Essa prática relaciona-se com aquilo que Bauman452 chamou de medo de “segundo grau” ou “medo derivado”, referindo-se a este como o sentimento que orienta o comportamento, podendo ser visto como um rastro de uma experiência passada de enfrentamento da ameaça direta, ou seja, a adaptação do comportamento baseada em experiências passadas. No caso aqui pesquisado, essas podiam ter sido vivenciadas pela própria pessoa ou por terceiros, como, por exemplo, os sequestros e torturas sofridas, às vezes, até por estranhos, mas que, chegando ao conhecimento do indivíduo, levavam a uma adaptação do seu comportamento. O autor define o termo da seguinte maneira:

O “medo derivado” é uma estrutura mental estável que pode ser mais bem descrita como o sentimento de ser suscetível ao perigo; uma sensação de insegurança (o mundo está cheio de perigos que podem se abater sobre nós a qualquer momento com algum ou nenhum aviso) e vulnerabilidade (no caso de o perigo se concretizar, haverá pouca ou nenhuma chance de fugir ou de se defender com sucesso; o pressuposto da vulnerabilidade aos perigos depende mais da falta de confiança nas defesas disponíveis do que do volume ou da natureza das ameaças reais). Uma pessoa que tenha interiorizado uma visão de mundo que inclua a insegurança e a vulnerabilidade recorrerá rotineiramente, mesmo na ausência de ameaça genuína, às reações adequadas a um encontro imediato com o perigo; o “medo derivado” adquire a capacidade da autopropulsão453.

É fácil compreender porque aqueles que já haviam tido obras censuradas ou tomado conhecimento de situações que envolviam a repressão conscientemente, ou não, acabavam por praticar a autocensura. Igualmente, torna-se compreensível o fato de muitas delas ainda vivenciarem esses medos, mesmo após o término do regime militar. Além disso, nota-se que o medo está associado à informação. Não se tem medo daquilo que se desconhece a existência, que não se imagina. É significativo a este respeito o depoimento de Valter Sobreiro Júnior. Ele afirmou que,

451

Tanto a censura quanto a autocensura encontram sua origem, segundo Elias, no processo civilizador que constitui uma mudança na conduta e sentimentos humanos rumo a uma direção. O controle, efetuado através de terceiras pessoas, é convertido em [...] autocontrole, as atividades humanas mais animalescas são progressivamente excluídas do palco da vida comunal e investidas de sentimentos de vergonha, a regulamentação de toda a vida instintiva e afetiva por um firme autocontrole se torna cada vez mais estável, uniforme e generalizada (ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1983, v. 2, p. 193-194).

452

BAUMAN, Zigmunt. Medo líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 9.

453

em Pelotas, as pessoas não tinham medo de participar do movimento teatral, visto que:

“não tomávamos conhecimento do que acontecia em outras cidades com os artistas. Se não tinhas a informação aquilo, não parecia uma coisa grave. Não te atingia. Só soubemos desses fatos com a abertura. Por exemplo, quando ia a um festival, ouvia que Fulano tinha enlouquecido, mas por quê? Porque havia sido preso, torturado. Tem o caso de um grande diretor, de Belém do Pará, que virou monge, de tão transtornado que ficou. Mas eu soube desses casos, porque saí daqui, participei de festivais, troquei informações. Grupos de Porto Alegre, como o Teatro de Arena, sofreram várias sanções, proibições de espetáculos, pessoas presas, não pela peça em si, mas por manifestações no espaço do teatro”454.

Já a depoente Maria Luiza Martini explicou que, para ela, o medo estava presente desde o momento da elaboração do texto até a sua apresentação. Tentava prever qual seria o parecer dos censores e o que seria ou não liberado pela censura.

No meio teatral porto-alegrense, eram conhecidos os episódios envolvendo a repressão. Grupos, como o Teatro de Arena de Porto Alegre, por exemplo, que, conforme foi abordado anteriormente, optaram por fazer um teatro engajado e de denúncia, pois vivenciaram a repressão e o medo diariamente. Os integrantes do grupo tiveram os seus domicílios vigiados, e várias peças censuradas. Algumas, após a estreia, foram ameaças pelo CCC (Comando de Caça aos Comunistas), mas mantiveram o seu posicionamento. O medo, nesse caso, pode-se inferir, serviu como um estímulo ao comportamento engajado. Levou à ação. Ao recordar a sua prisão durante a temporada de Os Fuzis da Senhora Carrar, Jairo Andrade falou que:

“[...] no dia do AI-5, eles foram lá e fizeram a apreensão dos fuzis. Antes deles fazerem a apreensão, cercaram o Arena. [...] me levaram preso para o 18 RI. Eu apanhei. Eles queriam que eu contasse de onde é que tinham saído os fuzis. [...] eu me lembrei que era da Brigada. Me trouxeram, tarde da noite, para o teatro, porque eu tinha um contra-recibo no cofre. Eles pegaram e se jogaram no chão e ameaçaram [...], talvez até atirar na gente e tal. [...] eu tinha, dentro do cofre, quatro balas calibre 22 [...], eu as tinha porque nós tirávamos o projétil e usávamos como festim. Eles fizeram a apreensão daquelas balas. Então, me levaram de volta preso para o 18 RI, me acusando de estar contrabandeando munição para fazer a contra- revolução no Brasil”455.

454

Depoimento de Valter Sobreiro Júnior, em entrevista realizada em 10/06/2009 por Vanessa Volcão Oliveira.

455

Depoimento de Jairo Andrade, em entrevista realizada em 17/05/2008 por Lourdes Maria Fedrigo Riboldi.

Constata-se que o medo também estava presente entre os agentes da repressão que viam todas as atitudes como suspeitas. A cultura do medo contaminou a sociedade, difundindo uma constante incerteza.

3.2 O PALCO DE PAPEL: UM ESTUDO DE CASO SOBRE A ATUAÇÃO DA