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Tallmateriale: Grunnskolepoeng og gjennomføring

5. Presentasjon av funn og resultater

5.4. Tallmateriale: Grunnskolepoeng og gjennomføring

Assim, para nossos finos letrados, tudo o que acabo de louvar não tem nenhum valor se não lhes toca o coração.

Gabriel Tarde

Chegamos ao fim de nosso trabalho. Ou melhor, chegamos ao lugar em que se conclui essa dissertação. A partir desse ponto, que é também um princípio, iniciam-se outros caminhos e outras reflexões que não serão necessariamente feitas no âmbito acadêmico. Ainda há muito o que se pen- sar sobre as textualidades indígenas, dentro e fora das universidades. O assunto específico do qual tratamos, a literatura Huni Kuĩ, também não se encerra com estas linhas. O que fizemos foi apenas arranhar timidamente a superfície do tema. Há tantos outros ângulos e possibilidades de abordagem quanto há mitos e suas versões. Há ainda muitas obras literárias a serem produzidas por esse povo e, consequentemente, muitas outras questões que serão suscitadas por esses textos. Realizamos somente uma das inúmeras leituras possíveis para as textualidades Huni Kuĩ. Muita coisa ficou de fora. Por exemplo, não exploramos a escrita do kene, não fomos a fundo nas questões formais dessa literatura e nem atendemos ao chamado da psicanálise, que por diversas vezes se insinuava – espe- cialmente quando se discutia a natureza dos sonhos.

O caminho que traçamos foi, ao mesmo tempo, imensamente amplo e intransigivelmente resistente ao trabalho da razão. Escrever sobre o sensível não é tarefa fácil. Afinal, de que adianta falar dos sentidos, da experiência? Emanuele Coccia, filósofo, o soube fazer com maestria. Nós, por outro lado, não tivemos a mesma habilidade. O que aconteceu foi que, por vezes, os raciocínios que elaboramos nos pareceram óbvios demais e afeitos de menos à teoria literária. Mas não é essa a própria natureza daquilo que nosso corpo sente? Sua obviedade – pois se sente – e sua aversão à racionalização? Será que a teoria da literatura, essa disciplina, é mesmo capaz de falar inteligi- velmente sobre as textualidades indígenas? Não seria melhor que as deixássemos falarem por si só, pelas vozes de suas figuras e de seus autores?

Nosso objeto de estudo foi algo duplamente avesso à nossa tradicional epistemologia: o sen- sível e sua relação com uma textualidade extra-ocidental. Não obstante, procuramos discursar sobre o tema. Forçosamente o colocamos dentro da forma [a antiga fôrma, não a forma] que nos oferece a academia. Se o resultado a que chegamos é ou não satisfatório, não podemos, nós mesmos, julgar. Tal parecer cabe aos leitores, poucos e acadêmicos, que buscarão nesses textos algo que os afetem. O que podemos dizer com segurança é que tentamos elaborar um caminho de leitura, uma estreita trilha em meio à floresta de possibilidades. Como o próprio Lévi-Strauss, aceitamos de bom grado a contraditória tarefa. Para realizá-la, formalmente, buscamos um modo de organização específico, que fosse avançando pelos temas na mesma medida em que se introduzissem certas qualidades da

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literatura Huni Kuĩ. Partimos de elementos mais concretos (a vida animal, a vida vegetal) em dire- ção a aspectos mais abstratos (o sonho, a miração, a palavra).

O primeiro dos ensaios, “Kans Kans Karã”, nada mais é do que uma reflexão a partir de um pequeno detalhe narrativo. Nele, inserimo-nos inicialmente pelo grande campo temático que é a relação entre os famosos binômios Natureza/Cultura e Animalidade/Humanidade. Descobrimos que essas relações são, no mínimo, instáveis. Percebemos que nem a antropologia nem a filosofia – representados pelos pensamentos de Lévi-Strauss, Viveiros de Castro e Emanuele Coccia – são capazes de solucionar as tensões provocadas pela história “Fumaça do tabaco”. Aprendemos que o melhor que podemos fazer é ouvir as histórias, escutar o canto mágico do pica-pau e nos desociden- tarmos.

No ensaio seguinte, “Yuinaka hãtxa nibu tiã”, empregamos um método um pouco mais mi- nucioso. Colhemos da obra Shenipabu Miyui todas as incidências de figuras animais e as categori- zamos de acordo com as funções por elas desempenhadas nas narrativas. Mais uma vez, um binô- mio clássico de nossas ciências, animalidade/humanidade, se mostrou incapaz de abranger toda a complexidade do pensamento mítico. Nas narrativas, distinguir o humano do animal é, de fato, im- portante. Sim, há o humano e há o animal. Mas essas categorias se interpenetram em um contínuo fluxo corporal. Reconhecemos, nessa investigação, que existe a diferença, mas não há polarização. O trânsito entre as formas, entre os corpos e mundos possíveis, é a atividade por excelência dos xamãs e, por conseguinte, marca da própria literatura. A transformação é a chave da comunicação.

Saímos da “questão animal” para lermos uma outra forma de vida igualmente importante para a literatura e para o pensamento do povo Huni Kuĩ: os vegetais. Em “Una Nĩkai”, a partir da re- flexão sobre o modo de existência das plantas em duas narrativas, “História de Huã Karu” e “Histó- ria da origem dos remédios da mata”, percebemos que a escrita, como a medicina, é um phármakon, e que ambas se entrelaçam na vida Huni Kuĩ em um fenômeno que é a invenção de uma saúde.

Nos aprofundamos em seguida no campo semântico que envolve uma das mais importantes medicinas da floresta: o nixi pae. Entramos no mundo dos yuxĩ, que é o mundo das imagens, para buscarmos compreender de que matéria se constitui essa literatura. Nossa conclusão, que não é de modo algum definitiva – embora não seja nada arbitrária – foi a de que a literatura, como os sonhos, é constituída justamente pelas imagens, ou seja, pela vida sensível (que não é exclusivamente aquilo que nossos sentidos captam em vigília, mas é também aquilo que se experiencia quando se adentra o mundo dos yuxĩ, isto é, quando se toma o nixi pae).

No quinto e último ensaio, tomamos em vista três cantos do nixi pae em busca de compre- ender o que significa a palavra para os Huni Kuĩ, essa matéria-prima de nossa poesia com a qual julgamos possuir grande intimidade. Mais do que apenas um significante, a palavra nos cantos é um agente capaz de provocar alterações na própria realidade daquele que ingeriu a bebida sagrada. A “poesia” Huni Kuĩ se apresentou como portadora de potencialidades muito além daquelas que nós brancos tradicionalmente enxergamos em nossos poemas. A questão da utilidade ou inutilidade da

poesia não faz sentido algum nesse caso. Os cantos cumprem funções não apenas estéticas, mas principalmente funções de agência que nós, brancos, podemos as rotular apenas como “mágicas”.

Por fim, se nossa dissertação possui qualquer mérito, ele certamente é o de apresentar àque- les que a leem um pouco da encantadora literatura Huni Kuĩ, de neles despertar o interesse por essa experiência mágica que é desocidentar-se para ler as textualidades indígenas. Por essa razão, a fina- lizamos nessa mesma nota. Abaixo, o belo poema “Eu pensava que a terra remendava com o céu”, de Tene Txana Sapa (Norberto Sales, em língua portuguesa). A ele não se seguirá nenhuma análise ou esclarecimento, pois, como advertiu Kafka, tudo aquilo que vem de um fundo de verdade deve encerrar-se no inexplicável. E é essa, em nossa opinião, a principal característica da literatura Huni Kuĩ: são textos que provêm de uma verdade, as imagens míticas, e que se encerram naquilo que nós, ocidentais, não podemos explicar. Chamemos, pois, o que fazem os Huni Kuĩ em suas publicações, de literatura verdadeira.

Eu pensava que a terra remendava com o céu282

No meu pensamento de antigamente, quando eu era menino,

o mundo, eu pensava que era que nem tocaia,

a terra remendava com o céu. O sol,

eu pensava que eram muitos, passando dias e dias.

A noite,

eu pensava que era que nem fumaça, porque quando o sol ia embora, a noite vinha cobrir o mundo. O céu,

eu pensava que era que nem ferro, nunca acaba.

A chuva,

eu pensava que era alguma pessoa,

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que morava no céu e derramava água. A água,

eu pensava que eram alguns bichos grandes, esturrando em cima do céu.

O homem,

eu pensava que só nós mesmos vivíamos, só nós mesmos, o povo Kaxinawá.

A língua,

eu pensava que todo mundo falava na nossa língua mesmo, o Kaxinawá.

Um dia, eu vi um branco chegando na nossa casa falando diferente. Mas eu pensava que quando eu fosse na casa dele, ele ia falar em Kaxinawá. Um dia, eu fui viajar com meu pai, para ver onde estava a terra remendada com o céu. Nós íamos descendo o rio e quando passaram alguns dias perguntei ao meu pai onde estava a terra remendada com o céu. Meu pai me disse que não estava remendada a terra com o céu. Que o mundo é muito grande e não tem fim...

Anexos

Apresentaremos a seguir, como anexos dessa dissertação, dois outros textos de caráter mais expe- rimental: um pequeno ensaio que foge bastante do escopo principal a que nos dedicamos em nossa dissertação. Nele, fizemos a tentativa de esboçar uma leitura “desocidentada” de dois textos da tra- dição literária do ocidente. Como todo experimento verdadeiro, não há lição clara que se possa tirar dele. Há apenas sugestões. A nossa, foi a de que deveríamos transformar Prometeu em índio. Em seguida, compondo as últimas palavras desse trabalho, relatamos uma experiência (de vida e litera- tura) que tivemos ao visitar uma aldeia Huni Kuĩ. Curiosa e anacronicamente – pois a maior parte dessa dissertação já havia sido escrita no momento em que fomos à aldeia – essa experiência acabou por encerrar e compreender todos os assuntos e temas ao qual nos dedicamos nesse trabalho.