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Para analisar as representações de Fortaleza no Museu do Ceará, objetivo estabelecido nesta pesquisa, foi necessário fazer um recorte dentro dos módulos da exposição de longa duração. Dei destaque ao oitavo módulo da exposição Ceará: história no plural visto que, como dito anteriormente, todos os objetos aí expostos relacionam-se diretamente à história da cidade. Como dito na introdução deste trabalho, o módulo escolhido Fortaleza: imagens da cidade foi montado em homenagem ao centenário de Raimundo Girão, ainda em 2000; e em 2008 foi anexado como módulo da atual exposição de longa duração. Cristina Holanda participava, na época, do núcleo educativo e afirma que essa anexação não foi uma simples mudança de lugar, mas decorreu de rearranjos pelos quais passou a exposição:

A exposição não foi só incorporada, mas ela é adaptada também. Ele [Régis Lopes Ramos] manteve a proposta de discutir a cidade do período colonial aos dias de hoje, mas alguns elementos saíram e outros entraram. Por exemplo, originalmente, o bode Ioiô não estava incorporado, então ele entra. O bode que antes pertencia ao módulo

Ceará Moleque, ele é incorporado à Fortaleza: imagens da cidade

(ENTREVISTA CONCEDIDA A AUTORA EM 5 de maio de 2011).

Na época da montagem da referida exposição o diretor, o historiador Régis Lopes Ramos (2004, p. 43) assim a justificou: “A exposição Fortaleza: imagens da cidade veio do esforço de inserir a cidade no museu: compor uma exposição sobre a própria urbanidade na qual o espaço museológico está inserido”.

A partir da observação deste módulo, nota-se que a cidade apresenta-se em sua multiplicidade de aspectos: social, econômico, político e cultural. Apesar disso, sabe-se que ao se criar uma exposição, opta-se por certos elementos, certas temáticas específicas, pois não é possível dar conta da

totalidade do real. Assim, Antonio Luiz Macedo e Silva Filho, curador desta exposição juntamente com Régis Lopes Ramos afirma:

Pensar a cidade por meio de imagens implica, sobretudo, a proposição de um conhecimento assentado em fragmentos, recortes do mundo social, cuja interação permite o vislumbre de alguns temas e aspectos da dinâmica urbana (SILVA FILHO, 2004, p.13-14).

Da mesma forma, Cristina Holanda ressalta a ideia de que não só a exposição sobre Fortaleza opta por certos aspectos a serem trabalhados diante da infinidade da realidade, mas a própria concepção de museu pressupõe essa ideia:

A gente tem que ter muita clareza que uma exposição ela é sempre um recorte; o museu em si é sempre um recorte, ele nunca vai dar conta da realidade toda, inteira, até porque a memória é seletiva. Então a gente acaba priorizando certos recortes. Não se pode dar conta dessa dinâmica que é Fortaleza no decorrer da sua historia inteira; temos que fazer opções (ENTREVISTA CONCEDIDA A AUTORA EM 5 de maio de 2011).

Ao observar este módulo percebe-se como esses fragmentos e recortes da vida social estão materializados na exposição e que os objetos apresentados supõem a experiência da diversidade: não se trata apenas de Fortaleza, mas das “Fortalezas” que vêem se modificando ao longo do tempo. Assim, ao se pensar na cidade de Fortaleza a partir dos objetos retratados nessa exposição vê-se que na verdade há uma multiplicidade de formas de apropriação e uso de seus espaços, demonstrando que a cidade pode ser vista de diversas formas e a partir de vários pontos de vista.

Partindo do pressuposto de que a cultura material é a fonte primária do museu na constituição de seu discurso historiográfico, por meio dela é possível compreender as transformações ocorridas na cidade durante o passar do tempo. A partir dos objetos é possível vislumbrar a grande quantidade de histórias que permeiam nossa cidade em diversos períodos. Logo no início da exposição, o visitante se depara com a primeira planta da Vila de Fortaleza

(“não a original, mas uma cópia”, ressalta um dos monitores) datada de 1726 e uma maquete que reproduz esta planta (ver figura 22). A primeira impressão, para quem conhece ou para quem vive em Fortaleza, é de que não se trata da mesma localidade; é difícil imaginá-la da forma que é apresentada.

Ao lado desses dois objetos está a bandeira de Fortaleza (ver figura 23)67, um pequeno canhão e um ornato de penas que serve para enfeitar a cabeça de índios. Continuando por esta exposição vêem-se ainda candeeiros e lamparinas, utilizados para a iluminação de residências; um relógio antigo e uma foto da Praça do Ferreira, onde aparece em primeiro plano a Coluna da Hora, inaugurada em 1933 – e como veremos mais adiante foi retirada na reforma ocorrida nos anos 1970 –, uma peça do gasômetro utilizado no sistema de iluminação a gás instalado na cidade; três canaletes, mais conhecido como “jacarés”, usados para escoamento das águas dos telhados; um vaso em porcelana azul e branco que ficava no Passeio Público; um vaso que ficava no cemitério São João Batista; a planta em xadrez desenhada por Adolpho Herbster em 1888; um mapa indicando nomes de ruas, antigas e atuais, de Fortaleza; o bode Ioiô, dentre outros.

Já foi mencionado que ao montar as exposições os profissionais do Museu do Ceará procuram não apenas exibir os objetos, mas torná-los inteligíveis por meio de um diálogo; um discurso historiográfico que mais do que apresentar uma versão finalizada dos fatos, propõe hipóteses sobre o que significam para aqueles que os vêm. Assim, cada visitante interpreta a cidade de forma distinta, a partir de suas próprias experiências subjetivas, fazendo

emergir diferentes “cidades” em uma só.

Ao percorrer este módulo vê-se notadamente a proposta pedagógica elaborada por Régis Lopes Ramos materializada na disposição dos objetos. Ao propor o desenvolvimento do saber histórico através dos objetos – “objeto- gerador” – o faz de uma maneira que incentiva o próprio visitante a buscar e exercitar a reflexão sobre as várias relações entre passado e presente. Nota-se

67 No brasão está inscrito o lema da cidade, a palavra em latim "Fortitudine", que em português

que os objetos conversam entre si, mas o visitante tem que estar atento, pois não necessariamente os objetos que podem travar um diálogo estão postos lado a lado. Como exemplo, pode-se citar as duas plantas de Fortaleza presente na exposição: a de 1726 e a de 1888. Pode-se pensar no crescimento e desenvolvimento da capital cearense a partir da observação das duas plantas, mas estas estão postas em locais distantes um do outro, cabendo ao visitante perceber essa possível relação.

Fortaleza aparece representada no Museu do Ceará a partir de fragmentos de diversos períodos de sua história. No entanto, cabe ressaltar

que estes não foram colocados na exposição de forma a compor uma “linha do

tempo”, isto é, os objetos não foram organizados de acordo com o ano ou data de sua produção. Ao contrário, os objetos, que são de várias épocas e datas distintas, conversam entre si e ao mesmo tempo. Além disso, a exposição Fortaleza: imagens da cidade apresenta uma leitura possível e nunca assume o caráter de conhecimento acabado. Assim, não se pode ter um conhecimento integral e universalizante sobre a história da cidade.

A seguir apresento algumas considerações acerca das possíveis relações entre os objetos do Museu do Ceará em sua tarefa de representar a cidade de Fortaleza.

Fig. 22 – A primeira planta da Vila de Fortaleza, Fig. 23 – Bandeira de Fortaleza.