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5. Utgavene

5.5. Hans Martinussens forlags utgave

No livro Música Contemporânea Brasileira de José Maria Neves (1981), temos indícios de que a música erudita inserida no Brasil até por volta do XVIII quase não tinha preocupações em “manter e desenvolver as características nacionais já encontráveis na canção popular” (p. 15). Nessa época, alguns compositores como José Maurício Nunes García (1767/1830) guardavam algum gosto pela música popular e escreviam modinhas. Já por volta do século XIX começaram a entrar em voga as óperas brasileiras, mas mesmo assim seguiam as normas de escrita musical do repertório italiano. Carlos Gomes (1836/1896) foi o grande intermediador de um estilo que incrementasse elementos nacionais (II Guarany, por exemplo). Ele foi “o primeiro compositor brasileiro a buscar de modo consciente uma ligação mais profunda com a problemática de seu país” (NEVES, 1981, p. 17).

Outros compositores também aderiram a essa ideia nacionalista, por exemplo, Brasílio Itiberê da Cunha (1848/1913), Henrique Oswald (1852/1913), Alexandre Levy

(1864/1892) e Alberto Nepomuceno (1864/1920). “Nessa primeira fase [...] tratava-se de um trabalho composicional caracterizado pelo emprego de temas (quase sempre melódicos) da música popular, temas que eram tratados segundo métodos harmônicos e polifônicos europeus” (NEVES, 1981, p. 19).

Mais adiante, Heitor Villa-Lobos (1887/1959) passa a desenvolver os elementos da música folclórica e popular de modo mais complexo e livre, não sendo aplicados apenas como citações. Isso nos mostra que apesar da hibridação musical ser um processo natural nos dias de hoje, ouve em certos tempos, preocupações em articular sonoridades da tradição popular de forma consciente20.

Por meio da tradição popular, o violão no Brasil tornou-se um instrumento fundamental para a música e esteve presente tanto no ambiente de concerto, quanto na música popular. Dentre os violonistas que difundiram o violão no país, temos aqueles que fundaram e consagraram a escola do violão popular brasileiro, dentre eles, Quincas Laranjeiras, João Pernambuco, Américo Jacomino, Dilermando Reis, Isaias Sávio e Heitor Villa-Lobos. Em todos esses artistas, temos características referentes à música brasileira que também se misturava com elementos da cultura européia. Maurício Tadeu Orosco dos Santos (2001) discute que o violão no Brasil sempre teve esse caráter híbrido e dentro dessa linha buscou-se adaptar técnicas de escrita musical estrangeira aliada a ritmos e temas do folclore brasileiro. Em sua dissertação de mestrado o autor propõe um estudo das obras para violão de Isaías Sávio, e por meio disso destaca traços estilísticos que enfatizam características híbridas. Sandra Mara Alfonso (2009) também aponta no livro O Violão – Da marginalidade a academia, que “desde o início da história da música no Brasil é possível observar a circularidade entre as culturas erudita e popular” (p. 26). Essa naturalidade a hibridação está relacionada com a circulação de elementos musicais de diferentes povos (ALFONSO, 2009).

Alinhados a essa ideia, Assad também busca valorizar a música brasileira agregando características rítmicas, melódicas e harmônicas (serão apresentadas no capítulo da análise) em suas composições. As obras de Sérgio Assad são marcadas principalmente pela MPB, sigla que engloba toda a música popular brasileira. Porém, segundo Silvano Fernandes Baia (2015), essa sigla não é apenas a abreviatura de música popular brasileira, mas “um subconjunto dessa produção” (p. 189). De acordo com Baia (2015), a sigla surgiu por volta de 1960 e serviu para designar um repertório que emergia dos festivais de música da época. Os gêneros musicais que se destacavam eram o samba, baião, marcha, bossa nova, dentre outros

20 Outros compositores como Lorenzo Fernandez (1897/1948), Francisco Mignone (1897/1986) e Mozart Camargo Guarnieri (1907/1993) chegaram a tomar posições parecidas.

tradicionalmente conhecidos no meio popular. E foi a partir desses festivais que Assad se motivou a escrever música e também são os ritmos brasileiros, como baião e samba que denunciam as raízes brasileiras do artista em suas composições.

Por meio do estudo das obras dos compositores Radamés Gnatalli, Astor Piazzolla, Villa Lobos, Marlos Nobre, Garoto, dentre outros, Assad desenvolveu sua linguagem estética misturando elementos da música popular com a escrita da música erudita (Zanon, 2006). Desta forma, a musicalidade deste compositor reflete a misturas não só de gêneros musicais, como também, concepção de escrita e processos composicionais de diferentes culturas, o que nos leva ao hibridismo.

Oliveira (2009), em seu trabalho Sérgio Assad - sua linguagem estético-musical através da análise de Aquarelle para violão solo, tenta estabelecer um paralelo entre a Aquarelle e outras obras solo, com a intenção de revelar que esta composição seria em síntese, a base composicional de Assad para outras obras.

Ao apresentar uma análise da peça Aquarelle de Sérgio Assad, Oliveira (2009) primeiramente esboça um panorama geral da obra explicando a estrutura formal de cada movimento e os contextualiza dentro do período histórico vivido pelo compositor, estabelecendo suas conexões com a “música popular”. Foram feitas análises da elaboração motívica, estruturação harmônica, elaboração rítmica e escrita instrumental.

O autor destacou os motivos utilizados em cada movimento da obra mostrando suas variações e elaborações. Os motivos vão se transformando, criando conexões entre antecedentes e consequentes com variações de ritmo e andamento, técnica conhecida também como transformação temática.

Foi feito também uma análise rítmica pela qual o autor apresentou a relação direta entre a música de Assad e a cultura afro-brasileira. Figuras de síncopa e pontuadas são destacadas como uma das principais características do ritmo. É comum identificar citações em ritmo de samba, Baião e Marcha Rancho. Segundo Oliveira (2009), o aspecto rítmico é “um elemento unificador da obra como um todo, dados diversos recursos e convenções recorrentes detectados” (OLIVEIRA, 2009, p. 73).

Este autor considera como híbridos compositores com formação erudita que fazem uso de materiais rítmico-melódico e estilístico oriundo da música popular (temas folclóricos populares). Oliveira (2009) cita alguns compositores como exemplo: Francisco Tarrega, Fernando Sor, Miguel Llobet, A. Barrios Mangoré, Astor Piazzola. Já no Brasil: Villa Lobos e Radamés Gnattali, por exemplo. Oliveira (2009) destaca em seu trabalho que:

[...] o hibridismo da música culta com a música popular no violão é uma prática que encontra as suas raízes no violão de concerto tradicional, mas que nas últimas décadas do século XX tem recebido uma crescente influência da indústria cultural e da música popular urbana dada à ruptura ocorrida entre a música erudita vanguardista e o público. Tal intervenção modificou o repertório e orientação estética de diversos intérpretes que, em busca de um público maior para a sua arte, se enveredaram em projetos híbridos com a música popular com graus variáveis de sucesso comercial e artístico. Dentre estes destacamos Sérgio Assad, cuja estética híbrida surgiu naturalmente, fruto do ambiente familiar voltado à música popular e de sua rigorosa formação musical como concertista e compositor (OLIVEIRA, 2009, p. 35).

O fato é que compositores europeus faziam uso da linguagem popular para compor sua música de concerto, enquanto os compositores brasileiros transitavam entre o erudito e popular, de acordo com sua necessidade, seja ela financeira ou por simples afeição pela música nacional, como é o caso de Sérgio Assad (OLIVEIRA, 2009). Esta visão abrangente do violão solista no Brasil nos leva a pensar que a prática híbrida de seus praticantes é um reflexo da posição do instrumento na cultura do país e algo comum no fazer musical brasileiro que consequentemente refletiria na produção musical.

A seguir, apresentaremos a análise da Série Jobinianas que irão expor as técnicas composicionais utilizadas por Assad para compor estas obras. Será possível perceber a evidente intertextualidade musical, influências de compositores já citados (Tom Jobim, Brouwer e Debussy), e o processo de evolução de uma Jobiniana para outra.