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Taking Ourselves Seriously

Chapter 1 PERSONS

1.1 Taking Ourselves Seriously

Pereira (2003) afirma que a devoção propriamente dita pertenceu e pertence mais ao âmbito das camadas populares, economicamente mais pobres e com baixo grau de escolaridade. Ao falar da crise da cristandade popular, Azzi (1987, p. 221) afirma que:

Se por um lado, os católicos letrados queriam purificar a religião das manifestações de ignorância, por outro lado, como decorrência da acentuada crise política, social e religiosa, aumentam no Brasil os centros de devoção, onde o povo passava a buscar remédio e segurança nessa época de forte abalo da ordem social.

Se por um lado a devoção era considerada pela hierarquia católica como sinônimo de ignorância religiosa, por outro ela ajudou a manter acesa a chama da esperança diante das realidades de crise e sofrimento. Os santos, no dizer de Pereira (2003, p. 71) eram a panaceia, ou seja, o “remédio para curar todos os males e solucionar todos os problemas. E para os devotos, os espaços sagrados (santuário, igrejas etc.) constituiu-se em espaço privilegiado onde as graças e os dons celestes são distribuídos com mais abundância, suprindo dessa forma as múltiplas carências” (AZZI, 1994, p. 296).

Em Porteirinha, muitas pessoas saíam a cavalo ou a pé em direção ao Santuário de Bom Jesus da Lapa. A partir da década de 1930, com o surgimento do carro na região79, as romarias passaram a ser conduzidas em paus de arara. Nas palavras de Oliveira (1985, p. 115), “a popularidade da devoção ao Bom Jesus se evidencia pela identificação com o Cristo sofredor, sobretudo entre a camada de pessoas marginalizadas pelo sistema”. Também era comum em Porteirinha famílias inteiras peregrinarem à comunidade Jacaré Grande, distante oitenta quilômetros de Porteirinha. Costa Filho (2008) escreve que milhares de fiéis, predominantemente negros, de todo o vale do Gorutuba80 e de várias regiões de Minas e da

79 O memorialista José Edler Gonçalves, ao descrever aspectos políticos, culturais e sociais de Porteirinha e região em sua obra Nós, do Furado Sujo, afirma que “os primeiros carros chegaram numa noite de 1923 fazendo um estrépito de 200 bestas e com o súbito clarão dos faróis cegando a todos que ainda desconheciam a eletricidade” (GONÇALVES, 1996, p. 64).

80 Segundo Costa Filho (2008, p. 10), “na região do Vale do Gorutuba é forte a presença dos Gurutubanos, que são uma comunidade de negros quilombolas, moradores do vale do rio Gorutuba, povos que conjugam uma

Bahia festejavam a imagem de Nossa Senhora da Saúde, em Jacaré Grande. “A devoção e romaria a Jacaré Grande figuram no imaginário popular, inclusive com aparições de Nossa Senhora numa barriguda [árvore] e com uma série de milagres” (COSTA FILHO, 2008, p. 214). Em todos esses templos há um forte apelo corporal, motivando as pessoas a atitudes de sacrifício que castigam o corpo, como longas caminhadas.

Oliveira (1985, p. 115) escreve que “para o catolicismo popular, a presença do santo na imagem é importante, porque ela torna possível o contato direto entre o fiel e o santo. Os santos estão, por assim dizer, ao alcance de qualquer fiel, sem que intervenha alguma mediação institucional entre eles”. Deste modo, embora Deus não seja objeto de um culto específico – salvo quando é representado como um santo, como o Divino Pai Eterno, o Divino Espírito Santo, o Senhor Bom Jesus etc. – sua representação como criador e senhor do universo é essencial ao Catolicismo popular, posto que os santos têm poder porque estão junto de Deus. Nas palavras de Oliveira (1985, p. 119),

Tudo o que existe e acontece deve-se ao poder de Deus, e nada acontece na terra ou no céu sem o consentimento dele. Deus é todo-poderoso, nada se faz sem o consentimento divino. Tal concepção da onipotência divina exprime-se claramente na fórmula “se Deus quiser”, que deve acompanhar qualquer projeto humano pois estes só se realizam se estiverem conforme os desígnios divinos.

Segundo Gonçalves (1996, p. 106), “na região de Porteirinha, era tradição ao chegar o anoitecer, anunciar a hora do terço que era puxado pelo patriarca e respondido por toda a família ajoelhada, em posição de honra, diante do grande oratório contendo um crucifixo e santos”. Após o terço, antigos costumes eram ensinados pelo pai:

Após o terço, o pai abria um livrinho de páginas amareladas intitulado “Regras do Bem Viver” e selecionava algumas condutas para transmitir aos filhos. Cyrillo José da Costa, patriarca e dono da fazenda Furado Sujo, em Porteirinha, ensinava aos filhos: - Dizem as “Regras do Bem Viver” que “melhor se alcança o céu pelas penalidades que pelas prosperidades; [...] conserve a gravidade e seriedade com todos, use o conselho dos sábios e prudentes; afaste de si o apego a todas as temporalidades e modas terrenas; atribua a Deus o seu sucesso e a si próprio o seu fracasso” (ibidem, p. 106).

territorialidade e agricultura peculiar, uma racionalidade própria na construção das suas relações sociais e econômicas; e possuem uma religiosidade fruto de concepções e práticas do catolicismo popular associadas a ritos africanos”.

O pai ensinava que “neste mundo, para salvar a alma quando morrermos, não precisaremos mais das coisas da terra. Cada um deve viver contente com a própria condição. A melhor coisa é viver contente com o que Deus quer de nós” (GONÇALVES, 1996, p. 107).

O jornal Gazeta do Norte também mostra como se processava o ritual da oração na família norte-mineira:

Terço em família

[...] as famílias se reuniam a hora do crepúsculo para o Terço diante do oratorio. A sinhá de cabelos brancos, o patrão de mãos calosas e voz grossa, as crianças travessas e irrequietas, os camaradas cansados pela faina dura da lavoura ajoelhavam-se. E o terço era rezado com devoção e amor a frente do oratorio, a mais preciosa reliquia da familia. Bons tempos! E como a Virgem abençoava estas familias onde reinavam a paz, a união e o respeito. Verdadeiros Santuarios! (GAZETA DO NORTE, 1944b, p. 3).

Definitivamente, a cena descrita no excerto, mostra uma família com os trabalhadores vivendo em “harmonia”. O que mantinha esta relação eram os bens materiais e os mandamentos cristãos, que ensinavam que o católico deveria procurar a felicidade no amor de Deus e não na riqueza. De acordo com este pensamento, quem não tivesse ambições vivia tranquilo e feliz. Observamos, também, que o ensinamento e o saudosismo revelam uma faceta da formação dos sujeitos na região. Os conselhos do pai, das pessoas mais velhas ou do padre também constituíam os elementos formativos81 entranhados na cultura e no modo de viver do homem e da mulher.

Neste trabalho, defendemos que o ambiente educacional ultrapassa os muros das instituições escolares e que a educação deve ser percebida de forma ampla e multifacetada. De acordo com Pallares-Burke (1998), descrever a educação somente em termos da escola é um erro, pois existem agências mais diversificadas e informais envolvidas nesse processo, como a imprensa, a Igreja e a família. A formação religiosa parecia sem dúvida ser forte, pois dava-se toda em casa. Sua influência era tamanha que as crianças aprendiam de cor as orações e os pontos do catecismo, participavam das orações em família e absorviam o comportamento religioso dos pais82.

81 Estamos nos referindo à Educação não-formal, conceito proposto inicialmente por Bernard Bailyn, que é aquele cujo aprendizado ocorre pela socialização do indivíduo em diferentes grupos sociais. Assim, a história da educação é parte da história total e, por isso, deve abandonar uma perspectiva institucional estreita e integrar o conjunto das dimensões sociais, políticas, econômicas e religiosas (BAILYN, 1960, p. 14).

Outra marca religiosa bastante tradicional na região era a devoção a Santos Reis83,

comemorada pela Igreja Católica no dia 6 de janeiro. O Gazeta do Norte apresenta os momentos que precedem este dia:

A tradição dos festejos “Santos Reis” continua ainda cheia de fé e de entusiasmo. [...] Nos povoados, nas fazendas e nos retiros, o povo vibra com o mesmo entusiasmo d’outrora. Os “foliões” desde o dia 25 de dezembro, Natal, até o dia 6 de Janeiro “visitam” durante toda a noite as casas que figuram na lista adredemente preparada. No dia da visita, “os foliões” avisam de sua visita afim de que se lhes preparem alguns litros de vinho e aguardente, biscoitos fritos ou outros comestiveis, de conformidade com a posse do visitado. A visita é sempre feita sutilmente, à chegada, como se fora improvisada. O dono da casa abre as portas, os “foliões” e o grupo de acompanhantes entram e entoam a cantiga em que inicialmente pedem uma esmola para a “folia”. Geralmente a orquestra se compõe de 2 violas, 1 violão, uma rabeca, 1 pandeiro e uma caixa. O corpo de dançadores se compõe de 4 elementos masculinos que dançam aos pares vis a vis. Depois da dança protocolar, um dançarino solitario, ao som monotono da musica, pula para o centro dos tocadores e se precipita numa dança caracteristicamente indigena. [...] Uma pseudo ou verdadeira promessa serve de ensejo para a “folia” (GAZETA DO NORTE, 1946, p. 1).

Na festa de Santos Reis, em Porteirinha, milhares de pessoas em procissão sobem a colina, e dentro da capela celebram aos santos. Conforme o Dossiê de Tombamento da Capela de Santos Reis da Prefeitura Municipal de Porteirinha (2002, p. 3), “a capela foi erguida em agradecimento a uma promessa para os Santos Reis”. Oliveira (2008, p. 103) relata que:

A construção da Igreja foi uma iniciativa do senhor Manoel Patrício de Souza Gomes, agricultor e chefe político local, quando a região sofreu com uma terrível e avassaladora seca no ano de 1909. Para acabar com a seca, o senhor Manoel Patrício, conhecido como Seu Nezinho, fez uma promessa para os Santos Reis (Gaspar, Belchior e Baltazar) pedindo chuva. Por sua grande fé, ele foi atendido. A chuva benfazeja caiu, molhando a terra seca, alimentando o rio e produzindo os mantimentos.

A cada ano, milhares de pessoas saem às ruas em procissão para conduzir em andores, até a capela, os três Reis Magos, que às vésperas do Natal tinham descido para a Igreja Matriz. “Todo o povo comparece para entoar os cânticos e percorrer as ruas enfeitadas de bandeirolas

83 PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTEIRINHA. Departamento de Cultura. Dossiê de Tombamento da

e demais adereços próprios da comemoração dos Santos Reis”84. Durante muitos anos, junto ao

cruzeiro da capela, permaneceu a prática de penitência para fazer chover. Essa prática é descrita com detalhes por Paula (2007, p. 53):

[...] as chuvas normalmente aparecem em fins de setembro para princípio de outubro. Se a estiagem se prolonga um pouco, os fazendeiros se inquietam: lamentam, comparam com anos anteriores e fazem previsões pessimistas. De meados de outubro em diante, o povo da cidade também é contagiado pelo medo da seca. Surgem, então, as penitências para chover. Ao meio dia, sob um sol causticante, sai a procissão de mulheres e crianças. Conduzindo garrafas d’água e pedras, visitam todos os cruzeiros da cidade; enquanto caminham, cantam as rezas em voz alta; de vez em quando ajoelham-se em plena rua e cantam o “Senhor Deus, misericórdia”. Em cada cruzeiro colocam as pedras que conduzem e retiram as ali existentes e cantam um Pai Nosso e dez Ave Maria. No último cruzeiro deixam as pedras e despejam as garrafas d’água.

As festas de Santos Reis e a Festa de Nossa Senhora Santana, esta última realizada no distrito de Serra Branca, em Porteirinha, há pelo menos 300 anos, compõem as principais manifestações do Catolicismo popular local. A capela foi edificada pelo colonizador das terras banhadas pelo rio Gorutuba, Manoel Affonso da Sequeira, em 179285. Saint-Adolphe diz que a capela de Nossa Senhora Santana “foi por largo tempo a unica igreja que havia num vasto territorio que pertencia á freguezia de Morrinhos”. Junto ao templo funcionava o Registro, órgão do Estado Português para o controle e fiscalização da exploração de ouro e diamantes (SAINT-ADOLPHE, 1845). A festividade, que é realizada sempre entre os dias 17 a 26 de julho, atrai fiéis de vários municípios do norte de Minas Gerais que vão pedir amparo à santa protetora.

A Festa de Nossa Senhora Santana sempre foi vivida com muito entusiasmo pelos fiéis. Desde as primeiras notícias de sua existência, a população da região afluía em grande número, com suas roupas domingueiras, para a localidade de Serra Branca. A festa, em sua simplicidade,

84 PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTEIRINHA. Departamento de Cultura. Dossiê de Tombamento das

imagens dos Três Reis Magos. Porteirinha/MG, março de 2002, p. 4.

85 No Arquivo Público Mineiro (APM), em Belo Horizonte, localizamos outro documento que comprova a data de construção da Capela Nossa Senhora Santana, em Serra Branca, bem como mostra que na região existia uma intensa atividade econômica. Trata-se de um despacho, lavrado na Vila Rica, do Conde de Sarzedas, Bernardo José de Lorena, que era um administrador português da Capitania de Minas Gerais. O referido documento, datado de 1800, responde ao requerimento de Joaquim José de Sá referente à sua provisão para o cargo de Guarda-Mor Substituto no Distrito de Gorutuba e Capela de Santana da Serra Branca, Termo de Minas Novas (APM, SG-CX. 47-Doc. 52, 1800).

divertia as pessoas e amenizava seus dias de penúria; de cunho religioso e profano, a festa atraía famílias inteiras que ficavam arranchadas ao redor da capela por vários dias.

Conforme dados da Secretaria de Cultura de Porteirinha (2002), os pais batizavam seus filhos, os antigos compadres encontravam-se e estreitavam os laços de amizade, crianças e adolescentes recebiam o batismo e a crisma e vários noivos aproveitavam a ocasião e se casavam em cerimônias coletivas. Lugar de pagamento de promessa, a festividade contava com inúmeros devotos que percorriam longas distâncias a pé até a região. O evento também tinha um fim social, pois reunia uma multidão de várias localidades. Festas profanas paralelas, regadas à cachaça e conhaque, eram dadas durante o período. O movimento comercial era intenso, com bares improvisados e casas de jogos e de prostituição.

Ao estudar os festejos populares no norte de Minas Gerais, Silva (2005, p. 258) afirma que:

Para integrar a confraternização popular e religiosa, percebe-se que os festejos religiosos da região eram coroados por rituais sagrados e profanos. Dentre os rituais santos estão a presença das missas, procissões, sermões, rezas e ladainhas. Do lado profano das festas observam-se as danças e os espetáculos dos fogos. Assim, a devoção dos fiéis nas comemorações é aquecida através dos fogos de artifícios e das fogueiras, corada de balões, bandeiras e mastro. Ainda fazem parte desse ritual cristão os variados comes e bebes.

De forma geral, no Catolicismo popular, Jesus é o protótipo dos santos: bom e justo, ele sofre sem ter pecado, e por esse sofrimento ganha a misericórdia divina para com os homens. Nas palavras de Azzi (1976, p. 15) “sua representação popular é, pois, a representação do sofredor: o crucificado, o Senhor morto, o Jesus da paixão. Com a romanização a Igreja introduz a representação de Jesus Glorioso, o Cristo-Rei, do Jesus suave e doce, como Menino Jesus e o Sagrado Coração de Jesus”. Basta lembrar que a grande festa do Catolicismo popular não é a Páscoa e nem o Natal, mas a Sexta-feira Santa da Paixão. Oliveira (1985, p. 120) traz a seguinte comparação: “como Jesus sofreu, aceitando com resignação as provações que Deus lhe mandou, também os santos sofreram cada qual suas provações, tendo assim provado diante de Deus sua conformidade com o que ele lhes mandava”. O autor completa a análise: “também os homens têm que conformar com a sorte que Deus lhes deu, vivendo em fidelidade os mandamentos de Deus, sem jamais amaldiçoar sua vida” (ibidem, p. 121). Por isso, um dos primeiros ensinamentos dos pais aos filhos no norte de Minas Gerais era o pedido de benção aos mais velhos. Deste modo, ao pedir bênção aos pais, estes, ao invocarem Deus, abençoavam a prole antes de dormir e ao acordar. Era (e ainda é) uma prática habitual.

Apesar da constatação do conflito existente entre Catolicismo popular e o Romanizado, a Igreja procurou formas de amenizar tais conflitos. Oliveira (1985) afirma que um destes meios foi a implantação de devoções europeias, como a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, à Nossa Senhora de aparição em sua condição celeste (em contraste com as devoções marianas tradicionais, que realçavam sua condição terrena, como Nossa Senhora das Dores, da Conceição, de Nazaré, da Boa Morte) e aos diversos santos das congregações europeias atuantes no Brasil. A freguesia de Riacho dos Machados, por exemplo, teve seu nome mudado. Antes se chamava Freguesia de Nosso Senhor do Bom fim, após o alvorecer do século XX passou a se chamar “Freguezia de Santo Antonio de Padua”86. De forma geral, durante o período, o

Catolicismo oficial conviveu com as práticas populares, ora incorporando-as, ora negando aquelas que de forma visível afrontavam a ortodoxia.