Walcyr Carrasco (1951), paulista de Bernardino de Campos, inicia a série de adaptadores nascidos na segunda metade do século XX. Conta em sua biografia que sua família se mudou para Marília, cidade que estudou dos três aos quinze anos, antes de se mudar para a capital, onde estudou no Colégio de Aplicação da USP (Carrasco, 2007). O autor tem boas memórias de sua vida no interior, filho de sua família de classe média, com ascendência espanhola, mas não sabemos se aprendeu espanhol, embora seja bem provável que sim, pois nota-se um precoce interesse por línguas estrangeiras69.
Carrasco cursou história na FFLCH, deu aula em cursinhos, mas abandonou a faculdade e foi trabalhar em uma editora e livraria, época em que procurou melhorar seu inglês, língua que lhe seria muito útil em sua viagem pelas Américas, feita antes de completar 21 anos, ainda cursando jornalismo na ECA. Morou nos Estados Unidos e no México, ensinou português para sobreviver e fez traduções para uma editora mexicana.
O primeiro emprego foi na Brasiliense, assistente editorial, passando depois para a Abril, no início primeiro escrevendo fascículos (Carrasco, 2008: 359). Assim como Ana Maria Machado e outros, escreveu histórias para Recreio, revista criada em 1969 que durou no mesmo formato até 198170. Carrasco se transformou em cronista por acidente, ao ser convidado por um
diretor da Veja, Carlos Maranhão, revista na qual entrou no final de 1970, através do jornalista Alexandre Machado (Silva e Dalpian, 2000: 115)71.
Carrasco começa sua bem-sucedida trajetória de roteirista em 1984. Não nos deteremos aqui em sua produção televisiva e teatral, mas vale ressaltar que Carrasco parece ter bastante apreço pelo ofício de adaptar, pois desde o início de sua diversificada carreira de escritor
69 “O ensino de francês fora abolido das escolas públicas. Só aprendera por ter estudado em um colégio
experimental [Aplicação], embora do Estado” (Carrasco, 2012: 53) e “Meus dois irmãos começaram a aprender música aos seis anos de idade. Eu preferi estudar inglês, desde os dez” (Carrasco, 2001: 20-1).
70Mônica Rodrigues da Costa, editora da Folhinha (FSP, 23 abr. 1999), oferece mais detalhes: “Vanguarda para
os padrões da época, Recreio foi plataforma de lançamento de inúmeros autores e ilustradores: as duas líderes da revista, Ruth e Sonia, e Ana Maria Machado, Joel Rufino dos Santos, Canini, Walcyr Carrasco, Walter Ono, Maria Amélia de Carvalho (do Bambalalão). A revista durou até o início dos anos 80, entre saídas e retornos das duas mentoras. Ganhou edições internacionais na Argentina, Espanha e Itália”. FSP. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq23049942.htm. No almanaque Abril, encontramos também o nome de Rogério Borges, que ilustrou o Quixote de Angeli. A revista vendia 350 mil exemplares por semana (Franca,
2006: 73). Site Tear Cultura.
<http://www.observatoriogeo.ggf.br/web_tearcultura/literatura/lit_infanto_juv_historia_br.php>. Acesso em: 9 out. 2014.
71 Também trabalhou como editor na revista Isto É, e diretor da Contigo, Interview e Vogue, além da Folha de São
trabalhou muitas vezes sobre escrituras prévias, inclusive adaptando a novela O casamento
enganoso, de Cervantes, para a série televisiva Brava Gente (TV Globo, 2000)72.
Walcyr Carrasco se transforma em escritor de livros. Seu primeiro livro “saiu a fórceps. Foi um infantil, Quando meu irmãozinho nasceu […]. Demorou mais ainda para ser editado” (Carrasco, 2001: 37). Publicou o livro em 197973, com incentivo da escritora Ruth Rocha, a
qual conheceu na Recreio. Carrasco conta em uma entrevista que começou a adaptar literatura infantojuvenil com Os miseráveis (2001), atividade que se mostrou um rentável exercício de escrita74, pois mantém copyrights de suas adaptações, como fez com seu Quixote.
Sua impressionante lista de obras inclui várias adaptações/traduções para crianças de obras clássicas (tanto do cânon adulto como infantil), títulos imprescindíveis em qualquer biblioteca, reunidos em uma prestigiosa coleção, Biblioteca Walcyr Carrasco, editada pela Moderna, com a qual mantém um contrato de exclusividade75.
Esse adaptador parece ter tido uma longa e afetuosa relação com o Quixote, iniciada com a leitura de uma tradução adaptada da obra aos onze anos, como revelada em seu paratexto,
Por que amo Dom Quixote76. Em seu site, conta que talvez por ser descendente de espanhóis
tenha lido várias vezes o livro, e fala sobre a obra, perpetuando o discurso do sonho:
A figura de Dom Quixote, sonhador até as raias da loucura, e de seu escudeiro sempre com os pés no chão, fala de todos nós, seres humanos, da beleza do sonho, dos
72 Encontramos também adaptações para teatro: Peter Pan e O menino narigudo, editado em 2003 baseado no
livro Cyrano de Bergerac. Para televisão: O guarani (1991) Xica da Silva (1996); Sítio do Picapau Amarelo (2000); O cravo e a rosa (2000); A padroeira, baseada no romance As minas de prata, de José de Alencar, supervisão de O profeta, adaptada a partir da novela de Ivani Ribeiro; Gabriela cravo e canela, inspirada no romance de Jorge Amado e novela de Walter George Durst (1975); Alma gêmea (2005), reedição do clássico de Ivani Ribeiro.
73 Em seu livro de memórias conta que havia decidido escrever até cansar, até escrever bem: “Palavra a palavra,
frase a frase fui escrevendo. […] estava decidido a tudo, a qualquer sacrifício para ser escritor” (Carrasco, 2003: 100).
74 “Comecei aos vinte anos, escrevendo contos infantis na revista Recreio. Só mais tarde escrevi para teatro e TV.
Mas nunca abandonei meu primeiro público […] Resolvi traduzir e adaptar para conhecer profundamente obras de escritores que admirava e, assim, evoluí como autor. Escolhi obras como Os miseráveis, sem intenção de ganhar dinheiro. Para minha surpresa, a adaptação de Victor Hugo vendeu mais de 2 milhões de exemplares. Nem acreditava quando recebi o cheque dos direitos autorais. Deu para comprar um apartamento” (Abos, 2012). Walcyr Carrasco para menores por Marcia Abos (19 out. 2012). Portal O Globo. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/cultura/walcyr-carrasco-para-menores-6447611>. Acesso em: 20 set. 2014.
75 Carrasco em 2012 assinou um contrato de exclusividade com a editora Moderna, que criou a Biblioteca Walcyr
Carrasco, com as séries: Reconto da Tradição Popular; Clássicos Infantis: Contos de Grimm; Contos de Andersen; Clássicos Universais: Sonho de uma noite de verão; Dama das camélias– FNLIJ (2003); A volta ao
mundo em 80 dias –FNLIJ (2007); Dom Quixote– FNLIJ (2003); Viagem ao centro da Terra– FNLIJ (2007); Os
miseráveis – FNLIJ (2003) e Altamente Recomendável (2002); Vinte mil léguas submarinas– FNLIJ (2007) e a série Uma História Puxa a Outra. Essas informações foram obtidas na entrevista com a editora, Maristela Petrilli de Almeida Leite (6 jun. 1914).
76 Carrasco também diz que “quem tem grandes sonhos, muitas vezes é ridicularizado pelas pessoas em torno. […]
E batalhar pelos próprios sonhos dá um grande sentimento de realização. Mesmo que sejam distantes. Totalmente impossíveis, nunca! Transformar os sonhos em realidade depende de cada um de nós” (Carrasco, 2013: 200).
inimigos que nós mesmos criamos e da necessidade de enfrentar também o mundo real (Site Walcyr Carrasco).
Como sua adaptação surgiu durante as comemorações do quarto centenário da publicação do Quixote, Carrasco foi convidado para a Bienal de Livros de São Paulo (2006) para assinar sua versão da história cervantina77. Hoje o autor segue com suas vidas paralelas,
escrevendo novelas que provocam alta audiência, crônicas para a revista Época, e promete mais livros para o público infantil e juvenil. Foi eleito para a Academia Paulista de Letras em 2008.