Na arquitetura, movimentos em direção à busca de uma hegemonia estilística são evidentes, na época. Edificações de caráter oficial tinham no ecletismo historicista, referenciado na Renascença italiana, a saída para reforçar o espírito de nação na população composta de culturas tão tradicionais e díspares. A interpretação de um período arquitetônico de tamanha grandeza e, mais ainda, de origem peninsular, estaria de acordo com intenções de diferenciação cultural e de identificação da sociedade com uma arquitetura que lhe dissesse respeito. Outra explicação para a escolha do Renascimento como estilo oficial “estaria associada a uma preferência unitária pelo espírito humanista desse período”165.
163 FRANZINA, Emilio. A grande emigração: o êxodo dos italianos do Vêneto para o Brasil.
Tradução: Edilene Toledo e Luigi Biondi. Campinas: Ed. Unicamp, 2006, p.33-34.
164 Uma reflexão aprofundada sobre o processo de emigração italiana é encontrada em: FRANZINA,
Emilio. A grande emigração: o êxodo dos italianos do Vêneto para o Brasil. Tradução: Edilene Toledo e Luigi Biondi. Campinas: Ed. Unicamp, 2006.
165 DERENJI, Jussara da Silveira. Arquitetura nortista: a presença italiana no início do Século XX.
Dissertação (Mestrado). Porto Alegre: PPGH – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - PUCRS, 1992, p.29. Sobre o termo “humanismo”, refere-se Aurélio à “doutrina ou atitude que se situa expressamente numa perspectiva antropocêntrica”; uma segunda acepção alude à “doutrina e movimento dos humanistas da Renascença, que ressuscitaram o culto das línguas e literaturas
É correto, portanto, reconhecer o final do Século XIX, na Itália, unificada, como um tempo para juntar esforços em prol da necessidade de encontrar um denominador cultural comum, visando à construção do País. Nesse cenário, a arquitetura de cunho historicista desempenhava seu papel amparado por pesquisas, que se realizavam naquele momento, sobre estilos do passado.
A Idade Média também se constituía em outra fonte buscada na história da arquitetura, reforçando o repertório de projetistas. Na passagem do Século, cerca de 40 anos após o início do processo de unificação – mesmo que se reconheça a existência de linguagens arquitetônicas que expressavam ora a tradição, ora a inovação – a resistência ao novo continuava fazendo parte de uma exigência identitária166.
A incerteza, todavia, quanto a diretrizes a serem tomadas no campo da arquitetura trazia, de outra parte, a possibilidade de a tradição ser útil para orientar caminhos que conduzissem a algo novo, à luz do conhecimento que a história propõe167. A realidade daquele período é que a Itália destoava de outros países da Europa no desenvolvimento de experiências que desembocariam, no território europeu em geral, em um contexto de modernidade arquitetônica, afastada do historicismo oitocentista. É fato reconhecido que os anos de transição entre o Século XIX e o XX, na Europa como um todo – mas em níveis diversos, conforme o país – revelava um contexto de arquitetura no qual se evidenciavam, cada vez mais, movimentos contrários à utilização de elementos compositivos extraídos da Antiguidade e possibilidades de novas experiências formais. A condição de desvantagem econômica italiana frente à Inglaterra e França, por exemplo, que se industrializavam com maior velocidade, contrastava com a necessidade de industrialização da nova nação unificada, simultaneamente à utilização de uma arquitetura ainda historicista como representação nacional, compartilhada por todas as distintas raízes culturais que faziam parte da sociedade.
greco-latinas”. FERREIRA, Aurélio Buarque de Hollanda. Dicionário Aurélio: Século XXI, versão 3.0 digital.
166 GUTIÉRREZ, Ramón. Francisco Gianotti: del art nouveau al racionalismo en la Argentina.
Buenos Aires: CEDODAL, 2000, p.11.
Um conjunto de obras de escultura e arquitetônicas passou a ser produzido, visando à internalização de uma memória cultural por parte da população. Tratava- se de um senso de pertinência que correspondia, no discurso dos governantes, ao sistema retórico, que se valia das noções de coerência étnica, honradez nacional e modelo cristão de comportamento do povo italiano na busca por unidade interna da nação que se construía168. As diferenças entre discurso e realidade social, política e econômica do novo Estado assemelham-se àquelas entre a arquitetura adotada oficialmente e a do entorno imediato, de sentido mais universal e coerente com os novos tempos, proposta na Europa de modo geral.
Estátuas de personagens italianos importantes foram inauguradas em diversas partes do país, assim como eventos de caráter cívico marcavam as datas significativas. A arquitetura oficial pretendida pelo Estado recorreu ao historicismo de cunho acadêmico associado a uma monumentalidade, que buscava expressar a força do poder estabelecido. O monumento, em estilo neoclássico para alguns autores, e neobarroco para outros, construído em Roma a partir dos anos 80, com projeto de Giuseppe Sacconi (1854-1905), em homenagem ao Rei Vittorio Emanuele II, pode ser considerado como um dos mais representativos dessa arquitetura. Inaugurado em 1911, e concluído somente em 1935, sempre foi alvo de crítica, como a expressa por Pevsner. Ao comentar sobre as formas “indisciplinadas e exuberantes” do neobarroco, visíveis na Ópera de Paris e na Corte de Justiça de Bruxelas, obras iniciadas na década de 1860, o autor insere, na tendência arquitetônica, mesmo que com maior austeridade, obras alemãs e italianas produzidas no final do Século XIX e primeiros anos do XX. Entre estas, o projeto de Sacconi, citado como de estilo que “enfeia Roma”169.
168 BANTI, Alberto M. La nazione del Risorgimento: parentela, santità e onore alle origini dell’Italia
unita. Turim: Einaudi, 2006, p.204. Tradução livre do autor desta pesquisa.
169 PEVSNER, Nikolaus. Panorama da arquitetura ocidental. São Paulo: Martins Fontes, 2002,
Sacconi, junto co da Justiça, igualmente e à linguagem oficial. Koc Manfredi e Pio Piacent Emanuele II até seu térm
O Palácio da Jus monumental empreendid consideração pelo passa Giuseppe Zanardelli, no faz exaltação ao projeto
[...] imitá mar lei e
170DERENJI, Jussara da Silv
Dissertação (Mestrado). Porto 1992, p.31-33.
171Parte do discurso do minis
da Justiça, em 14/03/1888, Guglielmo. Le opere archite 1916, Milão: Bestetti & Tumm Alma Mater Studiorum, Cent deste trabalho.
Figura 15 - Monumento a Vittorio Emanuele II, Roma, de Giuseppe Sacconi.
Fonte: Foto de 1911, da George Grantham Bain Collection, Biblioteca do Congresso, Divisão de Gravuras e Fotografias, Washington, DC. Disponível em: <www.loc.gov/pictures>. Acesso em: 14/04/2010.
m Guglielmo Calderini (1837-1915), rea em Roma, e Gaetano Kock (1848-1910)
ck foi um dos arquitetos que, juntamen tini, deram seguimento à obra do mon mino, em 1935170.
stiça, cuja construção foi iniciada em 18 da pelo governo, na qual estava express
ado clássico inspirado na Renascença. discurso de lançamento da pedra funda de Calderini, mencionando que se tratav um monumento de estrita beleza que, atravé áveis modelos do Cinquecento unidos ao antigo rcas daquela majestade e daquela força, são os e e do direito171.
veira. Arquitetura nortista: a presença italiana o Alegre: PPGH – Instituto de Filosofia e Ciênc stro do governo italiano, no lançamento da pedra transcrito em obra publicada após a morte do ettoniche di Guglielmo Calderini. Prefácio: G minelli, 1917, p.8. Fonte consultada em: Alm@-DL ro Inter-Bibliotecario dell´Università di Bologna.
alizador do Palácio são nomes ligados nte com Manfredo numento a Vittorio
888, foi outra obra so o sentimento de O ministro italiano amental do edifício, va de
s de traços dos mais encanto e à elegância, essenciais atributos da
no início do Século XX. cias Humanas - PUCRS, fundamental do Palácio o arquiteto: CALDERINI, Giovanni Battista Milani, L, Biblioteca Digitale dell'
Portanto, as alu arquitetônico” oficial. É projeto, cita alguns arqu (1484-1559), Galeazzo Andréa Palladio (1508-1 uma edificação de taman da Justiça. Eu q Fon imp deco aust Reto [...], essa seja obse que Não obstante pos historicista em todo o te
172 Palavras de Gugliemo Ca
CALDERINI, Guglielmo. Le Battista Milani, 1916. Milão: digitale dell' Alma Mater Stu livre do autor deste trabalho.
usões ao Cinquecento eram recorre o próprio Guglielmo Calderini que, r uitetos italianos renascentistas – como
Alessi (1512-1572), Bartolomeo Amman 1580) – para respaldar as atitudes form nha importância de representação social,
queria [...] fazer puro e clássico o estilo do qual fo tana, e queria roubar destes grandes perso ressão e a força do claro-e-escuro, incluin orativo daqueles tempos para trazer de volta teridade das formas era orgulho e honra da ép omar, em síntese, as coisas de Alessi, de San assim como a inspiração das formas brancas p as expressões tentei acrescentar o que me parec a, a forte impressão das massas, que t
ervadores e que é tão característica, fornecen se insere na austeridade grandiosa do Palácio d ssa ser reconhecida a preponderância erritório peninsular, é fato, por outro la
alderini sobre a obra do Palácio da Justiça, em opere architettoniche di Guglielmo Calder Bestetti & Tumminelli, 1917, p.8. Consultada em udiorum, Centro Inter-Bibliotecario dell´Università
Figura 16 - Pa Roma, de Gu Fonte: CALDE opere architet Calderini (pref Giovanni Batis Bestetti & Tum
entes no “discurso referindo-se ao seu
Michele Sanmicheli nnati (1511-1592) e mais propostas para , como era o Palácio
oram criadores Bernini e onagens o segredo da ndo, porém, o acento os detalhes em que a poca, um Século antes. nmicheli, de Ammannati palladianas; mas a todas cia lhes faltar, a vida, ou tanto surpreende aos do a expressão correta da Justiça172.
de uma linguagem ado, a existência de m Roma, transcritas de: rini. Prefácio: Giovanni m: Alm@-DL, Biblioteca à di Bologna. Tradução alácio da Justiça, uglielmo Calderini. ERINI, Guglielmo. Le ttoniche di Guglielmo fácio, 1916, de sta Milani). Milão: mminelli, c.1917, p.14.
manifestações arquitetônicas disseminadas em distintas regiões que traziam indícios de uma “nova vitalidade”, conforme expressão de Benevolo173. Mesmo com uma realidade de descompasso em relação aos demais países europeus no desenvolvimento de linguagens novas, a cultura arquitetônica italiana apresentava, entretanto, atores que subvertiam esse cenário.