um fenómeno biológico ou social. 3. Fase de estabilidade de uma associação ou comunidade biológica, de acordo com condições ambientes prevalentes e estáveis. 4. E. Ling. Apresentação de uma sequência de ideias em andamento crescente ou decrescente. Ex.”Tão dura, tão áspera, tão injuriosa é a palavra não (P.e António Vieira, Sermões, II, p. 88), “entrava a girar em volta de mim, à espreita de um juízo, de uma palavra, de um gesto, que lhe aprovasse a recente produção (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, p. 138). [Sin.: gradação (ascendente no primeiro caso e descendente no segundo).] 5. E. Ling. Concatenação dos membros de um período de maneira que cada um comece pela última palavra do anterior; gradação. Ex.: O convívio gerou a amizade, a amizade intensificou‐se em amor, o amor exaltou‐se em loucura. [Opõe‐se a anticlímax] 6. Teatr. O instante decisivo da acção e da intensidade emocional de uma peça, no qual o suspense e a expectativa desfecham no esclarecimento ou definição dos factos dramáticos que o antecederam ou sucederão. 2) Espanhol Diccionario de la Lengua Española da Real Academia Española (“climax”, 2001, 570, vol. I)
Punto más alto o culminación de un proceso. 2. Gradación retórica ascendente. 3. Término más alto de esta gradación. 4. Momento culminante de un poema o de una acción dramática 5. Ecol. Estado óptimo de una comunidad biológica, dadas las condiciones del ambiente.
3) Francês
O termo “clímax” não se encontra costumeiramente nos dicionários de francês consultados130. Temos uma pequena referência no dicionário de 1877 de E. Littré (“climax”, 1970, 394): “terme de rhétorique. Synonyme inusité de gradation”. O Dictionnaire Quillet de la Langue Française (“climax”, 1975, sem pp., vol. I) apresenta uma definição do termo somente na sua acepção científica131, ressalvando o facto de este não constar no Dictionnaire de l’Académie. O Lexis Dictionnaire de la Langue Française (“climax”, 1975b, 341) regista o termo somente neste contexto científico132.
4) Italiano
Lo Zingarelli: vocabolario della lingua italiana (“climax”, Zingarelli 1999, 384)133
1 (ling.) Figura retórica che consiste nella gradazione ascendente per
intensità e forza di una serie di concetti e di vocaboli: per sdegno, per orgoglio, o per dispetto (BOIARDO). CFR. Anticlimax. 2 (biol) Stato di equilibrio
di una comunità di organismi vegetali o animali che resta stabile finché non si alterino in modo notevole le condizioni ambientali | (est.) La comunità stessa. 3 (med.) Acme 4 (biol.) Orgasmo. 5) Inglês Oxford English Dictionary (“climax”, 2009) I Properly. 1 Rhet. A figure in which a number of propositions or ideas are set forth so as to form a series in which each rises above the preceding in force or effectiveness of expression; gradation. 2 gen. An ascending series or scale. Obs. II Popularly. 3 The last or highest term of a rhetorical climax.
4.a. gen. The highest point of anything reached by gradual ascent; the
culmination, height, acme, apex. b. Ecology. The point in the ecological succession at which a plant‐community reaches a state of equilibrium with
130 A entrada não consta por exemplo no Le Petit Robert nem no Le Grand Larousse de la Langue
Française. 131 “Suite d’associations d’êtres vivants se suivant naturellement en un lieu donné. Plus précisément, la dernière association, stable”. 132 “Terme final évolutif d’une série progressive de formations végétales non troublée par l’intervention humaine”. 133 Nem todos os dicionários consultados atestam a forma.
its environment, able to reproduce itself indefinitely under existing conditions. Also attrib. c. Physiol. = orgasm n. 2. 134
6) Alemão
a) Wahrig Detusches Wörterbuch (“Klimax”, 1997, 737)135
Steigerung, Höhepunkt; Stilmittel der Steigerung. Übergang vom schwächeren zum stärkeren Ausdruck; Ggs. Antiklimax; das Endstadium einer durch Boden‐ u. Klimaverhältnisse bedingten Entwicklung der Planzenwelt; a. = Klimakterium b) Duden: Das grosse Wörterbuch der deutschen Sprache (“Klimax”, Drosdowski 1978, 1488) 1a.) Höhepunkt: unter Orgasmus versteht man die K. der sexuellen Lust; b) (Stilk.) Übergang vom schwächeren zum stärkeren Ausdruck, vom weniger zum Wichtigeren (Ggs.: Antiklimax). 2. (Med.) so viel wie Klimakterium
Algo avulta de imediato numa primeira leitura dos excertos transcritos, e igualmente após a consulta de vários dicionários: o passado retórico da palavra não é sempre registado, e, quando o é, é‐o de uma forma aparentemente equívoca para quem estudou o termo na época clássica. Retirando talvez a entrada de Aurélio e de Houaiss transcrita, que apresenta uma definição “clássica” do termo, refere‐se quase sempre que “clímax”, na retórica, se reporta à disposição de ideias de uma forma ascendente. Como já estudámos, o entendimento clássico e retórico do termo não classifica o clímax como uma figura de pensamento, mas como uma figura de “repetição de palavras”. Já quanto ao facto de o clímax ser obrigatoriamente ascendente, como os dicionários sugerem, tal também não pode ser lido em nenhum dos excertos transcritos neste capítulo. Há, quando muito, uma “sugestão de crescendo”, mas de forma nenhuma os autores clássicos consideravam obrigatório
134
Transcrevemos a entrada sem as citações do original.
haver um aumento de intensidade para que existisse um clímax. Então porque registam maioritariamente os dicionários modernos esta acepção no domínio da “Retórica”? Porque se especializaram no “clímax qualitativo”, tal como definido há pouco?
Para respondermos a esta pergunta, propomos estudar a datação e a definição do termo em diversos dicionários etimológicos das línguas citadas, procurando saber que espaço linguístico é responsável pela disseminação e pela evolução do termo. Este estudo é importante para a presente dissertação, pois só assim poderemos precisar que tipo de evolução etimológica a palavra κλῖμαξ teve, para chegarmos a uma definição com que possamos trabalhar a obra lírica de Horácio sob este prisma.
Começando pelo francês, já vimos que o termo se encontra raramente atestado nos léxicos consultados, e em quase nenhum dos dicionários etimológicos franceses compulsados (Clédat 1912; Dubois, Mitterand, e Dauzat 1993; Picoche 1992; cf. Rey et al. 2006)136. O termo parece ter uma importância marginal no espaço gaulês; o artigo da Encyclopédie de Diderot de facto faz referência ao termo, mas regista exclusivamente o seu sentido retórico “moderno”137. Não nos parece pois que a origem e a razão para o sucesso do “clímax” enquanto ferramenta de análise esteja nos autores ou na literatura crítica francesa.
Em relação ao italiano, o termo surge com bastante mais frequência, embora quase somente na sua acepção retórica de estruturação em crescendo, tal como o define o dicionário etimológico de Cortelazzo e Zolli: “crescendo graduale degli effetti stilistici o retorici in un discorso o in un componimento” (“climax”, Cortelazzo e Zolli 1979, 246, vol. I). Quanto à datação do termo, 1892 segundo o mesmo dicionário138, esta é bastante mais recente do que a do inglês ou mesmo do português, o que parece
136 A única fonte por nós consultada que refere o termo em francês é o dicionário online Le Trésor de la
Langue Française Informatisé que refere o seguinte: “1753 rhét. (Encyclop. t. 3); 1946 biogéographie (Forest.). Empr. au gr.κλι̃μαξ « échelle; p. anal., terme de rhét. : gradation ». Au sens biogéographique,
empr. à l'angl. climax « id. » (entre 1895 et 1910, F.E. Clements, savant amér. ds Encyclop. brit., s.v.
biology t. 3, p. 649c)” (“climax” in http://atilf.atilf.fr/). Note‐se que a primeira datação encontrada
corresponde precisamente à Encyclopédie.
137 “figure de Rhétorique par laquelle le discours s’elève ou descend comme par degrés” (Diderot 1753,
536, vol. 3).
138
Corroborado pelo Garzanti etimologico (“climax”, De Mauro e Mancini 2000, 414). O dicionário de Battisti refere que o termo surge já no século XX (“climax”, Battisti 1965, vol. II, 982).
indicar que o termo foi importado já na sua acepção “moderna”, e que portanto a evolução etimológica não ocorreu neste espaço linguístico. Nesta língua, segundo os dicionários consultados, o termo não evoluiu para o sinónimo de “ponto culminante”, o que parece testemunhar, em comparação com outras línguas, que o termo é pouco usado139.
Passando à nossa língua, a datação proposta pelo dicionário Houaiss é a de 1836140 (“clímax”, Houaiss 2001, 960, vol. I), data em que o termo surge pela primeira vez, não numa fonte textual comum, mas num léxico, nomeadamente no Novo diccionario critico e etymologico da lingua portugueza de Francisco Solano Constâncio (“climax”, Constâncio 1836). Vale a pena transcrever o que é dito neste dicionário: “CLIMAX, s. m. (Gr. κλῖμαξ klimax, degrao de escada), fig. de rhet., gradação de discurso ascendente, quando elle se eleva; descendente, quando baixa” (Constâncio 1836, 266). Esta entrada de dicionário parece indiciar que quando o termo surge em português, no século XIX, já tem a acepção retórica “moderna”, ou seja, não faz referência ao clássico uso retórico do termo, transpondo a figura para o domínio lato do “discurso” e não da organização prescritiva do período, tal como entendido pelos autores clássicos e cristãos aqui estudados. A expressão de um discurso “ascendente” e “descendente” indica igualmente que o primeiro entendimento dado ao termo em português vai buscar a κλῖμαξ fundamentalmente na matiz estudada de “clímax qualitativo”, sendo de todo omisso a noção de clímax enquanto “elo causal”. Não se partindo pois, em português, da noção clássica de “clímax”, e dado o facto de o termo ter entrado na língua numa fase posterior em relação ao inglês, por exemplo, torna‐se forçoso admitir que a “fortuna moderna” do termo não teve origem na nossa língua.
139 Repare‐se que na bibliografia italiana consultada acerca de Horácio, o termo é invariavelmente
apresentado em itálico, o que parece indiciar que os autores o vêem como um vocábulo estranho à sua língua. Muitos desses passos serão aliás discutidos na nossa análise às odes.
140 O Dicionário Etimológico Nova Fronteira (“clímax”, Cunha 1986, 189) sugere, sem precisar a fonte, a
data de 1844. Já quanto à datação de José Pedro Machado (“clímax”, Machado 1967, 639, vol. I), este sugere 1873, baseando‐se na entrada lexical do Grande Dicionário Português ou Tesouro da Língua
Portuguesa do Frei Domingos Vieira; no entanto, este é bastante mais recente (1873) do que o de
Francisco Solano Constâncio (1836). Machado refere também que o vocábulo entrou no português por via do francês, afirmação que, no entanto, não é justificada, nem provavelmente justificável, se tivermos em conta o que dissemos acerca deste termo em francês.
Quanto ao espanhol, algo semelhante pode ser dito. Nem o Tesoro de la lengua castellana o española (1639) de Covarrubias refere o termo (Covarrubias Horozco 2006, ed. facsímile), nem o Diccionario de autoridades de 1726‐37 (Real Academia Española 1990, ed. fácsimile); o Diccionario crítico etimológico castellano e hispânico de Corominas (“clímax”, Corominas 1980, 101, vol. II) refere como primeira fonte textual os escritos de Gomez Hermosilla (1771‐1837), helenista e crítico literário espanhol, sem no entanto precisar em qual deles ocorre o termo pela primeira vez. Após alguma investigação sobre o assunto, acabámos por encontrar uma extensa definição e estudo sobre o termo na Arte de hablar en prosa y verso de 1826 (Gomez Hermosilla 1826, I:100‐102), cujo autor será, segundo Corominas, o responsável pela introdução do termo na língua castelhana. Hermosilla começa por definir “gradacion ó clímax” da seguinte forma: “consiste en presentar una série de ideas en una progresion tan constante de mas á menos ó de menos á mas, que cada una de ellas diga siempre algo mas ó algo menos que la precedente, segun sea la gradation” (p. 100). Neste entendimento de clímax, mais uma vez, não está presente o sentido original clássico; interessantemente, o primeiro exemplo que Hermosilla cita, nihil agis, nihil moliris, nihil cogitas, quod non ego non modo audiam, sed etiam uideam planeque sentiam (Cícero, In Catilinam, I. 8), é o mesmo dado pela Encyclopédie, de que já falámos. Este exemplo, segundo a retórica clássica, não seria classificado como um clímax, mas sim como anáfora, pelo que o uso que Hermosilla lhe dá sugere que o autor já não está familiarizado com a sua acepção primeva, sendo pois fruto de uma tradição textual de que, seguramente, e até pelos argumentos que apresentaremos de seguida, o autor castelhano não é o fundador. Aliás, Hermosilla é claro em considerar que para existir um clímax é obrigatório haver um crescendo ou decrescendo, rejeitando mesmo o lado causa‐efeito que a figura comporta na antiguidade, relacionado com a chamada concatenação141.
Em relação ao alemão, os dicionários consultados (Drosdowski 2001; Kluge 1989; Pfeifer 1993) apontam para uma mesma conclusão: não foi este o espaço
141 “Tambien debe adverstise que no se ha de confundir la gradacion en los pensamientos com la
concatenacion de las frases, de que se hablará en outro lugar, y que algunos llaman tambien, aunque
impropriamente, gradacion ó climax. Siempre que hay concatenation en las palabras, hay tambien gradacion en las ideas, pero no al contrario” (p. 102).
linguístico em que ocorreu a evolução etimológica estudada. A prová‐lo temos o facto de o termo ter entrado na língua no princípio do século XVIII142 (“klimax”, Pfeifer 1993, 669), e já com a exclusiva acepção de crescendo na expressão (“Steigerung im Ausdruck, Aufeinanderfolge sinnverwandter Ausdrücke mit zunehmendem Nachdruck”). Tal como no português e castelhano, o termo também tem a acepção de “ponto culminante” (Höhepunkt), que o dicionário de Pfeifer data já do século XX. Para descobrirmos a verdadeira origem deste significado retórico moderno, teremos de partir de uma pista que o dicionário etimológico de António Cunha (“clímax”, Cunha 1986, 189) nos oferece, quando diz que a acepção de “ponto culminante” ou “grau máximo ou óptimo” se deve à influência do inglês climax143. De facto, analisando vários dicionários etimológicos ingleses (Barnhart 1988; Klein 1966; Macdonald 1972; Onions 1966; The Oxford English Dictionary 2009), chegamos facilmente à conclusão de que no inglês o termo clímax surge bem primeiro do que em qualquer outra língua europeia, o que parece indiciar que esteve nesta língua a origem da evolução etimológica da palavra: quer o Oxford English Dictionary quer o The Barnhart Concise Dictionary of Etymology apontam para o ano de 1589 como a data do primeiro uso do termo em inglês, na obra The Arte of English Poesie de G. Puttenham, um tratado bastante influente na história da literatura crítica inglesa. Neste tratado, a definição dada por Puttenham é bastante próxima do entendimento clássico, como se pode ler: “Clymax, or the marching figure: Ye have a figure which as well by his Greeke and Latine originals, and also by allusion to the maner of a mans gate or going may be called the marching figure, for after the first steppe all the rest proceede by double the space, and so in our speach one word proceedes double to the first that was spoken, and goeth as it were by strides or paces, it may aswell be called the clyming figure, for 142 Bem mais cedo do que em português, castelhano ou italiano; isto deve estar relacionado com a maior
proximidade com a cultura anglística, que, como veremos de seguida, poderá estar na origem desta evolução. No entanto, o dicionário de Pfeifer, o único a apresentar uma datação, não especifica a fonte documental consultada, pelo que é difícil entender ao certo em que contexto o termo surgiu em alemão; deve ter sido provavelmente no domínio da literatura retórica, muita dela escrita em latim, do Norte da Europa, analisada de seguida.
143 Ponto de vista corroborado pelo Lexique de La Terminologie Linguistique de J. Marouzeau: “climax:
terme emprunté aux grammairiens grecs, (…) employé particulièrement par les grammairiens anglais, pour désigner la gradacion ascendante” (“climax”, Marouzeau 1969, 50). Cf. igualmente Morier (“climax”, 1981, 196).
Clymax is as much to say as a ladder ” (ed. de Willcock e Walker 1936, 207 e ss.), e ainda mais nos exemplos propostos, como o de Jean de Meung: “Peace makes plenty, plenty makes pride, Pride breeds quarrel, and quarrel brings war, War brings spoil, and spoil poverty, Poverty patience, and patience peace: So peace brings war, and war brings peace.”
Este é um exemplo em tudo semelhante aos apresentados pelos autores clássicos, o que revela, da parte de Puttenham, um conhecimento e uma transposição avaliada do termo retórico latino e grego. No Renascimento aliás, tal como ressalvam Kirby e Poster (1998, 1111‐3), as inúmeras definições dadas, fundamentalmente britânicas, não se afastam demasiado da sua matriz clássica144, atestando esta dupla face do clímax, como processo de concatenação ou de crescendo. No entanto, há que admitir, nas definições dadas por grande parte destes autores, que a ênfase é muitas
144 Além de Puttenham; cf. Thomas Wilson, The Art of Rhetoric (1553): “Gradation, is when we rehearse
the word that goeth next before, and bring an other word thereupon that encreaseth the matter, as though one should go up a paire of stayres and not leaue till he come at the top. Or thus. Gradation is when a sentence is disseuered by degrees, so that the word which endeth the sentence going before doeth begin the next” (ed. Mair 2008, 168); A. Fraunce, Arcandian Rhetorike (1588) “reduplication conti‐ nued by diuers degrees and steps, as it were, of the same word or sound, for these two be of one kind” (Fraunce 1950, 38); H. Peacham, The Garden of Eloquence (1577): “climax is a figure which so distinguisheth the oration by degrees, that the word which endeth the clause going before, beginneth ye next following […] This exornation hath much pleasantnesse, and is chiefly applied for the augmenation of matters, it consisteth often times of fower [i.e. four] degrees, but commonly of three [...] In using this figure we ought to observe a meane, that there be not too many degrees and also to foresee that the degrees following, may rather increase then [sic] diminish in signification and lastly, that they so ascend that they may end with a clause of importance” (ed. Crane 1954, q.iii ed. facsímile); A. Day, The English Secretary (1599) “when each member in a sentence ariseth from the afore going, beginning with that which endeth the former” (ed. Evans 1967, sem n.); J. Susenbrotus, Epitome
troporum ac schematum (1541) κλῖμαξ, est quum consequentia membra, ab iisdem ordiriuntur uerbis, casu plerunque mutatis, quibus antecedentia clauduntur. Vel est, quoties ita per gradus oratio distinguitur, ut dictio finiens particulam pracedente, inchoet frequentem (…) Habet hoc schema multu leporis, uenustatis ac iucunditatis: facit ad acrimonia quoque, si per correctionem aut amplificationem fit. Per correctionem illud est Ciceronis: Hic tamen uiuit, uiuit? imo etiam in Senatum uenit. Per amplificationem sic: occidisti amicum, amicum, inquam, occidisti, et occidisti non ferro, sed ueneno, ueneno autem omnium praesentissimo linguae, linguae tartareo ueneno intinctae. Vsus illius etiam est haud inuenustus, quando res gradus habet, uelut in genealogiis recensendis, aut in ferie magistratum sibi succendentium. Exemplum est apud Homerum non inelegans de Sceptro, quod a Ioue ad Agamemnonem usque deducit (Susenbrotus 1551, 83‐84 ed. Lyon). Temos ainda a definição de P.
Melanchthon, Institutiones Rhetorices (1523): cum per gradus itur ab aliis ad alia, ita ut semper
proximum uerbum repetatur (ed. Wels 2001, 264), à qual podemos acrescentar (cf. “Silva Rhetoricae”,
Burton 2010), R. Sherry, A Treatise of Schemes and Tropes (1550), “gradacio, in, when we rehearse again the word that goth next before, and descend to other things by degrees” (Sherry 1961, 58, ed. facsímile).
vezes posta na qualidade do clímax, i.e., no facto de este ascender de um ponto a outro, algo notório no uso de verbos e de substantivos ligados à área semântica de “crescer” ou “crescendo” (encreaseth, clyming figure, augmenation, increase, ascend, ariseth), ideia que tem, como já estudámos, igualmente uma matriz clássica.
A partir do século XVI, e até ao séc. XVIII, o termo na sua acepção retórica vai progressivamente evoluir para uma figura em que claramente existe um abandono do clímax visto como repetição de palavras, em prol de uma visão do clímax como um meio de descrever uma figura de pensamento em que as frases se vão organizando de forma crescente. Será provavelmente a literatura crítica inglesa a responsável por esta evolução, à qual não foram contudo alheios tratados como os do holandês Gerardus Vossius (Gerrit Janszoon Vos, 1577‐1649), Commentariorum Rhetoricorum siue oratoriarum institutionum (Vossius 1606, V. 38 = Τ. II, p. 294‐298)145 e o do alemão Bartholomäus Keckermann (1572‐1609), Systema rhetoricae146 (Keckermann 1608, II. 14 = pp. 209‐213), que se dedicaram ao estudo da figura “clímax”, e que no fundo acabam por levar mais longe uma tendência já estudada nos autores da Patrística que se debruçaram sobre o tema.
As páginas que Vossius dedica ao tema são, como observam Kirby e Poster, uma das mais profusas discussões acerca do clímax, com exemplos vários de autores clássicos e cristãos. Se atentarmos nestas, facilmente observamos que o primeiro entendimento que Vossius faz de “clímax” é o clássico, ou seja, um período em que o fim de um membro inicia o seguinte: κλῖμαξ uerbo eodem inferiora connectit superioribus: unde definitur ἐπαναφορὰ πλεονάζουσα; além dos exemplos que a tradição já consagrara, cuja fonte parece ser Quintiliano e a Retórica a Herénio (o autor
145 Para uma datação das edições cf. Rademaker (1999, 273). 146
Para a importância destes dois autores no espaço retórico britânico setecentista, cf. Conley, “in terms