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um  fenómeno  biológico  ou  social.  3.  Fase  de  estabilidade  de  uma  associação ou comunidade biológica, de acordo com condições ambientes  prevalentes e estáveis. 4. E. Ling. Apresentação de uma sequência de ideias  em  andamento  crescente  ou  decrescente.  Ex.”Tão  dura,  tão  áspera,  tão  injuriosa é a palavra não (P.e António Vieira, Sermões, II, p. 88), “entrava a  girar  em  volta  de  mim,  à  espreita  de  um  juízo,  de  uma  palavra,  de  um  gesto, que lhe aprovasse a recente produção (Machado de Assis, Memórias  Póstumas de Brás Cubas, p. 138). [Sin.: gradação (ascendente no primeiro  caso  e  descendente  no  segundo).]  5.  E.  Ling.  Concatenação  dos  membros  de  um  período  de  maneira  que  cada  um  comece  pela  última  palavra  do  anterior;  gradação.  Ex.:  O  convívio  gerou  a  amizade,  a  amizade  intensificou‐se  em  amor,  o  amor  exaltou‐se  em  loucura.  [Opõe‐se  a  anticlímax]  6.  Teatr.  O  instante  decisivo  da  acção  e  da  intensidade  emocional de uma peça, no qual o suspense e a expectativa desfecham no  esclarecimento ou definição dos factos dramáticos que o antecederam ou  sucederão.    2) Espanhol  Diccionario de la Lengua Española da Real Academia Española (“climax”, 2001,  570, vol. I) 

Punto  más  alto  o  culminación  de  un  proceso.  2.  Gradación  retórica  ascendente.  3.  Término  más  alto  de  esta  gradación.  4.  Momento  culminante de un poema o de una acción dramática 5. Ecol. Estado óptimo  de una comunidad biológica, dadas las condiciones del ambiente. 

  3) Francês 

  O termo “clímax” não se encontra costumeiramente nos dicionários de  francês  consultados130.  Temos  uma  pequena  referência  no  dicionário  de  1877  de  E.  Littré  (“climax”,  1970,  394):  “terme  de  rhétorique.  Synonyme  inusité  de  gradation”.  O  Dictionnaire  Quillet  de  la  Langue  Française  (“climax”,  1975,  sem  pp.,  vol.  I)  apresenta  uma  definição  do  termo  somente  na  sua  acepção  científica131,  ressalvando  o  facto  de  este  não  constar  no  Dictionnaire  de  l’Académie.  O  Lexis  Dictionnaire  de  la  Langue  Française  (“climax”,  1975b,  341)  regista  o  termo  somente  neste  contexto  científico132

  4) Italiano 

Lo Zingarelli: vocabolario della lingua italiana (“climax”, Zingarelli 1999, 384)133 

1  (ling.)  Figura  retórica  che  consiste  nella  gradazione  ascendente  per 

intensità  e  forza  di  una  serie  di  concetti  e  di  vocaboli:  per  sdegno,  per  orgoglio, o per dispetto (BOIARDO). CFR. Anticlimax. 2 (biol) Stato di equilibrio 

di una comunità di organismi vegetali o animali che resta stabile finché non  si  alterino  in  modo  notevole  le  condizioni  ambientali  |  (est.)  La  comunità  stessa. 3 (med.) Acme 4 (biol.) Orgasmo.    5) Inglês  Oxford English Dictionary (“climax”, 2009)  I Properly. 1 Rhet. A figure in which a number of propositions or ideas are  set forth so as to form a series in which each rises above the preceding in  force or effectiveness of expression; gradation.  2 gen. An ascending series  or scale. Obs. II Popularly. 3 The last or highest term of a rhetorical climax. 

4.a.  gen.  The  highest  point  of  anything  reached  by  gradual  ascent;  the 

culmination,  height,  acme,  apex.  b.  Ecology.  The  point  in  the  ecological  succession at which a plant‐community reaches a state of equilibrium with         

130  A  entrada  não  consta  por  exemplo  no  Le  Petit  Robert  nem  no  Le  Grand  Larousse  de  la  Langue 

Française.  131 “Suite d’associations d’êtres vivants se suivant naturellement en un lieu donné. Plus précisément, la  dernière association, stable”.   132  “Terme final évolutif d’une série progressive de formations végétales non troublée par l’intervention  humaine”.  133 Nem todos os dicionários consultados atestam a forma. 

 

its  environment,  able  to  reproduce  itself  indefinitely  under  existing  conditions. Also attrib. c. Physiol. = orgasm n. 2. 134 

 

  6) Alemão 

a) Wahrig Detusches Wörterbuch (“Klimax”, 1997, 737)135 

Steigerung,  Höhepunkt;  Stilmittel  der  Steigerung.  Übergang  vom  schwächeren  zum  stärkeren  Ausdruck;  Ggs.  Antiklimax;  das  Endstadium  einer  durch  Boden‐  u.  Klimaverhältnisse  bedingten  Entwicklung  der  Planzenwelt; a. = Klimakterium      b) Duden: Das grosse Wörterbuch der deutschen Sprache (“Klimax”, Drosdowski  1978, 1488)  1a.) Höhepunkt: unter Orgasmus versteht man die K. der sexuellen Lust; b)  (Stilk.) Übergang vom schwächeren zum stärkeren Ausdruck, vom weniger  zum Wichtigeren (Ggs.: Antiklimax). 2. (Med.) so viel wie Klimakterium     

  Algo  avulta  de  imediato  numa  primeira  leitura  dos  excertos  transcritos,  e  igualmente após a consulta de vários dicionários: o passado retórico da palavra não é  sempre  registado,  e,  quando  o  é,  é‐o  de  uma  forma  aparentemente  equívoca  para  quem estudou o termo na época clássica. Retirando talvez a entrada de Aurélio e de  Houaiss transcrita, que apresenta uma definição “clássica” do termo, refere‐se quase  sempre  que  “clímax”,  na  retórica,  se  reporta  à  disposição  de  ideias  de  uma  forma  ascendente.  Como  já  estudámos,  o  entendimento  clássico  e  retórico  do  termo  não  classifica  o  clímax  como  uma  figura  de  pensamento,  mas  como  uma  figura  de  “repetição  de  palavras”.  Já  quanto  ao  facto  de  o  clímax  ser  obrigatoriamente  ascendente, como os dicionários sugerem, tal também não pode ser lido em nenhum  dos  excertos  transcritos  neste  capítulo.  Há,  quando  muito,  uma  “sugestão  de  crescendo”,  mas  de  forma  nenhuma  os  autores  clássicos  consideravam  obrigatório         

134

 Transcrevemos a entrada sem as citações do original. 

haver  um  aumento  de  intensidade  para  que  existisse  um  clímax.  Então  porque  registam  maioritariamente  os  dicionários  modernos  esta  acepção  no  domínio  da  “Retórica”?  Porque  se  especializaram  no  “clímax  qualitativo”,  tal  como  definido  há  pouco? 

  Para respondermos a esta pergunta, propomos estudar a datação e a definição  do termo em diversos dicionários etimológicos das línguas citadas, procurando saber  que espaço linguístico é responsável pela disseminação e pela evolução do termo. Este  estudo  é  importante  para  a  presente  dissertação,  pois  só  assim  poderemos  precisar  que  tipo  de  evolução  etimológica  a  palavra  κλῖμαξ  teve,  para  chegarmos  a  uma  definição com que possamos trabalhar a obra lírica de Horácio sob este prisma. 

  Começando pelo francês, já vimos que o termo se encontra raramente atestado  nos  léxicos  consultados,  e  em  quase  nenhum  dos  dicionários  etimológicos  franceses  compulsados (Clédat 1912; Dubois, Mitterand, e Dauzat 1993; Picoche 1992; cf. Rey et  al. 2006)136. O termo parece ter uma importância marginal no espaço gaulês; o artigo  da  Encyclopédie  de  Diderot  de  facto  faz  referência  ao  termo,  mas  regista  exclusivamente o seu sentido retórico “moderno”137. Não nos parece pois que a origem  e  a  razão  para  o  sucesso  do  “clímax”  enquanto  ferramenta  de  análise  esteja  nos  autores ou na literatura crítica francesa. 

  Em  relação  ao  italiano,  o  termo  surge  com  bastante  mais  frequência,  embora  quase  somente  na  sua  acepção  retórica  de  estruturação  em  crescendo,  tal  como  o  define o dicionário etimológico de Cortelazzo e Zolli: “crescendo graduale degli effetti  stilistici  o  retorici  in  un  discorso  o  in  un  componimento”  (“climax”,  Cortelazzo  e  Zolli  1979,  246,  vol.  I).  Quanto  à  datação  do  termo,  1892  segundo  o  mesmo  dicionário138 esta é bastante mais recente do que a do inglês ou mesmo do português, o que parece         

136 A única fonte por nós consultada que refere o termo em francês é o dicionário online Le Trésor de la 

Langue  Française  Informatisé  que  refere  o  seguinte:  “1753  rhét.  (Encyclop.  t.  3);  1946  biogéographie  (Forest.). Empr. au gr.κλι̃μαξ « échelle; p. anal., terme de rhét. : gradation ». Au sens biogéographique, 

empr.  à  l'angl.  climax  «  id.  »  (entre  1895  et  1910,  F.E.  Clements,  savant  amér.  ds  Encyclop.  brit.,  s.v. 

biology  t.  3,  p.  649c)”  (“climax”  in  http://atilf.atilf.fr/).  Note‐se  que  a  primeira  datação  encontrada 

corresponde precisamente à Encyclopédie. 

137 “figure de Rhétorique par laquelle le discours s’elève ou descend comme par degrés” (Diderot 1753, 

536, vol. 3). 

138

  Corroborado pelo  Garzanti etimologico  (“climax”,  De Mauro  e  Mancini  2000, 414). O  dicionário  de  Battisti refere que o termo surge já no século XX (“climax”, Battisti 1965, vol. II, 982). 

 

indicar  que  o  termo  foi  importado  já  na  sua  acepção  “moderna”,  e  que  portanto  a  evolução  etimológica  não  ocorreu  neste  espaço  linguístico.  Nesta  língua,  segundo  os  dicionários consultados, o termo não evoluiu para o sinónimo de “ponto culminante”,  o que parece testemunhar, em comparação com outras línguas, que o termo é pouco  usado139. 

  Passando  à  nossa  língua,  a  datação  proposta  pelo  dicionário  Houaiss  é  a  de  1836140 (“clímax”, Houaiss 2001, 960, vol. I), data em que o termo surge pela primeira  vez,  não  numa  fonte  textual  comum,  mas  num  léxico,  nomeadamente  no  Novo  diccionario critico e etymologico da lingua portugueza de Francisco Solano Constâncio  (“climax”,  Constâncio  1836).  Vale  a  pena  transcrever  o  que  é  dito  neste  dicionário:  “CLIMAX,  s.  m.  (Gr.  κλῖμαξ  klimax,  degrao  de  escada),  fig.  de  rhet.,  gradação  de  discurso  ascendente,  quando  elle  se  eleva;  descendente,  quando  baixa”  (Constâncio  1836, 266). Esta entrada de dicionário parece indiciar que quando o termo surge em  português,  no  século  XIX,  já  tem  a  acepção  retórica  “moderna”,  ou  seja,  não  faz  referência ao clássico uso retórico do termo, transpondo a figura para o domínio lato  do “discurso” e não da organização prescritiva do período, tal como entendido pelos  autores clássicos e cristãos aqui estudados. A expressão de um discurso “ascendente”  e “descendente” indica igualmente que o primeiro entendimento dado ao termo em  português  vai  buscar  a  κλῖμαξ  fundamentalmente  na  matiz  estudada  de  “clímax  qualitativo”, sendo de todo omisso  a noção de clímax enquanto “elo causal”. Não se  partindo pois, em português, da noção clássica de “clímax”, e dado o facto de o termo  ter entrado na língua numa fase posterior em relação ao inglês, por exemplo, torna‐se  forçoso admitir que a “fortuna moderna” do termo não teve origem na nossa língua. 

       

139  Repare‐se  que  na  bibliografia  italiana  consultada  acerca  de  Horácio,  o  termo  é  invariavelmente 

apresentado em itálico, o que parece indiciar que os autores o vêem como um vocábulo estranho à sua  língua. Muitos desses passos serão aliás discutidos na nossa análise às odes. 

140 O Dicionário Etimológico Nova Fronteira (“clímax”, Cunha 1986, 189) sugere, sem precisar a fonte, a 

data de 1844. Já quanto à datação de José Pedro Machado (“clímax”, Machado 1967, 639, vol. I), este  sugere  1873,  baseando‐se  na  entrada  lexical  do  Grande  Dicionário  Português  ou  Tesouro  da  Língua 

Portuguesa  do  Frei  Domingos  Vieira;  no  entanto,  este  é  bastante  mais  recente  (1873)  do  que  o  de 

Francisco Solano Constâncio (1836). Machado refere também que o vocábulo entrou no português por  via do francês, afirmação que, no entanto, não é justificada, nem provavelmente justificável, se tivermos  em conta o que dissemos acerca deste termo em francês.  

  Quanto ao espanhol, algo semelhante pode ser dito. Nem o Tesoro de la lengua  castellana  o  española  (1639)  de  Covarrubias  refere  o  termo  (Covarrubias  Horozco  2006,  ed.  facsímile),  nem  o  Diccionario  de  autoridades  de  1726‐37  (Real  Academia  Española  1990,  ed.  fácsimile);  o  Diccionario  crítico  etimológico  castellano  e  hispânico  de  Corominas  (“clímax”,  Corominas  1980,  101,  vol.  II)  refere  como  primeira  fonte  textual  os  escritos  de  Gomez  Hermosilla  (1771‐1837),  helenista  e  crítico  literário  espanhol,  sem  no  entanto  precisar  em  qual  deles  ocorre  o  termo  pela  primeira  vez.  Após  alguma  investigação  sobre  o  assunto,  acabámos  por  encontrar  uma  extensa  definição e estudo sobre o termo na Arte de hablar en prosa y verso de 1826 (Gomez  Hermosilla 1826,  I:100‐102),  cujo  autor  será,  segundo  Corominas,  o  responsável  pela  introdução do termo na língua castelhana. Hermosilla começa por definir “gradacion ó  clímax”  da  seguinte  forma:  “consiste  en  presentar  una  série  de  ideas  en  una  progresion tan constante de mas á menos ó de menos á mas, que cada una de ellas  diga  siempre  algo  mas  ó  algo  menos  que  la  precedente,  segun  sea  la  gradation”  (p.  100).  Neste  entendimento  de  clímax,  mais  uma  vez,  não  está  presente  o  sentido  original clássico; interessantemente, o primeiro exemplo que Hermosilla cita, nihil agis,  nihil moliris, nihil cogitas, quod non ego non modo audiam, sed etiam uideam planeque  sentiam  (Cícero,  In  Catilinam,  I.  8),  é  o  mesmo  dado  pela  Encyclopédie,  de  que  já  falámos.  Este  exemplo,  segundo  a  retórica  clássica,  não  seria  classificado  como  um  clímax,  mas  sim  como  anáfora,  pelo  que  o  uso  que  Hermosilla  lhe  dá  sugere  que  o  autor já não está familiarizado com a sua acepção primeva, sendo pois fruto de uma  tradição textual de que, seguramente, e até pelos argumentos que apresentaremos de  seguida, o autor castelhano não é o fundador. Aliás, Hermosilla é claro em considerar  que  para  existir  um  clímax  é  obrigatório  haver  um  crescendo  ou  decrescendo,  rejeitando  mesmo  o  lado  causa‐efeito  que  a  figura  comporta  na  antiguidade,  relacionado com a chamada concatenação141

  Em  relação  ao  alemão,  os  dicionários  consultados  (Drosdowski  2001;  Kluge  1989;  Pfeifer  1993)  apontam  para  uma  mesma  conclusão:  não  foi  este  o  espaço         

141  “Tambien  debe  adverstise  que  no  se  ha  de  confundir  la  gradacion  en  los  pensamientos  com  la 

concatenacion de las frases, de que se hablará en outro lugar, y que algunos llaman tambien, aunque 

impropriamente,  gradacion  ó  climax.  Siempre  que  hay  concatenation  en  las  palabras,  hay  tambien  gradacion en las ideas, pero no al contrario” (p. 102). 

 

linguístico em que ocorreu a evolução etimológica estudada. A prová‐lo temos o facto  de o termo ter entrado na língua no princípio do século XVIII142 (“klimax”, Pfeifer 1993,  669),  e  já  com  a  exclusiva  acepção  de  crescendo  na  expressão  (“Steigerung  im  Ausdruck,  Aufeinanderfolge  sinnverwandter  Ausdrücke  mit  zunehmendem  Nachdruck”). Tal como no português e castelhano, o termo também tem a acepção de  “ponto culminante” (Höhepunkt), que o dicionário de Pfeifer data já do século XX.    Para  descobrirmos  a  verdadeira  origem  deste  significado  retórico  moderno,  teremos  de  partir  de  uma  pista  que  o  dicionário  etimológico  de  António  Cunha  (“clímax”,  Cunha  1986,  189)  nos  oferece,  quando  diz  que  a  acepção  de  “ponto  culminante” ou “grau máximo ou óptimo” se deve à influência do inglês climax143. De  facto,  analisando  vários  dicionários  etimológicos  ingleses  (Barnhart  1988;  Klein  1966;  Macdonald  1972;  Onions  1966;  The  Oxford  English  Dictionary  2009),  chegamos  facilmente à conclusão de que no inglês o termo clímax surge bem primeiro do que em  qualquer outra língua europeia, o que parece indiciar que esteve nesta língua a origem  da  evolução  etimológica  da  palavra:  quer  o  Oxford  English  Dictionary  quer  o  The  Barnhart Concise Dictionary of Etymology apontam para o ano de 1589 como a data do  primeiro uso do termo em inglês, na obra The Arte of English Poesie de G. Puttenham,  um tratado bastante influente na história da literatura crítica inglesa. Neste tratado, a  definição dada por Puttenham é bastante próxima do entendimento clássico, como se  pode ler: “Clymax, or the marching figure: Ye have a figure which as well by his Greeke  and Latine originals, and also by allusion to the maner of a mans gate or going may be  called the marching figure, for after the first steppe all the rest proceede by double the  space, and so in our speach one word proceedes double to the first that was spoken,  and goeth as it were by strides or paces, it may aswell be called the clyming figure, for          142 Bem mais cedo do que em português, castelhano ou italiano; isto deve estar relacionado com a maior 

proximidade  com  a  cultura  anglística,  que,  como  veremos  de  seguida,  poderá  estar  na  origem  desta  evolução. No entanto, o dicionário de Pfeifer, o único a apresentar uma datação, não especifica a fonte  documental  consultada,  pelo  que  é  difícil  entender  ao  certo  em  que  contexto  o  termo  surgiu  em  alemão; deve ter sido provavelmente no domínio da literatura retórica, muita dela escrita em latim, do  Norte da Europa, analisada de seguida. 

143 Ponto de vista corroborado pelo Lexique de La Terminologie Linguistique de J. Marouzeau: “climax: 

terme  emprunté  aux  grammairiens  grecs,  (…)  employé  particulièrement  par  les  grammairiens  anglais,  pour  désigner  la  gradacion  ascendante”  (“climax”,  Marouzeau  1969,  50).  Cf.  igualmente  Morier  (“climax”, 1981, 196). 

Clymax  is  as  much  to  say  as  a  ladder  ”  (ed.  de  Willcock  e  Walker  1936,  207  e  ss.),  e  ainda mais nos exemplos propostos, como o de Jean de Meung:    “Peace makes plenty, plenty makes pride,    Pride breeds quarrel, and quarrel brings war,    War brings spoil, and spoil poverty,    Poverty patience, and patience peace:    So peace brings war, and war brings peace.”  

  Este  é  um  exemplo  em  tudo  semelhante  aos  apresentados  pelos  autores  clássicos, o que revela, da parte de Puttenham, um conhecimento e uma transposição  avaliada do termo retórico latino e grego. No Renascimento aliás, tal como ressalvam  Kirby  e  Poster  (1998,  1111‐3),  as  inúmeras  definições  dadas,  fundamentalmente  britânicas,  não  se  afastam  demasiado  da  sua  matriz  clássica144,  atestando  esta  dupla  face do clímax, como processo de concatenação ou de crescendo. No entanto, há que  admitir, nas definições dadas por grande parte destes autores, que a ênfase é muitas         

144 Além de Puttenham; cf. Thomas Wilson, The Art of Rhetoric (1553): “Gradation, is when we rehearse 

the  word  that  goeth  next  before,  and  bring  an  other  word  thereupon  that  encreaseth  the  matter,  as  though one should go up a paire of stayres and not leaue till he come at the top. Or thus. Gradation is  when a sentence is disseuered by degrees, so that the word which endeth the sentence going before  doeth begin the next” (ed. Mair 2008, 168); A. Fraunce, Arcandian Rhetorike (1588) “reduplication conti‐ nued by diuers degrees and steps, as it were, of the same word or sound, for these two be of one kind”  (Fraunce  1950,  38);  H.  Peacham,  The  Garden  of  Eloquence  (1577):  “climax  is  a  figure  which  so  distinguisheth the oration by degrees, that the word which endeth the clause going before, beginneth  ye  next  following  […]  This  exornation  hath  much  pleasantnesse,  and  is  chiefly  applied  for  the  augmenation of matters, it consisteth often times of fower [i.e. four] degrees, but commonly of three  [...] In using this figure we ought to observe a meane, that there be not too many degrees and also to  foresee  that  the  degrees  following,  may  rather  increase  then  [sic]  diminish  in  signification  and  lastly,  that they so ascend that they may end with a clause of importance” (ed. Crane 1954, q.iii ed. facsímile);  A.  Day,  The  English  Secretary  (1599)  “when  each  member  in  a  sentence  ariseth  from  the  afore  going,  beginning  with  that  which  endeth  the  former”  (ed.  Evans  1967,  sem  n.);  J.  Susenbrotus,  Epitome 

troporum ac schematum (1541) κλῖμαξ, est quum consequentia membra, ab iisdem ordiriuntur uerbis,  casu  plerunque  mutatis,  quibus  antecedentia  clauduntur.  Vel  est,  quoties  ita  per  gradus  oratio  distinguitur,  ut  dictio  finiens  particulam  pracedente,  inchoet  frequentem  (…)  Habet  hoc  schema  multu  leporis, uenustatis  ac  iucunditatis:  facit  ad acrimonia  quoque,  si  per  correctionem aut amplificationem  fit.  Per  correctionem  illud  est  Ciceronis:  Hic  tamen  uiuit,  uiuit?  imo  etiam  in  Senatum  uenit.  Per  amplificationem  sic:  occidisti  amicum,  amicum,  inquam,  occidisti,  et  occidisti  non  ferro,  sed  ueneno,  ueneno autem omnium praesentissimo linguae, linguae tartareo ueneno intinctae. Vsus illius etiam est  haud  inuenustus,  quando  res  gradus  habet,  uelut  in  genealogiis  recensendis,  aut  in  ferie  magistratum  sibi  succendentium.  Exemplum  est  apud  Homerum  non  inelegans  de  Sceptro,  quod  a  Ioue  ad  Agamemnonem  usque  deducit  (Susenbrotus  1551,  83‐84  ed.  Lyon).  Temos  ainda  a  definição  de  P. 

Melanchthon,  Institutiones  Rhetorices  (1523):  cum  per  gradus  itur  ab  aliis  ad  alia,  ita  ut  semper 

proximum uerbum repetatur (ed. Wels 2001, 264), à qual podemos acrescentar (cf. “Silva Rhetoricae”, 

Burton 2010), R. Sherry, A Treatise of Schemes and Tropes (1550), “gradacio, in, when we rehearse again  the  word  that  goth  next  before,  and  descend  to  other  things  by  degrees”  (Sherry  1961,  58,  ed.  facsímile). 

 

vezes  posta  na  qualidade  do  clímax,  i.e.,  no  facto  de  este  ascender  de  um  ponto  a  outro,  algo  notório  no  uso  de  verbos  e  de  substantivos  ligados  à  área  semântica  de  “crescer” ou “crescendo” (encreaseth, clyming figure, augmenation, increase, ascend,  ariseth), ideia que tem, como já estudámos, igualmente uma matriz clássica. 

  A partir do século XVI, e até ao séc. XVIII, o termo na sua acepção retórica vai  progressivamente evoluir para uma figura em que claramente existe um abandono do  clímax  visto  como  repetição  de  palavras,  em  prol  de  uma  visão  do  clímax  como  um  meio de descrever uma figura de pensamento em que as frases se vão organizando de  forma crescente. Será provavelmente a literatura crítica inglesa a responsável por esta  evolução, à qual não foram contudo alheios tratados como os do holandês Gerardus  Vossius  (Gerrit  Janszoon  Vos,  1577‐1649),  Commentariorum  Rhetoricorum  siue  oratoriarum  institutionum  (Vossius  1606,  V.  38  =  Τ.  II,  p.  294‐298)145  e  o  do  alemão  Bartholomäus  Keckermann  (1572‐1609),  Systema  rhetoricae146  (Keckermann  1608,  II.  14  =  pp.  209‐213),  que  se  dedicaram  ao  estudo  da  figura  “clímax”,  e  que  no  fundo  acabam por levar mais longe uma tendência já estudada nos autores da Patrística que  se debruçaram sobre o tema.  

  As  páginas  que  Vossius  dedica  ao  tema  são,  como  observam  Kirby  e  Poster,  uma das mais profusas discussões acerca do clímax, com exemplos vários de autores  clássicos  e  cristãos.  Se  atentarmos  nestas,  facilmente  observamos  que  o  primeiro  entendimento que Vossius faz de “clímax” é o clássico, ou seja, um período em que o  fim  de  um  membro  inicia  o  seguinte:  κλῖμαξ  uerbo  eodem  inferiora  connectit  superioribus:  unde  definitur  ἐπαναφορὰ  πλεονάζουσα;  além  dos  exemplos  que  a  tradição já consagrara, cuja fonte parece ser Quintiliano e a Retórica a Herénio (o autor 

       

145 Para uma datação das edições cf. Rademaker (1999, 273).  146

 Para a importância destes dois autores no espaço retórico britânico setecentista, cf. Conley, “in terms