Freud considera que a neurose traumática comum surge como consequência de um
grande rompimento no escudo protetor do aparelho psicológico. Com isso, podemos avançar no estudo do aparelho mental de Winston, uma vez que ele revela durante a narrativa que
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recalcava uma lembrança que só foi relembrada muito tempo depois de ter ocorrido. A lembrança diz respeito à morte de sua mãe e irmã, que por toda a vida ele pensou ter ocorrido em consequência de um ato seu: Winston roubou a porção de chocolate da irmã e fugiu de casa momentaneamente. Ao retornar à casa, as duas haviam desaparecido e ele nunca mais as viu.
O trauma pressupõe uma experiência geradora de dor e sofrimento. A experiência traumática pode gerar inúmeras consequências, tais como a geração de fobias, neuroses, depressão e transtornos variados. É necessário ressaltar ainda que Winston apresenta um comportamento direcionado à destruição. A personagem, em diversas passagens, deixa claro que sabe qual será seu fim pelas atitudes que toma – ainda assim, em nenhum momento hesita em tomá-las, a começar pelo diário que compra em uma loja de antiguidades. Em outra passagem, alguém toca a campainha de sua residência e, enquanto abre a porta, percebe que deixou o diário aberto com a inscrição ‘DOWN WITH BIG BROTHER’ escrita em letras grandes o suficiente para serem legíveis através do quarto: “It was an inconceivably stupid thing to have done. But, he realized, even in his panic he had not wanted to smudge the creamy paper by shutting the book while the ink was wet. He drew in his breath and opened the door.” (NEF, 22) Mais adiante, enquanto mantinha um relacionamento amoroso com Julia, Winston resolve alugar um quarto em uma zona onde supostamente, como membro do Partido, não deveria transitar, destinada aos proletários. Ao fazer isso, seu pensamento foi: “Folly, folly, his heart kept saying: conscious, gratuitous, suicidal folly.” (NEF, 143)
Podemos verificar que existe uma tendência em Winston à auto-destruição, uma predisposição à pulsão de morte. As atitudes da personagem denotam que ele não é apenas uma pessoa que age contra o Partido, mas que parece por vezes querer ser pego, deixa pistas evidentes, rastros. Algumas atitudes são desnecessárias mas ainda assim a personagem aceita correr os riscos. Winston sabe, conscientemente, que está a caminhar para o mesmo fim que sua mãe.43 Caso caísse nas mãos do Partido, seria “abolished, annihilated: vaporized was the
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Em diversas passagens temos a confirmação de que Winston sabia que seria aniquilado. No início da narrativa, Winston escreve em seu diário, em pânico: “theyll shoot me i don’t care theyll shoot me in the back
of the neck i dont care” (NEF, 21; grifo no original) A personagem sabia que este era o método empregado pelo
partido para aniquilar seus opositores e que este seria seu fim, justamente por ser um opositor. A comprovação de que levaria um tiro vem de O’Brien: ‘Tell me,’ he said, ‘how soon will they shoot me?’ ‘It might be a long time,’ said O’Brien. ‘You are a difficult case. But don’t give up hope. Everyone is cured sooner or later. In the end we shall shoot you.’ (NEF, 287) Quando estava preso, Winston teve um devaneio cujo conteúdo novamente comprova a tese: “He was walking down the corridor, waiting for the bullet. He knew that it was coming in another moment. Everything was settled, smoothed out, reconciled. There were no more doubts, no more arguments, no more pain, no more fear. . . . Suddenly he started up with a shock of horror. The sweat broke out on his backbone.” (NEF, 292-3)
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usual word.” (NEF, 21; grifo no original) tal como sua família fora no passado. Os textos do diário somente seriam lidos pela Polícia do Pensamento: “And in front of him there lay not death but annihilation. The diary would be reduced to ashes and himself to vapour. Only the Thought Police would read what he had written.” (NEF, 29) A morte era uma certeza: “He had the sensation of stepping into the dampness of a grave, and it was not much better because he had always known that the grave was there and waiting for him.” (NEF, 166-7) e “It was as though they were intentionally stepping nearer to their graves.” (NEF, 146) Não obstante, em nenhum momento a personagem titubeia nos seus atos rebeldes, muito pelo contrário. Sua atitude é sempre direcionada no sentido de desafiar (ou antecipar) o fim que ele sabe estar a caminho. Ao afirmar que “We are the dead,” (NEF, 142), Winston não apenas quer dizer que a atual condição autoritária e opressora imposta pelo Partido está a matar figurativamente todos mas que suas próprias ações levam-no para esta direção, mais cedo ou mais tarde.
É possível aqui identificar uma tendência à pulsão de morte na personagem – tal como Freud afirma, esta força tende a voltar ao seu estado original, em outras palavras, ao inorgânico. Ela não tem objeto definido: apenas se repete em busca da satisfação completa, esgueirando-se pela via mais curta, da satisfação imediata. A compulsão à repetição leva Winston a tomar atitudes auto-destrutivas que o façam ter o mesmo fim daqueles a quem supostamente destruiu, na situação traumática que não consegue recordar. Na compulsão à repetição, o indivíduo retoma o que não foi efetivado durante sua infância, ou seja, sua aniquilação juntamente com sua família.