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Tabell 6.3 Utslipp av fosfor i tonn til vannregionene i 2013. Tonn P

In document AVG APR (sider 122-128)

Meu nome é Cícero Porciano, tenho 39 anos e sou filho natural de Santana do Cariri. Lá eu morava com meus pais, mas sai de lá em 1989. Saí porque tinha uma tia minha que morava no Maranhão e fui morar com ela por três anos. Quando eu saí de lá em 1991 decidi vir pra cá, diretamente para o assentamento, papai já morava aqui.

Eu vim direto pra cá pro assentamento, quem participou da ocupação da terra foi meu pai. É que eu era jovem e com a cabeça meio debandada. Aí você sabe como é, né? É diferente de um pai de família com responsabilidade. Quando ele ocupou, eu estava no Maranhão, mas eu já sabia da mobilização. Porque quando saí daqui eu era delegado de base do sindicato em Santana do Cariri, hoje o pessoal chama essa função de coordenador do conselho de base. Já tava com quatro anos que eu trabalhava no conselho de base, desde meus 16 anos, então, quando saí já tinha notícia do Movimento Sem Terra, porque meu pai desde 1981 era engajado muito nessas lutas do sindicato.

Meu pai sempre comentava que a gente só morava em terra de patrão, sujeito a muita coisa, negócio de despejo de uma hora pra outra se a gente fizesse alguma coisa errada. Era perigoso ter que sair da terra. Esse errado que eu digo é no sentido de que, às vezes, você mora em um terreno dos outros e não tá dando aquilo que o proprietário ta esperando, uma renda grande. É que as roças da gente sempre eram umas roças meio graúdas, aí sempre eles cobravam mais a questão de a gente dar uma renda maior. Aí teve um tempo que passamos dois anos com um inverno meio fraco e as rendas foram fracas também. Então começou nessa época uma maneira de querer discriminar o trabalhador que trabalhava para os proprietários, por causa disso a maioria deles pegou e saiu das terras. Papai era um dos mais antigos, arrendava sempre um pedaço de terra, a í ele se sentiu mal e saiu do terreno do homem. E é porque essa terra que ele arrendava era de um padrinho dele, ainda assim o padrinho sujeitou meu pai ainda mais do que os outros. É que o meu pai era muito chegado ao PT, desde 1970, e até hoje ele é filiado, ele sempre foi fanático pelo partido. Então desde esse tempo que ele se filiou, começou a aparecer às políticas, o PT não era grande não, mas é um partido que é velho e engajado em muitas lutas. Já o patrão era de outro partido, por isso que ficou discriminando ele até quando ele se desgostou e saiu do terreno.

Sugerimos ele ir pra outro terreno, lá visinho, foi quando surgiu à ocupação e ele participou. Assim que ele soube já se comunicou comigo, dizendo que ia par ticipar de uma luta do Movimento Sem Terra, ia ocupar uma terra e que se eu quisesse podia vir. O Movimento fazia isso para obrigar as famílias que estavam sendo destinado aquele terreno a participarem também da ocupação. Só não disseram onde era. No tempo que ele colocou a informação para mim no telefone, não tinham dito onde era o local da ocupação. Destaquei do Maranhão para cá e quando cheguei, ele já estava aqui nesse terreno e nós ficamos até hoje. E graças a Deus, correndo tudo em paz!

Daí pra cá já passei cinco anos trabalhando no Movimento Sem Terra como frente de massa, era o trabalho de base para fazer ocupação. Só que teve uma época que eu passei um bocado de tempo doente, aí quando eu adoeci parei mais aqui no assentamento. Mas ainda ajudo quando tem alguma atividade e não estou muito atarefado no assentamento, eu vou ajudar em ocupação, em manifestação.

Aqui no assentamento eu to nas atividades do coletivo, na associação e no individual também, porque quando a gente se preocupa mais com a associação se esquece um pouco da gente. Mas é isso, temos que trabalhar em cima de tudo. Quando eu entrei para me responsabilizar pela coordenação da associação eu sabia que um presidente, um sócio que seja mais engajado nessa coordenação, que quer fazer alguma coisa, às vezes deixa de fazer uma atividade dele para se engajar mais na atividade do coletivo e da associação no geral.

Mas depois que eu to aqui no assentamento já pa rticipei de várias ocupações nos outros municípios, nas outras cidades, nesse interior por aí. No tempo que eu parei mesmo, eu passei uns cinco a seis anos nessas atividades, nós fizemos umas 15 ocupações no sertão central. A última que eu trabalhei foi aqui na fazenda Boris que fica em Caririaçu, a gente trabalhou lá em 97 e hoje lá é o assentamento Serra Verde. Agora tá havendo uma ocupação, então, estamos pedindo aqui o apoio da comunidade para ele. Mas devido eu ser ainda da coordenação da associação eu não to nem indo lá. Sempre quem vai é eu, papai ou Tereza, que tem mais experiência nisso. Não é dizendo que os outros não saibam, tem muitos companheiros que ajudam, tem boa vontade, mas ajudam mais com a questão do financeiro, com alimentação e dinheiro, só que ir participar lá mesmo a possibilidade é sempre menor, até mesmo de conversar com os companheiros.

A gente que fez curso e participou de várias ocupações tem mais experiência. Dona Ana também já participou muito, então tem mais experiência da convivência. Mas tem muitos companheiros aqui que sabem, porque muitos aqui participaram de luta,

manifestações, então eu acho também que é muito uma questão de não querer estar lá no meio dos outros, querer ir até lá. Porque toda manifestação que é em beneficio da comunidade, em beneficio geral do Cariri, todo assentado participa, vai lá pro Crato. Nós estamos dispostos a ajudar, mas nem toda hora a gente tem a disponibilidade, só que a maioria sempre está disposta. Assim vai.

Mas olhe, do tempo que comecei para hoje mudou muito a vida no campo. Um tempo atrás, antes mesmo de ser delegado sindical, eu podia sair hoje e ser até machucado pelos “patrão”. Porque eu estava obrigado a trabalhar até aqueles horários, tudo correto, para ganhar aquela mixaria, porque um dia de serviço nunca foi bom. Aí nós começamos a trabalhar no sindicato e mudou mais as coisas. Meu pai, que já vinha de luta, repassou pra gente a idéia de trabalhar fazendo empreita, porque o que nós trabalhássemos nesse regime seria nosso, nós íamos a hora que pudesse, que quisesse. Nós já tínhamos o conhecimento que trabalhando alugado, se matando no alugado, não dava certo não. P orque era um trabalho que já vinha judiando com a gente, porque nós estávamos obrigados a trabalhar por aquela diária, aquele serviço.

Hoje em dia a gente sempre diz: “ó fulano, tu vai trabalhar por uma empreita que tu se sai melhor, porque tu vai a hora que tu puder, na hora que tu quiser, tu não ta obrigado a pegar de 7 horas da manhã até 5 horas da tarde. Tu ta trabalha ndo em cima de uma empreita, se você quiser trabalhar rápido, trabalha, se quiser trabalhar bem devagarzinho, trabalha. Se der pra você ganhar dinheiro bem, se não der, pelo menos você trabalha de uma forma normal, sem se matar”. Então isso é fruto de um pouco de experiência, porque nessa maneira você já tá vendo que se for trabalhar só alugado não dá. As vezes você deixa a família morrendo de fome, você vai se acabar mais rápido, se estragar, devido o serviço ser forçado. E trabalhando no próprio ritmo, a gente tem mais uma folga.

Hoje tá muito mudado, a gente trabalha pra gente mesmo na comunidade, tudo serve tanto para uns como para outros, pois tudo é de casa. Tanto eu trabalho para eles quanto eles para mim, ninguém tá fazendo nada para ninguém de fora . Então eu vejo que tá tudo mudado, porque quando eu comecei a trabalhar com 12 anos eu trabalhava por diária e, por ser novo, só me pagavam meia diária. Mas eu trabalhava , às vezes, duas vezes mais que um adulto.

Hoje eu tenho dois filhos, um com sete anos e outro com quatro, quando eles estiverem grandes vou ativar para que participem e partam para a luta, para não ficar só vendo nós, vendo a mim que sou o pai deles, vendo como foi que a gente conseguiu a terra. Tenho que mostrar um caminho para quando eles se puserem rapazes, forem pais de família,

saberem que a gente, para conquistar uma terra, tem que lutar e sofrer um pouco. Como diziam antigamente, saber que “a gente tem que primeiro passar pelo fel pra depois lamber o mel”. Então, essa é minha história que tenho pra contar para eles, tenho que formar eles para um dia quando chegarem em uma certa idade, saberem porque hoje nós estamos aqui, que já sofremos tanto, eu e os outros companheiros daqui que participaram de luta. Sofremos massacre, mas hoje nós estamos aqui contando a história. Acho que é uma boa pra eles, participarem também, quando estiver com 16 anos acima começar a se desenvolver.

Porque se você for para a cidade com um emprego garantido pode ser, mas um filho que sai daqui sem emprego está arriscado a tudo. Se ele for uma pessoa que trabalhe na agricultura e for para cidade, se não tiver um emprego que dê certo, ele vai só sofrer, vai partir pra bandidagem. E, com licença da palavra pra eu poder dizer, vai querer até fazer roubo para sobreviver. E não da certo, é perigo chegar até a morte. Então é bom a pessoa estar cultivando, sabendo fazer a luta na roça. Se nasceu, se cresceu na terra, se tiver uma oportunidade de arrumar um emprego perto do sítio, que seja trabalhado no campo e não na cidade.

Nós temos uma maneira de trabalhar diferente. Por exemplo, quando você tá trabalhando lá fora, se vai plantar uma roça e tirar um legume você tem que pagar uma renda para o dono da terra e não pode sequer ter um gado ou qualquer animal que seja seu que vá comer a palha que ficar. Já nesse sistema da gente aqui dentro, aquilo que nós fizermos é nosso mesmo. Um exemplo: hoje a pessoa pode não ter uma vaca que seja dela produzindo leite, mas se ela precisar de um pingo de leite ela vai poder tirar do ga do coletivo, porque eu tenho uma vaca lá em cima. E no coletivo do gado a pessoa vive trabalhando, ajuda a fazer o pasto, no dia que for a vez dela cuidar do rebanho ela tem a obrigação de pegar uma vaca e tirar o leite para mim. Então, se é dessa maneira, não é obrigado ele tá comprando todo dia um litro de leite, porque se ele sempre trabalha, sempre faz o pasto, vive contribuindo, ele vai ter o direito de ter aquele gado para tirar o leite para ele, porque tem o gado coletivo. A gente vive dessa maneira.

Se todo mundo tiver participação, todo mundo vai ter o que comer. Aqui tem também uma troca de serviço, porque hoje eu posso trabalhar para um companheiro e amanhã quando eu precisar ele trabalhar pra mim. O que a gente faz fica pra comunidade mesmo. Nesse sistema, se nós pegar hoje uma manga de gado e vender por dois mil reais, vai servir pra todos nós. Se dessa venda der quatro reais para cada um, cada um vai receber quatro reais. É uma maneira muito simples. Devido a gente já ter sofrido muito, meus irmãos,

meu pai, eu acho que estou é no céu a vista do que eu já passei. Acredito que tem muitos companheiros que moram aqui que dizem a mesma coisa que to colocando aqui.

Famílias cadastradas são 47, mas no geral são 51, porque tem quatro agregados. De vez em quando sai um do cadastro, porque às vezes arruma um emprego na rua, a í pega a família e leva para lá. É difícil, mas acontece. Já para uma nova pessoa ser aceita no cadastro a gente faz uma assembléia e se a votação dele der um número que dê pra ele se cadastrar ele é cadastrado. Se ele for uma boa pessoa que trabalhe dentro da comunidade, se ele tiver contribuindo, a associação sempre vê isso. Mas às vezes dá empate ou menos, o critério é uma votação da associação em geral. O último recadastramento daqui foi no mês passado (julho 2010) e deu 48 vagas, mas um saiu e ficaram as 47 famílias.

Mas o assentamento tá mudado, não é mais o de 10 anos atrás não. Os jovens casaram, tem outro sistema de vida. O tempo mudou. No começo todo mundo tinha aquela boa vontade de trabalhar pela comunidade, hoje tá indo pro coletivo aqueles que já têm uma consciência, aqueles que sempre veem contribuindo. Os jovens só vão quando querem.

Na minha visão, não são todos, mas cada qual quer fazer pra si agora . Eles estão pensando dessa forma. E se liberar para cada um fazer só pra si não dá certo, a juventude já ta pensando dessa maneira. Não se lembra que tem associação, não se lembra que isso foi conquistado com o coletivo.

A juventude é quem 18 anos, 19 anos, 20 anos. Mas jovem também são aqueles que têm disposição, com mais de 25 anos, um cara de até 30, 40 anos que corre atrás duma bola é jovem, maduro em suas propostas, no seu trabalho, nas suas atividades. Mas no conhecimento da gente é um jovem.

Tem muitos jovens que na hora que a gente parte pro serviço vai, mas não mais naquela raça, naquela boa vontade que a gente sempre teve. Naquele tempo, quando nós partíamos para trabalhar, às vezes ia 40 a 50 pessoas. E hoje não, quando vai é de 10, 20, às vezes chegam a ir quatro ou cinco, é assim. Só que força de trabalho pra ir nós temos, porque se hoje a gente for contar a quantidade de jovens de 18 até uma idade de 40 anos tem mais de 50 pessoas aqui na comunidade.

Acho que desses jovens, esses mais novos de 15, 16 anos, tirando um ou outro, não sabem nem andar nas roças do pai deles. Talvez vá deixar o almoço, chegue na beira da roça e já saia. De primeiro, quando eu tinha meus 14 anos de idade, eu botava uma roça, fazia uma coisa e outra e aumenta va a minha renda e a de meu pai. Hoje em dia, um filho com 18 anos num sabe nem onde é a roça do pai, a mudança tá grande. E o pai tem que trabalhar pra dar de comer a ele, então ta dessa maneira. Pra você ver, eu tava trabalhando

mais um companheiro ontem e ele contando que o menino dele tem 16 anos, aí ele contou que falou pra ele ir deixar o almoço dele. O menino chegou lá e ele escutou a fala dele dizendo: “ei pai, o almoço ta aqui”. Aí, entretido no serviço, ele disse “ta bom” e esqueceu. Começou a quebrar o milho dele, quando se voltou que pensou que o menino ia ajudar ele a quebrar o milho, o menino já tinha ido embora, o cabra com 16 anos. E é porque o pai é trabalhador, vive da agricultura. Mas o menino deu uma palavrinha só e pronto. Saiu. Ta acontecendo isso aqui.

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