O método hidrológico de Tennant, também conhecido como método de Montana, foi desenvolvido em 1975 nos EUA e baseia-se exclusivamente em simples variáveis hidrológicas (TENNANT, 1976). Trata-se de um dos mais antigos métodos desenvolvidos especificamente para as necessidades dos peixes e baseou-se em 17 anos de experiência e ensaios realizados por Donald Leroy Tennant em centenas de cursos de água, mais especificamente em dados de calibração apurados através de testes de campo nos Estados de Nebraska, Wyoming e Montana (GOPAL, 2013). Segundo KING et al. (2008), na década de 90, era o segundo método mais utilizado em todo os EUA e também rotineiramente aplicado em inúmeros outros países.
A recomendação de um caudal tem suporte num conjunto de percentagens do caudal médio anual, calculado para o local do aproveitamento hidráulico, recorrendo a diferentes percentagens (Tabela 9) para o período seco e para o período húmido (TENNANT, 1976).
A aplicação do método raramente envolve o reconhecimento de campo, sendo a recomendação de caudais baseada unicamente na tabela desenvolvida (SARMENTO, 2007), e segundo ALVES e BERNARDO (2003) e TENNANT (1976) a aplicação deste método envolve as seguintes etapas:
- Primeira: determinação do caudal médio anual no local do aproveitamento hidráulico;
- Segunda: observação do curso de água durante os períodos em que o caudal existente no leito fluvial é aproximadamente 10%, 30% e 60% do caudal médio anual, documentando-o com recurso de fotografias dos vários tipos de habitat característicos e medições em secções transversais características obtendo a largura do leito e profundidade, bem como velocidade do escoamento. Outros caudais podem ser igualmente analisados, mas estes três permitem abranger a gama de caudais que, de um modo geral, será recomendado para a proteção dos ecossistemas aquáticos e ripícolas da maioria dos cursos de água; e
- Terceira: utilização da informação obtida para elaborar recomendações de caudais a manter no curso de água com base nas referências (Tabela 9).
Tabela 9 – Regime de caudais recomendados pelo Método de Tennant. Adaptado de TENNANT (1976).
Caudal Regime de caudais recomendado Período seco Período húmido De descarga ou máximo 200% do caudal médio anual
Gama de variação óptima 60 – 100% do caudal médio anual
Excelente 40% 60%
Muito bom 30% 50%
Bom 20% 40%
Fraco ou degradante 10% 30%
Pobre ou mínimo 10% 10%
Degradação elevada 0 – 10% do caudal médio anual
O caudal correspondente a 10% do caudal médio anual constitui o caudal instantâneo mínimo que permite manter, por um curto período de tempo, as condições de habitat necessárias à sobrevivência da maior parte das espécies aquáticas. Para este caudal, a largura do leito, a profundidade e a velocidade do escoamento são significativamente reduzidas conduzindo à degradação do habitat para a maior parte das espécies. A temperatura da água pode subir, podendo tornar-se um fator limitante para algumas espécies, particularmente durante o período de estiagem. As populações de macroinvertebrados são bastantes afetadas, podendo pôr em risco a produção piscícola do curso de água. Os peixes concentram-se nas zonas mais profundas, atingindo densidades elevadas e nos locais onde a profundidade é baixa a circulação de indivíduos de maiores dimensões fica limitada. A vegetação ripícola poderá ficar sujeita a stress hídrico (TENNANT, 1976; ALVES; BERNARDO, 2003).
O caudal correspondente a 30% do caudal médio anual é o caudal recomendado para manter condições adequadas de habitat para a maior parte das espécies aquáticas. A largura do leito, a profundidade e a velocidade do escoamento, assim como a temperatura, são mantidas a níveis considerados satisfatórios para a maior parte das espécies. As populações de macroinvertebrados são afetadas, mas a níveis que não colocam em risco a produtividade piscícola. A vegetação ripícola não é afetada (TENNANT, 1976; ALVES; BERNARDO, 2003).
O caudal correspondente a 60% do caudal médio anual permite a manutenção de condições ótimas de habitat para a maior parte das espécies aquáticas durante as primeiras fases do ciclo da vida (TENNANT, 1976; ALVES; BERNARDO, 2003; LONGHI; FORMIGA, 2011).
O método tem sofrido diversas modificações que visam uma melhor adaptação dos regimes de caudais ecológicos calculados ao regime natural de caudais nas diversas regiões diferentes daquela para a qual o método foi desenvolvido. A sua maior limitação é que ele só deverá ser aplicado a cursos de água morfologicamente semelhantes àqueles a partir dos quais está técnica foi desenvolvida, sendo mais adequado a rios de grandes dimensões, que exibem uma pequena variação do caudal ao longo do ano (SARMENTO, 2007).
As modificações anteriormente citadas, que normalmente são intituladas de método de Tennant modificado, são verificadas, na literatura, principalmente no sentido da redistribuição das percentagens de acordo ao regime hidrológico no local onde será aplicado o método. No Brasil (região sudeste) e, segundo ALVES (2010), para Portugal Continental (bacias hidrográficas internacionais) o sensato seria o ajuste para que o período de caudais ecológicos máximos seja definido como sendo de dezembro a março e o período de caudais ecológicos mínimos de junho a setembro, sendo os intervalos compreendidos entre abril e maio, e outubro e novembro (Tabela 10), classificados como meses de transição com valores ajustados de caudais intermédios.
Tabela 10 - Regime de caudais recomendados pelo Método de Tennant “Modificado” para o Brasil (região sudeste) e Portugal Continental (bacias hidrográficas internacionais). Adaptado de ALVES (2010).
Caudal Regime de caudais recomendado
Jun-Set Abr/Mai/Out/Nov Dez-Mar De descarga ou máximo 200% do caudal médio anual
Gama de variação óptima 60 – 100% do caudal médio anual
Excelente 40% 50% 60%
Muito bom 30% 40% 50%
Bom 20% 30% 40%
Fraco ou degradante 10% 20% 30%
Pobre ou mínimo 10% 10% 10%
Degradação elevada 0 – 10% do caudal médio anual
Por fim, mesmo tratando-se de um método simples, fácil e de rápida aplicação, pode apresentar resultados bastante satisfatórios face a métodos mais sofisticados. Segundo LONGHI e FORMIGA (2011), através de estudos comparativos, constataram que muitas vezes o caudal recomendado por um método mais complexo, como o IFIM, está muito próximo da faixa de caudais resultantes de um método simples, como o método de Tennant. Isto demonstra que há a possibilidade, em situações de insuficiência de dados e/ou recursos materiais e humanos, de utilizar métodos de menor complexidade e mais acessíveis.