Retomando o que já foi mencionado no capítulo anterior, a realização da turma “Evandro Lins e Silva” aconteceu em 10 módulos presenciais, o TE, numa média de 75 dias cada um. Cada módulo constituiu o processo de aprendizagem das disciplinas organizadas desde o currículo do curso de Direito da UFG, além de uma parte da carga horária que foi organizada no TC, com acompanhamento pedagógico dos professores através de meios de comunicação como email e telefone. O tempo destinado à modalidade presencial foi de 08 horas diárias de atividades orientadas e acompanhadas pelos professores, acrescidas de mais horas dedicadas à gestão e à auto-organização dos estudantes.
Cada etapa presencial envolvia planejamento, acompanhamento e avaliação, com a preocupação metodológica de garantir a produção de conhecimento, fazendo do cotidiano da turma um espaço de diálogo entre os próprios estudantes e a coordenação pedagógica, além do aprofundamento teórico que cada disciplina exigia para o bom resultado do conjunto do curso, permitindo extrair lições para melhor construir cada TE.
Durante a realização das etapas presenciais, os estudantes oriundos de fora da Cidade de Goiás moravam coletivamente em casas alugadas, de acordo com a distribuição dos NBs, totalizando seis, sendo dez pessoas em cada um; portanto, seis espaços de moradia. A ideia de morarem juntos, para além de diminuir despesas, tinha também a intencionalidade de que se ajudassem no estudos das disciplinas. Podemos dizer que este foi um dos momentos de estranhamento, por conta da diversidade cultural, de gênero, de experiências sociais e valores individuais. Para melhor compreendermos isso, é necessário explicar que os núcleos foram organizados de maneira a contemplar a presença de homens e mulheres de diferentes estados e organizações sociais, além do diagnóstico interno realizado de que houvesse pessoas com mais tempo de experiências nas organizações sociais. Havia conflitos e contradições entre alguns estudantes, mas nada que não pudesse ser resolvido a partir do diálogo entre os envolvidos diretamente, mas também com o coletivo. Ou seja, os NBs, com os seus membros, com uma coordenação, compartilhando o mesmo espaço de moradia, possibilitaram uma maior aproximação entre os estudantes na convivência diária, sendo possível realizar momentos de avaliação e revisão de posturas e atitudes individuais que buscaram elevar o prazer socializar experiências e construir conhecimento naquele grupo de estudantes. Os núcleos de moradia e de estudo foram um espaço essencial para que cada um da turma pudesse se enxergar como responsável pelo resultado da experiência desenvolvida.
Por outro lado, muitas vezes os estudantes não foram reconhecidos pela comunidade acadêmica como integrantes de movimentos sociais, mas sim como beneficiários de uma política pública, e por isso estavam ali. Diante de algumas manifestações de estudantes de turmas regulares, a turma se preocupou em construir um processo que considerasse a dimensão coletiva, fugindo da individualização que constitui a regra das instituições de ensino. Essa atitude evidenciou que os estudantes não se viam apenas beneficiários de uma política pública, mas sim como sujeitos de direitos que praticavam uma experiência coletiva de organização social, buscando fortalecer, assim, uma identidade de perfil classista.
Isso influenciou também no processo pedagógico, inclusive na definição dos professores que dariam aulas na turma. A partir do concurso realizado para garantir o corpo docente do curso de Direito, mesmo os professores que não estiveram de acordo com a existência da turma ministraram disciplinas, gerando em alguns momentos debates quentes em sala de aula entre estudantes e professor, que foram saudáveis para que o resultado fosse alcançado, mesmo diante das tensões momentâneas ocorridas.
Outras tensões pairaram entre os membros parceiros, sendo possível visualizá-las nos debates e interesses que cada um defendia, numa relação direta entre a concepção de movimento social e de universidade, prevalecendo em determinados momentos o institucional. Isso se explica por posições de algumas organizações sociais ou falas individualizadas, de que a universidade e/ou próprio INCRA/PRONERA eram os definidores das questões e que os estudantes eram apenas beneficiários de uma política pública. O que foi questão de unidade entre todos era a defesa para a permanência da turma, mesmo que os movimentos sociais não pudessem se manifestar formalmente, houve muitas reuniões e reflexões sobre como contribuir no processo para evitar a extinção da turma.
O estranhamento também acontecia no cotidiano do espaço físico do campus da UFG, uma estrutura pequena, com salas de aula com tamanho para comportar quarenta estudantes, e terem de dar conta de atender uma turma de sessenta. Nesse sentido, havia necessidade de os estudantes ocuparem uma sala maior, ocorrendo tensões com estudantes das turmas que não desenvolviam a Pedagogia da Alternância. Outro aspecto tem a ver com o modo da turma se organizar, por meio da autogestão, com uma coordenação própria e com a preocupação com o coletivo. Além disso, a turma se apresentava simbolicamente, por meio da mística, com as bandeiras dos movimentos, músicas, poemas e palavras de ordem, causando impacto aos que passavam pelos corredores da universidade.
A turma também organizava a ciranda infantil, espaço pedagógico para crianças de zero a seis anos com educadores, que cuidavam dos filhos dos estudantes que não tinham com
quem os deixar, ou porque não queriam se ausentar por tanto tempo de seus filhos. Numa estrutura como a da UFG-Cidade de Goiás, isso foi visto como estranho e sofreu críticas, que taxavam os pais ou mães de serem irresponsáveis por levarem suas crianças para um ambiente (universidade) que era um lugar de estudo e deveria ser entendido com seriedade. Por outro lado, essa situação colocou em pauta a necessidade de infraestrutura como creche universitária para atender os filhos de toda a comunidade acadêmica, entendendo como um direito de cada estudante pai e mãe, mais do que isso, como um direito da criança em estar perto de seu pai e de sua mãe.
É importante apresentar também a Pedagogia da Alternância como um estranhamento para a universidade, pois era um jeito diferente para a academia realizar um curso. Esse novo jeito provocou a necessidade de compreender a origem dos estudantes, ainda mais complexo ao se tratar de uma turma nacional, com pessoas de 19 estados. A dinâmica do TC necessitou de muito esforço para manter o vínculo dos estudantes com a UFG e não ocorrer evasão, haja vista que nesse tipo de curso o estudante se distancia fisicamente da estrutura acadêmica. Neste aspecto, cabe fazermos um paralelo entre a pedagogia da alternância com a educação a distância. Quando se fala de educação a distância, todo o processo de ensino aprendizagem acontece por meio de instrumentos tecnológicos, atualmente com base na comunicação virtual, no qual o professor e o estudante não se encontram presencialmente, ou muito pouco. Já na pedagogia da alternância, como o próprio nome diz, alterna o tempo presencial, no qual o professor e o estudante se encontram em um determinado local e por um determinado tempo. No caso da experiência da turma de Direito, esse espaço foi a universidade e o tempo foram as 10 etapas realizadas, frisando que nessa turma toda a carga horária foi cumprida no TE. Mesmo que o tempo não presencial tenha sido importante para o aprofundamento e relacionamento com a prática de cada estudante na sua comunidade e/ou organização social, não houve o requisito de carga horária para as disciplinas. Nesse caso, somente o estágio supervisionado foi realizado no TC, sendo necessária a comprovação oficial por parte da instituição que aceitou o estudante como estagiário. A Pedagogia da Alternância possibilita a vivência da práxis, relacionando teoria e prática, aprimorando a ação na sua realidade.