• No results found

T HE RELATIONSHIP BETWEEN DEMOGRAPHIC CHARACTERISTICS AND

8. DISCUSSION AND IMPLICATIONS

8.1 T HE RELATIONSHIP BETWEEN DEMOGRAPHIC CHARACTERISTICS AND

Entre os saberes psicológicos não existe uma “teoria geral das dependências” que poderia ser comparada a uma classificação médica moderna (CID-10 / DSM-IV). Por conseqüência, várias teorias psicodinâmicas foram desenvolvidas sobre a gênese dos comportamentos adictivos. Basicamente, as explicações psicológicas para a etiologia da dependência química dividem-se entre as teorias da personalidade (modelo psicanalítico) e as teorias do aprendizado (modelo comportamental).

Entretanto, o que caracteriza muitas das apreciações psicanalíticas sobre a dependência química é o fato de a droga surgir como um objeto substitutivo para uma carência psíquica. Assim, a dependência química poderia ser interpretada como uma tentativa de retorno aos estados prazerosos da infância através da busca pelas sensações

lúdicas proporcionadas pelas drogas (Bordin, Figlie e Laranjeira, 2004). Os alcoolistas, por exemplo, são avaliados psicologicamente como pessoas tímidas, imaturas, ansiosas, com fraqueza de ego e auto-imagem negativa (Nascimento e Justo, 2000). Nestes casos, o álcool funciona como o “espinafre do Popeye”, servindo de combustível encorajador frente a situações frustrantes.

No âmbito das relações entre familiares, a dependência de drogas pode constituir-se em um artifício utilizado para preencher uma carência emotiva, uma falta, que algum dos familiares não foi capaz de suprir, o que justifica em grande medida a insistência, por parte dos terapeutas, em envolver a família do dependente químico em seu processo de recuperação. As figuras do pai ausente ou da mãe superprotetora são alguns dos protótipos mais verificados nesta dinâmica. Por isso, a desarmonia familiar ocupa um papel central na etiologia da dependência química. Dessa forma, “o depender de drogas seria o resultado do deslocamento deste sentimento de falta para uma ´coisa`, com a notória vantagem de esta ser alcançável em qualquer esquina do mundo” (Kessler

et. al., 2003:37).

Seguindo um modelo inspirado nas teorias do aprendizado social, a dependência de drogas originar-se-ia a partir de uma estratégia habitual de auto-medicação na qual o indivíduo utiliza álcool e drogas para debelar sentimentos como ansiedade, raiva ou depressão. Com o passar dos anos, esse tipo de auto-medicação finda por apresentar graves efeitos colaterais físicos e sociais, sem que o problema psicológico subjacente haja sofrido qualquer modificação (Goleman, 1995). A origem da dependência de drogas seria, então, provocada por uma espécie de condicionamento mental dirigido ao consumo de pscicoativos para a busca do prazer, no intuito de escamotear situações de estresse.

A dependência química, nos modelos psicanalíticos, ao contrário do modelo de

doença, é geralmente compreendida como um sintoma e não necessariamente uma

causa, embora isto sempre implique uma relação de reciprocidade. A dependência seria, então, um problema secundário, não uma doença primária. Em outros termos, o indivíduo usa drogas para lidar com seus problemas, mas acaba amontoando outros problemas quando nele se instala um padrão de uso patológico. Assim, na tentativa de viver continuamente sob o domínio do princípio do prazer, o indivíduo incorpora à sua rotina um hábito de consumo de psicoativos que finda por gerar a dependência de drogas. Assim, “toda toxicomania é um substitutivo, máscara para não se olhar no espelho que está quebrado” (Olievenstein, 2003:41).

No senso comum, a interpretação psicológica da dependência química é geralmente associada à tipologia do “viciado”, visto como uma pessoa de “personalidade fraca”, um “traumatizado”, ou seja, alguém que bebe ou usa drogas para esquecer seus problemas, evitando arcar com as responsabilidades que a vida lhe impõe. Este modelo parte da premissa de que o mundo “interno” do indivíduo está em desarranjo e, por conseqüência, ele necessita da droga para aliviar sua “dor de existir”. A propósito, as canções e romances populares estão repletos de exemplos deste modelo. Centenas de histórias de pessoas que se entregam à bebida ou às drogas para esquecer suas mágoas são amiúde utilizadas nessas obras, povoando o imaginário social e, não raro, com grande identificação com as massas.

Entretanto, como foi dito anteriormente, cabe destacar que as teorias psicanalíticas são tão variadas como as particularidades de cada substância psicoativa, sendo impossível esgotar esses impasses em um breve trabalho. De qualquer forma, a resposta concedida por Charles Melman a um jornalista que o indagava sobre a aversão dos toxicômanos com relação às psicoterapias fornece uma indicação pertinente acerca da busca por tais substâncias nas sociedades modernas.

Creio que os toxicômanos não vêm ao psicanalista porque encontraram o remédio universal, a panacéia, e que então a questão para eles não é mais a de sua existência – que é a questão comum – mas simplesmente a de dispor deste remédio. Consideram que existe no jogo social um defeito e nisto eles têm toda razão. E é mesmo esse defeito na organização social que eles denunciam como doença, bem mais do que sua própria toxicomania [...] que é o efeito de aliviar a dor da existência. A droga é, sem dúvida, a melhor maneira de se desembaraçar, de apaziguar o que concerne à dor de existir. (Melman, 2000:84)

Panacéia, o remédio para todos os males. Esse simples, mas poderoso vocábulo originado do grego (Panecea, a deusa da cura), é uma chave poderosa para a compreensão da busca humana pelas substâncias psicoativas. Antes de conceber a psicanálise, Sigmund Freud ficou entusiasmado pela cocaína, tendo destinado suas parcas economias de médico iniciante na aquisição daquela substância, que era fabricada na Alemanha pelo laboratório Merck. Na medida em que nesta época Freud estava bastante interessado em fisiologia, ele acreditara haver encontrado a panacéia para muitos males psíquicos, tendo inclusive experimentado a droga e destacado suas qualidades como estimulante, anestésico local, bem como também no combate à asma e à dependência de morfina (Cesarottto, 1989). Mais adiante, Freud verificou o potencial

perigo daquela nova droga e decidiu abandonar os experimentos com a cocaína. Entretanto, no início do século XX, em O Mal-estar na Civilização, o pai da psicanálise não se furtou a destacar o poder que as substâncias psicoativas possuem sobre as funções do aparelho psíquico, ao mesmo tempo em que alertava para os perigos de seus efeitos adversos.

O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício, que tantos indivíduos quanto povos lhes concederam um lugar permanente na economia de sua libido. Devemos a tais veículos não só a produção imediata de prazer, mas também um grau altamente desejado de independência do mundo externo, pois sabe-se que, com o auxílio desse ‘amortecedor de preocupações’, é possível, em qualquer ocasião, afastar-se da pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio, com melhores condições de sensibilidade. Sabe-se igualmente que é exatamente essa propriedade dos intoxicantes que determina seu perigo e a sua capacidade de causar danos. São responsáveis, em certas circunstâncias, pelo desperdício de uma grande cota de energia que poderia ser empregada para o aperfeiçoamento do destino humano. (Freud, 1997 [1929]:27)

Na psicoterapia, seguindo o modelo individualista de intervenção, a subjetividade é colocada em primeiro plano, sendo esta entendida como lócus privilegiado da eclosão dos distúrbios psíquicos, incluindo a dependência de drogas. Em certos aspectos, o mundo externo passa a ser compreendido como uma realidade “virtual”, visto que ele refere-se a uma simples “projeção” do mundo interno, sendo muitas vezes desprezado o fato de que a realidade “interna” do indivíduo também é resultante de um processo de interiorização da realidade social que o circunda. Em algumas situações, o analista pode desprezar queixas sociais como desemprego ou queda da renda familiar como causas de um eventual desgaste conjugal ou depressão e procura tratar o paciente através de recursos terapêuticos que objetivam atuar na estrutura de sua personalidade.

A causa provável deste mal-estar, neste caso, não poderia ser atribuída à pressão de fatores sociais, mas à incapacidade de certos indivíduos em lidar com problemas emocionais oriundos de traumas da infância ou similares. Por isso, a terapia geralmente gravita sobre relações conflituosas entre pais e filhos, pois uma sessão terapêutica não pode transformar-se em debate político e, por isso mesmo, temas relativos à “realidade externa” são evitados.

Mas o que ocorre fundamentalmente é o esquecimento, por parte de algumas teorias das ciências do singular, do contexto histórico onde este tipo de abordagem individualista foi formulado. Pois somente em uma cultura onde o indivíduo pode ser concebido como uma célula autônoma, destacado de seu meio social, tanto a psiquiatria, como a psicanálise, poderiam legitimar-se. Na Antigüidade Clássica existia um discurso sobre a ação individual, porém, no discurso clássico, a biografia não era disposta como

problema central. Então, foi justamente após as revoluções comerciais e burguesas dos séculos XVIII e XIX, que a psiquiatria e a psicanálise se estabeleceram como um saber sobre o individual (Birman, 1999, Velho 1994).

Assim, a própria idéia de clínica como um saber sobre a singularidade está atrelado a um período histórico de bases sócio-econômicas bem delimitadas. Além disso, a Psiquiatria emergiu no século XIX em conseqüência da desilusão com os ideais do Iluminismo. Na medida em que as transformações prometidas para o mundo “externo” não haviam se concretizado, restava agora buscar uma solução a partir da análise das características do mundo “interno” (Birman, 1978).

A negação do social em detrimento do mundo interior, porém, não encontra respaldo em muitos textos psicanalíticos. Freud nunca pensou o homem fora de sua cultura, pois uma das chaves principais de compreensão de seu pensamento era a formação do mundo psíquico sob a influência da civilização e de seus aparatos de repressão. Mas em sua atividade prática o terapeuta é constrangido a esmiuçar os aspectos da individualidade do dependente químico na busca da etiologia de sua dependência. Assim, um tratamento psicanalítico da dependência química implicaria a remoção de traumas subjacentes à dependência, proporcionando uma mudança na relação indivíduo-droga.

Na realidade, analisando as referências que consultei ao longo desta pesquisa, constatei que, entre os psicanalistas que escrevem sobre dependência química, são raros aqueles que não abordam esta patologia no âmbito de um sintoma social. Além dos aspectos familiares que implicam na etiologia do abuso de drogas, as substâncias psicoativas (lícitas ou ilícitas), despojadas de quaisquer conotações ritualísticas ou simbólicas, são utilizadas hoje, sobretudo, para mitigar as desgraças psíquicas engendradas pelo horizonte pós-moderno. Segundo Joel Birman:

Não se pode esquecer aqui que o desamparo humano aumentou muito na dita pós-modernidade, pois, com o fim das utopias e dos messianismos alimentados

pela modernidade, não há mais como fazer obstáculo às dores e desesperanças produzidas na atualidade. Isso porque não se oferecem outros projetos alternativos nos registros social e político. (2003:243)

Uma apreciação psicanalítica sobre as causas da dependência química, em virtude de sua extensa abrangência, comporta uma série de significados que seria impossível esgotar nesse momento. Não é possível pensar em um rótulo único sob o qual possam enquadrar-se os dependentes químicos, como busca a psiquiatria. Entretanto, sinto-me mais inclinado a apoiar um entendimento psicanalítico desta prática como uma forma de dependência que objetiva “curar” os sintomas de uma falta, que, por sua vez, pode também ser compreendida como conseqüência de um abandono por parte da figura paterna ou materna.

De qualquer forma, a título de esclarecimento, Bucher afirma que não existe para a psicanálise o que se poderia denominar de uma personalidade-tipo de dependente químico, pois “a identidade necessariamente é vacilante e continuamente fragmentada – não somente no drogadicto, mas em nós todos” (1992:177). E como também enunciou o pai da psicanálise, “não é cientificamente viável traçar uma linha de demarcação entre o que é psiquicamente normal e anormal, de maneira que esta distinção, apesar de sua importância prática, possui apenas um valor convencional” (2005 [1938]: 223-224).

Em outras palavras, se a falta é universal, qualquer indivíduo poderá tornar-se um dependente químico e isso independeria de um tipo biológico específico, desde que o indivíduo deseje expurgar sua “dor de existir” através da alteração química de sua consciência ordinária e que esta estratégia transforme-se em um hábito longo o bastante para que suas funções fisiológicas e psicológicas sejam alteradas em função desta dependência.