Vamos examinar, conforme anunciamos no início deste texto, uma outra sociedade que, segundo Francis Wolff, atingiu a essência do polí- tico – os indígenas do Brasil, particularmente os tupis-guaranis, de an- tes da descoberta.
Os indígenas não têm política, não têm Estado, não têm leis – es- pantavam-se os colonizadores. Mas, as coisas não eram bem assim, pois, enquanto os invasores europeus tinham uma idéia de Estado co- mo poder externo e coercitivo da sociedade, os indígenas viviam nas aldeias uma outra experiência política, na qual o Estado coercitivo dos europeus não fazia qualquer sentido.
Não é exagero afirmar que, nesse aspecto, os indíge- nas estavam muito além dos invasores e colonizadores em matéria de política – os indígenas constituíram sua comu- nidade visando ao bem-estar de todos e sabiam manter a sua unidade através do autogoverno.
A história das colonizações das Américas é, basica- mente a história da barbárie, justificada pelos invasores como sendo a vitória da civilização. Mas como definir ci- vilização e barbárie?
Francis Wolff, em Quem é bárbaro?, apresenta e critica a definição tradicional e conservadora que define como civilizada a sociedade que: urbanizou-se, que libertou-se de costumes grosseiros; que refinou o espírito artístico, fi- losófico, científico e é também mais desenvolvida tecnologicamente; que desenvolveu normas, princípios morais que estabelecem regras de conduta e de respeito ao outro. Para Wolff, essa idéia é conservadora, porque na história da humanidade existem culturas e civilizações que atendem boa parte desses requisitos e se demonstram violentas na re- lação com outras culturas. Portanto, diz o filósofo, civilização e barbá- rie não estão vinculadas ao estágio de desenvolvimento de uma cultura ou civilização, “são bárbaros aqueles que acreditam na barbárie, mas não no sentido de acreditarem que haja culturas inferiores (isso seria paradoxal, pois, como vimos, existem culturas inferiores bárbaras), e sim no sentido de acreditarem que sua própria cultura é a única forma de humanidade possível”. (WOLFF, 2004, p. 42)
Os tupi-guarani, de antes da descoberta, conseguiram realizar a es- sência do político; no entanto, o etnocentrismo dos colonizadores, presente também nos relatos dos viajantes, não permitiu que eles re- conhecessem que aquelas comunidades viviam politicamente, e que não se organizavam a partir de um Estado (poder exterior à socieda- de) simplesmente porque não tinham a necessidade dele, pois haviam
z
Thèodore de Bry – gravura do séc. XVI, sobre a barbárie dos colonizadores na América.
A vantagem de um macha- do de metal sobre um ma- chado de pedra é eviden- te demais para que nela nos detenhamos: podemos, no mesmo tempo, realizar com o primeiro talvez dez vezes mais trabalho do que com o segundo; ou então executar o mesmo trabalho num tempo dez vezes menor. E ao des- cobrirem a superioridade pro- dutiva dos machados dos ho- mens brancos, os índios os desejaram, não para produzi- rem mais no mesmo tempo, mas para produzirem a mes- ma coisa num tempo dez ve- zes mais curto. Mas foi exa- tamente o contrário que se verificou, pois, com os ma- chados metálicos, irrompe- ram no mundo primitivo dos índios, a violência, a força, o poder, impostos aos selva- gens pelos civilizados recém- chegados. (CLASTRES, A Socie- dade Contra o Estado, p. 137)
conquistado algo que estava muito distante das possibilidades da civi- lização européia: a capacidade de autogoverno.
Clastres, em A sociedade contra o estado, demonstra que as inter- pretações européias das sociedades indígenas brasileiras as definiram como sociedades privadas de bens essenciais, sempre carentes de al- guma coisa: sociedades sem escrita; sem Estado; sem mercado e sem história. Parece mais correto afirmar que a verdadeira carência estava na mentalidade etnocêntrica, dominadora e, portanto, bárbara dos in- vasores.
Clastres se opõe à idéia de que as sociedades primitivas “estariam, segundo se afirma, condenadas à economia de subsistência em razão da inferioridade tecnológica” (CLASTRES, 1978, p. 134). Os indígenas, afirma o
antropólogo, não tinham necessidade e tampouco interesse numa eco- nomia geradora de excedentes, porque a economia de mercado não fazia parte dos seus interesses e da sua existência. Em decorrência dis- so, a concepção de trabalho talhada nos moldes do capitalismo moder- no ocidental também não fazia parte do cotidiano indígena, eles des- prezavam esse tipo de trabalho, para horror dos colonizadores. Arar a terra era desagradável, mas caçar e pescar eram consideradas, por eles, atividades de lazer. O desprezo pelo que os europeus denominavam como trabalho e a opção por uma outra forma de “subsistência” não têm qualquer relação com a idéia de miserabilidade forjada pelas nar- rativas dos viajantes. A cosmologia dos indígenas e, particularmente, a sua lógica “econômica”, eram muito diferentes daquilo que os con- quistadores europeus cultivavam e impunham. Para os indígenas, viver bem trabalhando o mínimo, era importante e plenamente possível.
Clastres observa ainda que, apesar do seu desprezo pelo tipo de trabalho imposto pelos europeus, bem como a negação do sobre-tra- balho que está na base do capitalismo (ver os conteúdos do livro de Sociologia – sobre Trabalho, Produção e Classes Sociais), do seu de- sinteresse pelo chamado progresso tecnológico, os indígenas, por ve- zes, produziam bens em excesso, mas estes eram distribuídos entre os membros da comunidade política e consumidos em festas, para as quais eram convidados também membros de outras aldeias.
Os índios, efetivamente, só dedicavam pouco tempo àquilo que damos o nome de trabalho. E, apesar disso, não morriam de fome. Os cronistas da época são unânimes em descrever a bela aparência dos adultos, a boa saúde das crianças, a abundância e variedade dos recursos alimentares. Por conseguinte, a economia de subsistência é, pois, compatível com uma con- siderável limitação do tempo dedicado às atividades produtivas. Era o que se verificava com as tribos sul-americanas de agricultores, como, por exemplo, os tupis-guaranis, cuja ociosida- de irritava igualmente os franceses e os portugueses. (CLASTRES, 1998, p. 135)
Povo Kuikuro. Museu do Índio.