5. DISCUSSION
5.3 T HE DEVELOPMENTAL TRAJECTORY OF THEORY OF MIND
A unidade firme, inabalável da forma e substância na linguagem leva-a a pertencer simultaneamente à natureza e à mente. Uma vez que Aristóteles distingue claramente vários tipos de formas, em que a parte material é constituída por sons e o conteúdo do pensamento se situa na linguagem, impõe-se necessariamente tratar da lógica. Consequentemente, Coseriu constrói uma teoria semântica que na sua visão, composição e coerência se separa de todas as outras lógicas da linguagem. Sem visar
486 Idem, O homem e a sua linguagem…, p. 27.
487 Idem, “A linguagem e a compreensão da experiência do homem actual”, O homem e a sua
linguagem…, p. 48.
488 Idem, O homem e a sua linguagem..., p. 30.
489 Idem, “A linguagem e a compreensão da experiência do homem actual”, O homem e a sua
uma teoria ou outra já existentes, refere-se aos erros logicistas dos pensamentos comum e especializado:
“O erro logicista fundamental é o de considerar a linguagem como objecto de natureza
lógica, como produto do pensamento lógico.”490
Na sua leitura e interpretação dos textos do Estagirita, estabelece com toda a clareza a prioridade da linguagem em relação ao pensamento lógico, indicando que a linguagem é logos semântico, expressão significativa com um conteúdo semântico próprio no qual não existe nem verdade nem falsidade, pois estes são raciocínios elaborados que necessitam duma construção semântica complexa de afirmação ou negação sobre algo, o que Aristóteles designa por logos apofântico. Tratando a linguagem, que na sua essência é constituída por uma realidade não-lógica, como sendo lógica, torna-a em algo que não é491. O falso juízo de considerar a linguagem como lógica gera uma identidade entre o significado e o plano lógico. Do ponto de vista da finalidade considerada como o plano próprio da linguagem, este erro recai de modo igual na finalidade que pertence à essência da linguagem, na actividade linguística fora de qualquer determinação ulterior e na finalidade dum determinado acto de fala não concernente à essência da linguagem. Nos actos da fala tem-se em linha de conta finalidades determinadas que podem ser lógicas, ou de qualquer outra natureza, mantendo uma lógica própria à linguagem. A linguagem é anterior à lógica. Esta precedência não se deve interpretar como uma linearidade dedutiva e cumulativa ou um desenvolvimento linear, como certos estudiosos, que identificam a essência da linguagem com a sua instrumentalidade, reduzem-na à actividade prática. Não existe uma relação de reciprocidade entre a qualidade semântica geral e a lógica, determinação particular da linguagem. Enquanto a dimensão lógica é necessariamente semântica entendida como linguística, a semântica da língua não é sempre e essencialmente lógica. Sendo uma actividade intersubjectiva, a linguagem é uma categoria autónoma, uma forma necessária de manifestação do pensamento no seu todo: lógico, religioso, artístico, estético, político, prático, didáctico.
490 “El erro logicista fundamental es el de considerar el lenguaje como un objeto de naturaleza lógica.”
Eugenio COSERIU, “Logicismo y antilogicismo en la gramática”, Teoría del lenguaje y lingüística
general…, p. 238.
491 “Per effetto dell’incarnazione che il concetto o la logicità ha nell’espressione e nel linguaggio, il
linguaggio è tutto pieno di elementi logici; onde facilmente si è traviati all’affermazione (di cui si è già messa in chiaro l’erroneità), che il linguaggio sia opera logica.” B. CROCE, Logica come scienza del concetto puro, Bari, Laterza & Figli, 1958, p. 71.
Ao clarificar a relação entre linguagem e pensamento lógico, Coseriu tem em vista o aspecto concreto da relação entre linguagem e conceitos. A linguagem funciona como base e “mediador” necessário na criação dos conceitos na dimensão do logos semântico da linguagem492. Deste ponto de vista, inverte-se a dedução logicista:
“A linguagem não é produto do pensamento lógico, mas, pelo contrário, este baseia-se
necessariamente na linguagem”493.
As valências criativas da energueia da linguagem manifestam-se nas palavras e conceitos entendidos como “significados virtuais das palavras”494 existentes na construção do pensamento lógico interpretado como finalidade criativa, ponto de chegada e não de partida. O conceito de finalidade é fundamental no entendimento da criação vista como um arco voltaico entre linguagem e finalidades, um panorama que esgota todas as manifestações humanas.
Coseriu aponta o erro frequente de identificar as valências ou registos da actividade cerebral humana, a “logicidade” dos textos com a semanticidade da linguagem e colocar esta logicidade no sistema que pertence à língua abstracta. O resultado desta identificação consiste na atribuição de determinados significados categoriais a determinadas «formas», pretendendo que a mesma forma corresponda sempre ao mesmo significado, sem ter em linha de conta a classe morfológica, onde uma forma pode ter vários valores morfológicos. Por esta razão, alguns linguistas consideram que o “defeito” essencial da linguagem verbal seria a sua “assistematicidade”495. Na sua essência e manifestação, a língua não pode ser nem lógica nem ilógica, pois tem a ver com o entendimento e a compreensão dos significados potenciais e não reais. Assim, não existe nenhuma logicidade do sistema gramatical como geralmente se apresenta, sendo em última instância um “esquema de esquemas”496, tal como não existe uma logicidade
492 “La primera universalidad, así como las primeras distinciones necesarias para la estructuración del
pensamiento lógico, se dan, justamente, en el lenguaje y en sus categorías.” Eugenio COSERIU,
“Logicismo y antilogicismo en la gramática”, Teoría del lenguaje y lingüística general…, p. 241.
493 “No es el lenguaje producto del pensamiento lógico, sino que, al contrario, éste se basa
necesariamente en el lenguaje.” Ibídem, p. 242.
494 Ibidem.
495 Viggo BRØNDAL, Le français, langue abstraite, Copenhague, Levin & Munksgaard, 1936, Idem, Les
parties du discours, Copenhague, E. Munksgaard, 1948 ; Idem, Théorie des prépositions. Introduction à une sémantique rationnelle, Copenhague, E. Munksgaard, 1950, na sua teoria coloca o lógico no que
Coseriu chama “norma” e o valor lógico duma palavra seria constante. A referência de Coseriu visa em especial o estudo “Langage et Logique, in La Grande Encyclopédie Française, 1937 republicado in
Essais de linguistique générale, Copenhaga, 1934, pp. 49-71.
496 Eugenio COSERIU, “Logicismo y antilogicismo en la gramática”, Teoría del lenguaje y lingüística
do dicionário que está ordenado convencionalmente seguindo um sistema de procura rápida alfabeticamente. Determinados actos da fala são lógicos ou ilógicos não por causa da linguagem, mas porque contêm afirmações ou negações, referências às situações concretas de fala.
Coseriu chama a atenção para a identificação do plano lógico, entendido como semântico, com o plano ontológico, respectivamente os significados e as realidades significadas. A manifestação deste erro consiste no critério «lógico-objectivo» segundo o qual se consideram as classes morfológicas como correspondentes às “categorias da realidade”: o substantivo nomeia as “coisas”, o adjectivo “as qualidades”, o verbo “os processos” reais. As mesmas realidades são nomeadas com palavras de distintas categorias em línguas diversas ou na mesma língua.
“Não se deve confundir a realidade pensada (Wirklichkeit) com a realidade natural
(reale Wircklichkeit), e sobretudo não se deve esquecer que não é a língua que é determinada pela realidade, mas ao contrário, a realidade concebe-se mediante a língua.”497
Perante a natureza, o homem humaniza-a não como realidade exterior, objectiva na sua manifestação, mas como realidade pensada. O acto adâmico de nomear as coisas é perpétuo. Nos textos científicos ou nos discursos objectivos sobre uma determinada realidade encontramos a convicção, a crença profunda do orador que fala sobre essa mesma realidade, embora sem se dar conta que fala justamente sobre a realidade “humanizada” pela linguagem, mais exactamente sobre os designados dos significados da linguagem.
“A semanticidade é o traço constante e definitório da linguagem; mas a pura semanticidade não se dá nunca concretamente e apenas se revela pelas exigências da
investigação.”498
O anti-logicismo considera as categorias verbais como convenções ou como simples esquemas formais ligados ao “sentimento do falante”499.
“As categorias verbais não são convenções, mas realidades do falar.”500
497 “Pero no hay confundir la realidad pensada (Wirklichkeit) con la realidad natural (reale
Wirklichkeit) y, sobre todo, no hay que olvidar que no es la lengua la que se determina por la realidad, sino que, al contrario, la realidad se concibe mediante la lengua.” Ibidem, p. 245. A distinção entre
“Wirklichkeit” e “reale Wirklichkeit” foi utilizada na filosofia por Husserl, Marty, Pisani e M. Merleau-Ponty, como específica na nota de rodapé 27. Ibidem.
498 “La semanticidad es el rasgo constante y definitorio del lenguaje; pero la pura semanticidad no se da
nunca concretamente y se deslinda sólo por exigencias de la investigación.” Ibidem, p. 247.
499 Ibidem.
Estas existem independentemente da nossa decisão de definir e, por consequência, subsiste a necessidade de demonstrar a existência de cada uma, tal como a sua pressão teórica sobre a linguagem comum, mediante palavras como “sujeito”, “predicado”, “verbo, “atribuição”, “circunstâncias” e outras.
Para se entender que não se deve falar de metalinguagem como uma atitude auto-reflexiva da linguagem, Coseriu sublinha que morfologia e sintaxe não são conceitos de fala, mas esquemas pensados ulteriormente, um falar convencional sobre a fala que não é convencional. Como tal, os debates sobre metalinguagem não pertencem à linguística ou à linguagem, mas à teoria da linguística, apresentam-se como debates epistemológicos. Na semântica usual das categorias verbais, toma-se o “significar” com o simples “denotar”, o significado lexical, o que é, com o significado categorial, como é.
O discurso semântico coseriano situa-se entre o discurso dos lógicos e o dos linguistas como um discurso filosófico, não interdisciplinar.