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T EKNISK FORSKRIFT (TEK) 1997 MED VEILEDNING

4 ET FUKTSIKKERT KONSTRUKSJONSPRINSIPP FOR SKRÅ TAK

5.2 T EKNISK FORSKRIFT (TEK) 1997 MED VEILEDNING

Desde 1988, na qualidade de investigador, tenho mantido contacto frequente com acervos documentais não convencionais correlacionados com a música tradicional de Coimbra. Na posição de observador e estudioso, frequentei assiduamente as escolas da Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra e da Tuna Académica de Coimbra. Não exis- tiam nessas escolas fonotecas convencionais de suporte ao ensino-aprendizagem. Os for- madores facultavam aos formandos cassetes áudio que, por seu turno, já eram cópias de outras cassetes onde se podiam ouvir gravações parcelares de protagonistas da Canção de Coimbra109 da década de 1920, como Artur Paredes, Armando Goes, Edmundo Bettencourt,

Lucas Junot, António Menano e José Paradela de Oliveira. Observava-se assim a produção informal de um acervo sonoro, suporte imprescindível ao processo de ensino-aprendizagem e performance da Canção de Coimbra, que não era disponibilizado ao público. Esta especifi- cidade configura os colecionadores e as suas coleções como elementos incontornáveis para a conservação da identidade e estudo diacrónico da Canção de Coimbra.

109 Género artístico expressivo surgido em Coimbra, no século XIX, ancorado em performances poéticas, vocais, instrumentísticas e de animação urbana associadas ao rito da serenata festiva e de cortejamento.

Reconhecer a importância da atividade dos colecionadores e o valor configurado pelos acervos que reúnem e custodiam, significa que a universidade contemporânea tem cada vez menos complexos em admitir que há conhecimento fora dos seus muros e que a permuta entre a academia e a sociedade acrescenta valor e permite construir o conhecimento académico em moldes abertos e participados.

Partindo da minha experiência, começaria por tentar responder às seguintes questões: 1 – como se organizam os colecionadores privados e os detentores de acervos com quem contactei com mais frequência?

2 – como articular o saber e o modus faciendi dos investigadores universitários com as percepções, gostos e forma de organização dos colecionadores, no sentido de tirar o máximo proveito das relações de “boa vizinhança”?

I– Exemplos de práticas organizativas em quatro coleções

Primeiro exemplo:

Em 1988, tomei contacto com o acervo da família Louro, em Coimbra, por intermédio do seu detentor, Eduardo Mamede. Este era constituído por uma multiplicidade de discos de 78 rpm gravados entre ca. 1910-1930, abrangendo reportório lírico, registos de Reynaldo Varella anteriores a 1913 e fonogramas gravados por amadores ligados à Canção de Coimbra, como o barbeiro Flávio Rodrigues e o Dr. António Menano. Os discos estavam guardados nas pochetes de papel originais, nas imediações de um móvel de madeira da década de 1940 onde estava instalado o gira-discos eléctrico.

Não existia inventário fonográfico, embora a família soubesse indicar com rigor os títulos dos fonogramas existentes. Este acervo era completado por livros correlacionados com a cultura popular e académica de Coimbra e por diversas partituras avulsas comercializadas entre finais do século XIX e inícios do século XX. Os membros desta família cultivavam importantes relatos orais correlacionados com a temática e eram detentores de conhecimentos musicais.

A audição foi na altura acompanhada por um exercício de reprodução, que consistiu em gravar uma cassete virgem colocada num gravador portátil enquanto os discos giravam na aparelhagem. Reconheço hoje que se tratou de um exercício minimalista, de aprendiz, que não foi acompanhado pela coleta dos metadados declarados nas etiquetas das matrizes fonográficas.

Segundo exemplo:

Em 1989, tomei contacto com o acervo do bibliotecário aposentado da Biblioteca Muni- cipal de Coimbra, Sr. Armando Carneiro da Silva. Este era um reputado especialista em assuntos de cultura local e publicara, em 1955, uma obra de referência sobre as festas de despedida dos cursos da Universidade de Coimbra (As récitas do V ano), obra essa que contém abundantes e rigorosos dados sobre as composições musicais cantadas por cada um dos cursos desde a década de 1870.

Carneiro da Silva acumulara ao longo dos anos discos de 78 rpm, nomeadamente registos do Dr. António Menano. Possuía em casa uma vasta coleção de partituras de baladas de despedida de cursos académicos, que se encontravam hermeticamente encapsuladas em pochetes de plástico. Além disso, produzira um importante ficheiro de registo cronológico de acontecimentos anuais e reunira ao longo dos anos expressiva quantidade de parti- turas produzidas pelos ranchos dos bairros, no âmbito das festividades da Rainha Santa Isabel e do S. João Batista (mais informação em Correia 2007).

Não existia inventário do acervo, que se encontrava disposto em prateleiras e mesas no gabinete do domicílio do detentor. Fui autorizado a reproduzir as partituras.

Terceiro exemplo:

Entre 1989-1992, frequentei com alguma regularidade a casa do Dr. Afonso de Sousa, ad- vogado radicado em Leiria que gravara na década de 1920 para a His Master’s Voice, para a Columbia e para a Polydor, com nomes como Artur Paredes, Edmundo Bettencourt, Ar- mando Goes, Albano de Noronha e Artur de Almeida d’Eça.

O Dr. Afonso de Sousa era detentor de um acervo eclético, que me colocou no imediato problemas de acesso à informação. Logo no primeiro contato telefónico fui alertado para a existência de dois importantes equipamentos avariados, um leitor de discos de 78 rpm e um gravador de bobines de fita adquirido na década de 1950, que continha registos de ensaios com Artur Paredes em época de férias.

Na primeira deslocação a Leiria levei um leitor portátil de discos de 78 rpm emprestado, um gravador e cassetes virgens. O acervo encontrava-se acondicionado no escritório da habitação do Dr. Afonso de Sousa e em compartimentos contíguos. Era composto por livros de memórias de antigos estudantes, estudos do próprio Afonso de Sousa sobre a Canção de Coimbra, monografias, fotografias, discografia de 78 rpm, 33 rpm e 45 rpm, bobines de fita e pelo menos duas guitarras de Coimbra. Pude ouvir todos os discos que foram copiados para cassetes e registei os títulos dos fonogramas e os nomes dos instru- mentistas num caderno de apontamentos. A discografia de 78 rpm incluía Artur Paredes, Armando Goes, Artur Almeida d’Eça, Afonso de Sousa e chapas de provas de uma só face

que não tinham chegado a ser comercializadas. Foi a primeira vez que vi provas de discos de 78 rpm e registei informação sobre cachés pagos pelas editoras a artistas amadores. Não existia inventário do acervo, que se encontrava acondicionado em condições estáveis em prateleiras, gavetas e estojos (instrumentos musicais).

Quarto exemplo:

Em 1999, na sequência da publicação de um ensaio sobre o cantor e poeta Edmundo Be- ttencourt (Nunes 1999),110 fui contactado pelo colecionador Coronel José António Anjos

de Carvalho, radicado em Lisboa.

Iniciámos de imediato o estreitamento de relações através de uma intensa troca de docu- mentos e bases de dados, tendo constatado que tínhamos vindo a seguir metodologias coincidentes relativamente à organização das fontes de suporte ao estudo da Canção de Coimbra. José Anjos de Carvalho revelou ser um colecionador incomum. Reformado, dis- pondo de tempo e gosto pelo hobby, partiu de um núcleo familiar inicial de discos de 78 rpm, tendo enriquecido a coleção ao longo da década de 1990 por compra em antiquá- rios, alfarrabistas, feiras de velharias e permuta com outros colecionadores.

O acervo incluía discografia, cassetes, CD, partituras, cancioneiros e instrumentos musi- cais que utilizara na década de 1940 enquanto aluno do Liceu de Évora. O detentor guar- dava o acervo no escritório da sua casa de habitação, em Lisboa, organizado por autores, intérpretes e títulos, em armários, gavetas e mesas. Paralelamente à sua atividade de co- lecionador, José Anjos de Carvalho desenvolveu importantes atividades complementares:

a) pesquisa sistemática de dados biográficos, escrutínio de datas, de acontecimentos e de

registos fonográficos comerciais, mapeamento e cruzamento de informação registada em cancioneiros e em catálogos fonográficos;

b) recolha de testemunhos de compositores e intérpretes da Canção de Coimbra;

c) estruturação de um plano de abordagem do reportório conimbricense por grandes ti-

pologias, a saber, canções musicais estróficas, canções com duas ou mais partes musicais, canções com coro ou refrão, sonetos e lieder, composições de récitas de despedida;

d) elaboração minuciosa de inventários informáticos, sistematizados alfabeticamente, por

títulos e por autores, com descrição detalhada das séries fonográficas protagonizadas pelos intérpretes e produção crítica de metadados como título, incipit, autorias, arranjos, textos cantados, instrumentistas, abordagens fonográficas dispostas cronologicamente e indicação de erros detetados ao nível das autorias declaradas e nos textos cantados;

110 Neste ensaio problematiza-se a emergência do conceito estético e espistémico Canção de Coimbra e o papel pioneiro de Edmundo Bettencourt/Artur Paredes como ilustradores sonoros do movimento modernista conhecido por Presença.

e) apoio a investigadores universitários e a editoras como a EMI, publicação de trabalhos

e participação em eventos correlacionados (seminários, jornadas, fóruns).

Dotado de elevado sentido de organização, José Anjos de Carvalho aplicou aos bens integrados na sua coleção o método testado pela escola historiográfica metódica que se aprendia nos liceus, nas escolas militares e nas universidades através do manual

Introduction aux études historiques (1898). As bases de dados produzidas permitem uma

eficiente e rápida recuperação de informação e o cruzamento de dados por autores de músicas e de textos, títulos, séries fonográficas comercializadas por determinadas editoras e reabordagens de composições por diferentes artistas e formações.

Face ao silêncio das editoras e dos centros de investigação, a partir de março de 2005 começámos a publicar no blogue Guitarra de Coimbra os projetos de investigação mais consolidados.111

Foram editados inventários por autores ou intérpretes e dezenas de fichas de recolha e descrição de composições obtidas através de fonogramas, transmissão oral e partituras.

II– Caraterísticas predominantes nos acervos