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É preciso, ao ler esta obra de Voltaire, levar em conta que se tratava de situações envolvendo a hegemonia civil e religiosa da época. Diante disso, o que menos se priorizava era a liberdade de pensamento, e sim a submissão do indivíduo a um pensamento autoritário163 e nada indulgente.

162 Id., ibid., cap. IV.

163 Por esta visão, a de um pensamento autoritário, deve se entender a posição da Igreja Católica que se arrogava

como a única capaz de proferir a verdade sobre a vida humana. Este discurso religioso apesar de enfraquecido com a nova mentalidade iluminista continuou exercendo seu domínio sobre as pessoas. Diante da possibilidade de não mais ser o poder dominante da época, a Igreja submersa em sua visão autoritária, perseguia e torturava pessoas por suas crenças. As perseguições aos hereges, que por muito tempo foram um grande espetáculo irracional do gênero humano, destacaram-se como um dos mais vergonhosos crimes, como o próprio Voltaire afirma. Na política de Luis XIV se verifica um esforço cada vez maior em estabelecer leis antiprotestantes, éditos que em tudo desfavoreciam a liberdade religiosa. Pretendia-se com isso uma França toda católica. Acontecimentos do tipo: massacre dos protestantes na Noite de São Bartolomeu, caça aos hereges, mortes em fogueiras, torturas de pastores calvinistas em seus ministérios, e a própria morte de Jean Calas no suplício da roda, são acontecimentos que marcam características deste pensamento autoritário do mundo religioso. Acrescido a isso, deve-se considerar que por muito tempo a Igreja se limitou a perseguir, guerrear contra os hereges em querelas intermináveis, desde os primórdios do cristianismo passando pelo século XVI e continuando com tais perseguições inclusive no período da Luzes. Diz Voltaire: “Parece que o fanatismo enfurecido com os êxitos da razão se debate ainda mais fortemente a seus pés”. De tudo isso é preciso ao menos tirar uma lição:

No verbete “Tolerância” do Dicionário Filosófico, Voltaire se refere à Bolsa de Amsterdã, e também a de Londres, como um lugar de coexistências diversas, no que diz respeito a religiões e pensamentos, mostrando que o interesse que unia as pessoas era um único, o interesse financeiro e econômico de uma nação. Porém, para que este objeto comum fosse garantido a todos, se fazia necessária a tolerância como o único critério essencial para uma convivência pacifica entre tais diferenças.

Nota-se que o exemplo atribuído da Bolsa de Amsterdã se constitui como símbolo também de liberdade de pensamento e consequentemente liberdade religiosa, pois o interesse comum era sempre um mesmo, o bem da nação e seu progresso. O exemplo que cita a respeito das trinta religiões diferentes164 neste mesmo verbete, era um apelo que fazia a favor da liberdade religiosa,165 pois, se a religião não promovia tal liberdade, então a razão precisava fazê-lo.

A liberdade religiosa que Voltaire encontra na Inglaterra o faz automaticamente estabelecer uma comparação com a situação religiosa na França. Enquanto Paris e as províncias da França respiravam uma sutil e camuflada perseguição religiosa, na Inglaterra incentivava-se a livre expressão religiosa como fruto de um pensamento esclarecido que

enquanto as pessoas inocentes, ou não, morriam na mais espessa barbárie, era a estagnação do progresso que se fazia sentir.

164 Essa diversidade religiosa que encanta num primeiro momento Voltaire se referia ao ambiente cultural da

Inglaterra. Não é indevidamente que a expressão ilha da razão se faz presente na reflexão de Voltaire quando se refere à Inglaterra. A curiosa expressão de Voltaire, em suas Cartas Filosóficas (2007, p. 54), “um inglês vai para o céu pelo caminho que bem lhe aprouver” define um pouco do desejo de Voltaire em que a França imitasse tal exemplo. Enquanto a Inglaterra promovia a liberdade de pensamento e consequentemente religiosa às pessoas, na França a situação era oposta, pois não era a razão que direcionava a vida das pessoas religiosas, mais o fanatismo e as superstições. De tudo isso, o que na França se destaca não é o progresso científico e o bem da nação, mas a intolerância do pensamento religioso.

165 Na “Carta I” sobre os quacres, nas Cartas Filosóficas, Voltaire dialoga profundamente sobre tal seita que em

quase tudo parece se colocar longe de todo fanatismo e superstição religiosa. Segundo Voltaire, se tratavam de homens sábios que cultivavam a paz de espírito, e o mais importante, eram livres em sua consciência religiosa. Ridicularizados pelos anglicanos com o nome de quakers (os tremedores), eles se consideravam cristãos, pois entendiam que Jesus Cristo fora o primeiro quacre que existiu. Os quacres acreditavam que sua religião havia sido corrompida no processo histórico, porém isso não mudara em nada a dignidade em afirmar que tal religião fora divinamente inspirada. Sobre essa religião vale a pena destacar aquilo que Voltaire vem longamente discutindo como ponto essencial de seu pensamento: a paz religiosa, a liberdade religiosa e a ojeriza total pelo fanatismo religioso. Sobre a paz religiosa, Voltaire destaca inclusive o aspecto da não perseguição religiosa que cultivavam: “Nunca iam às guerras, nem pegavam em armas contra seus irmãos de religião diferente; não eram batizados segundo os costumes cristãos e, no entanto, consideravam-se cristãos”. VOLTAIRE, op. cit., 2007.

dominava as paixões e o fanatismo. Essa liberdade religiosa garantida pelo Estado impunha logicamente algumas restrições em relação às religiões, sobretudo no que diz respeito às funções do Estado e as da Igreja.

Na França, a situação dos protestantes calvinistas era a pior possível, sobretudo na gestão de reis católicos, pois estes tinham sua liberdade de expressão religiosa censurada ao máximo pela religião dominante.

Na Inglaterra os anglicanos166 por serem dissidentes do catolicismo não enfrentavam

tamanhas restrições como os calvinistas na França; a situação era bastante diferente e a paz lhes era garantida.

Essa diferença entre a França e a Inglaterra constatada por Voltaire, no que se refere à paz religiosa e a liberdade de pensamento, faz dele ainda mais um campeão na luta pela

166 Na “Carta V”das Cartas Filosóficas, sobre a religião anglicana, Voltaire mostra como muitas vezes uma

religião conduz as leis de um Estado a seu próprio favor. Na Inglaterra e na Irlanda, os cargos públicos eram distribuídos em favor dos adeptos desta religião. Isso lembra um pouco da política religiosa na França onde aos protestantes eram negados alguns empregos públicos e consequentemente muitas outras restrições como a não validade de seus casamentos, o não reconhecimento e legitimidade dos filhos, a recusa em alguns casos de sepultura. Voltaire analisa longamente nas Cartas Filosóficas a cultura inglesa que em tudo parece prezar pela liberdade de pensamento e religiosa entre as seitas que ali existem. Era notável, por exemplo, que perseguições contra pessoas por causa de suas crenças não se faziam presentes na vida de um inglês. O interesse naquela sociedade era o respeito às leis e a liberdade como livre expressão de pensamento. A respeito desta liberdade Voltaire lembra que enquanto as guerras na França e na Europa somente produziram a escravidão do gênero humano, na Inglaterra, o fruto das guerras foi a liberdade do homem. Em contrapartida pode se verificar que, enquanto Voltaire elogia o avanço de progresso presente na sociedade inglesa, ele automaticamente critica a estagnação da França, pois enquanto os ingleses viviam a tolerância religiosa, a França católica e calvinista investia nas querelas religiosas. O contato com a cultura inglesa faz Voltaire refinar ainda melhor suas ideias sobre liberdade e tolerância. Pensadores como John Locke, por exemplo, influenciaram Voltaire a respeito das ideias sobre tolerância religiosa. Voltaire não somente herdou de Locke ideias fundamentais para seu conceito de tolerância como também era em si mesmo um pensador inclinado ao liberalismo racional. Foi um livre pensador, um crítico absoluto de seu tempo, um impositor enérgico de suas ideias, mas todas elas em favor de seu brilho pessoal e ao mesmo tempo, por uma nova sociedade pensante. Voltaire acreditou na emancipação do homem em sociedade por meio de uma atividade essencialmente racional, pois naquele momento, as instituições da França, como a Igreja, por exemplo, não possibilitavam uma expansão do pensamento humano no sentido do progresso social e da libertação do homem. É contra a manipulação desumana do clero e dos reis que Voltaire se choca na tentativa de estabelecer uma nova ordem social e no desejo em destronar tais hierarquias, religiosa e civil. É justamente com a intenção de substituir o pensamento religioso da época que Voltaire se empenha em lutar, utilizando-se de seus escritos, sobretudo para criticar a intolerância dos religiosos fanáticos. A França naquele momento, devido às infâmias que a assolavam, representava para Voltaire um país atrasado em relação à Inglaterra. Era preciso não somente novas leis que possibilitassem o fim da ignorância, mas também uma reforma necessária do pensamento religioso, pois era este a origem de tantos males. Era preciso, sobretudo que a liberdade de pensamento garantida aos homens fosse um resultado da campanha da luzes empreendida por Voltaire.

tolerância. Essa tolerância não honraria a si mesma, mas serviria de um caminho para um projeto ainda maior que era o de uma civilização universal.

A constituição de uma civilização que fosse a configuração da nova sociedade livre e pensante era o projeto das Luzes, projeto que se referia à emancipação do homem167 em sociedade, e a filosofia seria um instrumento neste desenvolvimento.

E John Gray em seu livro Voltaire e o Iluminismo esclarece: “O iluminismo só pode ser compreendido no contexto do credo que desejava aniquilar”.168

167 Esta emancipação humana é a necessidade sempre urgente de se colocar fim a todas as superstições de ordem

religiosa que não esclarecem as pessoas, mas ao contrário, deixam-nas submissas e não esclarecidas diante da vida. A emancipação, além do fim destas infâmias que cegam o espírito do homem e o impedem de pensar de forma racional, pretende o aumento da riqueza material da vida humana, o aumento do saber e o progresso das ciências.

O século XVIII se caracterizou como um momento histórico fundamental do homem em busca de sua autonomia política, de sua liberdade diante de si mesmo e da nação. Por autonomia também devemos conceber, num momento em que se preparava uma verdadeira revolução no espírito dos homens, o ser humano que se viu na necessidade de se posicionar de maneira participativa diante de questões169 que já não tinham mais razão de existir e que em tudo precisavam ser combatidas.

Esse século denominado também como ilustrado fora marcado por uma geração de filósofos moralistas, cujo principal objetivo era construir na sociedade uma nova moral. Nas palavras de Paul Hazard se encontra a seguinte afirmação: “Tratava-se de fazer uma moral que fosse iluminada pelas luzes”.170

O movimento iluminista tinha por finalidade instaurar na sociedade um novo olhar onde a razão humana fosse a base disso. Sendo, no período medieval, a religião a orientadora171 da vida dos homens, agora, portanto serão as Luzes que devem substituir a antiga ideia de Deus, em face da autonomia racional. Devemos notar que todo discurso teológico,172 que afinal de contas tinha seu peso e sua importância para a mentalidade da

169 Devemos compreender que a campanha panfletária de Voltaire levou muitas pessoas da sociedade seja de

Toulouse ou de Paris a refletirem sobre os atos de desumanidade que o povo, seduzido por um pensamento religioso, praticava. É preciso também perceber que por meio da lenta, porém infalível conscientização liderada por Voltaire, muitas pessoas de Toulouse exigem também que os magistrados de Toulouse reparem o crime que cometeu contra a família Calas.

170 Hazard, Paul. O pensamento europeu no século XVIII. Op. Cit. P. 156.

171 Mesmo após o período medieval, ainda por muito tempo se encontrará na sociedade uma mentalidade

climatizada pelas ideologias medievais. O período iluminista deseja romper com essas estruturas para que o pensamento religioso não mais manipule a vida dos homens e sim que eles se deixem guiar pela razão.

172 O discurso teológico medieval era unilateral e paradigmático, ou seja, não era permitida uma concepção de

vida mais ampla que envolvesse, por exemplo, a experiência cientifica como método na descoberta de outras verdades. A única verdade imutável da qual se podia afirmar alguma coisa era sobre a existência de Deus. O século XVI deixou profundas marcas na vida cristã; um novo cisma é provocado e inevitavelmente separa o cristianismo em dois grandes grupos, católicos e protestantes. Sabe-se que desde os primeiros séculos da Igreja cristã, as insurreições e disputas por dogmas religiosos já se faziam sentir. Tais guerras não permitiam em nada a

época, foi enfraquecido e, em parte, absolutamente substituído pela força do discurso da razão.

A ortodoxia do pensamento religioso cristão não fora capaz de perceber as atrocidades cometidas em nome da religião. Voltaire critica essa forma de pensar que se constituía de um modelo inflexível incapaz de abrir-se aos apelos da razão que em tudo pretendia o progresso da humanidade.

Voltaire era deísta e suas ideias sobre religião foram vagas e imprecisas, pois se vê que seu interesse principal não era a reforma da religião, mas a reforma das ideias sobre religião que por muitas vezes comprometiam o bem da sociedade. O que, portanto, ajudará o homem como um ser mais racional do que religioso será em tudo a razão.

Por meio da razão o homem de criatura passa a ser criador e estruturador de sua vida; cada um se torna o centro do universo, pois nesse novo modelo de vida o homem se descobre como um criador, um manipulador da natureza; enfim a previsibilidade da vida concentra-se em mãos humanas, pois por meio do conhecimento científico tudo devia se tornar possível. Já no século XVII, Francis Bacon escrevia sua obra Novum Scientiarum Organum, que possibilitaria a aquisição do conhecimento científico por meio da experiência.

A sociedade, para Voltaire, deveria ser um organismo essencialmente político no qual, ao lado da tolerância religiosa e civil, existisse uma hierarquia e uma disciplina. Por isso, é convincente que para Voltaire era intragável a ideia de uma desordem social em que a intolerância fosse a força motriz. Ele era consciente de que os cristãos não dignificavam a religião; na maioria das vezes estavam mais aptos a praticarem a crueldade do que a benevolência com seus irmãos da mesma ou de outra religião. No Tratado Sobre a Tolerância, ele afirma: “Esse povo é supersticioso e violento; vê como monstros seus irmãos

possibilidade de uma reconciliação entre os cristãos. Por isso, nota-se que a intolerância religiosa entre os cristãos tem sua origem no discurso religioso que se arrogava no direito de estabelecer a verdade para tudo.

que são da mesma religião que ele”.173 Voltaire mostra com indignação um ódio pelo comportamento intolerante de católicos que reagiam contra seus irmãos calvinistas.

Por ódio implacável devemos compreender também que Voltaire estava rejeitando aquele modelo social dominado por um pensamento religioso anacrônico e inviável para a formação de uma nova sociedade. A impertinência infinita de suas críticas se direciona quase sempre contra as autoridades da religião. São os bispos e padres que em primeiro lugar alimentam em seus fiéis a intolerância. Muitas dessas autoridades, segundo Voltaire, não eram capazes de formar bem seu povo e ensinar-lhes o verdadeiro caminho que deveria levá-los à indulgência dos corações.

Quando nos deparamos com a época de Voltaire logo vamos perceber um divisor de águas bastante evidente, pois uma sociedade com sérias transformações estava se dando paulatinamente. Voltaire é figura essencial no tempo das Luzes que provoca uma mudança lenta, porém infalível na mentalidade do século XVIII.

O essencial do pensamento de Voltaire reside em sua capacidade incomum de estar e muito além de sua época. Foi um liberal quanto à forma de pensar a religião e um inconformista com a ignorância que dominava o povo. Utilizava-se da ironia e do sarcasmo para criticar os reis e príncipes, padres e bispos partidários de um modelo social tradicional incapaz de responder aos anseios da nova sociedade pensada por ele. Sua educação religiosa174 de berço familiar não fora capaz de domar seu espírito e impedi-lo de gritar pela liberdade de sua nação e de seu povo em favor da tolerância e da liberdade religiosa.

René Pomeau afirma na Introdução do Tratado Sobre a Tolerância que Voltaire desde sua juventude conhecera de perto o clima tenso da intolerância religiosa. Disputas essas por dogmas religiosos entre católicos e calvinistas. O ódio provindo das competições religiosas precisava ser domado e certamente não estava no pensamento religioso esta resposta. A

173 VOLTAIRE, op. cit., 2000, cap. I, p, 19.

174 Voltaire estudou no colégio dos jesuítas, Luís-Le-Grand. O desejo de seu pai era o de que seguisse a carreira

proposta de Voltaire é a de que cada cidadão vença sua ignorância de pensamento e abra-se para o mundo do conhecimento racional, onde a liberdade religiosa e de pensamento são possíveis.

Falar em liberdade religiosa no contexto de Voltaire é se colocar contra as estruturas hierárquicas daquele tempo. O domínio do pensamento religioso não estava disposto em momento algum a afastar-se de sua estrutura ortodoxa.

A conscientização proposta pela filosofia das Luzes era a de uma formação que restaurasse no indivíduo sua capacidade de pensar, pois o que percebemos ainda neste momento era uma regressão no que diz respeito ao comportamento desses indivíduos. Desses povos dominados pela religião é possível observar que o fanatismo que praticavam era solução e resposta contra todo tipo de possíveis tentativas de liberdade religiosa. Isso podemos notar, por exemplo, no capítulo II do Tratado Sobre a Tolerância quando Voltaire se refere aos católicos Penitentes Brancos que veem seus irmãos calvinistas como monstros e inimigos implacáveis.

Na concepção de Voltaire era preciso urgentemente solucionar os problemas de religião que se reduziam basicamente entre o fanatismo e o ateísmo. Um ateu175 constituiria segundo Voltaire um enorme retrocesso para a sociedade desenvolvida racionalmente falando, pois acreditar demasiadamente em Deus pode desembocar no fanatismo, porém não acreditar também pode comprometer o processo do desenvolvimento social. Devemos portanto entender que, quando Voltaire rejeita o ateísmo, ele não quer com isso propor que a sociedade iluminista seja construída com base na religião ou na fé religiosa dos indivíduos; sabemos que para Voltaire a religião não passa de um simples detalhe, útil para o populacho.

175 Segundo Voltaire um ateu pode ser tão perigoso quanto um fanático, por isso nem um nem outro devem ser

admitidos no modelo de sociedade ilustrada. Voltaire acredita que o ateu comprometeria as bases da nova sociedade, pois seria tão violento quanto um fanático, e isso, deveria em tudo ser evitado.

Para os cristãos a ideia de Deus é fundamental na construção de uma nova sociedade.176 Para Voltaire, Deus se revela unicamente à razão humana. Quando olhava para o

modo de vida dos cristãos vivendo de perseguições e competições geradoras de guerras religiosas, não podia compreender o porquê desses terríveis males que por vezes produziam aquilo que ele tanto combatia: o fanatismo e a intolerância. Se os cristãos deveriam em tudo viver a paz e não a guerra, pois Jesus Cristo confirma isso no Evangelho,177 então por que haver tantos males cultivados pelos cristãos? Afinal, onde estava a origem do mal: em Deus ou nos homens?

Voltaire em seu “Poema Sobre o Desastre de Lisboa”,178 escrito em 1755, questiona a benevolência divina. É evidente que sua crítica nesse poema se dirige principalmente aos

176 Como seguidores de Cristo, os cristãos se propõem a trabalhar socialmente para que os valores do Evangelho

sejam disseminados no mundo em que vivem. Tais valores obviamente não admitem que a intolerância e o fanatismo sufoquem a ética evangélica, pois Cristo veio pregar a paz e a indulgência nos corações e nunca a guerra. A divisão do cristianismo entre católicos e protestantes se deve unicamente aos cristãos e nunca a Cristo.

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