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Systemteori og kompleksitet

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3. Teori

3.6. Systemteori og kompleksitet

Uma questão curiosa aparece em seguida no discurso de Dworkin e é interessante voltarmos a nossa atenção para ela agora, pois ela poderá ser de grande valia, quiçá um

insight elucidativo sobre problemas de linguagem e sentimentos envolvidos nos nossos

modos de comunicação. Dworkin diz ludicamente:

Eu não sei o que significa dizer que significados estão “organizados e expostos” ou “simplesmente lá” ou “auto-executáveis”. Isso significa que se nós aproximarmos de um livro uma afiada faca e carvar o papel e a tinta nós iremos achar algo a mais restante sobre a mesa? Ou que qualquer um que ler o livro sob uma boa perspectiva irá concordar sobre o seu gênero ou tema ou propósito? Ou que pessoas que tiverem conclusões erradas sobre textos irão ser punidas, talvez ao serem negadas ternura? Se sim, então nós podemos ser confiantes que intérpretes ordinários, que acreditam no quadro certo-errado, não pensam que significados estão ‘simplesmente lá’ e tudo o mais relacionado a isso.97

96 Ou seja, enquanto Fish entende as constrições como estrutural e condições para a própria compreensão do

que se expressa e comunica, Dworkin entende-as como parte da teoria e do convencimento utilizado pelas diferentes escolas em um debate. Novamente, temos, respectivamente, ponto de vista externo e interno.

97“I do not know what it means to say that meanings are ‘already in place’ or ‘just there’ or ‘self-executing.’

Does it mean that if we take a very sharp scalpel to a book and carve away the paper and ink we will find something else left on the table? Or that everyone who reads the book in a good light will agree about its genre or theme or point? Or that people who reach the wrong conclusions about texts will be punished, perhaps by being denied tenure? If so, then we can be confident that ordinary interpreters, who hold the right- wrong picture, do not think that meanings are ‘just there,’ and so on.” DWORKIN in MITCHELL (1983: 292)

É preciso tomar cuidado, pois as hipóteses irônico-provocadoras de Dworkin podem distorcer a discussão tanto quanto as metáforas, também provocadoras, de Fish criticadas pelo próprio Dworkin. As expressões “already in place”, “just there” e “self- executing” ou outras expressões como “isso é evidente”, “isso é óbvio no texto” ou “você não enxerga? Isso está diante dos seus olhos”, “você está distorcendo o texto” etc., podem significar – e de fato significam – o modo como as pessoas estão encarando o debate e todos nós já passamos por esses momentos e escutamos essas frases, dentre outras.

Quando Fish nos atenta para o uso dessas expressões, ele está preocupado com os intérpretes que se deixam levar pelas suas próprias convicções e se fecham para o outro, para opiniões contrárias. Porém, Fish não está incomodado com o mero fato de alguém discordar do outro, fechando-se para opiniões alheias. O que o incomoda é a justificativa oferecida para tal comportamento. A crítica de Fish é, pois, voltada para pessoas que tentam justificar a refutação de opiniões diferentes simplesmente pela alegação de que as suas opiniões são menos “interpretativas” ou “inventivas” ou “subjetivas” do que outras, ou seja, por supostamente as suas opiniões estarem “obviamente e gritantemente quase que saindo do texto de tão claras que lá estão”.

Deste modo, a crítica de Fish é para o não reconhecimento que também essas opiniões são construções, são interpretações, as quais precisam de bons argumentos e não de dedos apontando para fatos brutos presentes no texto. E não basta, para Fish, que tais pessoas simplesmente digam, quando encurraladas, estarem “receptivas a outras interpretações, mas que, apesar disso, agem contrariamente”. Trata-se de sentimentos e postura no mundo. Ou seja, não basta se alegar algo e praticar o contrário, pois a opinião das pessoas sobre as suas próprias opiniões é só a primeira interpretação possível, a qual, como já vimos, não possui um patamar privilegiado.

Uma situação é realizarmos uma pergunta direta para uma pessoa e ela responder “não, é claro que não penso isso”. Outra situação é percebermos como ela se altera e age em uma discussão na prática. Seria o mesmo que perguntar para alguém “Você tem preconceito contra negros?”. Dificilmente alguém afirmaria abertamente “Sim, devo reconhecer que eu tenho. É algo que realmente preciso mudar, mas eu tenho sim e muito!” Ora, o argumento irônico de Dworkin de que a maioria dos intérpretes ordinários não se encaram do modo como Fish os pinta em nada altera o fato deles poderem ser, sim, do modo como Fish os pinta. Esse fato pode não somente não mostrar que Fish está errado, mas pode mostrar que a maioria das pessoas não possui uma boa auto-percepção.

E sendo Dworkin preocupado com a prática social, ele deveria também se preocupar com os sentimentos e atitudes que normalmente acompanham ou, pelo menos, que podem acompanhar os termos “objetividade”, “certeza absoluta”, “realidade”, “descobrir”, “distorções”, “alterar o texto” etc. Ou seja, por mais que Dworkin goste de pensar que isso são somente modos de falar que não se pretendem alçar para as posições criticadas pelos céticos, em um campo externo, é preciso convir que esse tipo de postura e expressões frequentemente podem vir acompanhadas com negativas de razão e sensibilidade para se ouvir o discurso do outro, de forma que elas podem ser, sim, prejudiciais justamente pelo modo com as usamos e como a compreendemos em nossa prática social.

O que estou pretendendo suscitar aqui é: algumas pessoas possuem algumas postura tão fixa quando se valem de determinadas expressões, em especial as supra-citadas, que elas parecem trespassar o campo o interno de discussão que elas estão e caírem em um campo externo, no que elas sentem, sim, que estão em algum patamar superior e que qualquer pessoa que possuir uma interpretação diferença é um ignorante que não consegue “enxergar o que o texto nos mostra”.

Isso não quer dizer que expressões do tipo “tudo é subjetivo”, “não há verdade”, “tudo é igualmente correto” também não sejam prejudiciais. Sim, elas o são, por penderem para o outro lado da questão. E, se indagarmos a boa parte dos críticos que gostam de utilizar tais expressões, eles não irão negar que existe um texto ou palavras ou uma obra de arte com a qual eles deverão trabalhar para interpretar. Porém, a negativa deles pode vir a ser tamanha no campo externo que ela tende a trespassar para o campo interno, podendo acabar por minar qualquer tentativa de desenvolver uma interpretação melhor do que outra, vez que o seu ceticismo pode os ter transformados em estátuas98 ou em prolíficos lançadores de diversas interpretações, retirando-lhes a responsabilidade por quaisquer opinião que venham a defender. Ou seja, podem se valer do seu ceticismo como uma fuga de responsabilidade interpretativa e moral.

O ponto aqui é: a maioria dos posicionamentos presente tanto no objetivismo quanto no subjetivismo99 não parece estar tomando nenhuma postura muito radical quando inquirida com perguntas diretas. Os objetivistas reconhecem diferentes opiniões e modos

98 Digo estátuas, pois podem se sentar paralisados para expressar quaisquer opinião sobre o texto, vez que

“não fará diferença”, já que tudo seria igual.

99 Uso esses termos em lato sensu, assim como Fish e Dworkin o fazem. No mais, o “objetivista” e o

“subjetivista” não parecem existir em moldes tão puros quanto alguns críticos os pintam, sendo tais adjetivos tão somente úteis para apresentarmos didaticamente uma característica e nos posicionar a favor ou contra ela, vez que elas deveras aparecem em diversas formas.

de se olhar para um texto; e os subjetivistas reconhecem que, no fundo, há um texto ao qual tem que se reportar.

Por que, todavia, engalfinham-se tanto? Creio que o modo como determinações expressões, algumas elencadas acima, são utilizadas durante um debate em um capo interno não se dá em um sentido tão fraco quanto Dworkin gostaria de pensar100. As posturas foram ficando tão duras ao longo das discussões e enervadas durante antigas rixas que essas expressões, as quais, em tese, poderiam servir tão somente para reafirmarmos ou reforçamos nossa posição, acabam por serem tomadas de postura firmes e excludentes. E é para isso que Fish pretende nos alertar. Seria como se ele nos dissesse: “É claro se formularmos uma pergunta sobre a existência de alguma entidade mágica dentro do texto ou sobre o texto se construir tão somente na imaginação das pessoas, ninguém iria assumir essa descrição um tanto quanto lúdica. Porém, dentro de uma discussão acadêmica é exatamente assim que alguns intérpretes se portam e se sentem ao interpretarem.” Trata-se daquilo que Nietzsche já nos alerta sobre as metáforas de metáforas que vão, com o passar do tempo, tornando-se verdades e certezas das quais não lembramos mais a causa que as originou, sendo tão somente um sentimento acumulado em nosso corpo, em nosso modo de agir101. E o propósito desta dissertação é justamente utilizarmos a desenvoltura deste debate para melhor compreendermos o modo como interpretamos e nos comunicando, com a finalidade de, após esta melhor visão, conseguirmos modificar a nossa ação no mundo.

É necessário, pois, pensarmos quiçá em um novo modo de conversarmos e, portanto, em uma nova linguagem, que já existe em parte, mas que não está sendo usada por estarmos demasiadamente presos a determinadas expressões e modos de narrar o mundo e conduzirmos as nossas discussões. Todavia, este não é o escopo imediato deste debate analisado entre ambos os autores. Porém, como pretendo ter mostrado, ao aprofundarmos nas críticas de Dworkin e Fish parece que caminhamos para essa necessidade de melhoramento da nossa postura interpretativa, a qual está diretamente vinculada com nossa postura existencial-moral no mundo. Voltaremos para essas questões mais ao final desta dissertação.

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