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DP systems introduction

Chapter 1 Deepwater floating structures’ station keeping systems

2.1 DP systems introduction

O vento assobiando nas gruas (2007), oitavo romance de Lídia Jorge, tem como

pano de fundo a decadência financeira e moral de uma família tradicional portuguesa, os Leandro, versus uma família de imigrantes cabo-verdianos, os Mata. Veem-se os portugueses tentando manter o domínio político e tradicional da família, enquanto os cabo-verdianos tentam se equilibrar no solo salgado e deslizante de Valmares, na tentativa angustiante de se firmarem naquele mundo hostil. Dessa forma, todo o enredo do romance se desenvolve em torno da história de amor de Milene Leandro, representante da família portuguesa, e Antonino da Mata, imigrante cabo-verdiano.

Com 493 páginas, O vento assobiando nas gruas tem 24 capítulos, divididos em t s pa tes: Ce i ia , O li o de Mile e e O e to asso ia do as g uas , ue um Post Scriptum feito depois que a história é literalmente encerrada com a palavra FIM. Quanto ao capítulos, cada um é dedicado a um personagem ou a um grupo de personagens; o que promove uma maior compreensão desse romance, tão denso, e torna o texto de certa maneira didático.

Destas pa tes, a e o Ce i ia , ue a e a a ati a a u ia do a o te misteriosa e o enterro solitário da matriarca portuguesa Regina Leandro. Embora esta parte do romance seja dedicada à cerimônia de enterro da matriarca dos Leandro, o destaque do texto fica por conta da personagem Milene Leandro, neta da falecida, que passa todo tempo imaginando como ocorreu a morte, o porquê, e como vai contar para os tios ausentes sobre o acontecido.

Regina Leandro já figurou em Valmares como uma das pessoas mais importantes da região. No entanto, quando morre, agora decadente, todos os filhos vivos estão de férias, e longe de Portugal. Neste sentido, seu enterro conta apenas com a presença da neta Milene, o que causa espanto e falatórios aos moradores de Valmares, até porque

seu genro Rui Ludovice, esposo da filha Ana Margarida, é o representante eleito pelo povo para presidir a câmara Municipal da cidade.

Essa primeira parte do romance também define todo o perfil da família Leandro e a situação de Milene dentro daquele contexto. Começa por exaltar o poder do casal Rui Ludovice e Ângela Margarida, que tem como slogan de ca pa ha Outros só Fazem

Gestos, Nós So os a A ç o (JORGE, p. 19). A menção desse slogan de campanha

política e de ideologia de vida do casal é de extrema importância no texto, uma vez que, no final do romance, a ação de Ana Margarida vai ser decisiva para a vida de Milene. Dessa forma, o slogan de campanha política transpõe-se de uma opção de marketing político a uma posição ideológica de vida cotidiana, se estendendo do público ao privado.

A segu da pa te do o a e e a ais ele a te, O li o de Mile e , o upa uase 400 páginas e aborda a personagem principal Milene Leandro. Descreve sua solidão e sua relação com o mundo onde vive. Também mostra o desejo platônico da moça para com o primo João Paulo, a quem Milene conta todos os acontecimentos de sua vida, tendo-o como sua referência de mundo, seu único interlocutor até a morte da avó. Ainda nessa parte do romance é mostrado o grande amor de Milene por Antonino da Mata, além de todos os percalços que o casal tem que enfrentar para a realização amorosa. E a te ei a e últi a pa te, O e to asso ia do as g uas , u Post

Scriptum que narra, no presente e na primeira pessoa, diferentemente das duas partes

anteriores que, são narradas na terceira pessoa e no passado, o casamento de Milene com Antonino da Mata. Isso ocorre dois anos depois do início de seu relacionamento amoroso.

A narradora de O vento assobiando nas gruas, se posiciona de várias maneiras dentro do romance, narra a história no passado, ou seja, todo o acontecimento sobre a vida de Milene até o casamento fazem parte do passado; mas, também, narra no presente, já que no momento do casamento a narradora se coloca em primeira pessoa e presente no cenário do acontecimento. Desta maneira, a narração de O vento

assobiando nas gruas pode ser inserida dentro do que Norman Friedman classificou de

o is i ia seleti a últipla , esse tipo de a aç o pe itida u a o posiç o de di e sos gulos de is o , p. , e o a o o a e e uest o p io ize a protagonista Milene Leandro. No entanto, há ainda em O vento assobiando nas gruas

out o tipo de a aç o, ue o Eu o o teste u ha . Nessa atego ia o a ado - testemunha é um personagem em seu próprio direito dentro da história, mais ou menos envolvido na ação, mais ou menos familiarizado com os personagens principais que fala ao leito a p i ei a pessoa (FRIEDMAN, 2002, p. 175 - 176). Essa segunda categoria de narrador vai aparecer, especificamente, no final do romance quando a narradora se apresenta como sendo Lavínia Leandro, prima de Milene. Isso justifica porque a todo tempo o leitor vem tendo pistas, durante a narrativa, de que o narrador tem grande conhecimento sobre a vida da protagonista. Vê-se que a narradora, embora refira-se a todos os acontecimentos, seu domínio da história é perceptível quando se trata da vida de Milene e da família Leandro de um modo geral, família da qual ela faz parte. Entretanto, somente na última parte do romance, a narradora muda a voz da terceira para a primeira pessoa, se revelando. Passam-se dois anos e ela se posiciona no presente da narrativa, observando in loco e o ta do o teat o do asa e to de Mile e o Antonino da Mata. As pistas sobre a vida de Milene que são postas ao longo da narrativa, bem como a finalização da história, informam ao leitor que, no momento do desenrolar do texto, a narradora estava contando uma história já passada:

João Paulo costumava dizer que a liberdade estava em nós próprios, mas o destino, esse, encontrava-se nas circunstâncias, e nós, ignorantes, é que imaginávamos um deus. Rainhas quase absolutas das nossas vidas, as circunstâncias. Nesse caso, absolutas mesmo, se tivermos em conta os dias de Milene, que só seriam conhecidos dois

anos depois (JORGE, 2007, p. 156).

[...]

Saberíamos dois anos mais tarde (JORGE, 2007, p. 186). [...]

Estava decidido, Milene, a nossa prima Milene, tinha posto gasolina no carro, verificado a pressão dos pneus, lavado ela mesma os vidros, e saltado para seu lugar [...] (JORGE, 2007, p. 192), (Grifos nossos).

O tempo cronológico do romance é muito bem marcado. Sempre aparecem datas e referências a períodos históricos e culturais, bem como datas relativas ao cotidiano dos personagens. A morte de Regina Leandro, que é o início da história, é registrada na noite de 14 para 15 de agosto de 1994. O encontro de Milene Leandro com os Mata ocorre no dia 18 agosto, e a duração da história é de dois anos. Da morte da

matriarca portuguesa ao casamento de Milene, que ocorre em março, na páscoa de 1996, passam-se dois anos.

O romance inicia quando a avó de Milene foge de uma ambulância, no momento em que era conduzida de volta do hospital para casa, e vai morrer misteriosamente na porta da fábrica de conservas da família, então desativada. Nesse período, somente Milene se encontrava em Valmares. Assim, depois do enterro, desnorteada, Milene vai até a fábrica para tentar entender o caminho que a avó havia feito antes de morrer. Chegando à fábrica, a moça, muito cansada, se sente segura ficando ali e se escondendo do mundo, até ser encontrada pela família dos Mata. Estes eram cabo-verdianos, e, há alguns anos, ocupavam a fábrica como moradores, com o consentimento da proprietária do espaço. A partir de então toda a história se desenrola em função da morte de Regina Leandro e do encontro de Milene Leandro com a família Mata. Iniciam-se assim as questões conflituosas de ordem sociocultural, entre o colonizador e o colonizado, como acentuou Talita da Rocha Pessôa Rezende Papoula:

O vento assobiando nas gruas é exemplo de metaficção historiográfica

que recupera vários aspectos da realidade portuguesa contemporânea: o desengano pós-revolucionário, os movimentos de migração, a marginalização, a herança colonialista, o confronto de culturas, a hierarquia sócio-cultural, os conflitos ent e e t o e

pe ife ia , p. .

Nesse contexto, o romance O vento assobiando nas gruas mostra as incompletudes culturais, amorosas e a busca constante do outro por um lugar, ou por um outro que possa preencher seus vazios. Além de expor o conflito exterior das famílias Leandro e Mata, em busca de seu lugar em um novo mundo que se apresenta, expulsando toda uma tradição, representada pela cidade de Valmares e suas muitas edificações em construção, o romance também sublinha as questões referentes à guerra colonial e seus reflexos nos personagens. Mas, sobretudo, vê-se em O vento assobiando

nas gruas a abordagem da vida interior, das dores da alma e dos conflitos de Milene

Leandro, uma pessoa sensível e ingênua no seio de uma família portuguesa tradicional e decadente, e seu envolvimento amoroso com um negro e imigrante africano. Com título um tanto insólito, mas de forte teor poético, o romance O vento assobiando nas

gruas, narra a sordidez de uma modernidade excludente e hipócrita, resultante de um

mundo globalizado que caminha a passos largos para o individualismo humano.