O edifício Paulino Chaves Barcellos, localizado à rua Mal. Floriano nº 72, próximo a rua dos Andradas, foi concebido a partir de um programa misto – comercial, serviço e residencial – distribuindo-se em três lojas e um restaurante no pavimento térreo, e um conjunto de apartamentos nos demais pavimentos, em um total de quatro por andar. Os apartamentos de frente possuem três dormitórios e os de fundos dois. Vale lembrar que o escritório da firma Macchiavello & Rubio funcionaria neste prédio.
Imagem 155 – Edifício Paulino Chaves Barcellos – fachada, Porto Alegre (1934) – Saul Macchiavello e Antonio Rubio. Fonte: Arquivo Municipal – microfilme n° 058 – (1934) – projeto n° 3.923.
O edifício foi construído em um terreno de meio de quadra, de 16,60 m de frente, por 55,00 m de fundos, apresentando uma entrada auxiliar de serviço para o restaurante – pelos fundos – na rua Vigário José Inácio paralela à rua Mal. Floriano. Sua implantação se extende, basicamente, por todo o terreno com exceção de algumas áreas reservadas para ventilação e
iluminação ao longo de suas laterais. Sua fachada foi construída no alinhamento predial, ocupando toda a testada do lote, tipologia muito comum no centro da capital.
O edifício Paulino Chaves Barcellos não possui um eixo simétrico central de fachada em seu sistema de composição ao contrário do edifício Comendador Chaves e das edificações
Art Déco de um modo geral. O acesso principal deslocado do eixo da edificação confere um
caráter assimétrico ao conjunto, constituindo-se como um elemento incomum às características padrões do estilo.
A composição dos volumes de fachada proporciona a divisão em três planos verticais a partir de reentrâncias e saliências, as quais buscam um efeito de verticalização. Ao mesmo tempo, o destaque aos elementos decorativos lineares das sacadas confere horizontalidade, rivalizando com os planos verticais, causando um interessante efeito de movimento e dinamismo aos planos.
Imagem 156 – Edifício Paulino Chaves Barcellos – situação atual, Porto Alegre (1934) – Saul Macchiavello e Antonio Rubio. Fonte: Foto do Autor (2010).
O remate escalonado, o acesso principal e a composição diferenciada do primeiro pavimento hierarquizam a fachada dirigindo o olhar do espectador. Da mesma forma que no edifício Comendador Chaves, o repertório Art Déco se manifestou através dos elementos ornamentais, dos revestimentos em argamassa com formas simplificadas e geométricas, e dos relevos com desenhos marajoaras localizados no hall de entrada (imagem 159).
Destacam-se, em especial, os elementos decorativos do primeiro pavimento, onde se encontram diversas fontes de inspiração, como os elementos neoclássicos representados por colunatas e cornijas em versão estilizada e o conjunto de três janelas emolduradas de forma geométrica e escalonada, criando um elemento compositivo aos moldes da arquitetura Art
Déco.
Imagem 157 – Edifício Paulino Chaves Barcellos – situação atual, Porto Alegre (1934) – Saul Macchiavello e Antonio Rubio. Fonte: Foto do Autor (2010).
Acredita-se que grande parte desses elementos decorativos era executada de forma artesanal, visto que uma das metas da arquitetura Art Déco era aliar as artes aplicadas à arquitetura, bem como o número expressivo de profissionais e oficinas de serralheria, marcenaria e escultores de cimento, vinculados ao mercado da construção civil daquela época, como as firmas, Henrique Tonon & Cia., Corona & Ghiriguelli, Vitorino Zani & Cia., Friederichs & Zuckermann, entre outros.
Imagem 158 – Edifício Paulino Chaves Barcellos – elementos decorativos, Porto Alegre (1934) – Saul Macchiavello e Antonio Rubio. Fonte: Foto do Autor (2010).
Imagem 159 – Edifício Paulino Chaves Barcellos – elemento decorativo interno – pavimento térreo, Porto Alegre (1934) – Saul Macchiavello e Antonio Rubio. Fonte: BALDISSERA; GALLICCHIO; POSSELT, 2009, op. cit.
Outros elementos que se destacam nesta edificação são os vitrais, dispostos nos patamares das escadas e o revestimento externo executado em mica e argamassa, em uma coloração levemente rosada (imagens 160 e 161).
Imagens 160 e 161 – Edifício Paulino Chaves Barcellos – detalhe do revestimento externo e vitrais, Porto Alegre (1934) – Saul Macchiavello e Antonio Rubio. Fonte: BALDISSERA; GALLICCHIO; POSSELT, 2009, op. cit.
O sistema de composição clássico configura o volume edificado em virtude da estruturação tripartida: o embasamento, marcado pelo grande friso decorativo horizontal que percorre toda a extensão da fachada; o corpo central, onde estão localizados os apartamentos; e o coroamento, em função de seu remate geométrico e escalonado.
O prédio possui um bloco de circulação localizado no centro dos pavimentos, de onde é possível distribuir as circulações horizontal e vertical – como escadas e elevadores – assim como permite criar áreas de luz que possuem a função de iluminar e ventilar os corredores. Nesta edificação, como no edifício Comendador Chaves, destaca-se o uso de equipamentos eletromecânicos. Seu sistema estrutural foi executado baseado na técnica construtiva do cimento armado em elementos de fundações, pilares, vigas e lajes de entre-pisos.
Ao contrário da composição da fachada, os arquitetos utilizaram um eixo de rebatimento simétrico horizontal para o desenvolvimento das unidades habitacionais. Com exceção do pavimento térreo, todos os outros se apresentam de forma regular e simétrica.
Imagem 162 – Edifício Paulino Chaves Barcellos – planta baixa térreo e pavimento tipo, Porto Alegre (1934) – Saul Macchiavello e Antonio Rubio. Fonte: Arquivo Municipal – microfilme n° 058 – (1934) – projeto n° 3.923.
Imagem 163 – Edifício Paulino Chaves Barcellos – corte transversal, Porto Alegre (1934) – Saul Macchiavello e Antonio Rubio. Fonte: Arquivo Municipal – microfilme n° 058 – (1934) – projeto n° 3.923.
Imagem 164 – Edifício Paulino Chaves Barcellos – corte longitudinal, Porto Alegre (1934) – Saul Macchiavello e Antonio Rubio. Fonte: Arquivo Municipal – microfilme n° 058 – (1934) – projeto n° 3.923.
Se comparado aos edifícios de apartamentos executados para Francisca Porto Sampaio – na rua Mal. Floriano e na avenida Borges de Medeiros – os apartamentos do edifício Paulino Chaves Barcellos apresentam uma organização espacial com entradas separadas destinadas ao setor social e de serviço, bem como uma distribuição fluída a partir do setor social, serviço e íntimo, alterando o modelo da casa dos anos 1910.
Essas modificações são fruto dos novos modos de morar que se tornaram mais frequentes nos projetos residenciais do final dos anos de 1920, sendo incorporadas nos edifícios de apartamentos da década de 1930. De acordo com Machado284,
[...] na distribuição do espaço, uma interessante inversão começa a tomar corpo com freqüência, qual seja a colocação da zona de serviço próxima à entrada do apartamento e não mais nos fundos do mesmo. Grande descoberta possibilita uma ocupação mais eficiente do espaço. Decorrente de uma nova acepção da zona de serviço ao nível simbólico é natural que esta acabasse se traduzindo também ao nível espacial. Não há mais a necessidade de isolar esse ambiente no fundo da casa.
Este projeto apresenta, também, o compartimento chamado fumoir, “[...] denominação dada para o espaço ao lado da sala de jantar, local reservado para os homens e previsto para ser utilizado para conversas informais, após os jantares sociais285”. Como dito anteriormente, esta definição dos espaços materializava a separação dos ambientes da casa através do gênero, comum à sociedade do início do século XX.
O edifício Paulino Chaves Barcellos possui uma relação harmoniosa entre sua escala e proporção, na medida em que o ritmo dos elementos decorativos e o sistema de composição se desenvolvem ao longo de seu eixo assimétrico de fachada. A combinação dos volumes e a troca de planos conferem movimento ao corpo edificado e qualidade ao projeto arquitetônico.
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MACHADO, 1998, op. cit., p.253.
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