As demandas que eu coloquei aos professores do Grupo de Física Moderna se constituíram, em primeiro lugar de uma tarefa geral, ou seja, o planejamento de atividades
8 Os dados de A1, A2, A4 e H3 referem-se ao ano de 1999. Os dados de A3 são de 1998 e estão incompletos.
para a introdução da FMC, que poderia ser separada em uma série de tarefas secundárias, tais como:
1o) A participação regular nos encontros.
2o) A disponibilidade em participar de entrevistas. 3o) A definição de um plano de trabalho.
4o) A realização de reuniões da equipe para o planejamento de aulas. 5o) A execução do planejamento.
6o) A gravação e análise das aulas, etc.
7o) A apresentação de resultados parciais desse plano em alguns eventos.
Os professores da equipe A realizaram principalmente algumas das tarefas secundárias, principalmente a primeira e a segunda. As outras tarefas secundárias não foram realizadas pela equipe, embora a última tenha sido executada graças à iniciativa do professor A1. De fato, o que caracterizou a participação dessa equipe no GFM foi a notável disposição dos professores, principalmente A1, A2 e A3, em fazerem parte do grupo. Eles estiveram presentes desde a criação do GFM, em 98, até o final de 2000.
Essa evidente persistência em manter o contato com a universidade e com o Grupo de Física Moderna contrastou, entretanto, com a dificuldade em definir um plano comum de trabalho para a equipe durante todo o tempo de interação em 98 e 99. Ou seja, ao lado da aparente disponibilidade para participar do Grupo de Física Moderna, o que implicaria em planejar e desenvolver atividades visando a introdução desse assunto no ensino médio, as ações da equipe também podem ser caracterizadas como um não comprometimento conjunto com os planos iniciais do GFM.
A persistência da equipe em manter o relacionamento com o GFM começou, portanto, a me intrigar. O que esses professores estavam realmente buscando? O que havia no GFM ou no contato com a universidade que era importante para eles? A interpretação dessa atitude tomada por alguns professores dessa equipe, e que são representativas de um padrão de conduta adotado por outros professores do GFM, será feita no Capítulo 11. Por enquanto, vou me deter na descrição um pouco mais detalhada da história e das características da equipe.
Posso dizer, portanto, que a equipe A não se estabeleceu como um grupo de trabalho e algumas das ações nessa direção, empreendidas pelo professor A1 e que serão relatadas a seguir, foram apenas iniciativas isoladas.
O professor A1 havia participado do Pró-Ciências em 1997 desde a primeira reunião preparatória do GFM nesse ano. Aparentemente como uma resposta aos propósitos do grupo, A1 formou duas turmas especiais com alguns de seus alunos de dois colégios em
que ele dava aula. A1 realizou reuniões periódicas com esses grupos durante todo o ano de 1998, nas quais fazia uso de artigos de revistas como Superinteressante e Ciência-Hoje e o livro O Universo dos Quanta (Freire Jr e Carvalho Neto, 1997), chegando a realizar alguns experimentos demonstrativos, em uma atividade de divulgação da Física Moderna e Contemporânea.
O professor A1 sempre comentava nas reuniões do GFM o trabalho com seus alunos e além da sua participação constante no GFM, essa capacidade de aglutinar os alunos em torno de uma proposta de trabalho me chamava a atenção. Também percebi que o que ele fazia era valorizado pelos demais professores do GFM. Tive oportunidade de conhecer os seus dois grupos e pareceu-me que alguma coisa interessante para os alunos estava acontecendo, para que eles comparecessem às reuniões, as quais eram realizadas aos sábados pela manhã. Em alguns casos, os alunos tinham de se deslocar, às vezes mais de 6 km a pé, enfrentando chuva, etc., pois a região era rural. Na conversa com esses estudantes, perguntei por que faziam isso e obtive respostas vagas, semelhantes às que alguns dos professores do GFM me davam.
Não havia por parte do professor A1 qualquer intenção de realizar uma pesquisa a respeito, por exemplo, das dificuldades dos alunos em entender conceitos da Física ou da Física Moderna. Era uma atividade estritamente relacionada ao ensino, de modo que, apesar da minha insistência, não houve mobilização, por parte dele ou dos demais professores da equipe, para gravar suas aulas, não sendo possível extrair muitas informações de seu trabalho, a não ser afirmações gerais do tipo: “os alunos ficaram mais interessados”, etc. Na verdade, o seu objetivo principal era despertar o interesse dos alunos. A questão da Física Moderna, embora útil a seus propósitos poderia ser considerada secundária:
PROF A1 – (...) aquele programa do ano passado, que nós estávamos fazendo, a reunião no sábado com os alunos, o objetivo ali era inserir os tópicos da Física Moderna, como você viu, como uma forma de motivação, despertar o interesse para as aulas em sala de aula. Até em algumas das aulas, em horário normal, a gente também abordava assuntos relacionados com a Física Moderna. Embora (de forma) superficial. Não discutia nada muito profundo, até porque eu não tinha subsídios suficientes para investigar aquilo profundamente. Só que eu percebi que o projeto em si deu um resultado relativamente bom, pela motivação, pelo aumento de interesse nas aulas em sala de aula conforme já passei para você.
A característica principal da participação do professor A1, em 1998, portanto, pode ser colocada como uma disponibilidade muito grande em fazer parte desse grupo, mas de agir conforme sua própria iniciativa. Realizar uma pesquisa, ou registrar o que ele fazia para trazer de forma mais sistemática para o GFM não parecia relevante para ele.
Em relação ao professor A3, na primeira entrevista da equipe ele acenou com a possibilidade de trabalhar a FMC no segundo ano, usando o gancho da óptica:
PROF A3 – Então eu tenho um programa de implantar, de estudar essa questão da luz, decomposição... Essa é a minha perspectiva.
SERGIO - Você gostaria de começar a partir de agosto, setembro, por aí? PROF A3 – Isso. Agosto eu vou começar a trabalhar com óptica, com eles. Então se o tempo....o primeiro mês a gente vai passar o que é da clássica, né, vamos dizer, a óptica, a reflexão, a refração, eles vão ter que ter esse conhecimento. E a partir daí implantar isso dentro da Física Moderna lá pro segundo ano. É esse o meu projeto hoje dentro das limitações que a gente tem, né.
(Entrevista 16/05/98)
Bem, esse “programa” ficou só na promessa e não foi realizado, o que foi uma atitude comum no GFM, como já comentei.
Em relação à professora A2, ela também não tinha, na época da primeira entrevista com o grupo, um plano definido, apenas uma vaga intenção:
PROF A2 - Esse ano tá difícil pra eu colocar alguma coisa.
SERGIO - Eu acho que também, vamos dizer assim, o planejamento nosso é que nem começasse esse ano, né (...) Era mais no longo prazo...A gente ia mais trocar informações. Agora, nada impede, vamos supor, que se tenha uma turma e quiser fazer um teste...
PROF A2 - Mas eu queria começar, também sabe. SERGIO – Por que que você queria começar?
PROF A2 - Porque eu acho que atrai mais. Sabe, fica mais... interessante... os alunos se empolgam, se interessam, vão atrás. Porque é o que eles estão vivendo. E do jeito que a gente está dando Física, resolve os problemas lá, fica um negócio maçante.
(Entrevista 16/05/98)
Nesse diálogo, vê-se que o interesse da professora estava centrado em um problema com o aluno. A questão da Física Moderna era secundária. Por outro lado, a minha resposta permitia um relaxamento no compromisso com a resolução do problema do GFM, como se
eu estivesse dizendo: “tudo bem, não precisa se preocupar, vamos devagar, nós temos tempo...”.
Em relação ao professor A4, como ele participou apenas de uma das entrevistas, não foi possível de início conversarmos sobre um plano de trabalho. Isso só ocorreu mais tarde, a partir de julho de 99, quando ele, pressionado por uma monografia de especialização a qual tinha de elaborar, também formou uma equipe em sua cidade, tendo realizado algumas reuniões. Mas o trabalho, que havia sido inspirado nas reuniões do professor A1, acabou não tendo a continuidade que eu esperava, pois, alguns meses depois, o professor desistiu da elaboração da monografia e não me procurou mais.
Durante as entrevistas eu insistia na definição de um plano comum a todos, que respeitasse o interesse de cada professor, mas todas as tentativas foram em vão. Ou seja, foram dois anos de conversas sem que sequer um plano comum pudesse ser definido e implementado. Por outro lado, as tarefas mais claramente definidas, como a apresentação de trabalhos em encontros e congressos como o SNEF de 99 e o congresso do ICASE, em Curitiba, foram realizadas. Entretanto, embora os demais membros da equipe A tenham, de certa forma, contribuído para tais atividades, o professor A1 foi a figura chave e o líder nesses momentos.
Em resumo, posso afirmar que, com exceção do professor A1 que demonstrou uma maior mobilização e envolvimento, os demais membros da equipe se limitaram a participar regularmente dos encontros do GFM, não assumindo de fato o problema da inserção da Física Moderna no ensino médio. Mesmo o trabalho desenvolvido pelo professor A1 ficou sendo uma iniciativa isolada, que não trouxe nenhuma informação relevante para o grupo como um todo, ou seja, não teve repercussão direta nem na equipe nem no GFM, no que diz respeito ao problema gerador do grupo.
Esse aspecto da ação da equipe A e da maioria dos professores do GFM, ou seja, participar e eventualmente realizar uma tarefa ou outra, sem se comprometer de fato com o problema do grupo, me parecia contraditório com a insistência e persistência com que os professores da equipe participaram do GFM. Era como se as ações empreendidas visassem mais realizar um desvio da tarefa principal, do que enfrentá-la de fato.
Obviamente, a questão da formação acadêmica era importante. Também havia as dificuldades institucionais para o desenvolvimento do trabalho, como comentado no capítulo 5. Um dos primeiros problemas levantados pela equipe A, por exemplo, se referia às limitações impostas pelos colégios particulares onde lecionavam, à época, os professores A3 e A2:
PROF A3 - É um problema, você implantar Física Moderna. Não que seja uma coisa difícil de implantar, mas o tempo é muito restrito porque você sempre tem que cumprir também aquela parte...
PROF A2 - Cobrança...
PROF A3 - Essa cobrança dos pais. Você tem que cumprir a apostila. (Entrevista 16/05/98)
Havia também o problema da baixa carga horária de Física na escola média:
PROF A1 – (...) Então eu vejo que agora o problema maior é o seguinte, a carga horária desse ano, ela já diminuiu no período, duas aulas no curso noturno. Já era uma miséria para você fazer o trabalho, duas aulas você tem que fazer milagre. Então imagine uma aula no primeiro ano, por exemplo, que agora esse ano nós estamos com uma aula de Física, uma aula de Química no primeiro ano. (...) um dos problemas que eu vejo, está sendo o tempo. Como fazer para aproveitar esse tempo?
(...)
SERGIO - No primeiro ano, uma aula, no segundo ano duas aulas? PROF A1 – É. E o segundo e terceiro continua a mesma carga horária... SERGIO - Duas...
PROF A1 - É duas....
PROF A2 - Cada colégio faz de um jeito. No nosso colégio tem uma aula no primeiro, duas segundo e duas terceiro....
PROF H3 - O nosso primeiro não tem...
PROF A3 – Contabilidade, só tem no segundo...
PROF H3 - Tirou do primeiro ano. Tem no segundo e no terceiro... duas e duas.
(Entrevista 17/04/99)
Já em relação aos alunos, a equipe A tinha uma maneira muito clara de articular o seu discurso. As falas iam se complementando e revelando diversos elementos que me permitiram entender os discursos de outros professores a respeito do papel do aluno no imaginário do professor. Com relação às queixas, um dos focos recaía sobre o comportamento do aluno, o seu desrespeito para com o professor:
PROF A2 – (...) essa escola que eu estou, eu estou quase largando, sabe. Lá é apostila. É noturno. Os alunos não querem nada. Não tentam acompanhar. (...) São preguiçosos. Eles não querem ir atrás... Na escola é um clima, sabe, não é muito legal. (...) Tem uns alunos que são insuportáveis. Repetentes. Só querem atrapalhar...Eu não estou me sentido bem. Então eu estou assim: largo, não largo. Só que me preocupa o seguinte: se eu largar vou ficar sem Física.
(Entrevista 16/05/98)
Essa reclamação está diretamente relacionada à questão da autoridade do professor. Araújo, por exemplo, cita uma reclamação de uma professora de escola pública do interior do Estado de São Paulo em que ela afirma que “o maior problema da educação hoje”, isto é 1998, é que “os estudantes não mais respeitavam seus professores” (Araújo, 1999:31). Os professores atuais se lembram da época em que eram alunos quando não só os professores, como também os próprios pais tinham mais autoridade. Há, portanto, essa dificuldade em tratar com as mudanças sofridas pela nossa sociedade, em que valores como consumo prevaleceram em relação à cultura.
Mas os professores da equipe A também se queixaram das dificuldades “conceituais” de seus alunos, que “fazem tudo mecânico” e aquilo que fazem não tem “significado” para eles, eles “não entendem”:
PROF A2 – (...) às vezes a gente enxerga o aluno... Eu já vi vários alunos comentando, eles fazem o exercício de velocidade, qualquer exercício.Ele faz aquele monte, né. Acha a resposta. Mas não tem significado pra ele! Quer dizer, ele não entendeu nada! Ele não sabe o que é aquela velocidade que ele achou. Ou fez lá velocidade é igual a distância pelo tempo. Mas não sabe nem o que é aquela distância que ele está... você entendeu? Ele faz tudo mecânico. Ele faz, mas sem entender o que ele está fazendo. A fórmula é essa. Mas ele não entende. Não tem sentido, não tem significado pra ele! (Entrevista 16/05/98)
Embora essas queixas com relação ao cálculo na Física e o comportamento do aluno tenham sido verbalizadas de forma mais clara pela professora A2, os outros professores da equipe também partilhavam de suas angústias. Na segunda entrevista, o professor A3, por exemplo, faz a seguinte colocação:
PROF A3 – (...) O grande problema que nós hoje enfrentamos para dar aula de Física, não tem professor que não sofra, é que você não consegue motivar o aluno, por ser (a Física) uma matéria que ele não consegue entender...
(Entrevista 26/09/98)
Na opinião desses professores, a questão do desinteresse estava ligada à compreensão do aluno sobre os conteúdos da Física e ao problema com a Matemática:
PROF A1 - Outro dia eu estava conversando com o Jair (professor do Departamento de Física) o seguinte assunto, com relação à motivação. Não que o formalismo matemático não é importante. É lógico que é importante. É uma coisa que tem que dar. Agora eu digo o seguinte, o aluno não consegue enxergar o sentido, do porque ele está aprendendo na Física, se você só trabalhar o formalismo. Ele não consegue entender o sentido. Ele faz, mas não sabe porque está fazendo. E aí o que acontece? Quando você faz uma coisa sem estar compreendendo o porque, você não gosta. É uma coisa que fica monótona, banal...
PROF A3 – O motivo maior do aluno reclamar, dele não gostar da Física, é isto aí. Acho que a função nossa é essa, de tentar ver esse lado. Desligar da Matemática. E a Matemática em si é simplesmente uma ferramenta para ele trabalhar. E aí ele vai ter interesse pela Física. Quando ele está confundindo Matemática com Física, vai se complicar para gente. Então o aluno faz muito essa confusão e aí, vamos dizer, é onde ele se embanana, na verdade. Deixa de gostar da Física porque ele não sabe o que está fazendo, está perdido. Ele confunde Matemática com a Física e ele não percebe os fenômenos, a importância da Matemática para ele resolver os problemas da Física.
(Entrevista 17/04/99)
Temos, portanto, dois elementos considerados fundamentais pelos professores: primeiro, o interesse dos alunos depende, pelo menos em parte da compreensão do que está sendo colocado pelo professor; e em segundo lugar, as dificuldades com os “cálculos”, com a Matemática, constituem um agravante nesse sentido.
A conseqüente falta de interesse demonstrada pelo aluno, principalmente em virtude das razões apontadas acima, era uma das questões centrais levantadas pelos professores do Grupo de Física Moderna. No caso da equipe A, essa questão esteve sempre presente em todas as entrevistas e, sobre ela, esses professores desenvolveram uma interessante reflexão, que será comentada na próxima seção.