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Logo em Julho de 1961, o Embaixador Laborinho, representante portu- guês em Bona, comunicava as “difi culdades que se está encontrando neste país para o fornecimento de armas e munições” ao exército português. Neste caso particular, tratava-se de um fornecimento de granadas incen- diárias que havia sido cancelado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão porque não era permtido que fossem exportadas “armas alemãs

para regiões de crise”. Mesmo depois de o adido militar português ter ex- plicado que as “armas se destinavam exclusivamente às forças portuguesas atribuídas à NATO”, o representante alemão achava que tal argumento não era sufi ciente para “fazer desaparecer completamente os escrúpulos do governo federal”. Mas o mais intrigante nesta questão terá sido a maneira como ela foi resolvida. Na verdade, depois ter sido dado conhecimento deste problema ao general Becker (o chefe da delegação alemã à CMLA), este apressou-se a resolvê-lo. Becker justifi cou a atitude do Auswaertiges

Amt como “um erro de pessoal subalterno” que, no entanto, só poderia

ser resolvido com a intervenção do próprio Ministro Strauss, que depois o levaria ao Chanceler Adenauer. Ainda de acordo com o adido militar da Embaixada de Portugal em Bona, major João Simeão, este incidente inseria-se dentro de uma evolução que procurava um “endurecimento da atitude do governo alemão para com Portugal”, especialmente desde que se tinham desencadeado os confl itos em Angola. A justifi cação para esta posição alemã estaria na “pressão fortíssima exercida por alguns estados africanos”, que criticavam o governo da República Federal, “acusando-o de consentir o fornecimento de armas para Angola”, e os consequentes receios que a RFA tinha de que esses estados africanos reconhecessem o governo da República Democrática Alemã, o que implicaria um corte de relações com a Alemanha Ocidental (como consequência da doutrina de Hallstein). Ainda de acordo com o adido militar português em Bona, o governo de Oliveira Salazar tinha sempre “ido ao encontro aos desejos manifestados” pelas autoridades alemãs, “reduzindo ou alterando” as suas encomendas, ou mesmo “passando declarações” salvaguardando os interesses alemães. No entanto, a grande preocupação do adido militar português em Bona era que as manifestações de desacordo alemão com os interesses portugueses se estavam “a tornar mais numerosas”209. Podemos ainda observar que a

solução dada ao problema específi co das granadas, em que as difi culdades

209 Ofício da Embaixada de Portugal em Bona, 13 de Julho de 1961 – AHD-MNE, PAA,

criadas pelo Auswaertiges Amt apenas foram solucionadas com a interven- ção do Ministro da Defesa e do próprio Chanceler, poderia já indiciar as divisão entre o Ministério da Defesa, a favor da cedência de material de guerra a Portugal, e o Ministério dos Negócios Estrangeiros, que se preo- cupava principalmente com as consequências que qualquer fornecimento de material militar teriam para o prestígio da RFA em África.

Era exactamente este o sentido de uma nota do Ministério dos Ne- gócios Estrangeiros alemão, alguns meses mais tarde. Numa comunicação interna acerca do fornecimento de camiões pela fi rma Borgward a Portugal, dizia-se não restarem dúvidas acerca do destino desses camiões: iriam “para Angola”, e como tal, teriam um “uso militar”. Nesse sentido, a questão teria de ser analisada tendo como base a questão angolana e a política alemã para aquela região210. O primeiro ponto a ter em conta nessa análise seria

a posição dos restantes Estados africanos e afro-asiáticos em geral, perante a política portuguesa. Era “um facto” que a mera parceria com Portugal no seio da NATO era já criticada por líderes afro-asiáticos, como Nehru ou Senghor. No entanto, alguns Estados africanos tinham já criticado directa- mente o governo federal, “especialmente por causa do fornecimento de armas para Angola”, o que tinha tornado quase real o reconhecimento da “Zona de Ocupação Soviética” – tal como os alemães ocidentais chamavam à RDA – pelo Gana. Para além dos estados afro-asiáticos, também os aliados ocidentais e mesmo alguns parceiros da NATO, como “os EUA, a Inglaterra e a Noruega”, se tinham “distanciado claramente da posição portuguesa”. Tendo em conta estas realidades do contexto internacional, qualquer apoio a Portugal em Angola seria interpretado como “parcialidade” por parte do governo alemão perante a questão angolana, e os fornecimentos de material de guerra deveriam, “a partir de agora”, ser “totalmente eliminados”. Uma última questão a ter em conta na avaliação das futuras relações militares com Portugal passava pela questão do direito à autodeterminação, que o governo

210 Ofício do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão, 20 de Julho de 1961 – PA-AA,

português recusava para Angola. Com a ameaça da URSS sobre Berlim, e com a possibilidade deste problema ser discutido nas Nações Unidas, era “urgente” que a República Federal passasse para os Estados africanos “uma imagem positiva”, que favorecesse a sua posição perante o assunto211.

Não obstante estas difi culdades iniciais, o governo português conse- guiu obter da Alemanha Federal material e equipamento militar que se tornaram fundamentais para a prossecução das guerras coloniais. A este respeito há que salientar a importância da obtenção de aviões de ataque e de transporte, que teriam sido muito mais dispendiosos e difíceis de obter não fosse a cooperação militar luso-alemã. Ao nível do armamento ligeiro, salientamos o facto de Portugal ter produzido nas suas fábricas, especial- mente na Fábrica Militar de Braço de Prata (FMBP), a espingarda automática G-3, modelo alemão, que foi a principal arma das guerras coloniais, bem como as munições de 7,62 mm que a equipavam. A produção de parte dos componentes da G-3 (canos e carregadores) e a montagem completa da arma foi concretizada ainda em fi nais de 1962. Para além da encomenda de 50000 unidades da espingarda que a Alemanha fez a Portugal ainda em 1961, que permitiu que a FMBP tivesse a linha de montagem necessária à sua produção, a República Federal fez também encomendas consideráveis ao nível das munições que equipavam esta espingarda (de 7,62 mm), num total de 330 milhões de cartuchos212.